terça-feira, 4 de agosto de 2026

Quando a voz de Cristo vence o medo!

 09 de agosto de 2026

Próprio 14 – Décimo Primeiro Domingo após Pentecostes

Salmo 18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33

Texto: Mateus 14.22-33

Tema: Quando a voz de Cristo vence o medo!

 

Você já viu seu pai com medo? Imagine um homem sentado sozinho dentro do carro, depois de um dia difícil. Ele respira fundo. Olha para o celular. Uma mensagem sobre o filho. Uma conta que ainda não sabe como vai pagar. Uma preocupação com a família. Uma conversa que ficou mal resolvida. Um medo que ele não contou para ninguém. Então ele desliga o carro, enxuga o rosto e entra em casa.

Existem tempestades que ninguém vê. Existem homens que aprenderam a consertar coisas, pagar contas, trabalhar, proteger a família, resolver problemas... mas nunca aprenderam a dizer: eu estou com medo.

Além dos pais, existem filhos que carregam tempestades que ninguém percebe. Saudade, ausência, mágoas, palavras que nunca foram esquecidas, a vontade de ter tido um pai diferente. Ou simplesmente a dor de perceber que o pai que ama também é um homem limitado, imperfeito e cheio de lutas.

Talvez por isso o Evangelho de hoje seja tão atual.

O evangelista Mateus nos leva para dentro de uma tempestade. O vento soprava contra o barco. As ondas batiam com força. Homens experientes estavam remando. Mas não conseguiam avançar. Eles estavam fazendo tudo o que sabiam fazer e, mesmo assim, estavam afundando. Essa possivelmente é uma das experiências mais difíceis da vida: quando fazemos tudo o que conseguimos e ainda assim não conseguimos controlar o que está acontecendo. Naquela noite os discípulos descobriram que há tempestades que são maiores do que a nossa experiência. É aí que o Evangelho começa a falar conosco.

O Evangelho de hoje nos conduz para dentro de uma noite escura no mar. Ali descobrimos algo decisivo, Cristo não abandona seu povo nas águas.

          O “...barco já estava no meio do lago. E as ondas batiam com força no barco porque o vento soprava contra ele” (Mt 14.24), a expressão βασανιζόμενον ὑπὸ τῶν κυμάτων, literalmente significa “atormentado pelas ondas”.

Desde os Pais da Igreja o barco frequentemente simboliza a Igreja atravessando o mundo cercada por perigos. A igreja continua sendo “açoitada” por divisões, vícios, frieza espiritual, ansiedade, pressões econômicas, afastamento da fé.

Gostamos de acreditar que conseguimos resolver tudo. “Eu dou conta”; “Eu sei o que fazer”; “Eu já passei por isso antes”; “Eu consigo”; mas chega um momento em que não adianta já ter passado por isso ou aquilo e é justamente aí que Deus nos ensina que a nossa segurança não está na força que temos, mas naquele que está conosco.

Há tempestades que nos deixam cansados.

          Lutero dizia que Deus frequentemente conduz o cristão ao limite de suas forças para ensinar que a preservação da vida depende da graça e não do poder humano. Porque enquanto tudo vai bem, o homem confia em si mesmo, mas é no meio das tempestades que aprendem a clamar.

          Já de madrugada, entre as três e as seis horas, Jesus foi até lá, andando em cima da água” (Mt 14.25).

Jesus chega quando estamos no limite.

Perceba o horário. Era de madrugada, era o momento mais escuro. Os discípulos estavam cansados, pois tinham passado horas lutando contra o vento. E é justamente nesse momento que Jesus aparece.

Isso ensina que o silêncio de Deus não significa seu abandono.

Às vezes pensamos: “Deus se esqueceu de mim”; “Deus não está vendo”; “Por que Ele não faz alguma coisa?”; mas o fato de você não perceber, não significa que Deus não esteja trabalhando.

Jesus estava longe dos olhos dos discípulos, mas não estava longe deles. Isso também acontece conosco. Há momentos em que não conseguimos enxergar a presença de Deus, mas Ele continua presente.

A fé não depende daquilo que os nossos olhos conseguem enxergar. A fé depende daquilo que Cristo prometeu. Por isso, Romanos 10.17 diz: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo”.

Isso é muito importante. A fé não nasce porque a vida ficou fácil. A fé nasce quando Cristo fala.

          A fé dos discípulos não seria sustentada se o mar estivesse tranquilo, a fé é sustentada pela voz do Senhor. Isso também vale para nós. A fé não é sustentada pela estabilidade financeira, pelo sucesso dos filhos, pela ausência de problemas. A fé é sustentada pela Palavra de Cristo.

          Ao verem Jesus andando sobre o mar, os discípulos gritam de medo e pensam estar vendo um fantasma.

O coração humano, devido sua natureza pecaminosa, frequentemente interpreta a presença de Deus como ameaça quando ainda não reconhece sua voz.

No meio do medo, Jesus fala: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo!” (Mt 14.27).

Quando se ouve Jesus Cristo falar: “Sou eu”, ἐγώ εἰμι, “EU SOU”, não se trata apenas de uma identificação. Há um eco claro do nome divino revelado no Antigo Testamento. Ou seja, o Senhor que andou sobre as águas é o próprio Deus encarnado que anteriormente havia se revelado a Moisés na sarça ardente.

O Senhor está no meio da tempestade. E há algo muito bonito nessa cena. Jesus não acalma primeiro o mar para depois falar. Primeiro Ele fala, depois vem a paz. Isso é fundamental para a vida cristã. Temos aqui o centro de Romanos 10.17 onde a fé nasce quando Cristo fala.

Muitas vezes, queremos que Deus mude as circunstâncias para então conseguirmos ter paz. Todavia, Jesus em muitas situações faz o contrário. Primeiro Ele nos dá a sua Palavra no meio das circunstâncias para crermos que Ele vem ao nosso encontro.

