terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sim, Senhor! A fé que se agarra à misericórdia de Cristo.

 16 de agosto de 2026

Próprio 15 – Décimo Segundo Domingo após Pentecostes

Salmo 67; Isaías 56.1,6-8; Romanos 11.1-2ª,13-15,28-32; Mateus 15.21-28

Tema: Sim, Senhor! A fé que se agarra à misericórdia de Cristo.

 

          É impressionante do que o amor de uma mãe é capaz. Respostas humilhantes e afirmações quase de repulsa não a ofendem quando a situação envolve socorrer seu(sua) filho(a). Não importa o que dizem de uma mãe, ela sempre busca pelo bem do(a) filho(a).

          Jesus havia ido para Tiro e Sidom. Os Tirios eram muitos hostis aos judeus. Suas práticas religiosas e culturais divergiam significativamente do judaísmo. Os judeus viam os cananeus como idólatras e moralmente corruptos.

          Jesus, enviado para as ovelhas perdidas de Israel, atravessa as fronteiras étnicas e nesse lugar, há um evento que destaca o quanto uma mãe supera de obstáculos para encontrar socorro para sua filha. O relato enumera que a misericórdia de Deus não conhece limites geográficos ou culturais.

          Se em Israel, entre os judeus que conheciam as leis e as promessas, Jesus era rejeitado e questionado, numa região gentia, onde as crenças judaicas não eram a norma, Jesus encontra uma fé nele que o levou a destacar essa fé.

          Na época de Jesus, a mulher era reconhecida como sendo inferior ao homem e com um papel muito limitado. A mulher não participava da vida pública e entre os judeus, a mulher não era mais que um objeto pertencente ao marido e sua servidora. Sua palavra não tinha valor, nem sequer diante de um juiz.

          A luz desse pensamento, para muitos era correto o fato de Jesus, diante do pedido dessa mulher estrangeira, tê-la ignorado, demonstrado aparente preconceito e insensibilidade aos seus sofrimentos dela e tê-la humilhada publicamente.

          Essa mulher e mãe, poderia ter se afastado, mas, foi persistente, afinal, ela apesar do seu amor pela filha, acreditava na misericórdia de Jesus.

          O evangelho de Marcos 3.7-8 registra que Jesus tornou-se conhecido na região de Tiro e Sidom e àquela mulher confirmou o que em Israel era discussão. Os líderes em Israel discutiam se Jesus, por causa de suas palavras e atos, era de fato o Filho de Davi, àquela mulher, em terra estrangeira e pagã, considerada pelos judeus como cães, clama: “Senhor, Filho de Davi, tenha pena de mim!” (Mt 15.22).

          Notemos a combinação dos títulos “Senhor” e “Filho de Davi”. Ou seja, ela crê em quem é Jesus e por saber da sua situação, iniciou o contato com o lamento tradicional dos mendigos: “tem misericórdia de mim”.

          Uma mãe desesperada clama por sua filha, mas diz para que Jesus tenha misericórdia dela como mãe. Os filhos não percebem o quanto uma mãe sofre por causa deles.

          Não bastasse o seu sofrimento, essa mulher parece ter sido submetida a três testes.

          O primeiro teste é do silêncio.

          Nada é pior do que você falar com alguém e esse alguém não responder. Liga e não atende. Envia mensagem e não responde. Procura e não encontra.

          Essa mulher já estava se humilhando em estar gritando. Seus gritos chegaram a incomodar os discípulos (Mt 15.24) e ainda teve que passar pela aparente indiferença de Jesus.

          Homens não falavam com mulheres em público; judeus não falavam com gentios; rabinos respeitáveis não falavam com mulheres. O agir de Jesus não era estranho para os discípulos e por isso pedem que a mande embora.

          Não foi a indiferença de Jesus que incomodou os discípulos, i incômodo foi o barulho daquela mulher. Mas, essa mulher e mão, convicta de sua fé, continua clamando.

          Jesus, como sempre, deseja ensinar seus discípulos e por isso, parece ser correto despedir e mandar essa mulher barulhenta embora, afinal, Jesus foi enviado para as ovelhas perdidas de Israel (Mt 15.24). Para bons ouvidos, essa fala de Jesus foi uma direta de que, ela não era parte da prioridade de Jesus. E, mesmo tendo ouvido isso, essa mulher com convicção de fé se ajoelha diante de Jesus e súplica: “Senhor, me ajude!” (Mt 15.25).

          Observe o quanto uma mãe é capaz de fazer. Todavia, essa mãe foi ao extremo por crer fielmente quem era Jesus.

          Mesmo, diante de uma mãe caída aos seus pés, Jesus para verbalizar a convicção teológica dos seus discípulos disse: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo para os cachorros” (Mt 15.26). Possivelmente os discípulos estavam orgulhosos de seu mestre, o mestre que havia os colocado em confusão após o embate com os líderes judeus (Mt 15.1-20).

          Mas, é exatamente aí que o texto chega a um clímax.

          Na cultura daquela época, os cães só eram um pouco menos desprezíveis do que os porcos. E mesmo assim, diante de tal humilhação aparente, a mulher, por fé responde: “Sim, senhor, — respondeu a mulher — mas até mesmo os cachorrinhos comem as migalhas que caem debaixo da mesa dos seus donos” (Mt 15.27).

          Senhor, eu sei quem tu és, quem é teu povo, mas, eu sou apenas um cachorrinho que quer se alimentar das migalhas dos seus filhos, cuja mesa está farta.

          Essa mulher percebeu e creu na grande e na suficiência da graça que ela sabia não merecer. Tanto que essa mulher se apropriou das palavras de Jesus e destacou que sim, ela sabia que era cachorrinho, e que nada merecia, mas queria apenas, assim como os cachorrinhos em casa, se apropriar das migalhas.

          Ela reconhece que Jesus tem misericórdia para todos. E todo seu pedido é por uma migalha de misericórdia para sua filha.

          O texto em última análise deseja mostrar para os discípulos a diferença do tratamento prático a partir da lei e da cultura. Lutar contra nossas convicções enraizadas não é fácil.

          A fé que salva é a fé que se satisfaz apenas e somente na dádiva imerecida. Por isso, no sermão do monte, Jesus havia dito que os “mendigos de espírito” são felizes. Como escreveu o apostolo Paulo aos Romanos: “...se a escolha de Deus se baseasse no que as pessoas fazem, então a sua graça não seria a verdadeira graça” (Rm 11.6) e aos cristãos da Ásia Menor: “Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus” (Ef 2.8). A graça concede o que a justiça própria não alcança e a fé recebe o que os méritos não podem merecer. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

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