terça-feira, 21 de julho de 2026

O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

 26 de julho de 2026

Próprio 12 – Nono Domingo após Pentecostes

Salmo 125; Deuteronômio 7.6-9; Romanos 8.28-39; Mateus 13.44-52

Texto: Mateus 13.44-52

Tema: O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

 

Cristo conta três parábolas curtas, porém devastadoras, um tesouro escondido, uma pérola de grande valor, e uma rede cheia de peixes. Essas parábolas são a resposta de Jesus à crescente rejeição do Reino pelos líderes religiosos de Israel.

Uma leitura isolada dessas parábolas perde parte de sua força. Quando são lidas dentro do fluxo do Evangelho de Mateus, percebe-se um desenvolvimento impressionante.

O ponto de virada do Evangelho ocorre em Mateus 12. Os fariseus já haviam criticado Jesus diversas vezes, e em Mateus 12.24 acontece algo decisivo apresentado pela fala dos religiosos, “É Belzebu, o chefe dos demônios, quem dá poder a este homem para expulsar demônios” (Mt 12.24).

Os fariseus atribuem a obra do Espírito Santo ao próprio Satanás e por essa rejeição que não é apenas intelectual, mas espiritual e deliberada, Jesus fala do pecado contra o Espírito Santo (Mt 12.31-32). E, em seguida ocorre uma mudança importante dentro da narrativa do evangelho de Mateus, ele passa a destacar que “Naquele mesmo dia Jesus saiu de casa e assentou-se à beira-mar” (Mt 13.1) e começou a ensinar por parábolas. Por essa razão, diante da pergunta dos discípulos “Por que lhes falas por parábolas?” (Mt 13.10) Jesus responde “Porque vendo não veem e ouvindo não ouvem...” (Mt 13.13).

Os líderes, pessoas que conheciam as Escrituras, o Antigo Testamento, sabiam das promessas, rejeitaram tanto a luz que Deus agora confirma o endurecimento desses líderes.

As parábolas possuem dois efeitos espetaculares. Primeiro: revelam aos discípulos; Segundo: escondem a revelação dos incrédulos.

          O semeador é generoso e semeia constantemente a Palavra. Os justos e os ímpios convivem e o Reino de Deus crescerá (o grão de mostarda e o fermento).

Nessa primeira parte das parábolas, semeador, joio, semente de mostarda, fermento, Jesus destaca a rejeição dos líderes. E nas três últimas parábolas, tesouro escondido, pérola, rede, Jesus responde se a rejeição é sinal de que o Reino de Deus fracassou.

A resposta é que o Reino continuará crescendo.

          Mateus ao elencar essas sete parábolas, enumera uma mudança de foco, onde após falar do crescimento externo do Reino, passa a mostrar o valor do Reino para àqueles que realmente o encontram. E isso é uma resposta direta à rejeição dos líderes. Enquanto os líderes olham para Jesus e não enxergam nada, homens comuns encontram um tesouro.

Que contraste! E essa ironia é proposital. Os especialistas das Escrituras passam ao lado do Messias, mas um homem simples encontra aquilo que vale tudo.

Quem deveria reconhecer o Reino não o reconhece. Quem aparentemente não tinha nada encontra tudo. A rejeição dos líderes não diminui o valor do Reino, mas revela a cegueira deles.

O negociante que procura pérolas, que conhece o mercado e entende sobre valores, ao encontrar uma única pérola e abandonar as demais traz um impactante contraste com os líderes. Os fariseus buscavam justiça, santidade, Lei, tradição, mas, quando encontraram o verdadeiro Reino preferiram permanecer com suas “pérolas menores”. E o negociante faz o que os líderes religiosos recusaram fazer, troca tudo por Cristo. E nesse ponto, Jesus chega a sua conclusão (Mt 13.47-50).

A rede recolhe peixes de toda espécie. Aqui novamente existe uma resposta à rejeição dos líderes. Eles imaginavam que o Reino era exclusivo de Israel e Jesus afirma que a rede alcançará o mundo inteiro.