          A tempestade, o vento e as ondas podem continuar, mas, se a Igreja é o barco, nesse barco existe uma Palavra, a Palavra de Deus. Essa Palavra muda tudo. No entanto, é preciso observar que Pedro anda sobre as águas, mas também tem medo.

Ao ouvir a Palavra de Jesus, Pedro exclama: “Senhor, se é o senhor mesmo, mande que eu vá até aí andando em cima da água”. Jesus responde: “Venha!

Pedro sai do barco e acontece algo extraordinário. Ele anda sobre as águas. Contudo é preciso observar que enquanto Pedro olha para Jesus, ele caminha seguramente, mas, a força do vento, as ondas, a tempestade, faz Pedro deixar de olhar para Jesus Cristo.

Isso é muito parecido com o que acontece conosco. Passamos muito tempo olhando para o tamanho dos problemas, das notícias, dos conflitos, nos sentimos fracos e julgamos não conseguir controlar e assim deixamos de olhar para Jesus Cristo e o medo nos paralisa.

Pedro acreditava, tinha fé, tanto que ouviu o convite de Jesus sobre vir e foi, mas Pedro também teve medo. Isso é muito importante. Ter fé não significa nunca sentir medo.

Muitos cristãos também têm fé e sentem medo. Um pai cristão pode confiar em Deus e ainda assim chorar, orar e continuar preocupado, conhecer a Palavra e, mesmo assim, passar por noites de angústia. Isso não significa que a fé desapareceu, significa que somos seres humanos pecadores.

          Enquanto os olhos de Pedro permaneceram fixos em Cristo, ele caminhava sobra as águas, em meio ao vento e a tempestade. Entretanto, Mateus narra que “...quando sentiu a força do vento, ficou com medo e começou a afundar” (Mt 14.30). Nossos olhos naturais, devido a natureza pecaminosa, muitas vezes desviam o olhar de Jesus Cristo. É preciso relembrar as palavras do apostolo Paulo aos coríntios: “Porque vivemos pela fé e não pelo que vemos” (2Co 5.7).

Caríssimos irmãos, enquanto nossos olhos estão voltados para Jesus Cristo, caminhamos seguramente sobre aquilo que naturalmente nos destruiria.

A fé sempre está misturada com a fraqueza decorrente do pecado. Pedro realmente crê, mas também teme e assim somos nós. Pais cristãos querem confiar, querem conduzir a família, querem permanecer firmes, mas frequentemente sentem a força contrária, O medo e o desespero em muitas situações os levam ao naufrágio, pois deixam de olhar para Cristo.

O fato é que muitas vezes, queremos, assim como Pedro ter uma certeza de que é a Palavra de Deus e pedimos para ir até Cristo. Mas, somos constantemente impedidos de seguir em direção a Cristo e quando naufragamos, Jesus vem ao encontro e novamente nos alcança. A nossa esperança nunca esteve na perfeição da nossa fé. A nossa esperança está em Cristo.

          Quando Pedro afunda, Jesus estende a mão.

Ao perceber que estava afunadando, Pedro faz uma oração de apenas três palavras: Senhor, salva-me!No grego, Κύριε, σῶσόν με!

Que oração simples. Não houve discurso. Não houve explicação. Não houve tentativa de mostrar força. Pedro simplesmente reconheceu que não consigo se salvar. Imediatamente Jesus estendeu a mão.

Aqui está o coração do Evangelho. Pedro não foi salvo porque teve uma fé perfeita. Pedro foi salvo porque Jesus é um Salvador perfeito.

Não foi a mão de Pedro que segurou em Jesus. Foi a mão de Jesus que segurou Pedro. Essa diferença é fundamental e isso traz enorme consolo para nós.

Pais imperfeitos, mães imperfeitas, filhos imperfeitos, famílias imperfeitas, cristãos imperfeitos. Não somos salvos porque conseguimos fazer tudo certo, somos salvos porque Cristo nos alcança por sua Palavra, cuidado e promessa.

Quando você não sabe mais o que dizer, Cristo continua sendo seu Salvador.

A salvação não repousa na perfeição da fé, mas no objeto da fé que é Cristo. Nossa esperança não está na perfeição humana, está em Cristo.

          Mateus narra que quando Jesus entrou no barco “vento se acalmou” (Mt 14.32) e então os discípulos adoram dizendo “De fato, o senhor é o Filho de Deus!” (Mt 14.33).

A tempestade termina em adoração. O milagre não é apenas demonstração de poder, é revelação de quem Jesus é. Jesus não é apenas um mestre moral, não é apenas um profeta, Jesus é o Filho eterno de Deus que domina o caos, o mar, o medo, o pecado, a morte. E é exatamente por isso que sua Palavra cria fé.

Na carta aos Romanos (Rm 10.17), o apostolo Paulo não fala de qualquer palavra religiosa. Fala da Palavra de Cristo. A fé nasce porque o próprio Cristo vem ao encontro de pecadores através da sua Palavra. Por isso podemos confiar nele.

Pais não precisam ser heróis.

Hoje é Dia dos Pais e vivemos numa época em que os homens são forçados a “serem forte o tempo todo”; “não demonstrar medo”; “ter que resolver tudo”; “dar conta de tudo”; e o Evangelho mostra Pedro afundando no meio do mar por causa do medo.

Pai, aprenda a gritar: Senhor, salva-me!Essa é uma das maiores lições para um pai cristão: Você não precisa ser um herói. Você precisa saber para quem clamar.

Um pai cristão não é aquele que nunca enfrenta tempestades. É aquele que, no meio da tempestade, ensina sua família a ouvir a voz de Jesus. afinal, chegará o dia em que o dinheiro, a experiência e as forças não serão suficientes. Os conselhos não irão satisfazer e tudo que nossos filhos precisarão saber é que soubemos clamar para Jesus.

