12 de julho de 2026
Próprio
10 – Sétimo Domingo após Pentecostes
Salmo
65.9-13; Isaías 55.10-13; Romanos 8.12-17; Mateus 13.1-9,18-23
Tema: Nada permanece o mesmo quando Deus fala!
Estamos
vivendo na época do descartável, inclusive da palavra descartável. Nunca tantas
palavras foram produzidas e consumidas em tão pouco tempo. Basta abrir o
celular e somos bombardeados por discursos, promessas, notícias, propagandas,
vídeos e opiniões. Todos querem falar. Todos querem ser ouvidos. Mas poucas
palavras permanecem.
O
paradoxo é impressionante. Nunca houve tanta comunicação e, ao mesmo tempo, tão
pouca transformação. As palavras humanas conseguem informar, convencer,
emocionar e até entusiasmar por alguns momentos. Porém, quase sempre, são
incapazes de realizar aquilo de que o ser humano mais precisa, mudar o coração,
vencer o pecado, restaurar a esperança e dar vida.
É justamente nesse mundo saturado de
palavras que a Bíblia apresenta uma Palavra completamente diferente. A Palavra
de Deus não é apenas mais uma voz entre tantas. Ela não apenas comunica uma
mensagem; ela realiza o que anuncia. Por isso o profeta Isaías declarou: “Assim será a minha Palavra; ela não voltará para mim
vazia” (Is 55.11).
Que
afirmação extraordinária!
A
palavra de Deus não fracassa. Nenhuma promessa divina cai no chão. Nenhum
sermão fiel é inútil. Nenhuma Escritura lida permanece sem efeito. Quando Deus
fala... alguma coisa acontece.
Isaías
começa olhando para algo extremamente comum. A chuva. A neve. Todos sabem como
funciona. Ela cai. Penetra o solo. Molha. Amolece. Alimenta. Faz brotar. Ninguém
consegue impedir isso.
A
chuva e a neve não perguntam à terra se pode cair. Ela simplesmente cai.
O
profeta Isaías disse: “Assim também é a minha
Palavra” (Is 55.11).
Que comparação maravilhosa!
A
Palavra não é comparada a um livro. Nem a uma teoria. Nem a uma religião. Ela é
comparada à chuva.
A
chuva não faz barulho para chamar atenção, todavia, após a chuva a paisagem
muda completamente. O mesmo ocorre na pregação da Palavra.
Um
sermão aparentemente simples. Uma leitura bíblica. Uma explicação do catecismo.
Uma absolvição. Uma palavra na Santa Ceia. Parece algo pequeno. Mas, Deus realiza
um milagre invisível.
Lutero
dizia que Deus escolheu agir por meios simples. Água; Pão; Vinho; Palavra. O poder nunca esteve nos meios... o poder está naquele
que fala. A Palavra cria vida. A Palavra não apenas anuncia perdão; ela
concede perdão. A Palavra não apenas oferece esperança, ela gera esperança. A
Palavra não apenas informa sobre Cristo, ela entrega Cristo.
Usando a imagem do profeta Isaías, podemos dizer que o
maior milagre não é a chuva cair sobre a terra. O maior milagre é a Palavra de
Deus chegar a um coração morto e gerar vida.
Na parábola do semeador contada por
Jesus, o curioso é que o semeador não faz seleção. O semeador lança sementes
por toda parte. No caminho; entre as pedras; entre os espinhos e na boa terra.
O
Evangelho é anunciado para todos. O problema não é a semente e Jesus deixa isso
absolutamente claro. A semente que é a Palavra é perfeita, o problema é o solo
que recebe essa semente.
Há corações endurecidos onde
a Palavra bate... e nem entra. ... o maligno a arranca imediatamente.
Há corações superficiais
que recebem tudo com entusiasmo... mas basta chegar a primeira perseguição... e
tudo desaparece.
Há corações sufocados onde
a Palavra cresce junto aos espinhos que crescem mais. Esses espinhos são as
preocupações, o dinheiro, a carreira, o prazer, o orgulho. Tudo vai
estrangulando lentamente a fé até que ela deixa de produzir fruto.
Jesus não diz em nenhum momento que a
Palavra perdeu o poder. O problema é sempre o solo, o coração
pecaminoso. E assim surge a pergunta: e a boa
terra? Será que Deus tem seus escolhidos?
O
ser humano não produz seu próprio coração novo. A terra não se torna boa por si
mesma. O solo é trabalhado, preparado, arado, irrigado, e assim transformado. E
aqui retornamos a imagem do profeta Isaías em que o profeta mostra que a chuva
vem de fora. A terra apenas recebe a água e essa que vem de fora produz vida.
