domingo, 7 de setembro de 2025

Em caso de desorientação: a ovelha perdida e a esperança de retorno!

 14 de setembro de 2025

Décimo quarto domingo após Pentecostes

Salmo 119.169-176; Ezequiel 34.11-24; 1Timóteo 1.12-17; Lucas 15.1-10

Texto: Salmo 119.176

Tema: Em caso de desorientação: a ovelha perdida e a esperança de retorno!

 

Como ovelha perdida, tenho andado sem rumo. Ó Senhor Deus, vem buscar este teu servo, pois não esqueço os teus mandamentos!” (Sl 119.176)

 

Essa passagem expressa a profunda sensação de estar perdido, de ter se desviado do caminho, mas, ao mesmo tempo, de manter viva a lembrança da Palavra de Deus e o desejo sincero de retornar à sua presença. É a oração de alguém que, mesmo na angústia, sabe que sua verdadeira casa e seu verdadeiro Pastor estão com Deus.

Essas palavras nos remetem à conhecida Parábola da Ovelha Perdida, contada por Jesus em Lucas 15.3-7 e Mateus 18.12-14. Jesus usou essa história para ilustrar o cuidado e a alegria de Deus por cada pessoa que se perde, mas é encontrada. Ele não quer que ninguém se perca e se alegra imensamente ao resgatar uma vida que se desviou.

A imagem do pastor que deixa noventa e nove ovelhas para buscar uma única perdida nos mostra que, para Deus, cada um de nós é inestimável. A busca do pastor não é uma cobrança, mas um ato puro de amor e de resgate.

No Salmo 119, o maior da Bíblia, cada verso é um louvor à Palavra de Deus. A última estrofe, que contém o versículo 176, combina um lamento de angústia com uma declaração de fé e esperança.

Quando o salmista se descreve como uma “ovelha perdida”, ele usa uma metáfora reflexiva. Ovelhas são animais vulneráveis, facilmente desorientados, que não conseguem encontrar o caminho de volta sozinhas. Ao reconhecer-se assim, o salmista mostra sua total dependência e fragilidade. O termo hebraico para “perdido” descreve alguém que está alienado, desconectado e sem rumo.

Seu pedido, “vem buscar o teu servo”, não é uma exigência, mas um ato de humildade e entrega. O salmista reconhece que a iniciativa do resgate pertence a Deus. Ele se coloca em sua verdadeira identidade, a de servo de Deus, alguém que pertence a Ele e confia que o Pastor virá em seu socorro.

A frase “pois não me esqueci dos teus mandamentos” não é uma justificativa para o resgate, mas um sinal de esperança. Ela mostra que, mesmo em meio ao desvio, a lei de Deus permanece em seu coração. A Palavra não é apenas um conjunto de regras, mas a voz de Deus que nos chama de volta.

Lembrar-se dos mandamentos, mesmo no erro, é um sinal de que o Espírito de Deus ainda está agindo. Assim como o Filho Pródigo, que se lembrou da bondade do seu pai, a lembrança da Lei de Deus nos dá a esperança de que existe um caminho de volta e que a salvação depende não da nossa perfeição, mas da graça de Deus em nos buscar.

A Lei de Deus, mostra o estado de “ovelha perdida”. A consciência que nos fala de acordo com a Lei de Deus nos faz ver o quanto “tenho andado sem rumo” (Sl 119.176). Diante disso, a oração: “Ó Senhor Deus, vem buscar este teu servo” (Sl 119.176) é a expressão de fé naquele que vem ao encontro para restaurar a caminhada.

O salmista reconhece-se pecador e confia inabalavelmente na graça de Deus.

As palavras: “Ando errante como ovelha perdida; vem buscar o teu servo, pois não me esqueci dos teus mandamentos” (Sl 119.176) são de alguém que deseja ser resgatado.

A riqueza teológica e espiritual dessa última estrofe desse Salmo 119 reside na combinação de um lamento de angústia com uma declaração de fé e esperança.

No seu contexto original é preciso destacar que esse é o maior salmo da Bíblia. Todos os 176 versículos visam entoar um hino de louvor a lei de Deus descrita como mandamentos, estatutos, preceitos e testemunho.

A metáfora “Como ovelha perdida, tenho andado sem rumo” (Sl 119.176) no mundo antigo era extremamente poderosa.

Ovelhas são animais que facilmente se perdem, são extremamente vulneráveis, pois dependem de alguém que as guie. Perdida, uma ovelha, não consegue encontrar o caminho de volta sozinha.

Nesse contexto, o salmista se diz se vulnerável e desorientado.

O termo hebraico que descreve perdido significa alguém desviado do caminho, é alguém desorientado, fragilizado e alienado. Está desconectado e perdido no mundo.

O pedido para que seja buscado indica que por si só, não pode encontrar o caminho de volta. Precisa ser buscado e levado de volta.

Ao se dizer como servo o salmista reforça sua identidade e vínculo com Deus. Ele sabe que é de Deus, pertence a Deus.

A frase: “pois não esqueço os teus mandamentos” não é uma chantagem. É um sinal de esperança, por saber quem é esse Deus. Diz que mesmo que sua vida seja errante, a lei de Deus está em seu coração e por isso, não é um perdido por completo.

