segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Rei dos cansados (Mateus 11.25-30)

 05 de julho de 2026

Próprio 9 – Sexto Domingo após Pentecostes

Salmo 145.1-14; Zacarias 9.9-12; Romanos 7.14-25; Mateus 11.25-30

Tema: O Rei dos cansados

 

Vivemos em uma época marcada pela exaustão. Há pessoas cansadas do trabalho que nunca termina, dos relacionamentos que exigem mais do que conseguem oferecer, do bombardeio constante de notícias, das cobranças externas e das expectativas que carregam sobre si mesmas. Muitos acordam já fatigados, não apenas fisicamente, mas também emocional e espiritualmente, sentindo o peso de uma vida que parece exigir sempre mais e oferecer cada vez menos descanso.

O peso mais difícil não vem de fora, mas de dentro. É o peso do pecado que habita em nós. É conhecer a vontade de Deus e perceber que muitas vezes fazemos justamente o contrário. É carregar a culpa das palavras que não deveríamos ter dito, das atitudes que deveríamos ter tomado e dos pecados que insistem em nos acompanhar. É o sofrimento descrito por Paulo: querer fazer o bem, mas encontrar em si mesmo outra força que o arrasta para o mal. É o peso de uma consciência que acusa e de um coração que reconhece suas próprias limitações.

Por isso, as leituras do culto de hoje falam diretamente ao coração, pois apresentam um Rei diferente de todos os Reis deste mundo.

A Palavra de Deus revela um Rei cujo poder se manifesta de maneira surpreendente. Ele não exige que os cansados encontrem forças para chegar até Ele; Ele mesmo vem ao encontro deles. Não pisa sobre os fracos para demonstrar sua grandeza; sustém os que tropeçam e levanta os que caem. Não condena os pecadores para afirmar sua justiça; assume sobre si a culpa deles para lhes oferecer perdão. Este é o Rei Jesus: poderoso em misericórdia, glorioso em compaixão e rico em graça para salvar.

O Rei dos cansados. Um rei misericordioso.

Davi declara no Salmo 145: “O Senhor Deus é bom e cheio de compaixão; ele demora a ficar irado e tem sempre muito amor” (Sl 145.8).

O mundo costuma admirar reis fortes, conquistadores e vencedores. Mas Deus revela sua grandeza de outra maneira. Sua majestade aparece em sua misericórdia. Seu poder aparece em sua compaixão. Sua glória aparece em sua graça. O salmista afirma: “Ele ajuda os que estão em dificuldade e levanta os que caem” (Sl 145.14).

O verbo hebraico (samekh) significa literalmente “apoiar”, “segurar”.

Que imagem extraordinária!

Não temos um Deus que observa os caídos à distância. Pelo contrário, temos um Deus que se inclina para sustentar os caídos. Deus não abandona os fracos. Deus segura àqueles que já não conseguem permanecer em pé.

Uma verdade consoladora, afinal, todos nós vacilamos, tropeçamos, passamos por dias em que nossa fé enfraquece. No entanto, a nossa esperança não está na força de nossas mãos, está nas mãos daquele que nos sustenta.

O Rei dos cansados veio até nós

O profeta Zacarias anunciou: “...o seu rei está chegando” (Zc 9.9).

Observe a direção do movimento. Não somos nós que vamos até o Rei. É o Rei que vem até nós. Ele não vem montado num cavalo de guerra. Não vem cercado por exércitos. Não vem para destruir. Não vem para esmagar. Ele vem montado num jumento.

Segundo Keil & Delitzsch, o jumento não simboliza pobreza apenas. No Antigo Oriente, era também um animal associado à paz. O Messias não viria como conquistador militar. Viria como portador da reconciliação. Por isso o profeta afirma: “Ele acabará com os carros de guerra de Israel e com a cavalaria de Jerusalém; os arcos e as flechas serão destruídos. Ele fará com que as nações vivam em paz; o seu reino irá de um mar a outro, ...” (Zc 9.10).

O reino messiânico elimina os instrumentos humanos de salvação.

Jesus vem em humildade, vem em paz, vem para reconciliar.

As palavras “eu fiz uma aliança com vocês, que foi selada com sangue...” (Zc 9.11) antecipa claramente a Nova Aliança. A libertação não ocorre pela espada, mas pelo sangue. Aqui temos uma ligação com Mateus. Mateus 21 aplica explicitamente esta profecia à entrada triunfal de Cristo em Jerusalém. O Rei prometido é Jesus que reina pela cruz.

A libertação não vem pela espada. Vem pelo sangue. Não vem pela força. Vem pela cruz. Não vem pelo mérito. Vem pela graça.

O Rei prometido e anunciado pelo profeta Zacarias é Jesus. E sua coroação acontece numa cruz.

Na cruz Jesus derrota os inimigos que realmente escravizam a humanidade: o pecado, a morte e Satanás.

Os cansados continuam lutando

Talvez alguém imagine que, depois da conversão, toda luta termina, mas o apostolo Paulo afirma na carta aos Romanos, capítulo 7 uma realidade diferente.

