18 de outubro 2026
Próprio
24 – Vigésimo Primeiro Domingo após Pentecostes
Salmo
96.1-9; Isaías 45.1-7; 1Tessalonicenses 1.1-10; Mateus 22.15-22
Tema: A
moeda e a alma: a quem pertence o seu coração?
Nas
oficinas da Roma Antiga, quando um mestre artesão terminava de fundir uma moeda
ou esculpir um monumento, ele cravava nele a eikōn,
a imagem e a inscrição do imperador. Aquele pedaço de prata deixava de ser
apenas metal bruto; tornava-se propriedade legal do Império. Onde quer que
circulasse, aquela imagem dizia sem palavras: “Isto
pertence a César”.
Se
pegássemos hoje a sua carteira, o seu extrato bancário, o seu histórico de
buscas no celular ou a sua agenda da semana... de
quem é a imagem que veríamos gravada ali?
Vivemos
em uma era em que impérios políticos, ideologias sedutoras e mercados
econômicos disputam incansavelmente a nossa atenção e a nossa fidelidade. Eles
reclamam o nosso voto, o nosso consumo, o nosso tempo e o nosso medo. Prometem
segurança, mas cobram em troca o bem mais valioso de um ser humano: a sua adoração.
A
pergunta bíblica para o dia de hoje não é sobre quanto imposto devemos pagar,
nem sobre qual sistema de governo é perfeito. A pergunta que ressoa das páginas
de Isaías a Mateus é direta, penetrante e inadiável: a quem pertence, afinal, o seu coração?
Na
crise do Exílio, no século VI a.C., Israel olhava para as muralhas de Babilônia
e via um império inabalável. No entanto, o Deus de Israel faz algo que chocou a
teologia da época. O profeta Isaías, no capítulo 45 destaca que o Senhor toma
pela mão direita um rei pagão chamado Ciro, da Pérsia, e o chama de mashiach, o seu “ungido”
(Is 45.1). Essa é a única vez no Antigo Testamento em que um imperador pagão
recebe este título.
Ciro
marchava sobre as nações achando que sua força militar e suas estratégias
políticas eram as responsáveis por suas vitórias. Contudo, Deus declara: “Eu te cingirei, ainda que tu não me conheças”
(Is 45.5).
Ciro
pensava ser o dono da história, mas era apenas um instrumento temporário nas
mãos do soberano do universo. Nenhuma autoridade política governa de forma
autônoma. Impérios nascem e desmoronam, superpotências entram em colapso, mas o
trono do Altíssimo permanece inabalável.
O
Salmo 96 convida a rir da soberba dos impérios humanos. O salmista faz um jogo
de palavras cortante entre Elohim (o
Deus Criador) e os elilim (os deuses
das nações). Elilim significa
literalmente “coisas sem valor”, “sopros”, “sopas de
vento” ou “nada”.
Render
culto a líderes políticos, filosofias de estimação ou ao acúmulo de riquezas é
prostrar-se diante do nada. Por três vezes o salmista ordena: “Atribuí ao Senhor glória e força; trazei ofertas e
adorai-o na beleza da sua santidade” (Sl 96.7-9). A nossa lealdade
suprema tem um único endereço.
Chegamos
ao Templo de Jerusalém, na Semana Santa (Mateus 22.15-22). Uma aliança bizarra
se forma, os fariseus (nacionalistas e anti-romanos) unem-se aos herodianos
(aristocratas e colaboradores de Roma). Eles não se suportavam, mas o ódio
comum por Jesus os uniu para armar uma armadilha perfeita: “É lícito pagar imposto (kēnsos) a César ou não?”
Se
Jesus dissesse sim,
seria rotulado como traidor do povo, conspirador pro-romano e profeta falso aos
olhos da multidão oprimida. Se Jesus dissesse não, os herodianos o denunciariam imediatamente ao
governador Pôncio Pilatos como um rebelde sedicioso e inimigo de Roma.
A
resposta de Jesus, porém, destrói a cilada com uma simplicidade avassaladora.
Ele diz: “Mostrai-me a moeda do imposto”.