Em algum momento da vida você se sentiu desorientado?

Temos crises de fé, momentos de angústia, em alguns momentos o caminho de Deus é distante e confuso. Essa breve oração (Sl 119.169-176) nos dá palavras para falar com Deus sobre a nossa fragilidade.

A imagem da ovelha perdida encontra sua plena realização no Bom Pastor Jesus Cristo. Quando ouvimos na leitura de Lucas 15, Jesus contando a Parábola da Ovelha Perdida, Ele nos revela que Deus é o Pastor que ativamente busca o que se perdeu. Dessa forma, podemos também refletir que o clamor do salmista “vem buscar este teu servo” é o que Deus, em Cristo, veio fazer por nós. Ele é a resposta divina ao nosso clamor de busca e socorro.

O fato de o salmista não se esquecer dos mandamentos sublinha a importância da Palavra de Deus em nossa vida. A Palavra não é apenas um conjunto de regras, mas a voz de Deus que nos chama de volta quando nos desviamos. Mesmo quando o coração está confuso, a lembrança da Palavra nos dá a esperança de que existe um caminho de volta.

O consolo que este texto nos traz ensina que a nossa salvação não depende de quão bem “andamos” ou de quão “não errantes” somos. Dependemos da ação graciosa de Deus em nos buscar. O salmista não foi resgatado porque era perfeito.

Somos lembrados por essa oração do salmista que, mesmo em nossa condição mais vulnerável e desorientada, a nossa fé se manifesta não na nossa capacidade de encontrar o caminho, mas na nossa súplica a Deus para que Ele nos encontre no nosso caminho. Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Um discípulo vive pela graça!

 07 de setembro de 2025

Décimo Terceiro Domingo após Pentecostes

Salmo 1; Deuteronômio 30.15-20; Filemon 1-21; Lucas 14.25-35

Texto: Lucas 14.25-35

Tema: Um discípulo vive pela graça!

 

Parte 1

O texto inicia enumerando que uma grande multidão estava acompanhando Jesus (Lc 14.25).

A maioria dos exegetas e comentaristas bíblicos enfatizam que as palavras ditas por Jesus, visa apenas contrastar a multidão. Afinal, há seguidores e há discípulos.

Você é um seguidor de Cristo ou é um discípulo? Há diferença entre ser um seguidor e ser um discípulo?

Espero que através dessa reflexão, possamos compreender que há diferença e muitas vezes é bem o oposto daquilo que tanto ouvimos.

Muitos daquela multidão seguiam Jesus por mero interesse. Jesus já era acompanhado e seguido por causa dos muitos milagres que havia realizado. Mas, e quando surgisse a perseguição, a calúnia pelo fato de ser cristão, o ódio do mundo?

Na parábola anterior ao nosso texto, ao contar sobre o convite que Deus faz para àqueles que não podem se justificar Jesus disse: “...eu afirmo a vocês que nenhum dos que foram convidados provará o meu jantar!” (Lc 14.24). Qual é a razão dessas palavras? Nosso texto ajudará a compreender isso.

Enquanto os fariseus e demais religiosos estavam engajados em cumprir a Lei divina e assim se colocarem como maiores que os demais, Jesus, ao falar sobre o significado do discipulado destaca pela palavra grega μισέω (miséo) odiar, que nada pode ultrapassar a devoção a Cristo Jesus. O amor a Jesus e a devoção a ele precisa ser tanta a ponto de todos os demais relacionamentos parecerem ódio delas. Quer dizer, “abro mão” de qualquer coisa, menos do relacionamento com Jesus Cristo. Jesus é a minha prioridade total. O discípulo de Jesus o segue até a morte, “carrega sua cruz”. Passa por perseguição, calúnia, desamores, ... esse é o custo calculado (Lc 14.28).

O discípulo é tal como o rei que vai a guerra sem ter forças necessárias (Lc 14.31). Sua vida diária é marcada pelo conflito espiritual (Ef 6.10-20). A única maneira de vencer é estar em Cristo, esse é o significado da palavra “acordo de paz” (Lc 14.32).

Ao enumerar sobre o sal que perde o sabor (“perder o sabor” “μωραίνω, moraíno) pode significar “tornar-se tolo”. Isso significa uma crítica direta as pessoas que o seguiam, mas estavam comprometidos com Jesus Cristo por conveniência. Essa atitude é, em última análise, uma tolice. O sal que perde o sabor é a representação de uma fé superficial, interesseira.

Parte 2

Lucas 14.25-35 é um dos trechos mais desconfortáveis de todo o Evangelho. São palavras que escancaram a impossibilidade de cumprir as exigências da Lei de Deus que exige prioridade absoluta. A lei de Deus exige uma lealdade a Jesus Cristo que supera todas as outras.

Os versículos 26 a 33 são a Lei de Deus em sua forma mais pura e exigente. A mensagem é inegavelmente clara.

O versículo 26, onde Jesus exige um amor que “odeie” o pai, a mãe e até a si mesmo por causa de Jesus, é interpretada como a Lei de Deus sobre o Primeiro Mandamento. A Lei de Deus exige um compromisso total e absoluto com Deus. Se nossa lealdade a família, bens, ou a própria vida, compete com a lealdade a Cristo, estamos violando a Lei de Deus. Observe que a exigência é tão alta que, por natureza, ninguém pode cumpri-la.