O apostolo confessa: “Eu não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer. Pelo contrário, faço justamente aquilo que odeio” (Rm 7.15).

Quem fala assim não é incrédulo, é um cristão, é um apostolo, é um homem regenerado pelo Espírito Santo.

A descrição do apostolo é a experiência de todos os cristãos. O cristão ama a Lei de Deus, deseja obedecê-la, quer agradar ao Senhor, todavia, encontra em sua natureza pecaminosa uma resistência permanente.

A velha natureza continua lutando contra a nova natureza. Martinho Lutero dizia que o cristão é simultaneamente justo e pecador. Justo diante de Deus por causa de Cristo e pecador em sua carne.

Todos conhecem e enfrentam essa batalha. Quantas vezes prometemos ser mais pacientes? Mais amorosos? Mais fiéis? Mais dedicados? E quantas vezes falhamos novamente?

Além disso, o grande perigo é cair em um de dois erros.

Primeiro, perfeccionismo. Viver pensando que é possível atingir perfeição nesta vida. Segundo: desespero. Viver pensando que as lutas provam que Deus abandonou na luta.

C.F.C. Walther, diante do perigo desses dois erros, responde destacando que a luta não prova ausência de fé, pelo contrário, a luta é evidência da fé. Afinal, um incrédulo não combate o pecado. O cristão o combate. Pois enquanto o incrédulo faz as pazes com o pecado, o cristão sofre por causa dele, chegando ao ponto de gritar o grito do apostolo Paulo: “Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte?” (Rm 7.24). Esse não é o grito da incredulidade, é o grito de uma fé ferida que anseia pela libertação.

O Rei dos cansados oferece descanso

Ouça atentamente as palavras mais doces do Evangelho: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28).

Perceba que Jesus não está chamando os fortes, os autossuficientes, os que acreditam ter tudo sob controle. Jesus chama e convida os cansados, os abatidos, os culpados, os pecadores, os que chegaram ao fim de si mesmos.

O homem de Romanos 7 encontra sua resposta nas palavras de Jesus apresentadas em Mateus 11.

Diante do clamor: “Como sou infeliz!”, Cristo responde: “Venham a mim”.

Ao peso da culpa, Jesus responde: “Eu lhes darei descanso”. Diante da consciência acusadora, Jesus Cristo declara: “a carga que eu ponho sobre vocês é leve”.

Para o pecador cansado, Jesus Cristo oferece descanso. Não é um descanso temporário. Não é uma pausa emocional. Jesus oferece o descanso da reconciliação com Deus. O descanso do perdão. O descanso da justificação. O descanso de saber que Cristo fez tudo aquilo que nenhum pecador conseguiria e consegue fazer.

A carga de Jesus é leve porque foi Jesus quem carregou o peso da condenação; Jesus suportou o fardo da cruz e sua paz é verdadeira porque foi comprada com seu sangue.

Uma sociedade cheia de pessoas cansadas. Cansadas de correr, de provar seu valor, de tentar consertar a própria vida e de lutar sozinhas.

Não sei dizer como você está hoje. Talvez hoje você esteja carregando algum peso; uma culpa antiga; uma luta secreta; uma tristeza profunda; uma batalha espiritual; uma sensação de fracasso. Ouça a boa-notícia da Palavra de Deus.

O Deus do Salmo 145 continua sustentando os que vacilam. O Rei anunciado pelo profeta Zacarias continua vindo ao encontro dos pecadores. O Salvador proclamado por Paulo continua sendo a única resposta para a miséria pecaminosa. E o Jesus Cristo descrito por Mateus continua dizendo: “Venham a mim”.

E esse vir não é amanhã, não é quando você melhorar, não é quando você estiver mais forte, não é quando você merecer. É agora. Pode vir com sua culpa, com suas lágrimas, com suas lutas, com seu cansaço.

O Rei dos cansados está de braços abertos e vindo até Ele, se encontra descanso e descobre que a graça dEle é maior que seu pecado, é mais forte que sua fraqueza e mais duradoura que todas as suas lutas. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 22 de junho de 2026

HÁ RECOMPENSA! JESUS CRISTO!

 28 de junho de 2026

Próprio 8 – Quinto Domingo após Pentecostes

Salmo 119.153 – 160; Jeremias 28.5 – 9; Romanos 7.1 – 13; Mateus 10.34 – 42

Tema: HÁ RECOMPENSA! JESUS CRISTO!

 

PROCURA-SE: HÁ RECOMPENSA!

Quem já assistiu a um filme de velho oeste certamente se lembra da cena clássica.

Na porta do banco, do saloon ou da delegacia está pendurado um cartaz com a foto de um homem. Em letras grandes está escrito: “PROCURA-SE!”

Logo abaixo vem o valor da recompensa: “10 mil dólares”.

Quanto maior o perigo, maior a recompensa.

As pessoas olham para aquele cartaz e pensam: “Vale a pena correr o risco”.

