terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Deus que transforma o mal em graça (Gn 50.15-21)

 13 de setembro de 2026

Próprio 19 - Décimo Sexto Domingo após Pentecostes

Salmo 103.1-12; Gênesis 50.15-21; Romanos 14.1-12; Mateus 18.21-35

Gênesis 50.15-21

Tema: O Deus que transforma o mal em graça.

 

Nos últimos anos de sua vida, o reformador Martinho Lutero dedicou seu tempo e sua alma a comentar o livro de Gênesis. Ao chegar aos capítulos finais, ele debruçou-se sobre a história de José e de seus irmãos, contemplando nela um dos maiores espelhos da vida cristã.

A história de José não é apenas um relato bíblico sobre dinâmicas familiares do passado; é um raio-X do coração humano perante o santo Deus. É o retrato dramático da luta entre uma consciência culpada que busca a salvação pelas obras e um Deus Todo-Poderoso que responde com o puríssimo Evangelho.

Hoje, olhando para o texto de Gênesis 50, somos convidados a olhar para nossas próprias vidas e descobrir como o Senhor transforma as nossas ruínas no cenário da sua glória.

Após a morte de Jacó, pai da família, uma sombra antiga voltou a pairar sobre os corações dos irmãos de José. Décadas haviam se passado. Eles haviam experimentado a imensa bondade de José, que os acolheu no Egito e providenciou sustento durante a fome. No entanto, diante do caixão do pai, o pavor os dominou novamente: “É bem possível que José nos guarde rancor e nos pague em definitivo todo o mal que lhe fizemos” (Gn 50.15).

Por que esse medo? É assim que a Lei atua na consciência do pecador. A Lei faz com que a pessoa olhe para Deus e para os seus servos e veja apenas um juiz vingativo. Martinho Lutero escreveu com precisão: “a consciência culpada é uma coisa tímida e assustada”. Ela é incapaz de crer na graça pura por si mesma e sempre supõe que o perdão recebido anteriormente não passou de uma “trégua temporária”.

Quantos vivem exatamente assim? Recebem a absolvição no culto, mas na primeira tempestade da semana acha que Deus o está punindo. Muitos acham que a graça é boa demais para ser verdade e vivem esperando o momento em que a “conta” do passado vai chegar.

Para tentar escapar desse medo, os irmãos de José elaboraram uma artimanha: inventaram uma justificativa humana. Mandaram dizer para José: “Teu pai ordenou antes de morrer...” (Gn 50.16). Isso revela a própria natureza humana tentando alcançar a aceitação por meio do mérito de intermediários ou de obras. Muitos tentam apresentar suas “boas intenções” ou a memória de seus pais como escudo contra a ira de Deus.

Diante da angústia dos irmãos, José responde com palavras que atravessam os séculos: “Não temais; acaso estou eu no lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar a vida a um povo numeroso” (Gn 50.19-20).

Aos olhos humanos, a trajetória de José foi uma tragédia do mal absoluto. Foi vendido como escravo por seus próprios irmãos, acusado injustamente de crime, jogado no fundo de uma prisão e dado como morto por seu pai. No entanto, Deus usou essa tragédia para gerar salvação e preservar a vida de muitos.

O teólogo Martin Chemnitz, em um trecho dos seus Loci Theologici, traz uma distinção fundamental: Deus não é o autor do pecado.

Os irmãos de José agiram motivados por uma intenção maligna (khasav), e por essa vontade corrupta eram totalmente culpados diante da Lei. Deus não instigou a má vontade deles. Todavia, em sua infinita sabedoria e poder, Deus governou e curvou o resultado daquela ação má para cumprir o seu propósito salvífico.

Esta é a profunda mensagem da cruz! O maior pecado da história da humanidade, rejeição e assassinato do Filho de Deus no Calvário, foi transformado por Deus no maior ato de salvação do universo. O Diabo e os homens tencionavam o mal, mas na cruz Deus gerou a vida eterna para nós.

Para Martinho Lutero, José é uma figura vívida do próprio Jesus Cristo. José tinha todo o poder político e militar do Egito nas mãos. Ele tinha o direito e a autoridade para julgar e condenar seus agressores. Mas o que ele fez? Ele chorou, absolveu e falou ao coração deles.

Quando os irmãos vieram cheios de pavor, José disse: “Acaso estou eu no lugar de Deus?” Com essa declaração, José recusou-se a atuar como o Juiz da Lei. Ele não impôs penitências aos seus irmãos, não exigiu um “período de provação” para ver se eles realmente haviam mudado, nem os manteve sob chantagem moral. Em vez disso, aplicou o puríssimo Evangelho:

Remoção do medo:Não temais

Anúncio da Graça: Mostrou que Deus já havia coberto e perdoado a dívida.

Promessa concreta:Eu vos sustentarei a vós e a vossos pequeninos”. E a Escritura conclui: “Assim os consolou e lhes falou ao coração” (Gn 50.21).

Essa atitude de José é um modelo perfeito do verdadeiro cuidador da alma. O papel da Igreja e de cada cristão não é esmagar o pecador arrependido sob o peso da culpa nem guardar rancor. Nosso papel é pronunciar a absolvição completa e demonstrá-la com atos de amor sacrificial.