Os versículos 27 a 33 sobre carregar a cruz, construir a torre e o rei em guerra, são exemplos práticos da Lei de Deus. Jesus argumenta sobre a impossibilidade humana de seguir todas as exigências que a Lei de Deus exige. A Lei exige o sacrifício de tudo, uma entrega total que, por nossas próprias forças, somos incapazes de dar. O propósito dessas parábolas é enfatizar que o discipulado é impossível sem a graça de Deus.

Ao pronunciar palavras que destacam o quanto somos incapazes para cumprir com as exigências da Lei de Deus, Jesus quebra o orgulho e a autossuficiência, mostrando que nada nos é possível realizar por conta própria.

Após ouvir essas exigências impossíveis, o ouvinte é levado a reconhecer que falhou. Ninguém pode amar a Jesus perfeitamente ou carregar a cruz sem vacilar. O resultado é o reconhecimento do próprio pecado e da incapacidade. Por essa razão somos convidados a louvar a Deus, afinal, recebemos a salvação não pelo nosso cumprimento da Lei, mas pelo cumprimento perfeito de Jesus em nosso lugar. Ele amou a Deus perfeitamente e carregou a cruz por nós.

O sal é uma estrutura química sólida (cloreto de sódioNaCl), e mesmo com toda tecnologia de produção atual, quando exposto ao sol, água, umidade, ou até mesmo ao ar, perde suas propriedades e pode se tornar insípido.

A parábola do sal sem gosto quer destacar a perda de salinidade do cristão. E isso ocorre quando o cristão tenta seguir a Cristo por suas próprias forças, sem reconhecer sua incapacidade e sem se apoiar na graça de Deus. Uma vida de mera formalidade, sem fé e sem o alimento do Evangelho é inútil e sem propósito. Sem a fé e sem o evangelho perde-se a salinidade, ou seja, deixa-se de preservar e dar sabor ao mundo.

Lucas 14 é um lembrete do início ao fim de que a Lei de Deus confronta nossas falhas e a Lei de Deus exige um padrão inatingível. Nesse sentido, os episódios narrados em Lucas 14 enfatizam que a salvação não se compra, é proveniente da graça de Deus em Jesus Cristo.

Jesus carregou a cruz! Jesus me convida para segui-lo. Jesus inicia e completa a fé. Jesus cumpriu a Lei em meu lugar.

Lucas 14.25-35 é um ataque direto à crença de que os atos humanos podem garantir a salvação. A única coisa que realmente salva é a graça de Deus por meio da fé em Cristo. Um seguidor pensa em si mesmo. Um discípulo vive na e pela graça. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

A vida está em Jesus Cristo (Dt 30.15-20)

 07 de setembro de 2025

Décimo Terceiro Domingo após Pentecostes

Salmo 1; Deuteronômio 30.15-20; Filemon 1-21; Lucas 14.25-35

Texto: Deuteronômio 30.15-20

Tema: A vida está em Jesus Cristo!

 

Todos os dias, nos deparamos com encruzilhadas. Algumas são pequenas, como a escolha do que vestir ou o que comer. Outras são enormes, como a decisão de um casamento, uma mudança de carreira, ou a maneira como vamos educar os filhos. A vida é moldada por escolhas. Cada escolha traz consequências. Há caminhos que levam à alegria e à realização, e há caminhos que nos levam à dor e ao arrependimento.

Falando em escolhas, Deuteronômio 30.15-20 parece trazer uma escolha e suas consequências. E para que possamos compreender esse texto, debruçaremos sobre o mesmo.

Parte 1

Deuteronômio 30.15-20 segue um padrão de três passos:

Primeiro passo: o texto precisa ser lido como Lei de Deus. Lei que condena o pecador e revela sua impotência;

Segundo passo: o texto aponta para a necessidade de um Salvador;

Terceiro passo: Esse texto é cumprido em Jesus Cristo, não atoa, durante o ministério de Jesus, o livro de Deuteronômio é o que Jesus mais cita.

O apostolo Paulo, na carta aos Romanos (Rm 10.5-8) faz uma referência direta a Deuteronômio 30. Todavia, sua interpretação é cristológica. O apostolo contrasta a “justiça que é da lei” (baseada na obediência) e a “justiça da fé” (em Jesus Cristo). Nesse contraste, o apostolo Paulo destaca que aquilo que a lei exigia pela obediência perfeita, o Evangelho oferece gratuitamente pela fé em Jesus Cristo que cumpriu a Lei.

Aos Romanos, citando Deuteronômio 30.15-20, o apostolo argumenta que a justiça diante de Deus não depende do esforço humano, essa justiça nos é dada e oferecida por Cristo.

Na conversa com o jovem rico sobre a vida eterna (Mt 19.16-17), Jesus remete o diálogo ao princípio de Deuteronômio 30: “...Se você quer entrar na vida eterna, guarde os mandamentos” (Mt 19.17), e com eco das palavras: “se você fizer isto, terá a vida” (Dt 30.16), Jesus convida àquele jovem rico ao desespero da impossibilidade de cumprir perfeitamente a Lei de Deus.