Na perícope de reflexão desse culto, Jesus fala sobre recompensa. Todavia, a imagem que Ele apresenta é completamente diferente. Não existe um bandido procurado. Existe um discípulo perseguido. Não existe dinheiro. Existe um simples copo de água fria. Não existe um prêmio conquistado pela coragem humana. Existe uma recompensa concedida pela graça de Deus.

Vivemos fazendo contas. Qual emprego paga mais? Qual investimento rende mais? Qual esforço traz maior retorno? Até mesmo nos relacionamentos se faz cálculos.

Jesus quebra essa lógica ao falar sobre a recompensa de um profeta e de um justo. Jesus fala de uma recompensa a quem oferecer um copo de água fria a um dos seus discípulos.

Parece ser algo insignificante, mas aos olhos de Deus isso possui valor eterno. Jesus fala isso porque não é o tamanho da obra que importa, mas a pessoa que recebe a obra. Quem acolhe um mensageiro do Evangelho está acolhendo o próprio Senhor que o enviou.

É preciso sermos lembrados que o texto não ensina um sistema de mérito. Afinal, o pecador é justificado somente pela graça, somente pela fé, somente por Cristo.

Qual é a recompensa do profeta?

É participar daquilo que ele anuncia. Assim, quando o profeta proclama: “seus pecados estão perdoados”, o que recebe o profeta recebe esse perdão.

Qual é a recompensa do justo?

O justo vive da justiça de Cristo e quem o acolhe participa da mesma esperança.

Observe que a recompensa não é um salário, é uma herança. Não é um pagamento, é um presente. Não é uma conquista, é graça. E é exatamente por essa razão que até um copo de água fria, oferecido em nome de Cristo, não passa despercebido diante de Deus.

Em ambas as situações, ou seja, a recompensa do profeta e do justo é Cristo.

Outro detalhe que pode ser apontado a partir desse texto é que Jesus é o verdadeiro Profeta e o único Justo. Jesus é o servo perseguido. Jesus é aquele que foi rejeitado, preso, condenado e morto.

Jesus foi entregue por trinta moedas. Foi considerado inimigo. Foi pendurado numa cruz. Mas justamente ali aconteceu a maior troca da história. Ele recebeu a nossa condenação. Nós recebemos a sua justiça. Jesus assumiu o nosso pecado. Nós recebemos a sua vida. E esta é a recompensa do Evangelho: não ouro, não prata, não prosperidade, mas o próprio Cristo. Como Lutero afirmava: Cristo não apenas dá benefícios; Ele entrega a si mesmo.

Será que vale a pena continuar servindo? Vale a pena permanecer fiel quando a família não entende? Vale a pena seguir Cristo quando isso custa amizades, prestígio ou segurança?

Jesus responde: Sim. Há recompensa. Mas ela não cabe em um envelope. Não cabe em uma conta bancária. Não cabe em um troféu. A recompensa tem nome: Jesus.

Quem recebe Cristo recebe perdão. Recebe paz. Recebe uma nova família na fé. Recebe esperança diante da morte. Recebe a promessa da vida eterna. E quando este mundo passar, quando todos os cartazes desaparecerem e todas as recompensas humanas perderem o valor, permanecerá apenas uma voz dizendo: “Vinde, benditos de meu Pai; recebam por herança o Reino preparado para vocês desde a fundação do mundo”.

Esta é a recompensa do profeta. Esta é a recompensa do justo. Esta é a recompensa dos pequenos discípulos. Esta é a recompensa de todos aqueles que pertencem a Cristo. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Entre a cruz e a proteção de Jesus!

 21 de junho de 2026

Próprio 7 – Quarto Domingo após Pentecostes

Salmo 91.1-10; Jeremias 20.7-13; Romanos 6.12-23; Mateus 10.5ª, 21-33

Tema: Entre a cruz e a proteção de Jesus!

 

Onde posso estar realmente seguro?

Protegemos a casa com muros e câmeras, o carro com seguro, o celular com senha. Protegemos o dinheiro no banco, os filhos, a saúde, o patrimônio e o futuro.

Nunca tivemos tantos recursos para produzir segurança e, paradoxalmente, nunca fomos uma geração tão dominada pelo medo. Afinal, existe um medo difícil de vencer. É o medo de perder quem amamos, medo da doença, medo da rejeição, medo do sofrimento, medo da morte.

Inúmeras vezes, as pessoas vão a um culto buscando vencer o medo e chegando num culto, como esse hoje, ouvimos Jesus, e o nosso Salvador não promete uma vida fácil. O profeta Jeremias foi ridicularizado. O apóstolo Paulo fala da luta contra o pecado. E o salmista no Salmo 91 proclama a proteção do altíssimo.

Compreenda que a proteção de Deus não significa ausência de cruz. Na verdade, significa presença de Deus na cruz.

Primeira parte

          O esconderijo do Altíssimo tem um nome: Cristo.

Ao declarar: “A pessoa que procura segurança no Deus Altíssimo e se abriga na sombra protetora do Todo-Poderoso” (Sl 91.1), o salmista utiliza o verbo hebraico yashab que significa morar, permanecer, fazer residência.