A maior herança que um pai pode deixar aos seus filhos não é uma conta bancária, uma casa, um carro, um sobrenome famoso. A maior herança é ensinar os filhos a ouvir a voz de Cristo e clamar a ele nas horas difíceis.

Queridos irmãos, o barco continua atravessando mares difíceis. A igreja e a família continuam enfrentando ventos contrários. Não obstante, o centro do Evangelho não é o tamanho da tempestade, é a presença de Cristo e sua Palavra.

Cristo ainda vem ao nosso encontro. Ele vem através da sua Palavra, do Batismo, da Absolvição, da Santa Ceia. Jesus continua estendendo suas mãos para pecadores cansados e assustados dizendo: Sou eu. Não tenham medo”.

A Igreja e a família aprendem no meio do temporal aquilo que nunca aprenderiam num mar tranquilo: “De fato, o senhor é o Filho de Deus!” (Mt 14.33). Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

quinta-feira, 30 de julho de 2026

“Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre” (Sl 136.1)

 Reflexão sobre o Salmo 136.1-9

Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre (Sl 136.1)

 

Este versículo resume toda a história da salvação. Não é apenas um convite à gratidão, mas uma confissão de fé baseada naquilo que Deus é e no que Ele faz.

הוֹדוּ (hôdû), “Deem graças

O verbo vem da raiz יָדָה (yādāh) tem um significado muito mais amplo do que simplesmente “agradecer”. Pode significar, confessar; reconhecer publicamente; louvar; admitir a verdade.

Esse é o verbo usado tanto para confessar pecados (Lv 5.5), quanto confessar a grandeza de Deus (Sl 32.5; Sl 106.1). A verdadeira gratidão nasce da confissão.

Primeiro reconheço quem eu sou e depois reconheço quem Deus é. Não existe verdadeira adoração sem verdadeira confissão.

            לַיהוָה (laYHWH), ao SENHOR

Não é um deus qualquer, é o Deus da Aliança. O nome YHWH recorda Êxodo 3, onde Deus disse “EU SOU O QUE SOU”.

Sempre que Israel ouvia esse nome lembrava-se da libertação do Egito; da aliança; da fidelidade divina; das promessas.

O convite à gratidão está fundamentado na identidade de Deus.

כִּי־טוֹב (kî-ôv), porque Ele é bom”. טוֹב (ôv), não significa apenas “bonzinho”. É uma palavra extremamente rica e pode indicar, bondade moral; perfeição; beleza; benefício; aquilo que produz vida. É a mesma palavra usada em Gênesis 1, “E Deus viu que era bom”.

Dessa forma, quando o salmista afirma que “YHWH é bom”, está dizendo que Ele continua sendo o Deus Criador que produz vida, ordem e bênção. Sua bondade não depende das circunstâncias, faz parte da sua natureza.

חֶסֶד (esed). A palavra mais importante do versículo.

A palavra hebraica חֶסֶד (esed) é uma das mais importantes do Antigo Testamento e uma das mais difíceis de traduzir por um único termo. Dependendo da versão da Bíblia, aparece traduzida como misericórdia, benignidade, amor leal, amor fiel, graça, bondade, fidelidade ou amor constante.

O substantivo חֶסֶד (esed) ocorre cerca de 245 vezes no texto hebraico do Antigo Testamento. Há pequenas diferenças de contagem entre edições críticas e programas de pesquisa bíblica, mas 245 ocorrências é o número mais amplamente aceito.

A maior concentração está nos Salmos, onde a palavra ocorre aproximadamente 127 vezes, ou seja, mais da metade de todas as ocorrências.

Ocorre nos Salmos cerca de 127; em Jeremias, cerca de 31; em Provérbios, cerca de 21; em Gênesis, Êxodo e 2 Samuel, cerca de 12. Isso mostra que o tema do esed permeia toda a história da salvação.

Um dos textos mais importantes é Êxodo 34.6-7, quando Deus revela seu próprio caráter a Moisés: “O Senhor, o Senhor Deus, compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e grande em esed e fidelidade”. É como se Deus dissesse: Se você quiser saber quem eu sou, saiba isto: sou abundante em esed”. Essa autodeclaração tornou-se uma espécie de “credo” do Antigo Testamento e é retomada diversas vezes pelos profetas e pelos salmistas.

O Salmo 136 é único. A palavra esed aparece 26 vezes, uma em cada versículo. Cada ato de Deus na criação e na história da redenção recebe a mesma resposta da congregação: Porque o seu חֶסֶד dura para sempre”.

É como um refrão litúrgico que ensina que toda a história da salvação possui uma única explicação:

Deus criou o mundo... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus libertou Israel do Egito... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus abriu o Mar Vermelho... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus sustentou seu povo no deserto... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus deu a terra prometida... Porque o seu esed dura para sempre.

Tudo é explicado pelo esed de Deus.

Na perspectiva cristã, todo o esed do Antigo Testamento encontra seu cumprimento em Jesus Cristo.

João afirma que “o Verbo se fez carne... cheio de graça e de verdade” (João 1.14). A expressão “graça e verdade” ecoa Êxodo 34.6, onde Deus é descrito como abundante em esed (amor fiel) e 'emet (verdade/fidelidade). Em Cristo, o amor fiel da aliança torna-se plenamente visível.

O esed não é apenas um atributo de Deus; ele é revelado de maneira suprema na cruz. O Calvário é a maior manifestação do amor fiel de Deus, que permanece para sempre e alcança pecadores por pura graça.

Há 245 lembretes do esed no Antigo Testamento. Mas Deus decidiu escrever um último, definitivo e eterno lembrete não com tinta, mas com o sangue de seu próprio Filho na cruz. O Calvário é o esed de Deus tornado visível.

חֶסֶד (esed) é o amor que Deus promete e jamais abandona. Não é um sentimento. É compromisso. É fidelidade. É graça.

Sempre que aparece esed, Deus está agindo em favor de um povo que não merece.

            לְעוֹלָם (le‘ôlām), para sempre”. Literalmente: “até a eternidade”.

