segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando Cristo chama, até os mortos vivem

 22 de março de 2026

Quinto Domingo na Quaresma

Salmo 130; Ezequiel 37.1–14; Romanos 8.1–11; João 11.1-45

Texto: João 11.1–45

Tema: Quando Cristo chama, até os mortos vivem

 

Existem momentos na vida em que a esperança parece desaparecer. Momentos em que a oração sobe aos céus… mas nenhuma resposta parece voltar. Momentos em que o silêncio de Deus pesa sobre o coração como uma noite longa e fria.

O Evangelho nos leva hoje para dentro de uma casa assim. Uma casa em Betânia. Uma casa cheia de lágrimas. Ali morava um homem chamado Lázaro. Ele estava doente. Muito doente. Suas irmãs, Marta e Maria, enviam uma mensagem simples a Jesus: “Senhor, aquele a quem amas está enfermo” (Jo 11.3).

É uma oração curta. Sem discursos. Sem exigências. Apenas confiança. Mas então acontece algo que parece incompreensível. Jesus não vai imediatamente. O evangelista João escreveu que que Jesus permaneceu ainda dois dias onde estava.

Imagine o coração daquelas irmãs. Cada hora passando. Cada respiração de Lázaro ficando mais fraca. Talvez elas olhassem repetidamente para a estrada esperando ver Jesus chegar. Mas Jesus não veio enquanto havia possibilidade. E então Lázaro morreu.

Quantas vezes nossa fé passa exatamente por esse momento? Oramos… Esperamos… Confiamos… E parece que Deus está em silêncio.

As palavras de Cristo: “Esta enfermidade não é para morte, mas para a glória de Deus” (Jo 11.4) não significa que Lázaro não morreria. Na verdade, essas palavras significam algo mais profundo: a morte não teria e não tem a última palavra.

Aqui está uma verdade profunda da fé cristã: Deus às vezes permite que a situação pareça piorar antes de revelar a sua glória.

        Quando Jesus finalmente chega a Betânia, Lázaro já está morto há quatro dias. Para os judeus daquela época isso significava algo terrível: não havia mais nenhuma esperança.

O corpo já estava em decomposição. Tudo havia acabado. Marta corre ao encontro de Jesus e diz: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11.21).

Em quantas situações, mesmo que em pensamento, exclamamos: “Senhor… se o Senhor tivesse agido antes…?

Jesus exclamou para Marta algo que muda a história da humanidade: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11.25). Jesus não diz apenas que dá ressurreição. Jesus diz algo muito maior:

Ele é a ressurreição. Onde Cristo está, a morte não tem autoridade final.

        Depois disso Maria chega chorando. A multidão chora. O ar está pesado de luto. Então acontece algo extraordinário: “Jesus chorou” (Jo 11.35).

Duas palavras. Mas nelas está um dos maiores consolos do Evangelho. O Deus que ressuscita mortos também sente a dor do coração humano. Jesus Cristo não observa nosso sofrimento de longe. Ele entra nele. Ele caminha até o túmulo. O termo grego utilizado por Jesus em sua fala e escrito por João é enebrimesato e significa que Jesus ficou profundamente comovido. É um Jesus indignado contra a morte. Afinal, a morte não faz parte do plano original de Deus. Ela é o inimigo que entrou no mundo por causa do pecado.

        Então Jesus chega diante do túmulo. Uma caverna fechada por uma pedra. Jesus diz: “Tirai a pedra” (Jo 11.39). Marta responde com uma honestidade dolorosa: “Senhor… já cheira mal” (Jo 11.39). Essas palavras desejam destacar que a morte era real, definitiva e irreversível.

Mas então Jesus levanta os olhos ao céu e clama com grande voz: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11.43). Jesus disse o nome, pois, se dissesse, venha para fora, todos os mortos viriam.

Não há ritual. Não há esforço humano. Apenas a Palavra de Cristo. E acontece algo que ninguém esperava. O morto começa a se mover. As faixas funerárias ainda envolvem seu corpo. Passo após passo… Lázaro sai do túmulo. O impossível acabou de acontecer. O túmulo perdeu seu prisioneiro. E Jesus diz: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11.44).

        Entenda algo importante. Essa história não foi escrita apenas para contar um milagre impressionante. Ela aponta para algo muito maior. Quando Jesus chamou Lázaro para fora do túmulo, Ele estava mostrando o que um dia fará com todos os que pertencem a Jesus.

A riqueza não impede a morte. A medicina não a evita completamente. Nenhum poder humano vence a morte. Mas Cristo venceu.

Aquele que chorou diante do túmulo de um amigo é o mesmo que saiu do próprio túmulo três dias depois. E um dia Ele falará novamente. Como escreve o apóstolo Paulo: “Ao som da trombeta de Deus… os mortos em Cristo ressuscitarão” (1Ts 4.16-17).

Assim como Lázaro ouviu a voz de Cristo… um dia os que pertencem a Jesus e morreram em Cristo ouvirão essa mesma voz. E quando Cristo chama… até os mortos vivem.