Esse encargo pastoral e cristão foi resumido por C. F. W. Walther com as seguintes palavras: “Quando um pecador está aterrorizado por seus crimes, não lhe dê mais Lei. Faça como José: chore com ele, mostre-lhe a graciosa providência de Deus e fale-lhe ao coração com a doce promessa do Evangelho”.

Meus irmãos, onde a consciência acusadora encontra refúgio contra o terror do juízo divino?

Se você permanece sob o tribunal interno da Lei, atormentado pela lembrança de suas transgressões e pelo justo temor da ira de Deus, contemple a obra daquele que é o verdadeiro e definitivo José: Jesus Cristo. Aquele que entregou sua vida em sacrifício expiatório no Calvário e ressuscitou para a nossa justificação exerce agora toda a sua autoridade soberana não para condenar o pecador contrito, mas para absolvê-lo. A justiça de Deus contra o pecado foi plenamente satisfeita na cruz; portanto, Cristo não exige retribuição nem obras de satisfação de suas mãos.

Esta graça não permanece distante ou teórica: ela é concretamente distribuída e aplicada a você hoje através dos meios de graça, na Palavra pregada e nos sacramentos. Neles, o próprio Cristo atua eficazmente, pronunciando a absolvição objetiva ao pecador amedrontado: “Não temais. Vossos pecados estão perdoados; a maldição da Lei foi convertida em bênção de salvação”.

Não confie nos sentimentos oscilantes de sua consciência, firme-se unicamente na promessa objetiva do Evangelho. Na justiça imputada de Cristo, a dívida está quitada, o favor de Deus é garantido e a paz com o Pai está selada para sempre. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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A memória da graça contra a aritmética do vingador

 13 de setembro de 2026

Próprio 19 - Décimo Sexto Domingo após Pentecostes

Salmo 103.1-12; Gênesis 50.15-21; Romanos 14.1-12; Mateus 18.21-35

Tema: A memória da graça contra a aritmética do vingador

  

As quatro leituras convergem para um dos temas mais profundos das Escrituras: o perdão de Deus recebido pela graça transforma o relacionamento do cristão com o próximo. No Salmo 103 vemos que Deus perdoa abundantemente; Moisés em Gênesis 50 mostra que José se torna instrumento desse perdão; Paulo na epistola aos Romanos, no capítulo 14, mostra que a igreja aprende a abandonar o julgamento mútuo; Em Mateus 18, Jesus mostra que quem vive do perdão de Deus torna-se também um perdoador. Quem vive diariamente do perdão infinito de Deus não pode viver aprisionando o próximo às suas dívidas.

O Salmo 103 é um dos maiores hinos da graça do Antigo Testamento. Davi começa falando consigo mesmo, “Bendize, ó minha alma...”.

A adoração começa antes da boca, começa no coração. Por isso, ao dizer, “não te esqueças”.

O verbo hebraico shakachesquecer” possui sentido de negligenciar. Não significa apenas perder a memória, significa viver como se Deus nunca tivesse feito nada, por isso, o salmista faz um exercício espiritual dizendo lembrar diariamente da graça. Por essa razão, o salmista enumera cinco grandes benefícios da graça (perdão, cura, redenção, misericórdia e renovação).

Perdão: É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades”. O verbo hebraico salach é usado quase exclusivamente para Deus destacando que o verdadeiro perdão pertence somente ao Senhor.

          Cura: Cura todas as enfermidades”. Nem toda enfermidade física desaparece nesta vida. Mas todo pecado encontra cura definitiva diante de Deus.

          Redenção:Redime tua vida da cova”. “Covashachat pode significar sepultura ou destruição. Deus não apenas evita um problema, ele salva da morte eterna.

          Misericórdia: Coroa-te de graça e misericórdia”. A palavra hebraica hesed aparece novamente. É o amor da aliança. Amor que permanece quando não há mérito.

          Renovação: Sacia de bens...”. A graça não apenas perdoa. Ela restaura continuamente.

O centro do Salmo 103 são as palavras “O Senhor é misericordioso...”. Essas palavras são praticamente uma citação de Êxodo 34 da qual Davi entende que todo perdão começa no caráter de Deus.

          O perdão é infinito: “Quanto dista o Oriente do Ocidente...

Que imagem magnífica! O Oriente jamais encontra o Ocidente. O pecado perdoado jamais retorna como acusação diante de Deus. Não significa que Deus sofre amnésia, significa que Deus decidiu não tratar mais o pecador conforme sua culpa.

Ao ler o relato de Gênesis 50.15-21 a luz do Novo Testamento, vemos que José é como uma figura de Cristo.

Após a morte de Jacó, os irmãos entram em pânico e pensam que José iria se vingar. Eles ainda não compreenderam plenamente o perdão.

Observemos que muitas pessoas, mesmo perdoadas, continuam carregando culpa durante muitos anos, isso pelo fato da culpa possuir memória longa.

No texto de Gênesis 50 é narrado que “José chorou”. Por quê? Porque percebe que seus irmãos ainda acreditavam que seu amor era condicionado. Eles pensavam que enquanto Jacó estava vivo eles foram poupados e, com a morte do pai, o perdão havia acabado e José revela justamente o contrário perguntando aos irmãos: “Estou eu no lugar de Deus?