Eles
lhe entregaram um denário de prata. Aquela moeda trazia gravado o rosto do
imperador Tibério e as inscrições sacrílegas: “Tiberivs
Caesar Divi Augusti Filius Augustus” (Tibério César, Filho do Divino
Augusto) e, no verso, “Pontifex Maximus”
(Sumo Sacerdote). Para um judeu fiel, carregar aquilo era transportar uma
blasfêmia esculpida no bolso.
Jesus
olha para a prata e pergunta: De quem é esta
imagem (eikōn) e inscrição
(epigraphē)? Eles respondem: “De César”.
E a resposta de Cristo entra para a história da humanidade: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de
Deus” (Mt 22.21).
Jesus
usou o verbo apodo-te, que significa devolver, restituir. A
moeda traz impressa a eikōn de César! Pertence ao sistema econômico de
César! Então, devolvam a ele a prata de seu império civil.
Mas e a Deus? O que devemos devolver a Deus?
Onde está gravada a eikōn, a imagem de Deus?
Não
no metal, nem na prata, nem no ouro. Em Gênesis 1.26-27, a Bíblia declara que a
Imagem de Deus (imago Dei) foi gravada na alma humana.
A
distinção de Jesus é revolucionária. César tem o direito civil de cobrar taxas
para manter estradas e a ordem pública. Mas César jamais terá o direito de reivindicar a sua
consciência, o seu culto, a sua moral, o seu futuro ou o seu coração. O Estado pode pedir a sua moeda, mas
só o Deus Criador pode requerer a sua vida.
Quando
você pega um livro emprestado em uma biblioteca pública, a capa traz um carimbo
informando a quem a obra pertence. Se você rabiscar as páginas ou tentar
vendê-lo, estará violando os direitos do proprietário. O denário carregava a
marca de César, e Jesus disse: restitua-o ao seu dono. Mas no fundo da sua
consciência, no tecido da sua existência, existe o carimbo indelével do
Criador: “Propriedade Exclusiva de Deus”.
Quando entregamos o nosso coração a ideologias políticas, paixões gananciosas
ou ao medo, estamos tentando entregar ao imperador aquilo que traz o selo de
Deus!
Em
1Tessalonicenses 1, o apóstolo Paulo escreve a uma igreja jovem situada na
capital da província romana da Macedônia. Tessalônica era um polo comercial
fervilhante, repleto de templos dedicados ao culto imperial e a divindades
pagãs como Cabiro e Dionísio. Adorar a César e aos deuses locais era o
requisito para ter sucesso social e comercial. Mas Paulo comemora a mudança
radical daquela comunidade: “Pois eles mesmos
relatam de que maneira nos acolhestes e como vos convertestes dos ídolos a
Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro, e esperardes dos céus o seu
Filho” (1Ts 1.9-10).
Os
cristãos de Tessalônica entenderam perfeitamente a mensagem de Mateus 22. Eles
continuaram sendo cidadãos trabalhadores e pagando seus impostos, mas
recusaram-se a queimar incenso nos altares de César. Eles demonstraram a obra
da fé, o trabalho do amor e a firmeza da esperança (1Ts 1.3).
A
conversão autêntica exige uma mudança de lealdade, significa abandonar os
ídolos do nosso tempo para servir de todo o coração ao Deus Vivo.
Irmãos
e irmãs, não entre em desespero diante dos cenários turbulentos do mundo
moderno. Governos sobem e caem, moedas se desvalorizam, impérios nascem e
desaparecem, mas o Deus de Isaías 45 continua assentado no trono. Os
governantes das nações são apenas atores temporários no palco sob o controle do
Deus Altíssimo.
A
moeda de prata levava a efígie de César e voltou para as mãos de César. Mas você carrega em sua alma a
imagem e a semelhança do Deus vivo. Por isso, nenhuma ideologia política
tem o direito de ser o seu senhor absoluto. Nenhuma ambição financeira tem o
direito de comprar a sua integridade ou a sua consciência. Nenhum império
humano ou promessa terrena tem o direito de receber a sua adoração.
Devolva
a César a moeda que é dele, mas entregue o seu coração, a sua vida inteira e a
sua adoração eterna àquele a quem você verdadeiramente pertence, ao Senhor
vosso Deus! Amém.
Edson
Ronaldo Tressmann
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