        Há algo muito mais profundo que isso nessa história. Quando Jesus ressuscita Lázaro, os líderes religiosos começam a planejar a morte de Jesus. Lázaro sai do túmulo… para que Cristo caminhe em direção à cruz.

Jesus devolve a vida ao amigo sabendo que isso o levaria à própria morte. Porque essa é a essência do Evangelho. Cristo entrou na nossa morte para nos dar a sua vida.

Ele foi colocado em um túmulo para que o túmulo não fosse o nosso “destino final”.

A palavra cemitério vem do grego e significa literalmente: “lugar de dormir”. Porque para aqueles que estão em Cristo… a morte não é o fim. Não esqueça, após a morte há vida eterna. Em Jesus Cristo uma eterna bem-aventurança.

Essa história nos lembra algo próximo da nossa realidade. Ela acontece dentro de uma família. Uma casa com doença. Uma casa com lágrimas. Mesmo quem ama Jesus enfrenta momentos difíceis. Há conflitos entre marido e esposa. Distâncias entre pais e filhos. Feridas antigas dentro da família. No entanto, o Evangelho mostra algo poderoso: Jesus Cristo entra na casa onde há dor. Jesus não fica distante dos problemas da família. Por essa razão: leve sua família a Cristo. Leve seus conflitos a Jesus Cristo. Leve suas lágrimas a Cristo. Afinal, quando Cristo fala… até aquilo que parece morto pode voltar a viver.

Talvez alguém esteja vivendo como Marta e Maria. Mandou recado para Jesus em oração. Espera. Não entende o silêncio divino. Muitos estão lutando contra a ansiedade, pensando que a vida saiu do controle. Recorde-se: Jesus sabe exatamente o que está acontecendo. Jesus Cristo continua no controle. Ele não perdeu o governo da nossa história.

        A história termina com um homem saindo de um túmulo. Mas, essa história aponta para outro túmulo. Depois de chamar Lázaro para fora… Jesus caminhou em direção a Jerusalém. Lá seria preso. Julgado. Pregado numa cruz. Lá, o Filho de Deus seria colocado num túmulo. O Senhor da vida seria colocado atrás de uma pedra. Mas ao terceiro dia… a pedra foi removida. E o mesmo Senhor que disse: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11.43) saiu do próprio túmulo vitorioso.

Quando Cristo chama… até os mortos vivem. Amém.

 

Edson Ronaldo Tressmann

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terça-feira, 10 de março de 2026

Diante da luz: a tragédia da incredulidade contumaz

15 de março de 2026

Quarto domingo na Quaresma

Salmo 142; Isaías 42.14-21; Efésios 5.8-14; João 9.1-41

Texto: João 9.1–41

Tema: Diante da luz: a tragédia da incredulidade contumaz

 

Imagine entrar em uma sala completamente escura. Você tropeça, tateia, esbarra nos móveis. Não consegue distinguir o caminho nem os perigos ao redor. Quando alguém acende a luz, tudo muda: você passa a ver não apenas os objetos, mas também o caminho seguro.

Assim é Cristo. Ele não apenas ilumina a realidade; Ele revela a verdade, mostra o caminho e expõe aquilo que estava escondido.

Mas a presença da luz produz dois efeitos distintos: quem sabe que está em trevas recebe alívio; quem insiste em dizer que vê sente-se confrontado.

João 9 mostra exatamente isso: a tragédia da incredulidade contumaz diante da luz de Cristo.

O capítulo começa com Jesus encontrando um homem cego de nascença. Os discípulos fazem uma pergunta típica do pensamento religioso humano: “Quem pecou: este homem ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9.2).

A pergunta revela uma mentalidade legalista: a tentativa de explicar todo sofrimento como punição direta por algum pecado específico.

Mas Jesus responde de forma surpreendente: “Nem ele pecou nem seus pais; mas isso aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse nele” (Jo 9.3).

Jesus desloca o foco do pecado humano para a ação salvadora de Deus.

O homem não é apenas alguém com um problema físico. Ele é um retrato da condição espiritual da humanidade. Assim como ele nasceu sem visão, nós nascemos em trevas espirituais.

Não somos apenas pessoas com “dificuldade para enxergar”. Sem Cristo, estamos completamente cegos, mesmo enxergando bem.

O cego não pede cura. Ele não procura Jesus. Ele sequer demonstra fé antes do milagre. É Jesus quem o vê. Isso é graça.

Cristo faz lodo com saliva, coloca nos olhos do homem e ordena: “Vai e lava-te no tanque de Siloé” (Jo 9.7)

Deus usa meios simples para realizar sua obra: barro, água e a Palavra de Cristo. Aqui vemos um princípio profundo: Deus age através de meios visíveis para operar realidades espirituais invisíveis.

A cura não nasce da iniciativa do homem, mas da Palavra de Cristo. A fé cresce à medida que Deus se revela e vemos isso nesse homem curado, que no início diz: “Um homem chamado Jesus” (Jo 9.11), depois, “Ele é profeta” (Jo 9.17) e por fim, quando Jesus o encontra novamente, ele se prostra e confessa: “Senhor, eu creio” (Jo 9.38).