Caríssimo, o equívoco da vingança é que esse desejo pretende ocupar o lugar do Juiz que não é da pessoa. Diante dos irmãos, dos quais José tinha todos os motivos para vingar-se, José recusa ocupar o trono de Deus e declara que somente Deus é quem julga.

          José reconhece: “Vós intentastes o mal contra mim”. O verbo hebraico chashav significa planejar. Era verdade que os irmãos planejaram mal, todavia, o que Deus fez? Deus planejou salvação mesmo diante daquela maldade. De maneira alguma podemos concluir que Deus aprovou o pecado. Na verdade, essas palavras enfatizam que a providência divina é maior que a maldade humana (Romanos 8.28).

          José é um tipo de Cristo, tendo sido vendido, humilhado e exaltado. Salvou justamente àqueles que o rejeitaram; perdoou os culpados, assim Cristo.

          Na carta aos Romanos 14.1-12, o apóstolo Paulo aplica esse princípio dentro da igreja onde o problema não era a heresia, era o julgamento.

Alguns cristãos, mesmo livres em Cristo, ainda observavam certas restrições alimentares enquanto outros não mais observavam. Uns valorizavam determinados dias e outros, não. O problema não era essas diferenças. O problema foi transformar opiniões em critérios de salvação.

          Assim, o “fraco” na fé possuía consciência limitada e o “forte” na fé compreendia melhor a liberdade cristã. Paulo escreveu que ambos pertenciam ao Senhor, e por essa razão os questionou: Quem és tu para julgar?

O verbo empregado possui sentido judicial, através do qual o apóstolo Paulo proíbe ocupar o tribunal que pertence exclusivamente a Cristo.

O centro dessa perícope (Rm 14.1-12) são as palavras: vivemos para o Senhor. E por elas, Paulo enfatiza que a identidade cristã não é construída sobre preferências pessoais, é construída sobre pertencimento, por isso, vivemos; morremos; somos do Senhor. Quem pertence totalmente a Cristo não precisa controlar espiritualmente o irmão.

O tribunal é de Cristo e saber que todos compareceremos diante dele elimina duas atitudes: a arrogância e o desprezo.

          Quando Jesus fala sobre o perdão, Pedro pergunta: “Até sete vezes?

Os rabinos ensinavam sobre a necessidade do perdão ser dado apenas três vezes e por isso, Pedro acredita estar sendo extremamente generoso ao perguntar sobre sete vezes e Jesus responde sobre setenta vezes sete.

Não é uma questão matemática, é um estilo de vida. O discípulo nunca contabiliza perdões a ponto de dizer essa é a última vez.

          Caríssimos, o texto destaca que existem dois devedores. Primeiro: o que deve dez mil talentos; depois: o outro que deve cem denários.

Um talento corresponde aproximadamente a vinte anos de trabalho, assim, dez mil talentos equivale a cerca de duzentos mil anos de salário. Outro detalhe, “dez mil” (myrioi) era o maior número usado na língua grega e com isso Jesus destaca que era uma dívida impagável. Essa dívida representa nossa dívida diante de Deus.

          O outro devedor devia cem denários, ou seja, cem dias de trabalho. Observem a diferença no tamanho das dívidas. E essa diferença visa destacar o tamanho do perdão que recebemos de Deus.

          O servo perdoado se tornou impiedoso. E a tragédia não é apenas sua crueldade, a tragédia foi viver como se nunca tivesse sido perdoado de uma dívida tão astronômica. Quem perde a consciência da graça torna-se inevitavelmente severo.

          Jesus conclui: “Se não perdoardes de coração...”.

No pensamento bíblico, coração não significa emoção. É o centro da vontade.

Perdoar de coração significa renunciar deliberadamente ao direito da vingança. Perdoar de coração não significa negar a dor e nem esquecer automaticamente. Perdoar de coração não significa restaurar imediatamente a relação. Perdoar de coração significa entregar o julgamento definitivamente nas mãos de Deus.

          No Salmo recebemos o anúncio de um Deus que lança nossos pecados para longe. A história de José mostra uma vida de perdão, onde não se busca a vingança. O apóstolo Paulo mostra que o perdão molda a vida comunitária. Jesus revela que o perdão recebido se torna necessariamente perdão oferecido. Tudo aponta para a cruz.

Na cruz acontece aquilo que o Salmo apenas anunciava. Na cruz, Deus remove definitivamente nossos pecados. Na cruz, Cristo se torna o verdadeiro José, que salva exatamente aqueles que o feriam. Na cruz nasce a igreja descrita pelo apóstolo Paulo. Na cruz aprendemos a viver como um servo perdoado.

          1.Vivemos na cultura do cancelamento; Cristo chama para a cultura da reconciliação.

A sociedade atual preserva arquivos permanentes de erros. Redes sociais, notícias e memórias digitais tornam fácil condenar alguém indefinidamente. O Evangelho segue na direção oposta. Deus não minimiza o pecado, mas, em Cristo, oferece perdão real e uma nova identidade. Isso desafia a igreja a ser um lugar onde o arrependimento encontra acolhimento, e não uma sentença perpétua.

2.O ressentimento aprisiona quem o alimenta.