O salmista não fala de uma visita de domingo. Não fala de uma oração ocasional. Fala de alguém que fez de Deus a sua casa.

Martinho Lutero ao comentar esse Salmo escreveu que “a verdadeira fortaleza do cristão não são muralhas, mas a Palavra de Deus".

O esconderijo do Altíssimo não é um castelo. Não é uma igreja. Não é um lugar geográfico. É uma pessoa. É Cristo.

Quem está em Cristo continua enfrentando tempestades, mas nunca as enfrenta sozinho.

O Salmo 91 não promete que nenhuma doença chegará. Não promete que nenhuma lágrima será derramada. Promete que Deus jamais abandonará aqueles que pertencem a Ele.

Segunda parte

          A Palavra permanece quando tudo parece desmoronar

O profeta Jeremias chega ao limite, a ponto de dizer: “Todos zombam de mim, caçoando o dia inteiro” (Jr 20.7).

O profeta Jeremias virou motivo de piada, todos faziam bullying com ele.

A fidelidade de Jeremias para com a Palavra de Deus produziu isolamento. Seu ministério trouxe sofrimento. Então ele pensa em desistir. Mas não consegue, pois: “...a tua mensagem fica presa dentro de mim e queima como fogo no meu coração. Estou cansado de guardá-la e não posso mais aguentar” (Jr 20.9).

As emoções do profeta estavam esgotadas, mas a Palavra de Deus continuava viva.

Algo semelhante aconteceu com Martinho Lutero.

Há 505 anos, diante do imperador Carlos V, dos bispos, dos príncipes e das maiores autoridades do seu tempo, um simples monge era pressionado a renunciar tudo o que havia escrito de acordo com a Palavra de Deus sendo contrário a venda de indulgências e a justificação pelas obras.

De um lado, o poder político; de outro lado, o poder religioso.

Martinho Lutero, humanamente estava sozinho no meio deles, mas sustentado pela Palavra, declarou contrariamente àquilo que as autoridades desejavam: “Minha consciência está cativa à Palavra de Deus”.

Martinho Lutero perdeu proteção humana das autoridades políticas. Foi declarado fora da lei. Seus livros foram proibidos. Sua vida passou a correr perigo. Todavia, vivenciou aquilo que o Salmo declara: quem habita no esconderijo do Altíssimo jamais está desprotegido.

          Terceira parte

A quem você pertence?

O apóstolo Paulo faz uma pergunta que desmonta toda ilusão moderna de autonomia. Ele afirma que ninguém é completamente livre. Todos servem a um senhor. Ou sé é escravo do pecado ou se pertence a Cristo.

A palavra grega doulos significa alguém que pertence totalmente ao seu senhor. E Paulo anuncia uma notícia extraordinária destacando que “Vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus para fazer o que é direito” (Rm 6.18).

O que o apostolo escreve aqui é que não vivemos sem um senhor. Todavia, nosso Senhor é Jesus Cristo.

Assim, vivemos em meio a um paradoxo. Enquanto o mundo diz que você pode fazer o que quiser; Jesus Cristo anuncia que você pertence à Ele.

O mundo promete uma liberdade que nos escraviza. Jesus Cristo chama para servi-lo e destaca que esse servir é uma verdadeira liberdade.

Não obedecemos para conquistar Deus. Obedecemos porque Deus já nos conquistou em Cristo.

Jesus conhece perfeitamente o futuro dos seus discípulos e não esconde essa realidade deles. Jesus diz que haverá perseguição, famílias divididas, ódio, rejeição. Todavia, no meio de tudo isso, por três vezes Jesus repete: “Não temais” (Mt 10.26, 28, 31).

Não tenha medo, afinal, existe uma verdade maior que qualquer perseguição. Os homens podem ferir nosso corpo, mas não podem ferir nossa eternidade. Os homens podem prender um cristão, mas não podem prender Cristo. É possível que tirem nossos bens, nossa reputação, nossa liberdade. No entanto, não podem arrancar ninguém das mãos do Bom Pastor Jesus.

Jesus usa o exemplo dos pardais. Dois deles eram vendidos por quase nada. Mesmo assim, nenhum cai sem que o Pai saiba. E então Cristo olha para seus discípulos e anuncia: “Vocês valem muito mais” (Mt 10.31).

Jesus não promete ausência de dor. Jesus promete sua presença constante.

          Jesus diz para não temermos pelo fato de que antes de enfrentarmos a cruz, Jesus a enfrentou sozinho. Na cruz, Jesus experimentou o abandono para que nós jamais fôssemos abandonados. Jesus entrou no silêncio para que nós ouvíssemos para sempre: “Eu estou com vocês” (Mt 28.20).

Jesus enfrentou o juízo para que recebêssemos graça. Jesus venceu a morte para que nenhuma morte tenha a última palavra. Quando tudo parece perdido, olhamos para a cruz. E quando olhamos para a cruz, descobrimos que o esconderijo do Altíssimo tem braços abertos, mãos perfuradas e um lado traspassado. Nosso refúgio é Cristo crucificado e ressuscitado.