Enquanto o cego passa a ver, os fariseus passam por um processo oposto. Assim como os incrédulos contumazes, investigam o milagre, interrogam o homem, pressionam seus pais, tentam desacreditar o ocorrido e finalmente expulsam o homem da sinagoga.

A luz está diante deles, mas eles se recusam a reconhecê-la. Isso é incredulidade contumaz: não é ignorância, é resistência persistente à verdade.

Os fariseus tinham as Escrituras, conheciam a Lei e aguardavam o Messias. Mas, quando o Messias se manifesta diante deles, preferem defender seu sistema religioso.

O problema deles não era falta de evidência. Era orgulho espiritual. Eles dizem: “Nós vemos” (Jo 9.41) e justamente por isso permanecem cegos.

A maior barreira para o Evangelho não é a fraqueza humana, mas a pretensão da autojustiça.

          Jesus conclui o episódio com uma declaração profunda: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os cegos vejam e que fiquem cegos os que veem” (Jo 9.39).

A luz de Cristo nunca é neutra. Ela revela corações. Alguns são conduzidos à fé. Outros endurecem ainda mais. O cego reconhece sua necessidade e recebe visão. Os fariseus afirmam enxergar e permanecem na escuridão. E aqui está o perigo da incredulidade contumaz: quanto mais a verdade é rejeitada, mais o coração se endurece.

          O momento mais belo da narrativa ocorre após a expulsão do homem da sinagoga. Quando Jesus soube que o haviam expulsado, foi procurá-lo (Jo 9.35).

Os líderes religiosos o rejeitaram. Mas Cristo o buscou. A Lei, mal utilizada pelos fariseus, excluiu. O Evangelho de Jesus acolheu. E ali acontece o encontro decisivo: “Crês tu no Filho do Homem?” (Jo 9.35).

Quando Jesus se revela, o homem responde com adoração. Ele foi expulso da sinagoga, mas encontrou o próprio Filho de Deus. O que é a exclusão humana diante da comunhão com Cristo?

          No capítulo seguinte, Jesus se apresenta como o Bom Pastor. Ele disse que as ovelhas reconhecem sua voz.

O homem que era cego é exatamente isso: uma ovelha de Cristo. Ele ouviu a Palavra de Jesus. Creu. Adorou. Enquanto isso, aqueles que deveriam guiar o povo tornam-se, na linguagem do capítulo 10, ladrões e falsos pastores.

          O mundo fala muito sobre cegueira física. Milhões de pessoas vivem sem visão (39 milhões no mundo) e outras 246 milhões com problemas severos na visão. Todavia, Jesus revela algo muito mais grave: a cegueira espiritual daqueles que insistem em dizer que veem.

A pior cegueira não é a incapacidade de enxergar. É a recusa em reconhecer que precisamos da luz que é Cristo.

Diante de Cristo, a Luz do mundo, só existem duas respostas: ou humildemente confessamos nossa cegueira; ou endurecemos o coração como os fariseus.

O homem curado resume tudo em uma frase simples e poderosa: “Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo” (Jo 9.25). Que essa também seja a nossa confissão. Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 9 de março de 2026

Passos de luz: a jornada da bondade, justiça e verdade

 15 de março de 2026

Quarto domingo na Quaresma

Salmo 142; Isaías 42.14-21; Efésios 5.8-14; João 9.1-41

Texto: Efésios 5.8-14

Tema: Passos de luz: a jornada da bondade, justiça e verdade


Você caminha?

Caminhamos em casa, no trabalho, pra ir até a escola. Muitos praticam caminhada como exercício. O fato é que todos nós caminhamos, pouco ou muito, as pessoas caminham.

A vida como caminhada.

Na carta de Paulo aos cristãos da Ásia Menor, em especial Efésios 5, é organizado em forma de parênese (exortação) destacando três “caminhadas”.

1andai em amor” (Ef 5.2);

2andai como filhos da luz” (Ef 5.8);

3vede cuidadosamente como andais” (Ef 5.15);

Nossa perícope é o recorte da segunda exortação: andai como filhos da luz!

Efésios é uma carta escrita em grego por um apóstolo que respira hebraico ao escrever essa carta. Dessa forma, os três convites de caminhada: “andai em amor” (Ef 5.2), “andai como filhos da luz” (Ef 5.8) e “vede cuidadosamente como andais” (Ef 5.15), transmitem a ideia da tradução do verbo hebraico halak (“andar”, ou seja, conduzir a vida diante de Deus).

Como posso conduzir minha vida diante de Deus?

Temos aqui um imperativo “andai como filhos da luz” seguido por um predicativo ético “o fruto da luz consiste em bondade, justiça e verdade”.

Bondade, justiça e verdade, resume toda a tríade bíblica: eu e o próximo; eu e Deus; eu e eu.

O tripé “bondade, justiça e verdade” (Ef 5.9) alinha-se à tríade sapiencial profética de ḥéṣed/ṣĕdāqāh/ʾĕmet (misericórdia, justiça, verdade (Mq 6.8; Sl 85.10-11).