Os irmãos de José permaneceram presos ao medo por anos, mesmo depois de terem sido perdoados. Da mesma forma, muitos vivem dominados por culpas antigas ou por mágoas nunca entregues a Deus. O perdão cristão não altera o passado, mas impede que ele continue governando o presente.

3.A liberdade cristã exige humildade.

Em Romanos 14, Paulo lembra que diferenças em questões secundárias não devem romper a comunhão. Em uma época marcada por polarização, inclusive dentro das igrejas, é necessário distinguir entre doutrinas essenciais e opiniões ou práticas legítimas. O cristão é chamado a defender a verdade sem transformar preferências pessoais em condição para a salvação.

4.Perdoar não é negar a justiça, mas confiar o julgamento a Deus.

A parábola de Mateus 18 não elimina a responsabilidade civil, a disciplina eclesiástica ou a necessidade de proteger vítimas. Perdoar não significa ignorar o mal ou permitir abusos contínuos. Significa renunciar à vingança pessoal e confiar que a justiça pertence ao Senhor, que julga com perfeita retidão.

5.O Evangelho cria uma comunidade de pessoas perdoadas.

A igreja não é formada por pessoas moralmente superiores, mas por pecadores reconciliados com Deus. Quando essa verdade é esquecida, surgem legalismo, dureza e julgamentos. Quando é lembrada, florescem misericórdia, paciência e disposição para restaurar o irmão arrependido.

O perdão de Deus é a fonte e o modelo de toda a vida cristã. O Deus do Salmo 103 remove nossos pecados “tão longe quanto o Oriente está do Ocidente”. Em José vemos esse perdão tomando forma na história. Em Romanos, ele sustenta a comunhão da igreja. Em Mateus, Jesus declara que quem recebeu uma dívida infinita cancelada não pode viver cobrando, sem misericórdia, as pequenas dívidas do próximo.

O perdão cristão não nasce do esforço humano, mas da cruz de Cristo. Somente quem vive diariamente da absolvição concedida por Deus pode aprender a dizer, com palavras e ações: “Assim como fui perdoado, também perdoo”. Esse é o testemunho do Reino em um mundo marcado pela vingança, pela polarização e pelo ressentimento.

 

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

#O silêncio que destrói e a fala que cura!

 06 de setembro de 2026

Próprio 18 - Décimo Quinto Domingo após Pentecostes

Salmo 32.1-7; Ezequiel 33.7-9; Romanos 13.1-10; Mateus 18.1-20

Tema: O silêncio que destrói e a fala que cura!

 

Vivemos em uma cultura que confunde silêncio com paz e tolerância com amor. Aprendemos a calar o que nos machuca, a varrer nossos conflitos para debaixo do tapete e a omitir a verdade em nome de uma falsa convivência pacífica. Contudo, as Escrituras nos alertam sobre uma realidade solene: existe um silêncio que destrói, assim como existe uma palavra que cura.

Nas leituras bíblicas de hoje (Salmo 32.1-7; Ezequiel 33.7-9; Romanos 13.1-10; Mateus 18.1-20), convergem para uma única e grande verdade. Deus preserva a sua comunidade mediante a Palavra que denuncia o pecado, conduz ao arrependimento, restaura o pecador e forma um povo governado pelo amor responsável.

Deus é o grande Atalaia e Pastor de nossas almas. Ele não nos abandona ao nosso próprio engano. Do Salmo ao Evangelho de Mateus, vemos a dinâmica da graça divina operando. O pecado é revelado, o pecador é conduzido à confissão, o perdão gera uma vida de amor, e esse amor assume a responsabilidade de buscar e restaurar o irmão que se desviou.

O silêncio que destrói por dentro (Salmo 32.1-7).

O Salmo 32 é um dos salmos penitenciais escritos por Davi após a dolorosa experiência do ocultamento e da subsequente confissão do seu pecado. Logo na abertura deste texto, é exposto a real anatomia da condição humana ao utilizar três termos precisos para descrever o mal que nos habita.

Transgressão (pesha' - פשע): não se trata de um simples erro inconsciente, mas de revolta, insurreição e ruptura deliberada da aliança com Deus.

Pecado (chatta'ah - חטאה): significa “errar o alvo”. O ser humano foi criado para viver diante do Criador, mas o pecado o faz perder completamente essa vocação original.

Iniquidade ('avon - עון): refere-se à culpa e à distorção interior. Não aponta apenas para atos isolados, mas para uma natureza humana deformada.

Enquanto Davi guardou silêncio sobre o seu pecado, tentando cobri-lo com a dissimulação, o resultado foi devastador: “Enquanto calava o meu pecado, envelheceram os meus ossos... a tua mão pesava sobre mim” (Sl 32.3-4). O pecado não confessado produz morte interior. O silêncio do pecador não anula a justiça de Deus; apenas o consome por dentro.

Mas o silêncio que destrói é quebrado pelo caminho da restauração. No versículo 5, observe os verbos de ação do salmista: “Não escondi... declarei”. E a resposta divina é imediata: “Tu perdoaste”. A ordem bíblica jamais muda, confissão  Absolvição = Alegria.

O perdão divino é revelado no salmo através de três verbos da graça.