          Vivemos em um mundo que procura segurança no dinheiro, no poder, na influência, na tecnologia e na aprovação das pessoas. Todavia, tudo isso passa.

Existe uma segurança que permanece quando tudo desmorona. É a segurança de sabermos que tudo pertence a Cristo.

Por essa razão, o cristão vive um paradoxo extraordinário. É perseguido, mas protegido. É ferido, mas sustentado. É pecador, mas justificado. É servo, mas livre. É frágil, mas pertence ao Senhor do universo.

A Igreja não é reconhecida pelo conforto que possui. É reconhecida pela fidelidade ao Evangelho que anuncia. E por isso, mesmo quando o mundo ameaça, mesmo quando a cruz pesa, mesmo quando o medo bate à porta, ela continua confessando com absoluta confiança: “Ó Senhor Deus, tu és o meu defensor e o meu protetor. Tu és o meu Deus; eu confio em ti” (Sl 91.2). E Cristo responde à sua Igreja: “Não temais. Vocês pertencem a mim. Eu estive com vocês na cruz, estou com vocês hoje e estarei com vocês até o fim dos tempos”.

Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Mateus 9 termina com compaixão. Mateus 10 começa com missão. Primeiro a misericórdia, depois a missão. (Mt 9.35 - 10.8)

 14 de junho de 2026

Próprio 6 – Terceiro Domingo após Pentecostes

Salmo 100; Êxodo 19.2-8; Romanos 5.6-15; Mt 9.35-10.8

Texto: Mateus 9.35–10.8

Tema: Mateus 9 termina com compaixão. Mateus 10 começa com missão. Primeiro a misericórdia, depois a missão.

 

Há algo intrigante em nosso tempo. Nunca tivemos tantos meios de comunicação e, ao mesmo tempo, tantas pessoas vivendo em profunda solidão espiritual. As multidões continuam existindo. Elas apenas mudaram de endereço. Estão nas ruas, nos escritórios, nas escolas, nos hospitais, nas redes sociais e, muitas vezes, dentro das próprias igrejas.

O que vemos quando olhamos para essas pessoas? Problemas? Estatísticas? Diferenças? Pecados?

Mateus nos conduz a uma cena extraordinária. Jesus para diante das multidões e enxerga algo que ninguém mais via. Onde os religiosos viam pessoas inconvenientes, Ele via ovelhas sem pastor. Onde outros enxergavam pecadores, Ele via feridos. Onde muitos percebiam apenas uma massa anônima, Cristo contemplava almas aflitas, abatidas e espiritualmente despedaçadas.

E foi exatamente nesse momento que nasceu a missão.

A missão da Igreja não surgiu de um planejamento estratégico. Não nasceu de uma necessidade institucional. Não começou com os discípulos. Começou quando o coração de Cristo foi movido de compaixão.

Mateus 9.35–10.8 nos convida a olhar para o mundo através dos olhos do Bom Pastor e a descobrir que toda verdadeira missão é fruto da misericórdia de Deus.

O texto de Mateus 9.35 – 10.8, é uma ponte onde o evangelista encerra o ministério itinerante de Jesus no capítulo 9 e abre o envio apostólico no capítulo 10.

Jesus vê e se compadece. Jesus chama. Jesus envia. A missão da Igreja não nasce de estratégia humana. Não nasce de marketing religioso. Não nasce de ansiedade institucional. A missão nasce do coração ferido de Cristo pelas ovelhas perdidas.

O texto inteiro gira em torno de uma verdade central: a missão nasce da compaixão de Cristo.

          Καὶ περιῆγεν ὁ Ἰησοῦς τὰς πόλεις πάσας καὶ τὰς κώμας... (Mt 9.35); “Jesus percorria todas as cidades e aldeias”.

περιῆγεν (periēgen), verbo imperfeito de περιάγω. O imperfeito descreve uma ação contínua. Não significa que Jesus visitou uma vez. A ideia é que “Jesus estava constantemente percorrendo”.

Mateus descreve um ministério itinerante em que o Bom Pastor está em movimento. E isso destaca a diferença dos líderes religiosos, que aguardavam o povo vir até eles, Cristo vai ao encontro dos necessitados.

          Mateus registrou três particípios presentes, enumerando três verbos, διδάσκων ensinando”; κηρύσσων proclamando”; θεραπεύων curando”.

Essa tríade resume todo o ministério messiânico.

Διδάσκω, ensinando

Refere-se à instrução doutrinária. Jesus forma discípulos. Ele não oferece apenas experiência religiosa. Ele transmite verdade.

          Κηρύσσω, proclamando

Significa proclamar como um arauto real. O arauto não cria a mensagem. Ele anuncia a mensagem do rei. Cristo anuncia: τὸ εὐαγγέλιον τῆς βασιλείας, “o Evangelho do Reino”. Não é conselho. Não é filosofia. É anúncio de um acontecimento. O Reino chegou porque o Rei chegou.