Caríssimos irmãos, a graça de Deus transforma, ela não dá soberba pessoal. Muitas pessoas se dizem convertidas por serem isso e aquilo e apontam o dedo para outros que são isso e aquilo. Cuidado com a soberba espiritual pessoal.

Bondade é doar-se como o bom samaritano, justiça é tratar o próximo com equidade, verdade é rejeitar o erro, mas falar com graça e firmeza (Mq 6.8; Jo 1.14).

Andai como filhos da luz! Conduza a vida diante de Deus.

Andai verbo grego peripateite que traduz a vida inteira como um percurso. O apostolo Paulo indica que esse percurso é “em amor” assim “como Cristo… se entregou”.

Ao destacar a metáfora da luz e das trevas, o apostolo Paulo reflete as palavras do profeta Isaias: “o povo que andava em trevas viu grande luz” (Is 9.2) e “levanta-te, resplandece” (Is 60.1).

O chamado apostólico não é “faça diferente”, mas “seja quem você já é em Cristo”.

Continue caminhando nesse mundo, sendo luz, agindo com bondade, justiça e verdade. Nessa caminhada, o cristão foi colocado pelo Espírito Santo. Afinal, sem Cristo, se caminha “segundo o curso deste mundo... sem Deus no mundo” (Efésios 2.2; 2.12). Em Jesus Cristo, a graça irrompeu a escuridão e me colocou numa caminhada sob a luz: “o povo que andava em trevas viu grande luz” (Isaías 9.2); Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor” (Colossenses 1.13). Essa luz não é uma ideia, é uma pessoa: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8.12).

Observe que o apóstolo Paulo não diz “agora tendes luz”, mas “agora sois luz no Senhor”.

Andar na luz envolve comunhão e confissão.

Andar como filhos da luz é ser conduzido pelo Espírito Santo em três direções inseparáveis: bondade, justiça e verdade. Qualidades do próprio Deus, cujas obras enchem a terra de sua bondade (Salmos 33.5), cujos caminhos são justiça (Deuteronômio 32.4) e cuja palavra é verdade (João 17.17).

A vida como caminhada: O tripé da luz (bondade, justiça e verdade).

Bondade é a disposição generosa que se inclina ao bem do outro simplesmente porque Deus é bom (Salmos 119.68). É mais do que simpatia; é ação concreta. O bom samaritano cruzou a rua, reteve agenda e abriu a bolsa (Lucas 10.33–35). A fé que o Espírito produz se torna “fé que opera pelo amor” (Gálatas 5.6). Se a nossa bondade termina em nós, é vaidade; se aponta para Deus, é fruto do Espírito.

Bondade é a ação concreta do bom.

Justiça é o compromisso de tratar pessoas, palavras e recursos de acordo com o padrão reto de Deus. Ela começa no coração e se estende às relações, ao trabalho, às finanças e às causas públicas. O Evangelho nos liberta do egoísmo que supervaloriza meus direitos e minimiza os dos outros.

Verdade é a simplicidade sem máscara de quem anda na luz de Deus. Andar “na verdade” significa permitir que a Palavra nos meça e molde.

Verdade é uma vida sem máscaras.

Um detalhe que não pode passar despercebido: o apóstolo Paulo chama isso de fruto, não de performance. E fruto nasce de união: “sem mim nada podeis fazer” (João 15.5). É o Espírito Santo quem vivifica (Efésios 2.5) derrama o amor de Deus em nós (Romanos 5.5) e nos fortalece (Efésios 3.16).

O tripé, bondade, justiça e verdade nos protege de falsificações.

Bondade sem verdade vira sentimentalismo que aprova o que Deus reprova (Romanos 1.32).

Verdade sem bondade degenera em dureza farisaica (Mateus 23.23).

Justiça sem bondade e verdade pode se tornar milimétrica com o outro e complacente consigo (Mateus 7.1–5).

Vida cristã não é moralismo autopropulsor; é dependência diária. Andar como filho da luz é alimentar-se da luz todos os dias.

Palavra como lâmpada (Salmos 119.105);

Oração como respiração (Lucas 11.13);

Comunhão como estufa onde o fruto amadurece (Hebreus 10.24–25);

Andar como filhos da luz é estar diante de Deus.

Falar sobre os frutos e sobre o andar como filhos da luz, conduz muitas pessoas a exclamar: “vejo pouco desse fruto em mim”. A boa notícia é que Deus mesmo promete fazer do deserto um pomar (Isaías 32.15), por isso, nos planta “junto às águas” para que, no calor, a folha não murche e no ano de sequidão não deixe de dar fruto (Jeremias 17.7–8; Salmos 1.3). Apenas ande como filho da luz!

A vida cristã não é um evento estático, é um percurso constante.

A vida como caminhada.

Quem aqui caminha?

Apesar de todos caminharem, tenho observado que as pessoas caminham cada vez menos.

É sucesso não só entre os adolescentes, mas também os adultos, os patinetes. E o sucesso é pelo fato de oferecerem o que as pessoas querem: caminhar pouco.