Perdoar (nasa'): levantar o peso. A culpa esmagadora é removida de sobre os nossos ombros.

Cobrir (kasah): o pecado desaparece diante dos olhos divinos, expiado pelo sacrifício.

Não imputar (hashav): é um termo jurídico que declara: “Esta dívida não entra mais na sua conta”. É exatamente este termo que o apóstolo Paulo cita em Romanos 4 para explicar a doutrina da justificação pela fé.

O silêncio que destrói ao outro (Ezequiel 33.7-9)

Se o Salmo 32 nos alerta sobre o silêncio que destrói a nós mesmos, o profeta Ezequiel nos mostra o perigo do silêncio que destrói o nosso próximo.

Em Ezequiel 33, Jerusalém está prestes a cair. Nesse momento crítico de transição, Deus reorganiza o Seu povo e constitui o profeta como um tsopheh (צֹפֶה), um vigia, sentinela ou atalaia. No antigo Oriente, a função do Atalaia sobre o muro não era lutar contra o inimigo, mas enxergar o perigo e dar o alarme.

Deus diz ao profeta que, se o ímpio não for avisado do seu mau caminho e morrer, “o seu sangue eu o requererei da tua mão”. Essa expressão deriva da legislação da aliança, ou seja, quem se cala torna-se corresponsável pela tragédia. O silêncio do Atalaia mata. Não porque o profeta tenha o poder de condenar, mas porque ele escondeu a única Palavra capaz de salvar.

Observe o coração pastoral de Deus no encargo do Atalaia. O objetivo divino nunca é a condenação, mas a conversão. A advertência não é um ato de vingança, mas um instrumento da graça. A ira bíblica serve ao propósito da salvação. Deus denuncia o perigo para que o pecador se volte e viva.

A fala que cura e restaura (Mateus 18.1-20)

No Novo Testamento, Jesus pega o encargo do Atalaia de Ezequiel e o estende a toda a comunidade de fé. Em Mateus 18, Jesus ensina sobre a disciplina e a reconciliação na Igreja, dizendo: “Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só”.

A Igreja inteira é chamada a exercer o papel de Atalaia da graça. No entanto, a forma como essa fala deve ser exercida exige o correto entendimento do amor cristão, como ensinado por Paulo em Romanos 13.1-10.

Paulo ensina que, após sermos justificados pela graça, somos chamados a viver em uma nova ordem de amor. O apóstolo afirma: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros” (Rm 13.8). O verbo amar (agapan) está no presente, ou seja, é algo contínuo, é uma dívida permanente que jamais se quita.

O amor bíblico (agape) não é mera emoção sentimental; é decisão, serviço e responsabilidade pela vida do outro. E é aqui que os textos se alinham perfeitamente. O amor é o cumprimento da Lei, e corrigir um irmão em erro é um ato de supremo amor. Ignorar o pecado do irmão não é amor ou tolerância; é omissão e abandono. O silêncio diante do erro do irmão é deixá-lo caminhar para a ruína. A fala inspirada pelo amor é o remédio da graça.

A instrução de Jesus em Mateus 18 não visa expor, humilhar ou banir o pecador, mas ganhar o irmão. A correção bíblica segue etapas claras de proteção e cuidado pastoral. A correção é pessoal e privada, pois resguardar a dignidade e busca a reconciliação no nível mais discreto possível. Quando há necessidade de testemunhas é para confirmar a verdade e buscar mediação em amor. Quando o assunto vai para a Igreja, é o apelo para o resgate final.

Isso revela que a autoridade dada à Igreja para “ligar e desligar” não é um poder tirânico, mas o ministério restaurador da Palavra de Cristo no meio do seu povo.

Querida igreja, as quatro leituras desta semana revelam que o nosso Deus é um Deus que fala e nos convida a sair do silêncio destrutivo para vivermos na verdade que cura.

Quebre o silêncio diante de Deus (Salmo 32): Se você tem escondido o seu pecado, confesse hoje. Há perdão pleno, cancelamento de dívida e alegria transbordante na presença do Senhor.

Assuma o seu papel de Atalaia (Ezequiel 33): Não se cale diante do mundo e nem dentro do seu lar. Omitir a Palavra da verdade àqueles que estão se perdendo não é gentileza, é omissão perigosa.

Pratique a fala que cura no corpo de Cristo (Romanos 13 e Mateus 18): Se você vê seu irmão se desviando do caminho, não comente com os outros, vá até ele em amor. Não o abandone no erro. Lembre-se de que a dívida do amor jamais caduca. Fale a verdade em amor, pois a palavra dita com sabedoria e graça é instrumento da cura de Cristo.

Que o Senhor nos livre do silêncio da cumplicidade e nos conceda a coragem da fala restauradora. Que sejamos uma comunidade onde a graça abunda, o pecado é confessado e abandonado, e o amor responsável edifica o corpo de Cristo. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

A morte diária do ego! (Mt 16.21-28)

 30 de agosto de 2026

Próprio 17 – Décimo Quarto Domingo após Pentecostes

Salmo 26; Jeremias 15.15-21; Romanos 12.9-21; Mateus 16.21-28

Texto: Mateus 16.21-28

Tema: A morte diária do ego!