          Θεραπεύω, curar.

Mas também pode significar restaurar. As curas não são mero alívio físico. São sinais escatológicos. Indicam que a nova criação começou.

          Ἰδὼν δὲ τοὺς ὄχλους... (Mt 9.36), “Vendo as multidões...”.

Ἰδὼν, Particípio de ὁράω. Não significa simplesmente enxergar. Refere-se à percepção profunda. Jesus vê além das aparências. Os fariseus viam pecadores. Cristo vê pessoas necessitadas.

          ἐσπλαγχνίσθη, esta palavra é o centro emocional da perícope. Vem de σπλάγχνα, entranhas”.

Na mentalidade semítica, as emoções profundas eram localizadas nas entranhas. Portanto, ἐσπλαγχνίσθη significa que Jesus “foi movido nas profundezas do seu ser”. Não é pena. Não é simpatia. É misericórdia visceral. É o coração de Deus revelado em ação.

Mateus utiliza esse verbo repetidamente para descrever a compaixão messiânica.

ἐσκυλμένοι, aflitos”, Particípio perfeito passivo. Originalmente descrevia pele rasgada, presa dilacerada, vítima saqueada.

Temos com essa palavra uma imagem muito forte. As multidões estão espiritualmente despedaçadas.

          ἐρριμμένοι, abatidos”, Particípio perfeito passivo de ῥίπτω. Literalmente, “lançados ao chão”. Como soldados derrotados. Como vítimas abandonadas. O quadro é devastador.

          ὡσεὶ πρόβατα μὴ ἔχοντα ποιμένα, como ovelhas sem pastor”. Essa imagem remete imediatamente ao texto de Números 27.17; 1Reis 22.17; Ezequiel 34.

Com isso, o evangelista Mateus apresenta Jesus como o verdadeiro Pastor prometido por Deus.

          Ὁ μὲν θερισμὸς πολύς (Mt 9.37) “A seara é grande

Θερισμός, colheita.

Na literatura judaica frequentemente está associada ao juízo final. Mas aqui enfatiza oportunidade missionária. Há uma multidão pronta para ser recolhida.

          οἱ δὲ ἐργάται ὀλίγοι, os trabalhadores são poucos”.

ἐργάται, trabalhadores especializados. Não espectadores. Não consumidores religiosos. Obreiros.

A preocupação de Jesus não é a falta de pessoas necessitadas. É a falta de quem as alcance.

          Temos como alcançar mais pessoas?

δεήθητε οὖν (Mt 9.38), “Rogai, portanto”.

Δεήθητε, um Imperativo aoristo que expressa urgência.

A oração não é opcional. É mandamento. Antes do envio dos apóstolos existe o chamado à oração. Isso ensina que missão sem oração torna-se ativismo.

          τοῦ κυρίου τοῦ θερισμοῦ, o Senhor da seara”.

Quem controla a missão não é a Igreja. É Deus. A seara pertence ao Senhor. Os trabalhadores pertencem ao Senhor. A colheita pertence ao Senhor.

          Καὶ προσκαλεσάμενος (Mt 10.1), “Tendo chamado para si”.

O ministério começa com chamado. Antes de serem enviados, os discípulos são reunidos em torno de Cristo. Ninguém é enviado legitimamente sem primeiro ser chamado.

          ἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν, deu-lhes autoridade”.

Observe que Jesus não compartilha apenas tarefas. Compartilha autoridade. E durante a ascensão, Jesus disse: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra... (Mt 28.18).

          ἐξουσία, uma das palavras cristológicas mais importantes de Mateus e significa direito legítimo, autoridade soberana, poder delegado. A autoridade apostólica deriva de Cristo. Não deles. A Igreja possui autoridade apenas enquanto fala em nome de Cristo.

          Mateus 10.2-4 temos uma lista apostólica. Observe que Mateus não apresenta heróis. Apresenta pecadores. Πέτρος, impulsivo. Θωμᾶς, vacilante. Ματθαῖος, ex-publicano. Σίμων ὁ Καναναῖος, Zelote. Ἰούδας Ἰσκαριώτης, o traidor.

Com isso, o evangelista Mateus mostra algo extraordinário. A eficácia da missão não depende da perfeição dos mensageiros. Depende da autoridade daquele que os envia.

          εἰς ὁδὸν ἐθνῶν μὴ ἀπέλθητε (Mt 10.5-6) “Não tomeis o caminho dos gentios”.

Essa limitação é temporária, afinal, Mateus termina o Evangelho com a ordem expressa de Jesus: “Ide e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19).

Primeiro Israel. Depois o mundo. A prioridade histórica acompanha a ordem das promessas do Antigo Testamento.

          Κηρύσσετε (Mt 10.7), “Proclamai” um presente imperativo que transmite a ideia de que “continuem proclamando”.

O centro da missão não é curar. Não é administrar. Não é organizar. É proclamar.