O mesmo desejo de caminhar pouco se reflete na vida cristã. Meditação, oração, comunhão, são atividades pouco praticadas.

O apóstolo Paulo preocupava-se, pois, em Éfeso, uma cidade muito importante na época, reinavam espíritos da escuridão: ganância, mentira, injustiça, discriminação, libertinagem .... e ao exortar: desperta, o apóstolo enumera que algo estava progredindo terrivelmente e precisava parar. Por essa razão, o convite: “Desperta, tu que dormes…” (Ef 5.14). Essas palavras são eco das palavras do profeta Isaías 26.19; 60.1 que indicam algo que precisa ser interrompido.

A vida como caminhada.

É preciso andar!

O que fazer quando alguém está perdido e não tem como continuar? É preciso retornar ao início, de onde tudo partiu.

Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Efésios 5.14) são um mandamento e uma promessa!

O apostolo pinta o pecador como alguém dormindo e quando se dorme, coisas acontecem ao redor e nem se percebe (Ef 2.1-5). É tal como o profeta Jonas que dormia durante uma tempestade (Jn 1.5).

Para o pecador não resta apenas a escuridão, resta a promessa de que a luz será acessa.

Despertar significa admitir que o coração sem Deus não está neutro, está corrompido e incapaz de agradá-lo (Romanos 7.18; 1Coríntios 2.14).

Despertar é uma ação em passos concretos: confessar, romper com as obras infrutíferas das trevas, andar como filhos da luz (Efésios 5.8–11; 1João 1.7–9).

Desperta, tu que dormes!” é um chamado para interromper a negligência e a inércia das obras infrutíferas.

Se você percebe que tem “dormido”, não adie: “ainda por um pouco a luz está convosco; andai enquanto tendes luz… crede na luz, para que sejais filhos da luz” (João 12.35–36). Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 2 de março de 2026

Água viva para uma mulher sedenta

 08 de março de 2026

Terceiro domingo na Quaresma

Salmo 95.1-9; Êxodo 17.1-7; Romanos 5.1-8; João 4.5-26

Texto: João 4.5-26

Tema: Água viva para uma mulher sedenta

 

O evangelista João nos conduz a um encontro improvável: “Veio, pois, a uma cidade de Samaria chamada Sicar...” (Jo 4.5).

Jesus, judeu, fala com uma mulher samaritana, algo social, étnica e religiosamente improvável. No contexto do Dia Internacional da Mulher, este texto revela algo profundo: Cristo dignifica a mulher ao revelar-se a ela como o Messias. Não por mérito. Não por posição social. Mas por pura graça.

Deus escolhe o que é desprezado para revelar sua glória. O Evangelho não é recompensa para os fortes, mas consolo para pecadores.

          Dá-me de beber” (Jo 4.7).

Jesus inicia com um pedido. O criador pede água à criatura. Aqui vemos a humilhação do Filho de Deus.

O que temos aqui é a teologia da cruz. Deus se revela na fraqueza, não na aparência de glória. Cristo tem sede física, mas aponta para uma sede mais profunda: a sede da alma.

A mulher responde com surpresa: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim...?” (Jo 4.9). Ela vê divisões. Jesus vê necessidade.

No Dia Internacional da Mulher, lembramos que:

- Muitas mulheres carregam sede emocional, espiritual, social.

- Algumas vivem invisíveis.

- Outras carregam culpas secretas.

- Outras lutam para provar seu valor.

Jesus Cristo não começa com acusação. Jesus começa com convite: “Se conheceras o dom de Deus...” (Jo 4.10).

A Lei de Deus revelada em sua Palavra mostra a nossa sede. Todavia, o Evangelho de Jesus, oferece a água viva. E essa água viva não é conquista. É um dom oferecido gratuitamente por Jesus.

          Jesus ao oferecer a água viva aplica a lei ao dizer: “Vai, chama teu marido” (Jo 4.16). O intuito disso não era humilhar, afinal, essa mulher já havia tido cinco maridos e o atual não era seu marido. Jesus queria se revelar para ela.

          Ao lhe oferecer água viva, Jesus precisava dizer pra ela quem Ele era. Por isso, o diálogo sobre a sua vida moral era essencial. Afinal, a Lei expõe o pecado. O Evangelho consola o pecador. Sem Lei, não há sede. Sem Evangelho, não há esperança.

          O Dia Internacional da Mulher não é apenas celebração de força feminina. É também reconhecimento de:

feridas,

fracassos,

relacionamentos quebrados,

histórias difíceis.

          Você conhece alguma mulher que está sofrendo por um ou outro motivo? O que está fazendo? Espero que não seja você um causador dessa dor ou ferimento!

Observe que Jesus não ignora a verdade sobre a vida dessa mulher. Mas, não a abandona por causa dessa situação moral.

Jesus a conhece e Jesus permanece com ela, afinal, seu intuito é resgatar essa mulher. Caríssimo, infelizmente tenho observado algumas situações em que o homem tem se prevalecido e causado muitas dificuldades para mulheres. Também, há situações em que as mulheres têm abusado dos seus direitos e causados transtornos na vida de muitos homens.