Além disso, existe outra verdade importante. Nem todos que entram na rede pertencem realmente ao Reino. Somente no juízo haverá separação e isso impede dois erros. Pensar que todos os membros visíveis do Reino são salvos; pensar que a rejeição dos líderes significa derrota do Reino.

          As três últimas parábolas de Mateus formam um quadro.

Na parábola do tesouro alguém encontra o Reino inesperadamente. Publicanos e pecadores encontraram.

          Na parábola da Pérola temos alguém que procura e finalmente encontra. Descrição dos discípulos.

          Na parábola da Rede Jesus descreve que o Reino alcança todos os povos e só no final Deus separará os verdadeiros dos falsos.

          O evangelista Mateus constrói uma das maiores ironias do Evangelho. Quem conhece a Bíblia muitas vezes não reconhece o Messias. Quem não possui posição religiosa descobre o tesouro. Quem se considera rico espiritualmente, permanece pobre. Temos aqui o cumprimento das palavras anteriores de Jesus, “Graças te dou, ó Pai... porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25).

Sob a perspectiva confessional luterana, essas parábolas não ensinam que o homem “compra” o Reino ou conquista a salvação por seus méritos. O foco está no valor incomparável do Reino revelado em Cristo. A alegria do homem que vende tudo (Mt 13.44) nasce porque primeiro encontrou o tesouro. Assim também, a fé não produz Cristo; Cristo é dado pelo Evangelho e leva o pecador a considerar todas as coisas secundárias diante dele.

As três parábolas curtas não são histórias independentes; elas constituem o clímax de Mateus 13. Depois de mostrar que Israel, representado por muitos de seus líderes, rejeitou o Messias, Jesus assegura aos discípulos que o Reino não fracassou. Seu verdadeiro valor será reconhecido por aqueles a quem o Pai concede olhos para ver, e sua missão se estenderá até os confins da terra, culminando no juízo final. Esse é o triunfo silencioso, porém irresistível, do Reino de Deus.

          Caríssimos, a maior cegueira pode estar dentro da religião.

O contraste principal de Mateus não é entre religiosos e ateus. É entre pessoas que conheciam profundamente a Bíblia e pessoas simples que reconheceram Cristo.

Isso continua acontecendo. É possível que alguém conheça a doutrina sem conhecer Cristo; defenda princípios cristãos sem amar Cristo; frequente cultos sem viver do Evangelho; estude a Bíblia apenas como informação.

A maior tragédia espiritual não é a ignorância, mas a familiaridade sem fé e Jesus continua dizendo, “Vendo, não veem”.

A pergunta deixa de ser se eu conheço a Bíblia? e passa a ser se a Bíblia continua me conduzindo a Cristo?

          Fazemos parte de uma geração que conhece preço, mas perdeu o senso de valor.

A humanidade calcula tudo. Calcula investimentos, tempo, lucro, produtividade, rentabilidade. Todavia, se perdeu a capacidade de reconhecer aquilo que não possui preço.

A parábola do tesouro escondido pergunta o que realmente vale sua vida?

Hoje as pessoas vendem saúde por dinheiro. Depois vendem dinheiro para recuperar a saúde. Vendem família pela carreira. Depois procuram sentido. Vendem a paz pela fama. Depois procuram terapia para reencontrar paz.

Jesus Cristo afirma que existe algo que vale infinitamente mais, o Reino.

          Nossa cultura oferece milhares de “pérolas

A parábola da pérola talvez seja ainda mais atual.

Nunca existiram tantas ofertas dizendo, “É aqui que está a felicidade”. E a lista é interminável. Cada uma promete ser a pérola definitiva. Mas continuam sendo pérolas pequenas.

Jesus Cristo continua sendo a única Pérola que satisfaz completamente. Como dizia Lutero: “Aquilo em que teu coração confia é, na verdade, teu deus”.

          A sociedade da distração dificulta encontrar o Tesouro.

O tesouro estava escondido e isso não porque Deus queira esconder-se. Mas porque o pecado nos ocupa com milhares de coisas. Vivemos distraídos por muito conteúdo.

