16 de agosto de 2026
Próprio
15 – Décimo Segundo Domingo após Pentecostes
Salmo
67; Isaías 56.1,6-8; Romanos 11.1-2ª,13-15,28-32; Mateus 15.21-28
Tema:
Sim, Senhor! A fé que se agarra à misericórdia de Cristo.
É impressionante do que o amor de uma
mãe é capaz. Respostas humilhantes e afirmações quase de repulsa não a ofendem
quando a situação envolve socorrer seu(sua) filho(a). Não importa o que dizem
de uma mãe, ela sempre busca pelo bem do(a) filho(a).
Jesus havia ido para Tiro e Sidom. Os
Tirios eram muitos hostis aos judeus. Suas práticas religiosas e culturais
divergiam significativamente do judaísmo. Os judeus viam os cananeus como
idólatras e moralmente corruptos.
Jesus, enviado para as ovelhas
perdidas de Israel, atravessa as fronteiras étnicas e nesse lugar, há um evento
que destaca o quanto uma mãe supera de obstáculos para encontrar socorro para
sua filha. O relato
enumera que a misericórdia de Deus não conhece limites geográficos ou
culturais.
Se em Israel, entre os judeus que
conheciam as leis e as promessas, Jesus era rejeitado e questionado, numa
região gentia, onde as crenças judaicas não eram a norma, Jesus encontra uma fé
nele que o levou a destacar essa fé.
Na época de Jesus, a mulher era reconhecida
como sendo inferior ao homem e com um papel muito limitado. A mulher não
participava da vida pública e entre os judeus, a mulher não era mais que um
objeto pertencente ao marido e sua servidora. Sua palavra não tinha valor, nem
sequer diante de um juiz.
A luz desse pensamento, para muitos
era correto o fato de Jesus, diante do pedido dessa mulher estrangeira, tê-la ignorado,
demonstrado aparente preconceito e insensibilidade aos seus sofrimentos dela e tê-la
humilhada publicamente.
Essa mulher e mãe, poderia ter se
afastado, mas, foi persistente, afinal, ela apesar do seu amor pela filha,
acreditava na misericórdia de Jesus.
O evangelho de Marcos 3.7-8 registra
que Jesus tornou-se conhecido na região de Tiro e Sidom e àquela mulher
confirmou o que em Israel era discussão. Os líderes em Israel discutiam se
Jesus, por causa de suas palavras e atos, era de fato o Filho de Davi, àquela
mulher, em terra estrangeira e pagã, considerada pelos judeus como cães, clama:
“Senhor, Filho de Davi, tenha pena de mim!”
(Mt 15.22).
Notemos a combinação dos títulos “Senhor” e “Filho
de Davi”. Ou seja, ela crê em quem é Jesus e por saber da sua
situação, iniciou o contato com o lamento tradicional dos mendigos: “tem misericórdia de mim”.
Uma mãe desesperada clama por sua
filha, mas diz para que Jesus tenha misericórdia dela como mãe. Os filhos não
percebem o quanto uma mãe sofre por causa deles.
Não bastasse o seu sofrimento, essa
mulher parece ter sido submetida a três testes.
O primeiro teste é do silêncio.
Nada é pior do que você falar com
alguém e esse alguém não responder. Liga e não atende. Envia mensagem e não
responde. Procura e não encontra.
Essa mulher já estava se humilhando em
estar gritando. Seus gritos chegaram a incomodar os discípulos (Mt 15.24) e
ainda teve que passar pela aparente indiferença de Jesus.
Homens não falavam com mulheres em público;
judeus não falavam com gentios; rabinos respeitáveis não falavam com mulheres.
O agir de Jesus não era estranho para os discípulos e por isso pedem que a mande
embora.
Não foi a indiferença de Jesus que
incomodou os discípulos, i incômodo foi o barulho daquela mulher. Mas, essa
mulher e mão, convicta de sua fé, continua clamando.
Jesus, como sempre, deseja ensinar
seus discípulos e por isso, parece ser correto despedir e mandar essa mulher
barulhenta embora, afinal, Jesus foi enviado para as ovelhas perdidas de Israel
(Mt 15.24). Para bons ouvidos, essa fala de Jesus foi uma direta de que, ela
não era parte da prioridade de Jesus. E, mesmo tendo ouvido isso, essa mulher com
convicção de fé se ajoelha diante de Jesus e súplica: “Senhor, me ajude!” (Mt 15.25).
Observe o quanto uma mãe é capaz de
fazer. Todavia, essa mãe foi ao extremo por crer fielmente quem era Jesus.
Mesmo, diante de uma mãe caída aos seus
pés, Jesus para verbalizar a convicção teológica dos seus discípulos disse: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo para os
cachorros” (Mt 15.26). Possivelmente os discípulos estavam
orgulhosos de seu mestre, o mestre que havia os colocado em confusão após o
embate com os líderes judeus (Mt 15.1-20).
Mas, é exatamente aí que o texto chega
a um clímax.
Na cultura daquela época, os cães só
eram um pouco menos desprezíveis do que os porcos. E mesmo assim, diante de tal
humilhação aparente, a mulher, por fé responde: “Sim,
senhor, — respondeu a mulher — mas até mesmo os cachorrinhos comem as migalhas
que caem debaixo da mesa dos seus donos” (Mt 15.27).
Senhor, eu sei quem tu és, quem é teu
povo, mas, eu sou apenas um cachorrinho que quer se alimentar das migalhas dos
seus filhos, cuja mesa está farta.
Essa mulher percebeu e creu na grande
e na suficiência da graça que ela sabia não merecer. Tanto que essa mulher se
apropriou das palavras de Jesus e destacou que sim, ela sabia que era
cachorrinho, e que nada merecia, mas queria apenas, assim como os cachorrinhos
em casa, se apropriar das migalhas.
Ela reconhece que Jesus tem misericórdia
para todos. E todo seu pedido é por uma migalha de misericórdia para sua filha.
O texto em última análise deseja
mostrar para os discípulos a diferença do tratamento prático a partir da lei e
da cultura. Lutar contra nossas convicções enraizadas não é fácil.
A fé que salva é a fé que se satisfaz
apenas e somente na dádiva imerecida. Por isso, no sermão do monte, Jesus havia
dito que os “mendigos de espírito”
são felizes. Como escreveu o apostolo Paulo aos Romanos: “...se a escolha de Deus se baseasse no que as pessoas
fazem, então a sua graça não seria a verdadeira graça” (Rm 11.6) e
aos cristãos da Ásia Menor: “Pois pela graça de
Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente
dado por Deus” (Ef 2.8). A graça concede o que a justiça própria não alcança e a fé recebe o que
os méritos não podem merecer. Amém
Edson
Ronaldo Tressmann
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