Lembre-se: a dignidade cristã é ser conhecido plenamente e amado gratuitamente em Jesus Cristo.

          Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.26).

          Este é um dos momentos mais impressionantes do Evangelho: Jesus revela claramente sua identidade messiânica e o faz a uma mulher samaritana. Não aos fariseus. Não aos líderes religiosos.

No Dia internacional da mulher, isso ecoa poderosamente: a mulher, frequentemente marginalizada na história, é colocada aqui como primeira ouvinte explícita da auto-revelação messiânica de Cristo. Isso não é política moderna. É Evangelho eterno.

A identidade mais profunda da mulher cristã não está em papéis sociais, conquistas ou reconhecimento humano, mas em ser destinatária da graça de Cristo. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

O deserto interior: quando o coração coloca Deus no banco dos réus!

 08 de março de 2026

Terceiro domingo na Quaresma

Salmo 95.1-9; Êxodo 17.1-7; Romanos 5.1-8; João 4.5-26

Texto: Salmo 95.1-9

Tema: O deserto interior: quando o coração coloca Deus no banco dos réus!

 

          No Salmo 95 é o texto litúrgico mais famoso sobre Massá (Ler o Salmo 95).

          Davi, a quem esse Salmo é atribuído, transforma o evento geográfico em Refidim para advertir sobre a postura do coração (Sl 95.8-9).

          O problema em Massá não foi a sede, mas o fechamento da mente. O povo viu os milagres no Egito e no Mar Vermelho, mas se recusaram a crer que Deus estava de fato com eles. Por descrença deixaram de descansar em Deus.

          O Salmo 95 começa com um toque de trombeta para a adoração: “Vinde, cantemos ao Senhor!” (Sl 95.1), mas termina com um trovão de advertência. Spurgeon diria que a adoração que agrada a Deus não é apenas o som dos lábios, mas submissão a sua vontade. Davi nos transporta de volta ao deserto, não para nos ensinar geografia, mas para nos mostrar a anatomia da queda humana.

          O Salmo 95 é um convite que termina em um lamento; uma festa que termina em um funeral. Ele começa com o coro dos remidos exultando em Deus, a Rocha da nossa salvação, mas termina com a voz solene do próprio Deus jurando em sua ira devido a incredulidade. Um incrédulo é como um cadáver diante de Deus.

O salmista Davi, para quem se atribui esse Salmo, nos leva de volta a Massá e Meribá, não para uma lição de história, mas para um exame de cardiologia espiritual. O salmista nos mostra que o maior deserto não estava sob os pés dos israelitas, mas dentro deles.

Não sejam teimosos, como os seus antepassados foram em Meribá, quando estavam em Massá, no deserto” (Sl 95.8).

A incredulidade torna o coração como uma estrada batida pelo pecado, onde nada penetra e nada brota.

O povo não pecou por sentir sede (uma necessidade legítima), mas por transformar a sede em uma arma contra a soberania de Deus. O problema nunca é a circunstância difícil, mas o que fazemos com ela. Massá é o lugar onde o homem coloca Deus no banco dos réus.

Por causa da natureza pecaminosa, somos um solo rebelde. A sede do povo no deserto não foi o grave problema. Sempre há pessoas amadas por Deus passando por dificuldades. O problema do povo foi a exigência em forma de intimação.

Caríssimo irmão e irmã no Senhor: o endurecimento do coração começa quando paramos de ver Deus como um Pai amoroso e passamos a tratá-lo como um servo que deve satisfazer nossos caprichos.

O povo de Deus fechou sua mente para Deus. Voltando a frase de Spurgeon, destaco que tal como o barro que endurece no sol, quando resistimos a verdade da Palavra de Deus, o ser humano vai se tornando impenetrável pela verdade.

Ali eles me puseram à prova e me desafiaram, embora tivessem visto o que eu havia feito por eles” (Sl 95.9).

Spurgeon sempre fazia uma observação em seus sermões dizendo: “o mesmo sol que derrete a cera, endurece o barro”. O povo viu o Mar Vermelho se abrir, mas o milagre de ontem não alimentou a fé de hoje.

Observem o paradoxo da incredulidade. O mesmo povo que teve o Mar Vermelho diante dos seus olhos e uma magnifica libertação, agora estava em Maná, e seus estômagos influenciaram em sua mente alimentando a dúvida sobre o amor e a fidelidade de Deus para com eles.

Lembre-se: milagres não convertem ninguém. Se o coração está decidido a não crer, ele verá a mão de Deus e a chamará de “coincidência”, “sorte”, “destino”.

A incredulidade é voluntária, por isso é condenatória. Ela não é decorrente de um não desejo de Deus em não escolher. Àquele povo viu maravilhosas obras divinas, mas se recusaram a conhecer o “Caminho” (Sl 95.10). Eles queriam as mãos de Deus, ou seja, a provisão, mas recusavam seu coração a Deus, manter a comunhão com Deus.

Esse povo sobre quem o salmista escreve viu a obra de Deus, esse povo conhecia os caminhos de Deus (Sl 95.10).