O fato é que, àquele jovem apegado a Lei, a letra, ao ver sua falha em não amar o próximo, saiu triste.

Ao escrever a carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo contrasta a Lei e a Graça. Em outras palavras, Paulo usa como pano de fundo Deuteronômio 30.15-20. Na carta aos Gálatas, o apostolo enfatiza a tese de que a salvação não pode ser conquistada pelas obras da Lei. A promessa da vida é cumprida em Cristo e não por meio da nossa capacidade de “escolher a vida” e obedecer perfeitamente.

Parte 2

Deuteronômio 30.15-20 é uma passagem que contêm uma declaração teológica fundamental que revela a incapacidade humana de alcançar a salvação por meio de suas próprias obras e aponta para a necessidade de um Salvador.

A escolha entre “vida e bem” e “morte e mal” como uma exposição da função mais profunda da Lei de Deus. A Lei não é apenas um guia para a vida, mas um espelho que reflete o pecado humano.

A Lei, com sua exigência de obediência perfeita, é impossível de ser cumprida pelo ser humano pecador. A promessa de “vida” em Deuteronômio serve para mostrar que a humanidade não pode alcançar por si mesma. A Lei condena e, ao fazer isso, leva o pecador ao desespero e ao reconhecimento de que ele precisa de um Salvador.

Temos aqui a função pedagógica da Lei. Ela nos educa sobre a nossa condição caída e nos leva a buscar a graça divina. A “vida” prometida no texto não é algo que o ser humano pode “escolher” por seu próprio poder, mas é um dom que deve ser buscado em Deus e só é encontrado em Jesus Cristo que cumpriu a Lei.

Em contraste com a Lei, que condena, o Evangelho anuncia a salvação. Por isso, Deuteronômio 30.15-20 só pode ser interpretado à luz de Cristo.

A vida e o bem não são conquistados por “amar ao Senhor” e “andar em seus caminhos” através do esforço humano, mas são recebidos gratuitamente por meio da fé em Jesus Cristo. Cristo é aquele que cumpriu perfeitamente toda a Lei e sofreu a punição por nossa desobediência.

A “escolha” em Deuteronômio não é uma escolha pela nossa capacidade, mas é um convite para se apegar a Deus, que é a própria vida e nos concede a mesma em Jesus. O verbo hebraico dabaq (“apegar-se”), sugere uma união íntima. E este apegar-se é visto como uma metáfora para a fé em Cristo, que nos une a Ele. Pois a fé são os braços agarrados em Jesus.

A obediência do cristão não é uma tentativa de ganhar o favor de Deus. Em vez disso, é um fruto da fé e uma resposta de gratidão à salvação que já foi recebida. Uma vez que o cristão é justificado pela fé, ele é capacitado pelo Espírito Santo a viver uma vida que agrada a Deus. A obediência à Lei não é mais um fardo, mas uma expressão de amor e alegria.

Deuteronômio 30.15-20 é uma poderosa exposição da Lei, que revela nosso pecado e a nossa incapacidade de ter vida por nós mesmos. Ele nos aponta para a necessidade de um salvador e nos leva ao Evangelho, que oferece a vida e o bem como um dom gratuito, recebido somente pela fé em Jesus Cristo. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Um bilhete de um novo relacionamento! (Fm 1-21)

 07 de setembro de 2025

Décimo Terceiro Domingo após Pentecostes

Salmo 1; Deuteronômio 30.15-20; Filemon 1-21; Lucas 14.25-35

Texto: Filemon 1-21

Tema: Um bilhete de um novo relacionamento!

 

Introdução

O Dia da Independência do Brasil, 7 de setembro, marca a data de 1822 em que o país rompeu seus laços coloniais com Portugal. Esse evento crucial foi o ápice de um longo processo de tensão, iniciado com a chegada da família real portuguesa em 1808. A vinda da corte, que fugia das tropas de Napoleão, elevou o Brasil à condição de sede do império, mas as pressões para o retorno do rei Dom João VI e, mais tarde, de seu filho Dom Pedro, ameaçavam recolonizar a nação.

A elite agrária brasileira, que temia a desintegração do país, apoiou a permanência de Dom Pedro. A decisão dele, no Dia do Fico em 9 de janeiro de 1822, “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto; diga ao povo que fico”, unificou o Brasil sob uma única liderança e preparou o terreno para a independência. Essa história de unificação é um poderoso lembrete de como a coesão pode evitar a fragmentação e seus problemas.

Assim como o Brasil enfrentou a ameaça de se fragmentar, o mundo de hoje vive um cenário de tensões geopolíticas e econômicas. Em meio a essa “fragmentação”, a busca por unidade e reconciliação se torna um desafio urgente. Nesse contexto, a breve e poderosa carta de Paulo a Filemom oferece uma lição atemporal sobre graça, perdão e fraternidade cristã.

Parte 1

As breves palavras do apostolo Paulo nesse bilhete, e é verdade esse bilhete, é um testemunho vivido da transformação operada pelo evangelho.

Onésimo, um escravo fugitivo e, presumivelmente, um ladrão, foi convertido ao cristianismo. Diante dessa ação do Espírito Santo em converter Onésimo, Paulo escreve essa carta para Filemon e por essa epistola somos alertados sobre o como o evangelho reconcilia pessoas e transforma relacionamentos.