 

Meus irmãos e irmãs, se há uma coisa que define a cultura do nosso tempo, é a nossa obsessão pelo “eu”. Vivemos em uma época que nos ensina, do amanhecer ao anoitecer, a olhar para dentro de nós mesmos, a buscar a nossa autossatisfação, a promover a nossa imagem e a proteger, a qualquer custo, os nossos próprios interesses. A sociedade moderna nos diz que a chave para a felicidade é a autoafirmação: construir uma reputação sólida, acumular conforto e garantir que os nossos desejos estejam sempre no centro. Desde o momento em que a gente acorda até a hora de deitar, o mundo fica dizendo no nosso ouvido: Você tem que pensar em você primeiro. Faça a sua vontade. Garanta o seu terreno, proteja o seu orgulho e não leve desaforo para casa.

A gente aprende desde cedo a colocar o nosso “eu” no centro de tudo e é ele que precisa mandar na nossa casa, no nosso trabalho, nas nossas conversas e até na igreja.

O pastor Timothy Keller explicou no livro Ego Transformado que o nosso “ego” é feito de quatro coisas: é vazio, porque tenta encher o coração com coisas que passam e nunca se satisfaz. É dolorido, qualquer palavra torta, qualquer coisinha que não sai do nosso jeito já faz a gente remoer raiva e ficar chateado. É ocupado, passa o tempo todo querendo se comparar com o vizinho ou provar que está certo. É frágil, qualquer tempestade, perda ou decepção derruba de uma vez.

O grande perigo na caminhada com Deus é querer usar o Senhor só para abençoar a nossa vontade. As pessoas desejam que Deus guarde sua lavoura, proteja sua saúde e faça seus gostos interesseiros, mas não quer que Jesus mande em sua vida que em muitas situações pede para “abrir mão” dos nossos interesses.

Mateus 16 traz um relato sobre Pedro e por ele Jesus nos dá um recado muito claro e direto. Jesus não veio para fazer nossas vontades; Jesus pede o ego morra para e vivamos verdadeiramente.

O texto bíblico (Mt 16.21-28) apresenta um momento de grande virada no ministério de Jesus, “Desde então” (Mt 16.21).

Até antes desse episódio, Jesus estava ensinando as multidões, curando os doentes e fazendo grandes milagres. E num momento a sós com seus discípulos, Pedro pelo poder do Pai fez uma verdadeira declaração de fé: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!

E, desde aquele momento, Jesus começa a explicar como seria de fato a sua missão. Jesus disse aos discípulos que precisava ir para Jerusalém, que iria passar por muitos sofrimentos nas mãos das autoridades, que seria morto numa cruz e que, ao terceiro dia, ressuscitaria.

Ao ouvir isso, os discípulos se chocaram e Pedro, que pelo poder do Pai tinha acabado de confessar que Jesus era o Messias, agora, por força de si mesmo, chama Jesus de lado e o repreende dizendo:Deus não permita isso, Senhor! Isso nunca vai acontecer com o Senhor!” (Mt 16.22).

Por que Pedro fez isso? Pedro queria um Messias forte, com poder terreno, sem dor, sem sofrimento e sem cruz. Pedro queria a vitória de Jesus, mas não queria o caminho da dor. Pedro quis que Jesus e sua missão coubesse em seu próprio pensamento.

A resposta de Jesus para Pedro foi dura e direta: “Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço no meu caminho, porque não pensa nas coisas de Deus, mas sim nas coisas dos homens” (Mt 16.23).

Por que Jesus falou assim com Pedro? Porque a ideia de alcançar a glória sem passar pela cruz era a mesma tentação que o diabo tinha apresentado a Jesus no deserto (Mt 4).

Jesus Chamou Pedro de pedra de tropeço. Uma pedra de tropeço é uma pedra no meio do caminho. É a pedra escondida na terra que faz a junta de bois parar; que quebra o arado ou; que faz o caminhante tropeçar e cair feio.

Quantos estão tropeçando em pedras de tropeço ou até sendo uma pedra de tropeço. Pessoas querem um Jesus que perdoe os pecados, todavia, quando se pede que se abra mão dos próprios interesses por sua causa, parece ser inadmissível. Jesus pede para você “abrir mão” da sua razão e perdoar àquele que te ofendeu; passe por essa provação sem murmúrio.

Ainda há muitas pessoas sendo pedra de tropeço, ou seja, buscam um Jesus que sirva aos seus interesses, ao invés de servirem aos interesses de Cristo.

Diante do ataque do diabo por boca de Pedro, vendo Jesus que seus discípulos não tinham entendido o seu caminho, Jesus olha para eles e diz: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

Jesus usa três ordens bem claras aqui.

Negar a si mesmo

A palavra usada para “negar” é a mesma que Pedro usou mais tarde, na noite em que Jesus foi preso, quando disse três vezes: “Eu não conheço este homem!”.

Negar a si mesmo é olhar para a própria vontade, o orgulho, a teimosia, e dizer com firmeza: “...vocês não têm autoridade sobre mim; ...”.

Negar a si mesmo não significa ficar se diminuindo ou achando que não tem valor. Seus interesses são importantes e Jesus não os desvaloriza, todavia, o negar a si mesmo é tirar o seu orgulho do comando e entregar as rédeas da vida nas mãos de Jesus.