O Reino continua presente na simplicidade da Palavra, da água do Batismo e da Santa Ceia. Mas muitos passam ao lado porque procuram Deus apenas no extraordinário.

          O Reino continua crescendo apesar das crises da Igreja.

Talvez esta seja uma das aplicações mais importantes.

Vivemos um tempo de secularização; igrejas fechando; escândalos; líderes caindo; jovens abandonando a fé; perseguição em muitos países.

A impressão pode ser se que “O Evangelho está perdendo”.

Foi exatamente essa pergunta dos discípulos. Se os próprios líderes rejeitaram Jesus, será que o Reino fracassou?

          O Reino continua crescendo, mesmo que silenciosamente. Assim como a semente; o fermento; o tesouro encontrado; a rede lançada.

O crescimento do Reino nunca dependeu do prestígio da Igreja, mas da ação do Espírito Santo por meio da Palavra.

          O Reino alcança quem ninguém imaginava.

Os fariseus acreditavam possuir exclusividade e hoje repetimos esse erro, mas Deus continua surpreendendo. O Evangelho alcança a todos, a rede continua sendo lançada.

          Nem todo peixe dentro da rede pertence realmente ao Reino.

Essa recordação é extremamente necessária, afinal, vivemos dois extremos. Primeiro: A igreja salva automaticamente”; Segundo: Não preciso da igreja”.

Jesus rejeita ambos os extremos. A rede reúne todos. Mas somente Deus conhece verdadeiramente os seus e isso produz, humildade, arrependimento e perseverança.

          O maior fracasso é passar a vida inteira ao lado do Tesouro e não o reconhecer.

Os líderes passaram três anos ouvindo Jesus, vendo milagres. Eles conheciam as profecias e mesmo assim perderam Cristo.

O mesmo ocorre hoje, pois é possível que muitas pessoas passem décadas dentro da igreja sem jamais descansar em Cristo.

          O Reino continua sendo escândalo para a lógica moderna.

Nossa cultura pergunta sobre o que ganho? Jesus pergunta o que realmente possui valor?

Nossa cultura fala em investimento. Jesus fala em entrega.

Nossa cultura fala em desempenho. Jesus fala em graça.

Nossa cultura diz para que se construa sua identidade. Jesus nos dá uma nova identidade.

          O juízo final continua sendo parte do Evangelho.

A parábola da rede lembra algo pouco anunciado hoje. Existe separação, juízo e eternidade. Essa verdade produz duas atitudes, urgência missionária e perseverança dos santos.

          O centro dessas parábolas não é o homem que vende tudo, é o valor do tesouro. O homem vende porque encontrou, ele não encontra porque vendeu.

Essa ordem é decisiva. Primeiro: Deus revela Cristo. Depois: a fé recebe Cristo. Somente então a vida inteira é reorganizada.

As obras não compram o Reino, elas apenas demonstram que o Reino já conquistou o coração. Como afirmou o apóstolo Paulo: “Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo” (Fp 3.7).

          Jesus deixa seus ouvintes diante de uma única decisão: o que vale mais para você?

Se Cristo é apenas mais uma pérola entre tantas, o coração continuará dividido, mas se Cristo é o tesouro escondido e a pérola de grande valor, então tudo o mais encontra seu lugar correto.

O Reino pode ser rejeitado, ridicularizado e ignorado pelos especialistas, mas ainda assim, ele continua avançando silenciosamente, alcançando pecadores pela Palavra, transformando vidas pela graça e caminhando irresistivelmente para o dia em que o Senhor lançará a rede pela última vez e revelará plenamente o triunfo do seu Reino. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Quando Deus parece em silêncio, o Reino continua crescendo.

 19 de julho de 2026

Próprio 11 – Oitavo Domingo após Pentecostes

Salmo 119.57-64; Isaías 44.6-8; Romanos 8.18-27; Mateus 13.34-43

Tema: Quando Deus parece em silêncio, o Reino continua crescendo.