          Ἤγγικεν ἡ βασιλεία, O Reino aproximou-se

Ἤγγικεν, perfeito de ἐγγίζω. O perfeito indica que algo chegou e permanece presente. O Reino não está apenas vindo. Ele já chegou na pessoa de Cristo.

          Δωρεὰν ἐλάβετε, δωρεὰν δότε (Mt 10.8) “De graça recebestes; de graça dai”.

Δωρεάν, gratuitamente, sem mérito, sem pagamento, sem barganha. Aqui encontramos o coração da teologia da graça. Tudo o que os discípulos possuem foi recebido. Tudo o que distribuem deve ser distribuído gratuitamente. A missão não é comércio religioso. É transbordamento da graça recebida.

          Mateus 9.35–10.8 revela cinco grandes verdades:

1.    Cristo é o verdadeiro Pastor que vê a miséria espiritual da humanidade.

2.    A compaixão divina é a origem da missão.

3.    A Palavra é o centro do ministério, representada por ensinar e proclamar.

4.    A autoridade da Igreja é derivada de Cristo, nunca autônoma.

5.    A graça recebida gratuitamente deve ser anunciada gratuitamente.

A estrutura da perícope é profundamente cristológica, tudo começa em Cristo, passa por Cristo e termina em Cristo. A multidão não é salva porque existem apóstolos; existem apóstolos porque Cristo teve compaixão da multidão. A lógica do Reino é que primeiro a misericórdia, depois a missão; primeiro o Pastor, depois os trabalhadores; primeiro a graça, depois o serviço.

Mateus 9 termina com compaixão. Mateus 10 começa com missão. Essa é a ordem correta. Primeiro Cristo ama. Depois Cristo envia. Primeiro Cristo salva. Depois Cristo usa.

A Igreja só terá verdadeira missão enquanto permanecer perto do coração compassivo de Cristo. E esse Cristo continua ensinando sua Palavra, pregando seu Reino, curando pecadores, reunindo ovelhas, enviando trabalhadores. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O médico dos pecadores (Mateus 9.9-13)

 07 de junho de 2026

Segundo após Pentecostes – Próprio 5

Salmo 119.65-72; Oséias 5.15-6.6; Romanos 4.13-25; Mateus 9.9-13

Texto: Mateus 9.9-13

Tema: O médico dos pecadores

 

Imagine que, ao entrar aqui hoje, uma tela aparecesse exibindo todos os seus pecados, pensamentos, fracassos, vergonhas e segredos dos últimos anos. Tudo aquilo que você tenta esconder das outras pessoas. Tudo aquilo que faz você se sentir indigno diante de Deus.

Quantos permaneceriam sentados? Quantos correriam para a porta?

A verdade é que todos nós carregamos perguntas que nem sempre verbalizamos: “Será que Deus realmente pode me aceitar?” “Será que preciso melhorar primeiro para depois me aproximar de Cristo?

Vivemos em um mundo que funciona por mérito. Somos aceitos quando produzimos, valorizados quando acertamos e elogiados quando correspondemos às expectativas. Com o tempo, começamos a imaginar que Deus também age assim.

Mas então encontramos uma das cenas mais surpreendentes do Evangelho. Jesus não procura os mais admirados da sociedade. Não vai atrás dos especialistas em religião. Não escolhe alguém com currículo espiritual impecável. Ele para diante de um homem que todos consideravam um caso perdido. Um cobrador de impostos. Um pecador público. Um homem chamado Mateus.

E aquilo que Jesus faz com Mateus revela não apenas quem Mateus era. Revela, acima de tudo, quem Deus é.

Mateus era um homem rejeitado. Um cobrador de impostos. Um traidor aos olhos da sociedade. Um pecador público. Um homem que ninguém esperava ver no Reino de Deus.

E é justamente para ele que Jesus olha. Não com desprezo. Não com condenação. Mas com graça.

Segue-me”.

E nessa única palavra, toda a vida de Mateus muda. Isso porque o Evangelho começa exatamente assim, Cristo vai ao encontro daqueles que sabem, ou deveriam saber, que precisam desesperadamente de misericórdia.

          O texto começa dizendo que “Jesus viu um homem chamado Mateus”.

Os homens viam um traidor. Jesus via alguém que seria alcançado pela graça.

Esse “ver” de Cristo não é casual. É salvífico. Jesus não apenas observa; Ele escolhe. A iniciativa parte inteiramente dEle.

Mateus não estava procurando Jesus. Mateus não estava arrependido no templo. Mateus não fazia promessas espirituais. Ele estava sentado na coletoria. E isso é profundamente importante. Porque o Evangelho não começa quando o homem sobe até Deus. O Evangelho começa quando Deus desce até o pecador.

Essa é a essência da fé cristã e o coração da teologia luterana da justificação, Deus justifica ímpios. Cristo entra justamente no lugar onde o pecado está.

          Jesus olha para Mateus e diz, “Segue-me”. Jesus é curto, absoluto e sem negociação. Observe algo impressionante. Jesus não exige preparação moral prévia.