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

Tomar a sua cruz

No tempo de Jesus, a cruz era o instrumento de execução mais terrível que existia. Quando os moradores viam um homem caminhando pelas estradas carregando a madeira da cruz nas costas, sabiam de três coisas. 1) - Esse homem perdeu seus direitos (não adiantava mais discutir, dar explicações ou tentar se defender); 2) - Esse homem se rendeu (estava debaixo do poder do império). 3) - Esse homem estava num caminho sem volta (quem saía carregando a cruz não voltava para casa no fim do dia para jantar com a família, ele ia para a morte).

Tomar a cruz não é suportar as lutas normais da vida. Tomar a cruz é a decisão diária de se manter fiel a Jesus, mesmo quando o melhor parece ser abandoná-lo.

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

Siga-me

As duas primeiras atitudes: negar a si mesmo e tomar a cruz, são decisões firmes que a gente toma de uma vez por todas. Mas, “seguir”, significa um passo atrás do outro, todo santo dia.

Quando caminhamos numa picada, dentro de uma mata com alguém, aquele que caminha na frente é aquele que conhece o caminho. O caminhante segue atrás, pisando no caminho por onde o guia passou. Por um breve momento, talvez com ego ainda inflado pelo elogio, Pedro, quis caminhar na frente e ensinar a Jesus o que era melhor a se fazer. Por isso, as palavras “Para trás de mim...” é um chamado de Jesus para que Pedro ocupe o seu lugar e o siga, mesmo sendo por um caminho árduo.

        Jesus continua o seu ensino fazendo uma conta muito simples, que qualquer pessoa entende: “Porque quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa vai achá-la” (Mt 16.25).

O mundo diz que para ganhar a vida você tem que ajuntar tudo o que puder. O mundo diz que para ganhar a vida, é preciso defender seus direitos, pensar apenas no seu bem-estar. E, em oposição a isso, Jesus diz claramente que, quem vive desse jeito, buscando guardar tudo para si e defender seus direitos e fugindo do compromisso com Deus, vai chegar no final da jornada com as mãos completamente vazias. Por outro lado, aquele que “perde” os seus próprios interesses por interesse de Cristo, aquele que gasta seu tempo servindo aos irmãos, que usa os seus recursos para o bem do próximo e que deixa o seu orgulho ser crucificado, encontra a verdadeira vida. Por isso, Jesus questiona: “Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou o que o homem poderá dar em troca da sua alma?” (Mt 16.26).

Pense naquele homem que trabalhou a vida inteira. Comprou muitas terras, encheu o pasto de gado, ajuntou uma boa quantia no banco e conseguiu o respeito de todo mundo na região. Mas, para conseguir tudo isso, viveu de costas para Deus, alimentando seus próprios interesses e esquecendo da sua salvação. Quando chegar a hora de partir desta terra e ele estiver diante de Deus (Mt 16.27), de que vão adiantar as escrituras dos terrenos, o gado ou as benfeitorias? Nada disso compra a salvação de uma alma. O mundo inteiro não paga o valor da nossa vida eterna. Caríssimos, vivemos apenas uma vez. Pode ser que nossa vida seja interrompida pelo viver aqui, mas, a vida é uma. E o que será depois?

A verdadeira libertação não é a gente se achar melhor do que os outros, nem ficar se diminuindo. A verdadeira libertação é parar de pensar tanto em si mesmo e começar a olhar para Cristo.

Quando o ego morre:

- Não se fica com raiva quando alguém não elogia;

- Não perde o sono tentando defender a própria fama;

- Não fica amargurado quando as coisas na vida não saem do nosso jeito.

- Confia que a vida está guardada nas mãos daquele que deu a própria vida por nós na cruz.

O Evangelho da cruz é o evangelho da graça que transforma nossa vida inteira. A salvação é um presente do amor de Deus e para caminhar com Jesus, o ego precisa morrer diariamente.

Sob a cruz de Cristo nosso homem velho precisa morrer para vivermos a verdadeira vida. Que o Espírito Santo nos dê humildade e coragem para dizer não aos nossos próprios interesses que tantas vezes nos fazem tropeçar e ser uma pedra de tropeço. Deus abençoe a todos. Amém.

Oração

Senhor, nosso Deus e Pai querido, te agradecemos por tua Palavra tão clara e verdadeira. Reconhecemos diante do Senhor que o nosso coração muitas vezes é teimoso e cheio de orgulho. Muitas vezes queremos as tuas bênçãos e não queremos ser uma bênção seguindo teus passos.

Perdoe nossos pecados e tira de nós o orgulho, a vaidade e o desejo fazer prevalecer a nossa razão. Ensina e ajuda-nos a negar a nós mesmos, carregar nossa cruz e seguir teu Filho. Em nome de Jesus, oramos. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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terça-feira, 18 de agosto de 2026

A opinião pública e a voz do Pai! (Mt 16.13-20)

 23 de agosto de 2026

Próprio 16 – Décimo Terceiro Domingo após Pentecostes

Salmo 138; Isaías 51.1-6; Romanos 11.33-12.8; Mateus 16.13-20

Tema: A opinião pública e a voz do Pai!