Apesar de parecer, não foi fácil a escrita desse bilhete. Podemos notar a delicadeza e a sabedoria do apostolo ao interceder por Onésimo. Apesar de sua autoridade apostólica, Paulo apela ao amor e a consciência cristã de Filemon. Com essa atitude, o apostolo Paulo ensina sobre a maneira de exercer influência cristã: pela persuasão baseada no amor fraternal e verdade do Evangelho e não pela imposição.

Por esse bilhete, somos informados sobre a situação social daqueles dias referente a escravidão.

O apostolo Paulo não se torna um militante contra a escravidão. Apropria-se do amor fraternal e do Evangelho para estabelecer princípios com os quais estamos aprisionados por sermos escravos da natureza pecaminosa. A igualdade espiritual em Cristo está acima de todas as distinções sociais.

Paulo pede que Filemon receba Onésimo não como seu escravo, a quem ele pode punir pela lei humana. Paulo solicita que Filemon receba Onésimo como “irmão amado” (Fm 16). Em outras palavras, receba Onésimo sabendo que o Espírito Santo os coloca num mesmo patamar em Cristo. Apesar de ser seu escravo, sua propriedade, merecendo punição pelo que fez, recorde-se que em Cristo, é seu irmão.

O evangelho transforma corações e, consequentemente, as relações. Esse evangelho precisa pavimentar o mundo tão fragmentado para que aos poucos a sociedade saiba também lidar com o outro que apesar de..., é seu amado irmão.

Esse waths de Paulo para Filemon ensina sobre o perdão genuíno.

Paulo não pede perdão financeiro, mas pela traição do seu escravo. Afinal, só o perdão é capaz de curar divisões e restaurar relacionamentos.

Quando o apostolo Paulo faz menção da “igreja que está em sua casa” (Fm 2) revela algo profundo. Essas palavras destacam que você não é apenas um indivíduo, mas parte da igreja. Punir Onésimo seria como punir parte da igreja. A igreja vive a reconciliação com seu Senhor e uns com os outros.

Essa epistola é uma pequena joia do Novo Testamento e oferece pequenas capsulas de grandes verdades (Lenski).

Parte 2

O perdão, o amor fraternal e o evangelho se aplicam as situações da vida real.

Filemon não é apenas uma história curiosa sobre empregado e patrão em conflito. Essa epístola é uma ilustração real da vida cristã em ação. É o poder regenerador do evangelho dentro de uma relação que poderia terminar muito mal.

Onésimo significa inútil. E esse inútil, destacado pela traição, fuga e prejuízo, foi resgatado pelo evangelho e por isso agora pode ser considerado útil. E nessa nova perspectiva que precisava ser considerado. O evangelho o tornou um amado irmão.

Onésimo é uma representação de cada pecador. Pela nossa natureza pecaminosa nos mostramos inúteis por nossas ações. Assim como Onésimo, também precisamos de perdão e aceitação.

Pela lei, Onésimo era culpado. Pela Lei de Deus também culpados. Pela Lei, Onésimo poderia ser condenado, sofrer punições severas e até a morte. Pela Lei de Deus nós também somos condenados e sofrer punições.

Assim como Filemon tinha direito legal e social de punir Onésimo, Deus também tem todo direito de nos punir. Mas, o extraordinário é que Onésimo se arrisca em ir ao encontro de Filemon mesmo sem saber sua reação. Ele não tinha mérito nenhum para esse encontro. Esse fato extraordinário vivemos em Jesus Cristo. O perdão de Onésimo, bem como o perdão que recebemos não se baseia no mérito, mas na graça recebida por Jesus Cristo.

Por essa epistola, é possível apreciar a diplomacia do apostolo Paulo. Ele, pela sua autoridade apostólica poderia se impor, mas preferiu suplicar por fraternidade e amor evangélico.

O apostolo Paulo transmite um belo exemplo de intercessão e amor substitutivo, se colocando a disposição para pagar qualquer dívida de Onésimo (Fm 18-19). Essa imagem reflete a obra de Cristo por nós.

A essência desse bilhete, dessa epistola curtíssima, é o evangelho em ação. Onésimo se agarrou na graça de Jesus que também operava em Filemon.

Conclusão

A fé cristã nunca é estéril, ao contrário, se manifesta em amor e boas obras. O amor cristão proveniente da fé se manifesta em perdão, reconciliação e aceitação. Não há lugar para orgulho ou superioridade quando sabemos que nossa salvação não é obra nossa, mas um presente imerecido da parte de Jesus.

A essência do cristianismo é o perdão. Fomos perdoados em Jesus, de uma dívida impagável, por isso, somos convidados a perdoar. O perdão nos faz tratar o outro como um amado irmão. Amém.


Edson Ronaldo Tressmann

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Jesus e a elite religiosa!

 31 de agosto de 2025

12º Domingo após o Pentecostes

Salmo 131; Provérbios 25.2-10; Hebreus 13.1-17; Lucas 14.1-14

Texto: Lucas 14.1-14

Tema: Jesus e a elite religiosa!

 

O texto de Lucas 14.1-14 apresenta um quadro vivo das tensões entre Jesus e a elite religiosa de sua época.