A Palavra de Cristo vem antes da mudança. E a Palavra cria aquilo que ordena, foi assim quando Deus disse “Haja luz” e foi assim quando Jesus disse para Mateus, “Segue-me”. Pela Palavra a vida nasce onde antes havia morte espiritual.

A conversão não nasce da força humana. Ela nasce da ação soberana da graça.

Ele se levantou e o seguiu”.

As obras não antecedem a salvação. As obras fluem dela. Mateus não segue Jesus para ser aceito. Mateus segue porque foi alcançado. Essa é a diferença entre religião e Evangelho.

          O texto continua dizendo que muitos publicanos e pecadores estavam à mesa com Jesus. Isso era explosivo no judaísmo.

Sentar-se à mesa significava comunhão, aceitação e reconhecimento.

Jesus não apenas chama pecadores individualmente. Ele cria uma nova comunidade.

A Igreja nasce aqui. Afinal, a Igreja não é reunião de perfeitos. Mas comunhão de perdoados.

A mesa de Cristo sempre escandaliza os orgulhosos. Porque nela há lugar para quebrados, cansados, culpados e indignos. Os fariseus não conseguem suportar aquilo. E por isso perguntam: “Por que come o vosso mestre com publicanos e pecadores?

Não é uma pergunta social, é uma pergunta teológica. Para fariseus, a santidade significava separação do impuro. Os fariseus construíram uma religião baseada na exclusão e Jesus estabelece o Reino da reconciliação. Os fariseus confiavam na própria justiça. Jesus oferece justiça divina aos que não possuem nenhuma.

          Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes”. Aqui Cristo revela o diagnóstico da humanidade. O pecado é doença mortal da alma e o homem não possui capacidade de autocura. Jesus Cristo é o médico, o único remédio.

Observe o paradoxo. Os mais distantes da cura não são os pecadores conscientes. São os que acreditam estar saudáveis. Jesus não está dizendo que os fariseus realmente são justos. Há ironia em suas palavras.

Os “sãos” são aqueles que pensam não precisar de misericórdia. E talvez esse seja o maior perigo dentro da Igreja.

Há pecadores quebrantados que choram pelo pecado. E há religiosos que nunca choram porque acreditam já serem suficientemente bons.

O pecado reconhecido pode conduzir ao arrependimento. Mas a justiça própria fecha o coração para o Evangelho. O inferno da alma começa quando alguém acha que consegue salvar a si mesmo.

          Jesus então cita o profeta Oséias, dizendo: “Misericórdia quero, e não sacrifício”.

O problema não era o culto em si. O problema era uma religião cheia de rituais, mas vazia de amor. Era uma Ortodoxia sem misericórdia. Sacrifício sem compaixão. Doutrina sem graça.

Os fariseus conheciam textos bíblicos, mas não conheciam o coração de Deus. Porque o coração de Deus é misericórdia.

Deus prefere misericórdia porque misericórdia reflete seu próprio caráter. A cruz é a maior prova disso. Na cruz, Cristo não morreu por justos. Cristo morreu por pecadores.

Não vim chamar justos, mas pecadores”.

Esse versículo resume o Evangelho inteiro. Resume Romanos. Resume Gálatas. Resume a Reforma. Resume a justificação pela fé.

          No final desta história, existem apenas dois grupos diante de Jesus.

De um lado estão os fariseus: pessoas que acreditavam ter justiça suficiente para apresentar diante de Deus. Pessoas que enxergavam os pecados dos outros, mas eram cegas para a própria necessidade de misericórdia. Do outro lado está Mateus, um homem sem desculpas, sem méritos e sem máscaras. Um homem que nada tinha para oferecer além da sua culpa.

E é justamente Mateus quem se levanta para seguir Cristo.

A grande pergunta deste texto não é se você é pecador. Isso já está resolvido. A pergunta é: você reconhece que é?

Porque somente quem sabe que está doente procura o Médico. Somente quem sabe que está perdido deseja ser encontrado. Somente quem sabe que é pecador compreende a grandeza da cruz.

Hoje Cristo continua passando diante das coletorias da vida. Continua olhando para homens e mulheres quebrados. Continua chamando os culpados, os cansados, os fracassados e os indignos. Continua dizendo: “Segue-me”.

Talvez você tenha vindo hoje pensando que precisa melhorar para que Deus o aceite. O Evangelho anuncia exatamente o contrário: Cristo o chama para que Ele mesmo o transforme.

Portanto, não olhe para suas obras. Não olhe para seu passado. Não olhe para suas quedas. Olhe para Cristo. Porque o mesmo Jesus que chamou Mateus continua recebendo pecadores. E a melhor notícia do Evangelho é esta: enquanto houver um pecador arrependido, haverá lugar à mesa do Salvador. Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

O Rei dos cansados (Mateus 11.25-30)

  05 de julho de 2026 Próprio 9 – Sexto Domingo após Pentecostes Salmo 145.1-14; Zacarias 9.9-12; Romanos 7.14-25; Mateus 11.25-30 Tem...