Não significa apenas “muito tempo”, significa sem fim, sem interrupção, sem mudança. A misericórdia de Deus nunca expira. Ela não possui prazo de validade.

Deem graças” é uma ordem que é seguida de duas razões, porque Ele é bom; porque o seu חסד (esed) dura para sempre.

A gratidão cristã nunca nasce dos sentimentos. Nasce da revelação de Deus.

            O imperativo, “Deem graças”, expõe nosso pecado. Por quê?

Lutero dizia que o Primeiro Mandamento resume todos os demais. Quem não vive em constante gratidão está confiando em outro deus. A ingratidão revela incredulidade. Na carta aos Romanos, no capítulo 1.21 diz: “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”.

O primeiro pecado mencionado por Paulo na carta aos Romanos não é homicídio, nem adultério, é a falta de gratidão. Isso pelo fato de que toda ingratidão nasce de um coração que esqueceu a graça.

Pensamos e vivemos dizendo: “Tenho direito”; “Mereço”; “Conquistei” e o Salmo 136 desmonta essa ilusão. Afinal, tudo vem do Senhor, pois Ele é bom. Mesmo quando nós não somos, sua bondade não depende da nossa fidelidade, depende apenas de quem Deus é.

            Seu חסד dura para sempre”. Aqui encontramos Cristo, onde na cruz mostra o significado máximo do esed.

Jesus assume nossa culpa, cumpre a aliança, paga nossa dívida, ressuscita e continua amando pecadores. A cruz prova que o amor de Deus não termina quando o nosso pecado começa.

            Vivemos numa cultura de reclamação. Quanto mais temos, mais sentimos que falta.

É importante distinguir gratidão de circunstâncias. O mundo agradece quando tudo vai bem. O cristão agradece porque Deus permanece o mesmo quando tudo parece ir mal. A bondade divina e o seu esed não oscilam com a economia, a saúde ou as emoções; eles permanecem firmes porque pertencem ao caráter imutável de Deus.

            Não damos graças como deveríamos. Somos ingratos porque, por natureza, confiamos mais em nós mesmos do que no Senhor.

            Apesar da nossa ingratidão, Deus permanece טוֹב (ôv) — perfeitamente bom; e seu חֶסֶד (esed) permanece para sempre. Esse amor fiel alcança seu ápice em Jesus Cristo, que garante definitivamente a reconciliação entre Deus e os pecadores.

A gratidão do cristão não é o preço da graça, mas a resposta de quem foi alcançado por ela. Em Cristo, confessamos com alegria: Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre”.

Tema: O milagre que você esqueceu de ver

Existe uma fotografia que se repete diariamente em milhões de casas.

Uma criança ganha um brinquedo novo. Durante alguns minutos ela sorri. Corre, abraça, brinca. Mas bastam poucos dias e o brinquedo perde o encanto. Logo ela pede outro, depois outro, outro. Na verdade, essa não é apenas a história das crianças. É a história da humanidade.

Vivemos na geração da satisfação imediata. Compramos um celular novo, meses depois ele parece velho. Compramos um carro, logo desejamos outro. Recebemos um aumento, rapidamente o salário deixa de ser suficiente.

Junto com as inúmeras possibilidades, tecnologia, medicina, conforto, há também ansiedade, frustração e reclamação.

As redes sociais nos convencem de que sempre existe alguém vivendo melhor do que nós. A propaganda diz diariamente: Você merece mais.

Sem perceber, começamos a viver olhando apenas para aquilo que ainda não temos. A gratidão desaparece. A reclamação domina.

Interessante perceber que Israel vivia exatamente isso. Bastaram poucos dias fora do Egito para esquecerem os milagres. Atravessaram o Mar Vermelho, receberam o maná, água da rocha, viram Deus agir, mesmo assim reclamavam.

Talvez o maior milagre desta semana tenha sido você acordar, seu coração bater, você respirar enquanto dorme. A terra continua girando. O sol nasceu outra vez e, talvez você nem tenha percebido, afinal, nos acostumamos com os milagres diários.

Deem graças ao Senhor...

Não porque tudo está perfeito, mas porque Deus continua sendo quem sempre foi.

            O texto começa com uma palavra extraordinária, וֹדוּ (Hôdû), do verbo יָדָה (Yadah). O curioso é que essa mesma palavra significa confessar, louvar, agradecer. Por quê? Porque, na Bíblia, ninguém agradece verdadeiramente antes de confessar.

Esse mesmo verbo aparece em Levítico para a confissão dos pecados e aparece inúmeras vezes nos Salmos para o louvor e isso não é coincidência. Enquanto justificamos nossos pecados, nunca conheceremos a alegria da graça. Por isso nossos cultos começam com confissão e isso não porque Deus precise ouvir, mas porque nós precisamos reconhecer quem Deus é diante dos nossos pecados. A verdadeira gratidão nasce quando reconhecemos que eu não mereço.

            Deem graças” é um imperativo, e todo imperativo revela aquilo que não fazemos. Você vive agradecido? Você acorda louvando? Você termina o dia reconhecendo a graça? Ou reclama mais do que agradece?

Romanos 1 nos traz um maravilhoso ensinamento, pois o primeiro pecado mencionado por Paulo na decadência humana não é assassinato, nem adultério, nem sequer o roubo. O primeiro pecado é este: “Não lhe deram graças”.

O diagnóstico é que a ingratidão é idolatria. Toda reclamação constante revela que outro deus ocupa nosso coração. A murmuração é música para o diabo.

Conta-se que dois homens estavam presos na mesma cela. Ambos olhavam por uma pequena janela. Enquanto um via apenas a lama, o outro contemplava as estrelas. A diferença estava no coração.

            Atente-se ao fato de que é o nome de Deus que muda tudo, לַיהוָה ao Senhor”. Não é qualquer deus, é YHWH, é o Deus da Aliança, do Êxodo. Esse nome carregava séculos de memória.