A primeira cena (Lc 14.1-6) se desenrola em um sábado, na casa de um líder fariseu.

O nome “fariseu” provavelmente deriva do hebraico perushim, que significa “separados”, indicando sua dedicação a uma vida de pureza e obediência à Lei de Moisés. Os fariseus se distinguiam por uma interpretação rigorosa e abrangente da Torá (a Lei de Moisés), que incluía não apenas as leis escritas, mas também as tradições orais transmitidas pelos anciãos. Os fariseus acreditavam que essas tradições tinham a mesma autoridade que a lei escrita, e se dedicavam a aplicá-las em cada aspecto da vida diária, desde a alimentação e o sábado até as relações sociais.

Jesus estava num ambiente religioso hostil. Nesse ambiente, conforme alguns sugerem, esse homem hidrópico foi colocado pelos fariseus como uma armadilha para Jesus.

Jesus, observa esse homem com hidropsia (inchaço devido ao acúmulo de líquido) e Jesus propõe uma pergunta: “A nossa Lei permite curar no sábado ou não?” (Lc 14.3).

A pergunta de Jesus colocou os fariseus numa encruzilhada. Se caso eles respondessem que a lei os permitia curar no sábado, estariam contradizendo suas tradições. Se a resposta fosse que a lei não permite curar no sábado, demonstrariam uma falta de compaixão chocante.

Por não responderem nada, Jesus usa ao citar o exemplo: “Se um filho ou um boi de algum de vocês cair num poço, será que você não vai tirá-lo logo de lá, mesmo que isso aconteça num sábado?” (Lc 14.5), destaca que a religião farisaica havia falhado em seu propósito fundamental: amar ao próximo como a si mesmo.

Jesus expõe e confronta o legalismo, o orgulho e o egoísmo. Como são os religiosos de nossa época? Quanto legalismo, orgulho e egoísmo é possível verificar nos religiosos de nossos dias?

Jesus expõe a falha de uma religiosidade que valoriza mais a letra da lei do que a vida humana e a misericórdia.

A compaixão é a essência do cristianismo.

Ao contar a parábola dos lugares de honra (Lc 14.7-11), Jesus diz que os convidados buscavam os melhores lugares à mesa. Essa parábola é como colocar um espelho para a vaidade humana. Ser honrado e prestigiado não é pecado, mas, buscar honra e prestígio é. Por isso Jesus lança um desafio: busque se humilhar e não se exaltar.

Humilhar-se significa colocar-se no seu lugar. Não querer apresentar-se como maior e melhor diante de qualquer pessoa por sua religiosidade. Ao dizer: “quem se engrandece será humilhado, mas quem se humilha será engrandecido” (Lc 14.11; 18.14; Mt 23.12), é um golpe no orgulho religioso que usava a lei de Deus não para adorar a Deus, mas, para criar uma hierarquia de méritos e superioridade diante das pessoas.

Por qual motivo você frequenta uma igreja?

Culto é uma reunião de “pobres pecadores” que, reconhece sua completa falta de mérito e por misericórdia recebe o perdão e a vida eterna como presente da parte de Deus em Jesus.

A igreja do eu isso e eu aquilo é farisaica e precisa atentar-se nas palavras de Jesus.

Caríssimos, quanto mais eu reconhecer meus pecados e a necessidade da graça de Deus, mais que quero estar na comunhão dos santos que são pecadores alcançados pela graça de Deus em Jesus. E eu particularmente, agradeço por vocês não saberem dos meus pecados, pois, acredito que não teriam misericórdia de mim. Louvo a Deus, pois em seu Filho Jesus foi e é misericordioso comigo.

Por fim, (Lc 14.12-14), Jesus se dirige ao fariseu que o convidou para o banquete no sábado e expõe o egoísmo que permeia as relações sociais.

Jesus lembra que os convidados são àqueles que podem retribuir com o mesmo convite. E o desafio é: convidar os que não têm a possibilidade de oferecer o mesmo convite.

Ao destacar o convite para os pobres, aleijados e cegos, é uma ilustração de Jesus sobre a natureza do Reino de Deus. O reino de Deus é um banquete para àqueles que não têm nada a oferecer em troca.

Graça só é graça por ser oferecida para os que não merecem. Eu sou alvo da graça de Deus em Jesus, pois, não mereço a salvação que a mim é alcançada.

Jesus apresenta aqui a essência do Evangelho. Pois, ainda hoje, Deus convida para o seu banquete àqueles que são espiritualmente pobres, incapazes de se justificar ou de merecer a salvação.

Jesus destaca um princípio essencial: não faça nada para receber algo em troca.

Precisamos cuidar e nos precaver do egoísmo das relações sociais. Nunca faça nada esperando retribuição. Faça por livre vontade, querendo fazer. Pois, se você fizer algo esperando algo em troca, isso mostrará seu egoísmo e lhe trará sofrimento, pois, dificilmente você receberá retorno daquela pessoa que você ajudou.

Infelizmente, muitos ainda agem e atuam apenas por interesse. Quantos religiosos ofertam, trabalham, fazem boas obras, esperando receber retribuição divina?