Ao fazer esse destaque o salmista deseja nos lembrar que conhecer as obras de Deus é saber o que Ele faz. Conhecer os caminhos de Deus é saber quem Ele é.

A incredulidade do povo deve-se justamente ao fato de duvidarem sobre quem Deus é. Quem é Deus? Responder essa questão quando tudo está bem é uma coisa. Agora, responder essa pergunta quando tudo está ruim, é outra coisa.

O povo de Deus, aproveitando-se da sede, se deixaram levar pela conclusão de que Deus os havia levado até o deserto para matá-los. E isso foi um insulto a graça de Deus. Esse povo ousou medir a infinitude do amor de Deus pela finitude da sede.

Fiquei irado e fiz este juramento: ‘Vocês nunca entrarão na Terra Prometida, onde eu lhes teria dado descanso” (Sl 95.11; Hb 3.7-11).

A incredulidade não traz apenas consequências eternas. Na verdade, a incredulidade traz agitação presente. Quem não confia, não descansa. Quem não acredita, semeia dúvidas para outros.

O povo de Deus vagou por quarenta anos num deserto que em poucos dias poderiam ter atravessado. A incredulidade tornou o caminho mais longo. O descanso foi adiado.

O descanso de Deus é o que o apostolo Paulo escreveu aos Filipenses: a paz que excede todo entendimento.

A incredulidade é a prisão com grades de ansiedade. A incredulidade é a algema que nos mantém no deserto da preocupação. E para isso, temos a resposta de Jesus, que ao vencer o tentador disse o que Moisés interpretou sobre esse episódio: nem só de pão viverá o homem.

O castigo é a própria incredulidade. Quem não crê se condena a uma vida de agitação eterna. O “descanso” em Canaã era um símbolo do descanso da alma em Cristo.

          Da parte de Deus existe uma urgência do hoje. O salmista enfatiza: “Escutem hoje o que ele nos diz” (Sl 95.7). O amanhã é o período em que os tolos se perdem. A graça rejeitada hoje torna o coração mais duro para o convite de amanhã.

          O apóstolo Paulo ao escrever aos Coríntios (1Co 10.4) enfatiza que a rocha ferida em Massá, da qual saiu água, era figura de Cristo. Enquanto o povo murmurou contra a rocha, a rocha ferida, Cristo, os iria salvar.

          Caríssimo irmão e irmã no Senhor: não permita que as dificuldades, tragédias, situações adversas, feche a sua mente para a fidelidade e o amor de Deus em Cristo. A adoração a Deus é realizada por àquilo que Ele é.

          A rocha que foi ferida em Massá é a rocha ferida no Calvário. Da rocha em Massá saiu água para saciar a sede de um povo rebelde. Da rocha, Jesus Cristo, sai sangue e água para lavar o pecado do maior dos rebeldes.

          Jesus Cristo é o meu verdadeiro descanso. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O encontro que divide a eternidade.

 01 de março de 2026

Segundo domingo na Quaresma

Salmo 121; Gênesis 12.1-9; Romanos 4.1-8,13-17; João 3.1-17

Texto: João 3.1-17

Tema: O encontro que divide a eternidade.

 

          Nicodemos não era um homem comum. Ele era a elite da religião, da moral e do intelecto. Ele tinha currículo, tinha respeito e tinha a Lei de Moisés. Mas, sob o manto da noite, ele carregava algo que o status não podia preencher: um vazio inquietante.

          Nicodemos chega com elogios: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo de Deus”. Ele busca estabelecer um diálogo intelectual, todavia, Jesus o interrompe. Jesus não quer o seu reconhecimento acadêmico, Jesus quer o novo nascimento. Jesus diz que ver o Reino de Deus não depende de esforço, mas de origem.

          A pessoa pode ser um mestre na igreja, um dizimista fiel e um cidadão exemplar, mas se não nascer de novo, continuará cego para as coisas de Deus. A moralidade sem novo nascimento é apenas um cadáver perfumado perambulando por aí.

          Nicodemos pergunta: “Como pode um homem nascer, sendo velho?”. Ele, tão sábio pensa no físico; mas Jesus fala do espiritual.

          Em janeiro de 1995, McArthur Wheeler e seu comparsa decidiram roubar dois bancos em Pittsburgh. Sem máscara, sem disfarce e confiando cegamente em um truque absurdo, eles acreditavam que não seriam identificados. A estratégia? Passar suco de limão no rosto para ficarem invisíveis.

          Wheeler baseou-se na ideia de que o limão pode ser usado para escrever mensagens invisíveis. O problema é que ele interpretou isso de forma literal. Depois de cobrir o rosto com o suco ácido, tirou uma foto com uma Polaroid para testar a eficácia do método. Como não conseguiu se ver na imagem, achou que estava pronto para agir. No entanto, é provável que a foto tenha saído errada ou que ele simplesmente não tenha conseguido enxergar direito.

          Quando foi preso, Wheeler ficou em choque ao descobrir que as câmeras captaram tudo. “Mas eu passei suco de limão em mim mesmo!”, exclamou, sem entender o que deu errado. O plano não só falhou, como ainda deixou seu rosto queimado e seus olhos irritados. A polícia não teve nenhum trabalho para identificá-lo.