Quando um israelita ouvia YHWH, lembrava imediatamente das dez pragas, da páscoa, do cordeiro, do sangue, do mar vermelho, do Sinai, da nuvem, do fogo, do maná, das promessas. Cada letra desse nome respirava fidelidade.

Hoje acontece o mesmo. Quando ouvimos o nome de Jesus... lembramos da cruz, do túmulo vazio, do Batismo, da Santa Ceia, do perdão, da ressurreição. Assim, não agradecemos a uma ideia, agradecemos uma pessoa.

            Deus é bom mesmo quando a vida não é, por isso, כי טוב porque Ele é bom.

Louvamos a Deus não porque hoje foi um bom dia, ou porque o salário aumentou; nem porque ninguém ficou doente. Agradecemos porque Deus é bom.

O fundamento da fé nunca são as circunstâncias. É o caráter de Deus.

טוב é a palavra usada sete vezes em Gênesis 1. Toda criação nasce dessa bondade. Mesmo depois da queda em pecado, depois da cruz, Deus continua sendo exatamente o mesmo.

            Lutero dizia que Deus muitas vezes esconde seu rosto atrás de máscaras (enfermidade, uma perda, uma cruz) e mesmo por trás dessas máscaras continua sendo um Pai Amoroso.

            O coração do evangelho numa única palavra, חסד, hesed. Nenhuma tradução consegue esgotá-la completamente. Diz-se que é misericórdia, graça, lealdade, amor da aliança, bondade perseverante, fidelidade, compromisso. Hesed é o amor que permanece quando nós falhamos, quando nós quebramos alianças. Como escreveu Chemnitz, “a fidelidade de Deus repousa em sua própria natureza e não na mutabilidade do homem”.

            O maior sermão sobre o חסד aconteceu numa sexta-feira, no Calvário. Ali Deus respondeu definitivamente, “o meu amor dura para sempre”.

Quando Pedro negou, o amor permaneceu. Quando Judas traiu, o amor permaneceu. Quando os soldados zombaram, o amor permaneceu. Quando os cravos perfuraram as mãos, o amor permaneceu. Quando o céu escureceu, o amor permaneceu e esse amor dura para sempre, pois Jesus disse, “Está consumado”.

            לְעוֹלָםpara sempre”, literalmente, até a eternidade. Tudo neste mundo acaba. Flores murcham. Juventude passa. Empresas fecham. Impérios desaparecem. Tecnologias envelhecem. Corpos adoecem. Mas existe uma coisa que nunca termina: o amor de Deus. Nosso descanso não está em nossa fidelidade, está na fidelidade eterna de Cristo.

            Na cultura da comparação a gratidão é destruída.

            Na cultura do desempenho o descanso é destruído.

            Na cultura dos direitos a percepção da graça é destruída.

            Na cultura da velocidade, a contemplação é impedida e sem contemplação não existe gratidão. Por isso o Salmo mande parar e olhar, confessar e agradecer.

Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre (Sl 136.1), resume toda a história da salvação. Não é apenas um convite à gratidão, mas uma confissão de fé baseada naquilo que Deus é e no que Ele faz. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 27 de julho de 2026

“tragam para mim”. Quando o pouco encontra as mãos de Cristo!

 02 de agosto de 2026

Próprio 13 – Décimo Domingo após Pentecostes

Salmo 136.1-9; Isaias 55.1-5; Romanos 9.1-5; Mateus 14.13-21

Texto: Mateus 14.13-21

Tema:tragam para mim”. Quando o pouco encontra as mãos de Cristo!

 

Queridos irmãos e irmãs em Cristo, vivemos em uma época em que muita gente parece ter tudo, mas, ao mesmo tempo, sente que não tem nada. Temos tecnologia, velocidade e informação na palma da mão. Nunca foi tão fácil conversar com alguém do outro lado do mundo. Mas nunca houve tanta solidão. Nunca tivemos tantos recursos, mas também nunca vimos tanta ansiedade, depressão, medo e vazio. Há pessoas que acordam cansadas antes mesmo de começar o dia. Trabalham, correm, pagam contas, cuidam da família, enfrentam problemas de saúde, vivem sob pressão constante e, quando finalmente colocam a cabeça no travesseiro, continuam sem encontrar descanso. Há momentos em que a vida parece um deserto. O corpo se desgasta. A alma perde o ânimo. A esperança parece secar como terra sem chuva.

Foi num cenário similar que Jesus entrou. A notícia da morte de João Batista havia acabado de chegar. Seu precursor havia sido assassinado. O caminho da cruz começava a ficar ainda mais evidente diante dele. Humanamente falando, Jesus tinha motivos para querer ficar sozinho. Mas acontece algo impressionante. A multidão corre atrás dele. Era um povo faminto. Não apenas com fome de pão. Era gente procurando sentido para viver. Pessoas carregando culpa. Famílias machucadas. Doentes. Cansados. Desanimados. Pessoas que talvez já tivessem ouvido de muita gente que “não havia mais solução para a situação”.

Se essa cena acontecesse hoje, talvez víssemos ali pessoas esperando o resultado de uma biópsia, alguém desempregado há meses, um casal tentando salvar o casamento, pais chorando por um filho distante da fé, jovens que sorriem nas redes sociais, mas choram quando desligam o celular.

O mundo mudou. A fome do coração continua a mesma. E o Evangelho nos mostra uma verdade extraordinária, Cristo nunca abandona quem chega até Ele com fome.

Mateus registrou que “Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos”. A palavra usada para “compadeceu-se” é σπλαγχνίζομαι (splagchnízomai). Essa palavra fortíssima, descreve uma compaixão que nasce das profundezas do ser. É o amor que sente a dor do outro. Não é um olhar distante. Não é uma simples pena. É Deus entrando no sofrimento humano. Enquanto muitas pessoas olham para multidões apenas como números, estatísticas ou problemas sociais, Jesus enxerga pessoas.