Jesus destaca que “...você será abençoado...” (Lc 14.14), fazendo de livre e espontânea vontade, sem interesse e egoísmo. Jesus conhece os corações e as mentes. Antes mesmo de dizermos uma palavra, ele já sabe o que vamos dizer (Sl 139). E é Jesus quem condena as ações e atitudes que apenas visam recompensa.

Caridade só é caridade quando realizada desinteressadamente. A caridade que apenas quer ser exposta nas redes sociais não é caridade, é orgulho, vaidade e egoísmo. Caridade não é um investimento com juros, é uma expressão de gratidão pelo amor que recebemos de Cristo. Amar e servir ao próximo sem esperar algo em troca é a prova de um coração transformado pela graça.

O episódio narrado por Lucas 14. 1-14, enfatiza que a religiosidade baseada em regras externas e nos méritos pessoais é uma forma de orgulho.

Jesus condena a religiosidade que visa apenas se colocar como “melhores” que os outros e que se esquece de que é pecador. Necessitamos da graça de Deus. E por essa necessidade estamos aqui hoje. Esse bebê que será batizado, nasceu pecador. Precisa, assim como eu preciso, da graça de Deus. E assim, como um bebê eu preciso receber a graça de Deus.

A graça de Deus não é dada por merecimento. É graça, e sendo graça, é oferecida sem mérito nenhum. E por graça, eu ainda sou convidado para o banquete celestial. Eu sei, que também não tenho nada para oferecer a Deus, por isso, no dia do meu batismo, Deus me concedeu o seu Espírito e como escreveu Paulo: “O Espírito Santo é a garantia de que receberemos o que Deus prometeu ao seu povo, e isso nos dá a certeza de que Deus dará liberdade completa aos que são seus. Portanto, louvemos a sua glória” (Ef 1.14).

Espiritualmente, todos nós somos os “pobres, aleijados e cegos” (Lc 14.13). Somos incapazes de nos justificar diante de Deus, por isso, o banquete é um convite de Jesus.

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Vivendo como criança desmamada!

 31 de agosto de 2025

Décimo segundo domingo após Pentecostes

Salmo 131; Provérbios 25.2-10; Hebreus 13.1-17; Lucas 14.1-14

Texto: Sl 131.2

Tema: Vivendo como criança desmamada!

 

...como a criança desmamada fica quieta nos braços da mãe, assim eu estou satisfeito e tranquilo, e o meu coração está calmo dentro de mim” (Sl 131.2).

 

Vivendo como criança desmamada!

Parte 1

A Inquietude do Descontentamento

Psicólogos elegeram Paulo como o homem mais feliz da terra, por causa de sua declaração: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4.13).

Vivemos num mundo de paradoxos. Há mais conforto, mais tecnologia e mais oportunidades do que em qualquer outro momento da história, e ainda assim, todos parecem descontentes. Exemplo disso, a Noruega, um país com alto índice de desenvolvimento, todavia, a prosperidade material não erradicou a tristeza, e isso está refletido em suas estatísticas de suicídio, 13 de cada 100 mil habitantes. Atualmente o dinheiro é o fator decisivo e não o ser humano.

John D. Rockefeller, fundador da a Standard Oil Company, empresa de petróleo e óleo dos EUA, mesmo com sua imensa fortuna, desejava “só um pouquinho mais” é uma ilustração sobre o descontentamento mesmo possuindo muito.

Você é uma pessoa descontente?

Descontentamento é um sentimento de insatisfação ou desconforto em relação a uma situação, pessoa ou condição específica. A principal fonte de descontentamento é a discrepância entre expectativa e realidade.

Na busca incessante do ter mais, a sociedade moderna, e até muitas igrejas, acabam se perdendo. O apóstolo Paulo na sua carta para Timóteo anota que a verdadeira riqueza não está na busca por mais, mas no contentamento com aquilo que se possui (1Tm 6.6). O descontentamento, como apontado por Judas (Judas 16), é uma marca dos falsos mestres, que prometem prosperidade material em nome da fé.

Há uma busca frenética pela felicidade, no entanto, se está sempre descontente. Esse descontentamento se apresenta entre os cristãos, que trocam de igreja a medida em que descobrem que em determinado seguimento há mais prosperidade. Ao registrar: “É claro que a religião é uma fonte de muita riqueza, mas só para a pessoa que se contenta com o que tem” (1Tm 6.6), o apostolo Paulo enfatiza que a verdadeira riqueza é estar contente com àquilo que recebe de Deus.

Quando na leitura do Salmo, ouvimos a metáfora da “criança desmamada”, recebemos a ilustração vivida da verdadeira paz cristã. Essa paz não vem de uma busca vertiginosa por conquistas ou bens, mas da total rendição e confiança em Deus.

O paralelo é claro: a criança desmamada não chora e nem se agita por comida, pois aprendeu que sua mãe a nutre no tempo certo. A criança desmamada está nos braços da mãe por puro contentamento, segurança e afeto, não por necessidade física imediata. E sua paz vem da presença da mãe, não da satisfação de um desejo.

O cristão, pela fé, não vive a “ansiedade da busca”. Pela fé, o cristão descansa em Deus, sabendo que tudo o que precisa será provido. Sua satisfação não está nas “coisas grandes” ou nos triunfos da vida, mas na presença do próprio Deus, no qual sua alma está satisfeita e tranquila por ter sua esperança no Senhor.