          O caso chamou a atenção dos pesquisadores Justin Kruger e David Dunning que estudaram o fenômeno e chegaram a uma conclusão intrigante: pessoas com baixo conhecimento em determinada área tendem a superestimar suas habilidades.

          Esse efeito psicológico, batizado de Efeito Dunning-Kruger, mostra como a confiança excessiva pode levar a erros catastróficos.

          Assim foi com Nicodemos. Cego por sua suposta inteligência não conseguia captar as palavras de Jesus sobre o nascer de novo.

          Assim como o vento sopra onde quer, o Espírito sopra sobre quem Ele quer. Você não controla a Deus. O novo nascimento não é uma decisão administrativa da mente humana, é um milagre de Deus na alma.

          Jesus recorda a Nicodemos a história da serpente de bronze no deserto (Números 21). O povo estava morrendo pelo veneno da desobediência e a cura não veio de remédios humanos, mas de olhar para o alto. E assim como a serpente foi erguida no deserto, Cristo seria erguido na cruz.

          O veneno é o pecado que causa a morte eterna e o antidoto é a cruz. Não se trata de “tentar mais”, trata de “crer Naquele que foi levantado”.

          Jesus fala para Nicodemos sobre a fonte, o alcance e o propósito de sua obra (Jo 3.16). Observe que a salvação é para todo que crê e não apenas aos que Deus supostamente escolheu.

          A fonte é o amor de Deus. O alcance é o mundo. O propósito é a vida eterna.

          Nicodemos veio à noite. Afinal, tinha uma posição religiosa para preservar. Sua religiosidade estava baseada nas regras e aparências. No entanto, enquanto Jesus lhe falava, o Espírito Santo soprava sobre ele. Quando a Palavra de Deus é pregada, o Espírito Santo sopra sobre as pessoas. E os que rejeitam essa Palavra, correm o perigo de perder uma oportunidade valiosa.

O termo grego anothen (Jo 3.3) deve ser traduzido primariamente como “do alto”.

O novo nascimento não é apenas um “recomeço” (sentido temporal), mas uma mudança de origem (sentido espacial/espiritual).

Nicodemos era um mestre em Israel, mas Jesus o confronta com o fato de que nada que venha da “terra” (esforço, lei, rito) pode produzir o Reino. O novo nascimento vem de Deus, pelo poder do Espírito Santo. O homem é puramente passivo nesse ato, assim como um bebê não escolhe nascer fisicamente, a alma é regenerada pela ação do Espírito Santo.

          Jesus não está falando de duas coisas diferentes, mas de um único meio através do qual o Espírito opera pela Palavra. A água é o elemento visível, e o Espírito é o poder invisível.

A religião de Nicodemos era baseada em “fazer”. Jesus apresenta o “receber”. O novo nascimento é o “meio da graça” que Deus usa para implantar uma nova natureza no pecador que precisa ser alcançado pelo Espírito Santo para ser salvo.

          Caríssimo irmão e irmã na fé, não existe evolução espiritual para o homem natural. A carne não pode ser “treinada” ou “melhorada”, é preciso ser substituída por uma nova criação. E essa nova criação se dá pela Palavra e Batismo.

          Pare de tentar “reformar” sua vida velha. Ela está morta para Deus. Você precisa de uma vida que não é sua, mas de Cristo em você. E para isso, o Espírito (o Pneuma) é livre. Ouvimos o “som” (a pregação da Palavra), mas não controlamos o destino do vento.

          Conversão não é um processo mecânico que o homem manipula com “orações decididas” ou fórmulas. A conversão é o sopro livre de Deus sobre a pessoa por sua Palavra.

          É difícil para o ser humano compreender que Deus amou o mundo não porque o mundo fosse “amável”, mas porque Deus decidiu, em sua vontade, salvar o que estava perdido. Nicodemos estava enclausurado, vivendo como se ele precisasse se fazer amado por Deus e Jesus lhe diz que o amava sem que ele merecesse.

          O sacrifício de Jesus Cristo é a prova de que o amor de Deus é uma ação histórica e concreta. Ele “deu”, um ato único e definitivo na cruz, para que a morte fosse vencida pela vida eterna.

O encontro de Nicodemos termina com um convite ao olhar da fé. Assim como os israelitas olhavam para a serpente de bronze e viviam, somos lembrados que a fé não é uma “obra” que fazemos para ganhar a salvação, mas o olho que se abre para ver o Salvador já levantado na cruz e que a venceu.

Saia das sombras da sua própria justiça, como Nicodemos, e olhe para o Cristo levantado na cruz. Diante da Palavra temos o encontro que divide a eternidade Amém

Edson Ronaldo Tressmann

Quando Cristo chama, até os mortos vivem

  22 de março de 2026 Quinto Domingo na Quaresma Salmo 130; Ezequiel 37.1–14; Romanos 8.1–11; João 11.1-45 Texto: João 11.1–45 Tema...