Enquanto o mundo costuma perguntar sobre o quanto determinada pessoa produz, Cristo pergunta sobre o quanto ela está sofrendo. Jesus não vê apenas um CPF, Jesus vê um pecador amado. Martinho Lutero dizia que Cristo sempre se deixa encontrar justamente pelos necessitados. Deus não revela sua glória afastando-se dos miseráveis, mas aproximando-se deles. Essa continua sendo uma das maiores diferenças entre o Evangelho e o pensamento do mundo.

Como isso é impactante numa cultura que admira os fortes, os vencedores, os influenciadores, os autossuficientes. O Evangelho anuncia que Deus salva justamente aqueles que reconhecem que não conseguem salvar a si mesmos. A graça não é salário para quem merece. É presente para quem nada tem além da própria necessidade. Aquela multidão tinha fome de pão. Mas existia uma fome muito maior. Porque o maior deserto da vida não é a falta de dinheiro. Não é a falta de saúde. Não é a falta de oportunidades. O maior deserto é viver longe de Deus.

Quando a tarde chega, os discípulos fazem um pedido bastante lógico: “Despede as multidões”. Eles fazem as contas. O lugar é deserto. Está ficando tarde. Não existe mercado por perto. Não há comida suficiente. Tudo parece absolutamente impossível.

É exatamente assim que costumamos agir. Quando enfrentamos um problema, fazemos os cálculos. Quando olhamos para a Igreja, enxergamos números, orçamento, limitações, envelhecimento das comunidades. Sempre começamos olhando para aquilo que falta. Mas Jesus responde de forma surpreendente: “Não precisam retirar-se; dai-lhes vós mesmos de comer”.

No texto grego, a expressão “vós mesmos” recebe destaque. Os discípulos imediatamente respondem: “Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes”. Essa talvez seja uma das frases mais repetidas da nossa vida, mesmo quando não a pronunciamos. “Eu tenho pouca fé”; “Tenho pouca paciência”; “Tenho pouco tempo”; “Tenho pouca saúde”; “Tenho poucos recursos”; “Tenho poucas forças”. A nossa vida é um verdadeiro olhar para aquilo que falta. Os discípulos também agiram assim e Jesus queria ensinar algo muito maior.

Enquanto o ser humano confia em sua própria capacidade, ainda não aprendeu a depender da graça. O milagre começa exatamente onde termina a autoconfiança. Então Jesus pronuncia uma das frases mais bonitas deste Evangelho: “tragam para mim”. Que convite maravilhoso!

Enquanto os discípulos enxergam insuficiência, Cristo enxerga oportunidade. Cinco pães e dois peixes nas mãos dos discípulos eram quase nada. Nas mãos de Jesus tornaram-se alimento para milhares. Essa continua sendo a maneira como Deus trabalha. O mundo acredita que grandes resultados dependem de grandes recursos. O Reino de Deus funciona de outra maneira. Uma pequena quantidade de água unida à Palavra de Deus torna-se Batismo. Um pouco de pão e vinho unidos à Palavra são o corpo e sangue de Cristo. Uma voz humana anuncia a absolvição, mas é o próprio Cristo quem perdoa. Um sermão pode parecer simples, mas o Espírito Santo usa essa Palavra para criar fé, consolar consciências e transformar vidas. O poder nunca esteve nos elementos. O poder sempre esteve na Palavra de Cristo. Por isso Jesus manda trazer o pouco que eles tinham. Porque Deus gosta de mostrar que sua força aparece justamente quando a nossa acaba. Mateus então descreve uma sequência que lembra profundamente a Santa Ceia. Jesus toma o pão, ergue os olhos ao céu, agradece e entrega aos discípulos.

Percebam um detalhe importante. Os discípulos não fabricam o pão. Eles apenas distribuem aquilo que receberam de Cristo. Assim continua sendo a missão da Igreja. O pastor não cria perdão. A Igreja não inventa salvação. Nenhum ser humano produz graça. Tudo vem de Cristo. Nós apenas entregamos aquilo que Ele nos confiou, sua Palavra, o Batismo, a absolvição e a Santa Ceia. É por esses meios simples que o Espírito Santo continua alimentando um mundo faminto.

E então acontece algo extraordinário. Todos comem, todos se satisfazem e ainda sobram doze cestos. Que imagem maravilhosa do Evangelho! Cristo nunca trabalha no limite, sua graça sempre transborda.

Há perdão suficiente para quem caiu novamente.

Há esperança para quem pensa que já perdeu tudo.

Há misericórdia para quem acredita que foi longe demais.

Quanto mais Cristo oferece sua graça, menos ela diminui. Ela jamais se esgota.

Em quais mãos está aquilo que você possui? Nas mãos de Cristo o pouco se torna suficiente. O pecador recebe perdão. O cansado encontra descanso. O faminto recebe o Pão da Vida.

O mesmo Senhor que alimentou aquela multidão continua alimentando sua Igreja. Ele continua vindo ao encontro do seu povo na Palavra pregada. Continua lavando pecadores no Batismo. Continua absolvendo consciências aflitas. Continua entregando seu verdadeiro corpo e sangue na Santa Ceia. E esse é o maior milagre de todos. O Filho de Deus entregou a si mesmo para alimentar um mundo que morria de fome espiritual.

Mateus 14 não é apenas uma história sobre pão. É a história do Salvador que entrou no deserto deste mundo para salvar pecadores. A multidão representa toda a humanidade. Os discípulos representam nossa incapacidade. Os cinco pães representam nossa insuficiência. Mas Cristo revela a abundância da graça de Deus.