A reflexão do salmista ao ilustrar-nos como criança desmamada ensina a abandonar a ambição desenfreada e o orgulho, que só traz agitação à alma. A criança desmamada é uma ilustração para a confiança total e a dependência completa de Deus que traz a verdadeira paz, um estado de espírito que é essencial para uma vida de fé genuína.

As palavras do salmista “...como a criança desmamada fica quieta nos braços da mãe, assim eu estou satisfeito e tranquilo, e o meu coração está calmo dentro de mim” (Sl 131.2) é uma das mais belas e profundas analogias sobre a fé. São palavras que revelam o significado sobre a natureza da relação com Deus, a jornada da fé e a verdadeira paz.

Pelo evangelista Mateus, recebemos o registro de que Jesus convida a não andar ansiosos (Mateus 6.26-30). Jesus pede para que se olhe para os pássaros do céu e os lírios do campo. Esses não semeiam nem colhem, mas são cuidados por Deus. Assim, Jesus transmite a certeza do seu cuidado. Essa é a certeza que o salmista quer transmitir ao nos descrever como crianças desmamadas. O salmista destaca a confiança de quem está nos braços de um Pai que nutre e protege.

A imagem da “criança desmamada” destaca uma criança que passou por um processo de crescimento. Representa alguém que superou uma fase de busca e agitação.

A criança desmamada repousa nos braços da mãe por conforto e segurança, não por necessidade de alimento. Ela aprendeu a confiar na presença da mãe, mesmo sem a satisfação imediata de uma necessidade.

O ensino do Salmo (Sl 131.2) destaca que o cristão não busca mais a Deus apenas pelo que Ele pode dar, mas pela paz de sua presença. A descrição da criança desmamada enumera a fé que não depende de bênçãos visíveis, mas da certeza de que Deus está no controle. A paz do coração do salmista não vem da ausência de problemas, mas da sua total confiança em Deus.

O Salmo 131.2 é uma antítese da ansiedade e da preocupação. São palavras para um coração inquieto pelo seu descontentamento e busca por mais e mais.

Jesus disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14.27). A paz que Jesus oferece não é a ausência de conflitos e problemas, é uma tranquilidade interna que reside na certeza de sua presença mesmo nos problemas e conflitos. Essa calma é descrita pelo salmista.

Vivendo como criança desmamada!

Parte 2

A Paz que Vem da Confiança e da Gratidão

Ao iniciar o Salmo escrevendo: “Ó Senhor Deus, eu já não sou orgulhoso; deixei de olhar os outros com arrogância. Não vou atrás das coisas grandes e extraordinárias, que estão fora do meu alcance” (Sl 131.1), Davi reconhecia que sua vida tinha limites. Apesar disso, esse limite não o impedia de ser grato e confiar em Deus.

Ser orgulhoso significa acreditar que não se precisa de Deus. É um sentimento de autossuficiência. Assim, ao escrever “...eu já não sou orgulhoso; ...” (Sl 131.1), Davi destaca que depende exclusivamente de Deus. Sem Deus nada sou e pôr mais que possua, não estou satisfeito. A criança desmamada encontrou paz e segurança em confiar no Senhor.

Esse mundo moderno está roubando a paz e o sossego das pessoas. As pessoas correm atrás de tudo para se apresentar como alguém de valor para a sociedade. Por isso, a busca desenfreada para se ter a melhor casa, o melhor carro, a melhor roupa, ...e mesmo que consiga isso, não se está satisfeito.

É preciso aprender a viver “...como a criança desmamada fica quieta nos braços da mãe, assim eu estou satisfeito e tranquilo, e o meu coração está calmo dentro de mim” (Sl 131.2). Contentamento e confiança andam de mãos dadas.

Contentamento é a base da felicidade. Contentamento é saber-se cuidado por Deus. Querer mais, acumular mais, não é pecado, todavia, sua grande contribuição é gerar desconforto e insatisfação. Ao contrário disso, o autor a carta aos hebreus destaca que o contentamento gera dois resultados: em relação a Deus e em relação ao próximo (Hb 13.15-16).

A paz não está no ter mais, a paz está na confiança naquele que sustenta. A calmaria de um coração tranquilo, como o de uma criança desmamada, é um presente de Deus.

Um mendigo pediu comida na casa de um homem rico e, recebeu muito mais que comida, recebeu acolhimento, pode assentar-se à mesa e fazer companhia ao hospedeiro, e chegou a ser convidado para morar nessa casa. Sua reação foi perguntar: “O que posso fazer por você?” E a resposta do hospedeiro foi de que ele poderia ajudar em qualquer atividade doméstica e familiar. Todavia, o convite não era para ele fazer algo, mas para ser amigo da família.

O que este mendigo poderia fazer? A única resposta era viver em gratidão. Não há nada que aquele pobre homem possa dar além de sua gratidão. Tudo o que ele tinha era o que o anfitrião possuía e dispensava para ele.

Como criança desmamada recebemos de Deus tudo o que precisamos e nisso nos contentamos. Por essa razão nosso coração está tranquilo e calmo. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

#O silêncio que destrói e a fala que cura!

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