 

            A voz do povo é a voz de Deus! Será?

       Os evangelhos registram que Jesus tentou por muitas vezes ficar sozinho com seus discípulos. Por nove vezes, esse plano foi fracassado e nessa, a décima oportunidade, Jesus chegou com seus discípulos aos vales solitários onde está a nascente do rio Jordão, aos pés do Monte Hermon, na cidade de Cesareia de Filipe.

       Podendo ter um momento a sós com seus discípulos, Jesus questiona sobre a opinião pública sobre: “Quem o povo diz que o Filho do Homem é?” (Mt 16.13).

       A designação Filho do Homem aponta para o mediador encarnado que verdadeiramente nasceu da virgem Maria, sofreu, morreu, ressuscitou e voltará para julgar.

       A opinião pública a respeito sobre quem era Jesus variava. O Rei Herodes Antipas o tinha como ressurreição de João Batista. Outros, recordavam da profecia anunciada pelo profeta Malaquias (Ml 4.5) e diziam que Jesus era Elias devolvido a terra. Outros, recordando 2Macabeus (2Mac 2.4) acreditavam que o profeta Jeremias saiu da caverna, onde guardava o tabernáculo e arca da aliança. Outros diziam que Jesus fosse algum dos profetas.

       Apesar dessas opiniões positivas a respeito de Jesus, elas destacavam que Jesus não era o Messias. Além dessas opiniões positivas, vemos ao longo dos evangelhos opiniões negativas, tal como dos parentes de Jesus que o consideravam louco. Pessoas piedosas o tinham como alguém que andava com gente que não presta, tal como publicanos e pecadores e ainda um beberrão e comilão. Religiosos e políticos o tinham como um entusiasta, um inovador perigoso, charlatão e blasfemo.

       De acordo com a opinião pública, era unânime que Jesus não era o Messias. Nem sempre a voz do povo é a voz de Deus. Isso fica mais evidente, quando Jesus perguntou se eles concordavam com essa opinião pública e ouvimos Pedro responder, como sendo uma voz direta de Deus, que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.16).

       A voz de Deus, diferentemente da opinião pública, disse por boca de Pedro que Jesus é o Messias, o Cristo, o Ungido. Ou seja, o Filho do Homem é o Filho do Deus vivo, é o próprio Deus vivo. O próprio apostolo João enfatiza Jesus como sendo o eterno filho de Deus (Jo 1.1-18).

       Essa verdade e confissão dada pelo Pai, por boca de Pedro, é a rocha sobre a qual a igreja está edificada. Pela opinião pública, por suas muitas posições mesmo que positivas sobre Jesus, apenas afastam pessoas dessa confissão central.

       Qual é a opinião pública sobre Jesus?

A opinião pública sobre Jesus é variada e complexa. Muitas pessoas o veem como um homem que pregou o amor, a fraternidade, a paz e a justiça, admirando sua coragem diante do poder estabelecido e sua dignidade diante da morte. No entanto, muitos não reconhecem Jesus como o Messias prometido, preferindo soluções sociais e econômicas que regulariam a vida do mundo. A pesquisa de Lee D. Ross revelou que as opiniões de grupos protestantes e católicos, liberais e conservadores, são muito diferentes da opinião que o próprio Jesus teria atualmente.

       Confessar e crer na voz do Pai de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo é essencial. A partir dela, recebemos da boca de Jesus uma maravilhosa promessa de Jesus: “...e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e nem a morte poderá vencê-la...” (Mt 16.18, NTLH); “...sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela...” (Mt 16.18, ARA).

       Os israelitas imaginavam o reino dos mortos como sendo uma fortaleza em que havia uma porta de entrada. Quem atravessasse essa porta se mantinha preso e ninguém retornava do reino dos mortos.

       Jesus, ao ter sido revelado pelo Pai, por boca de Pedro, que é o Filho do Deus vivo, o próprio Deus vivo, é o vencedor da morte. Ele não permaneceu na sepultura. E a igreja, os que creem nessa verdade de que Jesus é o vencedor da morte, é o Deus vivo, pode se alegrar e refugir na certeza de que há vida eterna.

       Por essa razão, a igreja, tal como um batalhão em prontidão, com soldados ativos, “...apresentam o ... corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional... sendo um só corpo em Cristo e membros uns dos outros, tendo, ..., diferentes dons segundo a graça que nos foi dada... segundo a proporção da fé; ... dedicando-nos ao ministério; ...” (Rm 12.1,5-8).

       As portas do inferno, ou seja, opiniões públicas, mesmo que positivas a respeito de Jesus, querem nos afastar da fé no Cristo, o Filho do Deus vivo.

       As chaves do Reino dos céus continuam na igreja. Essa chave é Cristo, aquele que abre a porta do céu ao pecador arrependido. A mensagem do Cristo, o Filho do Deus vivo, como escreveu Paulo, continua sendo perfume para vida e para outros, cheiro de morte (2Co 2.12-14).

       Nem sempre a opinião pública é a voz de Deus e ainda hoje, a voz de Deus, pela confissão da Igreja, continua dizendo que Jesus é o Messias, o vencedor da morte que concede perdão, vida e salvação. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

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O Deus que transforma o mal em graça (Gn 50.15-21)

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