A
graça de Deus é oferecida pela Palavra e a boa terra não é um coração melhor
que o outro, é um coração constantemente visitado por Deus por sua Palavra
assim como a terra é visitada pela chuva.
Davi
no Salmo 65 expressa essa verdade com uma afirmação maravilhosa: “Tu visitas a terra e a regas” (Sl 65.9); “Fazendo chover, mostras o teu cuidado pela terra e a
tornas boa e rica” (Sl 65.9).
O
verbo hebraico é paqad e significa muito mais que visitar. Significa intervir; agir; transformar; produzir vida.
Dessa forma, Davi enfatiza que quando Deus visita, jorra sua Palavra, mesmo no
deserto a vida floresce. O solo seco produz e a morte começa a perder espaço.
Ninguém
nasceu boa terra. Todos nascem pedras, espinhos, caminho endurecido. Mas Deus
vai visitando, jorrando Palavra e desertos vão florescendo.
O apostolo Paulo escreveu que “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos
de Deus” (Rm 8.14).
Observe
e perceba a ordem. Primeiro Deus age; depois se responde. Primeiro Deus chama; depois
ouvimos. Primeiro Deus gera; depois vivemos. Fala-se muito de que o Espírito transforma as pessoas,
todavia, além disso, o Espírito Santo cria filhos.
Na
carta aos Romanos, o apostolo Paulo usa a palavra hebraica “Abba” (Rm 8.15) indicando que a criança não
chama Deus de Pai porque decidiu
fazê-lo. Ela chama de Pai porque
recebeu a identidade de filho e é o
Espírito Santo que testemunha dentro de nós dizendo que “você pertence ao Pai”.
Que conforto!
Minha
certeza de filho não repousa na intensidade da minha fé; nem na estabilidade do
meu coração; nem na perfeição da minha obediência. A certeza repousa na fidelidade daquele que me fala
por sua Palavra e que por sua Palavra produz vida em mim. A terra boa
tem os passarinhos enxotados, as pedras e os espinhos retirados.
Se o profeta Isaías disse que a Palavra de
Deus nunca volta vazia... como
explicar os três solos improdutivos? Qual é a razão da rejeição a Palavra?
A
resposta das Confissões Luteranas é profundamente bíblica descrevendo que a
Palavra nunca fracassa. A Palavra de Deus sempre realiza a missão de Deus. Todavia,
essa missão nem sempre é a mesma. Ela consola; julga; cria fé; revela
incredulidade; endurece os que a recusam. A Palavra de Deus nunca é neutra.
Ninguém
sai de um culto sem alguma ocorrência... diante da pregação da Palavra, alguma
coisa aconteceu. Ou se foi aproximado de Cristo... ou se ficou mais endurecido.
Ninguém permanece igual depois
de ouvir Deus falar.
O maior fruto não é aquele que o ser humano produziu. É o que Deus
produziu por sua Palavra. Por essa razão, Jesus conclui a parábola dizendo que uns produzem trinta, outros
sessenta, outros cem.
Perceba
um detalhe importante. Jesus nunca exige a mesma quantidade de fruto, afinal, Deus
conhece os seus filhos. Uns sofrem muito; outros vivem mais tempo; alguns tem
grandes oportunidades; outros vivem escondidos; por isso a classificação dessa
produção de frutos.
O
fruto não é resultado da força da terra. É resultado da força da semente. Cristo
nunca abandona aquilo que começou.
Como anunciou o profeta Isaías, sua
Palavra continua descendo como a chuva e continua irrigando, criando, perdoando,
ressuscitando mortos espirituais e transformando pecadores em filhos.
Muitas
vezes o coração está cheio de pedras e tomado por espinhos. O Evangelho não
procura corações perfeitos. O Evangelho cria corações novos. Cristo é o semeador e a semente é o
próprio Cristo.
Jesus
Cristo é a semente lançada na cruz. Parecia que aquela semente havia morrido. Mas,
ao terceiro dia, ela rompeu o solo da sepultura. Da morte nasceu a vida. Da
cruz nasceu o perdão. Da ressurreição nasceu a nova criação. E esse Cristo
continua sendo semeado pela Palavra por meio da pregação, do Batismo e da Santa
Ceia e onde essa Palavra é anunciada, o Espírito Santo continua fazendo aquilo
que nenhuma força humana consegue fazer: criar fé, conceder perdão, gerar
filhos de Deus e produzir frutos para a vida eterna. Amém.
Edson
Ronaldo Tressmann
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