Onde Jesus chega, sempre há mais graça do que culpa. Mais perdão do que pecado. Mais vida do que morte. Mais esperança do que desespero. Mais misericórdia do que miséria humana. Por isso, ouça novamente o convite de Jesus, “tragam para mim”. Coloque diante dele seus medos, sua culpa, seu cansaço, sua família, seus pecados, suas lágrimas e até aquilo que você considera pequeno demais. Porque tudo o que é colocado nas mãos de Cristo jamais volta vazio. Em nome de Jesus. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

 26 de julho de 2026

Próprio 12 – Nono Domingo após Pentecostes

Salmo 125; Deuteronômio 7.6-9; Romanos 8.28-39; Mateus 13.44-52

Texto: Mateus 13.44-52

Tema: O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

 

Cristo conta três parábolas curtas, porém devastadoras, um tesouro escondido, uma pérola de grande valor, e uma rede cheia de peixes. Essas parábolas são a resposta de Jesus à crescente rejeição do Reino pelos líderes religiosos de Israel.

Uma leitura isolada dessas parábolas perde parte de sua força. Quando são lidas dentro do fluxo do Evangelho de Mateus, percebe-se um desenvolvimento impressionante.

O ponto de virada do Evangelho ocorre em Mateus 12. Os fariseus já haviam criticado Jesus diversas vezes, e em Mateus 12.24 acontece algo decisivo apresentado pela fala dos religiosos, “É Belzebu, o chefe dos demônios, quem dá poder a este homem para expulsar demônios” (Mt 12.24).

Os fariseus atribuem a obra do Espírito Santo ao próprio Satanás e por essa rejeição que não é apenas intelectual, mas espiritual e deliberada, Jesus fala do pecado contra o Espírito Santo (Mt 12.31-32). E, em seguida ocorre uma mudança importante dentro da narrativa do evangelho de Mateus, ele passa a destacar que “Naquele mesmo dia Jesus saiu de casa e assentou-se à beira-mar” (Mt 13.1) e começou a ensinar por parábolas. Por essa razão, diante da pergunta dos discípulos “Por que lhes falas por parábolas?” (Mt 13.10) Jesus responde “Porque vendo não veem e ouvindo não ouvem...” (Mt 13.13).

Os líderes, pessoas que conheciam as Escrituras, o Antigo Testamento, sabiam das promessas, rejeitaram tanto a luz que Deus agora confirma o endurecimento desses líderes.

As parábolas possuem dois efeitos espetaculares. Primeiro: revelam aos discípulos; Segundo: escondem a revelação dos incrédulos.

          O semeador é generoso e semeia constantemente a Palavra. Os justos e os ímpios convivem e o Reino de Deus crescerá (o grão de mostarda e o fermento).

Nessa primeira parte das parábolas, semeador, joio, semente de mostarda, fermento, Jesus destaca a rejeição dos líderes. E nas três últimas parábolas, tesouro escondido, pérola, rede, Jesus responde se a rejeição é sinal de que o Reino de Deus fracassou.

A resposta é que o Reino continuará crescendo.

          Mateus ao elencar essas sete parábolas, enumera uma mudança de foco, onde após falar do crescimento externo do Reino, passa a mostrar o valor do Reino para àqueles que realmente o encontram. E isso é uma resposta direta à rejeição dos líderes. Enquanto os líderes olham para Jesus e não enxergam nada, homens comuns encontram um tesouro.

Que contraste! E essa ironia é proposital. Os especialistas das Escrituras passam ao lado do Messias, mas um homem simples encontra aquilo que vale tudo.

Quem deveria reconhecer o Reino não o reconhece. Quem aparentemente não tinha nada encontra tudo. A rejeição dos líderes não diminui o valor do Reino, mas revela a cegueira deles.

O negociante que procura pérolas, que conhece o mercado e entende sobre valores, ao encontrar uma única pérola e abandonar as demais traz um impactante contraste com os líderes. Os fariseus buscavam justiça, santidade, Lei, tradição, mas, quando encontraram o verdadeiro Reino preferiram permanecer com suas “pérolas menores”. E o negociante faz o que os líderes religiosos recusaram fazer, troca tudo por Cristo. E nesse ponto, Jesus chega a sua conclusão (Mt 13.47-50).

A rede recolhe peixes de toda espécie. Aqui novamente existe uma resposta à rejeição dos líderes. Eles imaginavam que o Reino era exclusivo de Israel e Jesus afirma que a rede alcançará o mundo inteiro.

Além disso, existe outra verdade importante. Nem todos que entram na rede pertencem realmente ao Reino. Somente no juízo haverá separação e isso impede dois erros. Pensar que todos os membros visíveis do Reino são salvos; pensar que a rejeição dos líderes significa derrota do Reino.

          As três últimas parábolas de Mateus formam um quadro.

Na parábola do tesouro alguém encontra o Reino inesperadamente. Publicanos e pecadores encontraram.

          Na parábola da Pérola temos alguém que procura e finalmente encontra. Descrição dos discípulos.

          Na parábola da Rede Jesus descreve que o Reino alcança todos os povos e só no final Deus separará os verdadeiros dos falsos.

          O evangelista Mateus constrói uma das maiores ironias do Evangelho. Quem conhece a Bíblia muitas vezes não reconhece o Messias. Quem não possui posição religiosa descobre o tesouro. Quem se considera rico espiritualmente, permanece pobre. Temos aqui o cumprimento das palavras anteriores de Jesus, “Graças te dou, ó Pai... porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25).

Sob a perspectiva confessional luterana, essas parábolas não ensinam que o homem “compra” o Reino ou conquista a salvação por seus méritos. O foco está no valor incomparável do Reino revelado em Cristo. A alegria do homem que vende tudo (Mt 13.44) nasce porque primeiro encontrou o tesouro. Assim também, a fé não produz Cristo; Cristo é dado pelo Evangelho e leva o pecador a considerar todas as coisas secundárias diante dele.

As três parábolas curtas não são histórias independentes; elas constituem o clímax de Mateus 13. Depois de mostrar que Israel, representado por muitos de seus líderes, rejeitou o Messias, Jesus assegura aos discípulos que o Reino não fracassou. Seu verdadeiro valor será reconhecido por aqueles a quem o Pai concede olhos para ver, e sua missão se estenderá até os confins da terra, culminando no juízo final. Esse é o triunfo silencioso, porém irresistível, do Reino de Deus.

          Caríssimos, a maior cegueira pode estar dentro da religião.

O contraste principal de Mateus não é entre religiosos e ateus. É entre pessoas que conheciam profundamente a Bíblia e pessoas simples que reconheceram Cristo.

Isso continua acontecendo. É possível que alguém conheça a doutrina sem conhecer Cristo; defenda princípios cristãos sem amar Cristo; frequente cultos sem viver do Evangelho; estude a Bíblia apenas como informação.

A maior tragédia espiritual não é a ignorância, mas a familiaridade sem fé e Jesus continua dizendo, “Vendo, não veem”.

A pergunta deixa de ser se eu conheço a Bíblia? e passa a ser se a Bíblia continua me conduzindo a Cristo?

          Fazemos parte de uma geração que conhece preço, mas perdeu o senso de valor.

A humanidade calcula tudo. Calcula investimentos, tempo, lucro, produtividade, rentabilidade. Todavia, se perdeu a capacidade de reconhecer aquilo que não possui preço.

A parábola do tesouro escondido pergunta o que realmente vale sua vida?

Hoje as pessoas vendem saúde por dinheiro. Depois vendem dinheiro para recuperar a saúde. Vendem família pela carreira. Depois procuram sentido. Vendem a paz pela fama. Depois procuram terapia para reencontrar paz.

Jesus Cristo afirma que existe algo que vale infinitamente mais, o Reino.

          Nossa cultura oferece milhares de “pérolas

A parábola da pérola talvez seja ainda mais atual.

Nunca existiram tantas ofertas dizendo, “É aqui que está a felicidade”. E a lista é interminável. Cada uma promete ser a pérola definitiva. Mas continuam sendo pérolas pequenas.

Jesus Cristo continua sendo a única Pérola que satisfaz completamente. Como dizia Lutero: “Aquilo em que teu coração confia é, na verdade, teu deus”.

          A sociedade da distração dificulta encontrar o Tesouro.

O tesouro estava escondido e isso não porque Deus queira esconder-se. Mas porque o pecado nos ocupa com milhares de coisas. Vivemos distraídos por muito conteúdo.

O Reino continua presente na simplicidade da Palavra, da água do Batismo e da Santa Ceia. Mas muitos passam ao lado porque procuram Deus apenas no extraordinário.

          O Reino continua crescendo apesar das crises da Igreja.

Talvez esta seja uma das aplicações mais importantes.

Vivemos um tempo de secularização; igrejas fechando; escândalos; líderes caindo; jovens abandonando a fé; perseguição em muitos países.

A impressão pode ser se que “O Evangelho está perdendo”.

Foi exatamente essa pergunta dos discípulos. Se os próprios líderes rejeitaram Jesus, será que o Reino fracassou?

          O Reino continua crescendo, mesmo que silenciosamente. Assim como a semente; o fermento; o tesouro encontrado; a rede lançada.

O crescimento do Reino nunca dependeu do prestígio da Igreja, mas da ação do Espírito Santo por meio da Palavra.

          O Reino alcança quem ninguém imaginava.

Os fariseus acreditavam possuir exclusividade e hoje repetimos esse erro, mas Deus continua surpreendendo. O Evangelho alcança a todos, a rede continua sendo lançada.

          Nem todo peixe dentro da rede pertence realmente ao Reino.

Essa recordação é extremamente necessária, afinal, vivemos dois extremos. Primeiro: A igreja salva automaticamente”; Segundo: Não preciso da igreja”.

Jesus rejeita ambos os extremos. A rede reúne todos. Mas somente Deus conhece verdadeiramente os seus e isso produz, humildade, arrependimento e perseverança.

          O maior fracasso é passar a vida inteira ao lado do Tesouro e não o reconhecer.

Os líderes passaram três anos ouvindo Jesus, vendo milagres. Eles conheciam as profecias e mesmo assim perderam Cristo.

O mesmo ocorre hoje, pois é possível que muitas pessoas passem décadas dentro da igreja sem jamais descansar em Cristo.

          O Reino continua sendo escândalo para a lógica moderna.

Nossa cultura pergunta sobre o que ganho? Jesus pergunta o que realmente possui valor?

Nossa cultura fala em investimento. Jesus fala em entrega.

Nossa cultura fala em desempenho. Jesus fala em graça.

Nossa cultura diz para que se construa sua identidade. Jesus nos dá uma nova identidade.

          O juízo final continua sendo parte do Evangelho.

A parábola da rede lembra algo pouco anunciado hoje. Existe separação, juízo e eternidade. Essa verdade produz duas atitudes, urgência missionária e perseverança dos santos.

          O centro dessas parábolas não é o homem que vende tudo, é o valor do tesouro. O homem vende porque encontrou, ele não encontra porque vendeu.

Essa ordem é decisiva. Primeiro: Deus revela Cristo. Depois: a fé recebe Cristo. Somente então a vida inteira é reorganizada.

As obras não compram o Reino, elas apenas demonstram que o Reino já conquistou o coração. Como afirmou o apóstolo Paulo: “Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo” (Fp 3.7).

          Jesus deixa seus ouvintes diante de uma única decisão: o que vale mais para você?

Se Cristo é apenas mais uma pérola entre tantas, o coração continuará dividido, mas se Cristo é o tesouro escondido e a pérola de grande valor, então tudo o mais encontra seu lugar correto.

O Reino pode ser rejeitado, ridicularizado e ignorado pelos especialistas, mas ainda assim, ele continua avançando silenciosamente, alcançando pecadores pela Palavra, transformando vidas pela graça e caminhando irresistivelmente para o dia em que o Senhor lançará a rede pela última vez e revelará plenamente o triunfo do seu Reino. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

 

Quando a voz de Cristo vence o medo!

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