 

Você já teve a impressão de que Deus está em silêncio? Você ora e a enfermidade continua; trabalha e ora, mas parece que a injustiça prospera; parece que o mal sempre vence; a mentira avança mais rápido que a verdade;

Essa é uma das maiores crises da nossa geração! Estamos cercados por guerras, violência, ansiedade, doenças, crises econômicas, polarização política, inteligência artificial transformando o mundo em velocidade assustadora, mudanças culturais profundas... e onde está Deus?

As quatro leituras desse culto (Salmo 119.57-64; Isaías 44.6-8; Romanos 8.18-27; Mateus 13.34-43) respondem que Deus nunca deixou o seu trono. Ele continua governando, e faz isso do mesmo modo de sempre, por sua Palavra.

Caríssimos, quando tudo muda, Deus continua sendo nossa herança. O salmista faz uma das declarações mais extraordinárias da Escritura: “O Senhor é a minha porção”; “Tu, ó Senhor Deus, és tudo o que eu tenho;” (Sl 119.57). Ocorre mais outras três vezes nas Escrituras, Sl 16.5; 73.25-26; Lm 3.24.

Tu, ó Senhor Deus, és tudo o que eu tenho;” Não é meu patrimônio... meu emprego... minha saúde... minha aposentadoria... meu partido... minha família... meu sucesso... é o Senhor.

O problema é que em nossa cultura somos ensinados que nossa identidade depende daquilo que possuímos. Por essa razão, quando alguém nos pergunta: quem é você? Normalmente se responde: “Sou médico;” “Sou empresário;” “Sou aposentado;” “Sou professor;Mas, e quando tudo isso desaparece? Quem somos? O salmista responde que eu ainda pertenço ao Senhor.

Martinho Lutero dizia que “quem possui Deus, possui tudo, ainda que nada tenha”. Exatamente por isso que o salmista escreveu “as cordas dos ímpios me cercam...”; “Os maus armaram uma armadilha para me pegar, mas eu não esqueço a tua lei” (Sl 119.61), ou seja, mesmo quando estiver achando que tudo está perdido, não esqueça da Palavra. Atualmente as armadilhas, ou as cordas que nos prendem são o cancelamento, a pressão ideológica, a ansiedade, a comparação constante, as redes sociais, o medo do futuro. Todavia, a Palavra continua fazendo exatamente o mesmo, mantendo o cristão firme.

        Quando o mundo parece fora de controle e parece que está, lembre-se que Deus continua no trono.

O profeta Isaías fala para um povo prestes a perder tudo. Jerusalém cairia, o templo seria destruído, a Babilônia parecia invencível. Humanamente falando, para o povo de Deus, Deus parecia derrotado. E, pelo profeta Deus anuncia: “Eu sou o Primeiro e Eu sou o Último” (Is 44.6; 41.4; 48.12; Ap 1.17-18; 2.8; 22.13). Essa conexão entre Isaías e Apocalipse é um dos mais belos testemunhos bíblicos da divindade de Cristo.

Eu sou o Primeiro e Eu sou o Último” (Is 44.6). Que afirmação extraordinária! Antes da Babilônia existir... Deus já era Deus. Depois da Babilônia desaparecer... Deus continuou sendo Deus. Antes dos impérios... Antes das crises financeiras... Antes das guerras... Antes da inteligência artificial... Antes das mudanças culturais... Deus já era o Senhor e continuará sendo.

Deus não promete ausência de dificuldades, Deus promete sua presença, por isso proclama “não temais” (Is 44.8). Ou seja, não haverá apenas dias fáceis e tranquilos, mas conforte-se em saber que ninguém tirou Deus do trono. Deus ainda governa esse mundo que não está esquecido e nem abandonado. Apesar das inquietações, saiba que nenhum mercado, nenhum governo, nenhuma tecnologia, nenhuma ideologia, nenhum ídolo moderno, é o primeiro e o último que continua governando.

O apostolo Paulo amplia nosso olhar mostrando algo impressionante. Não somos apenas nós que sofremos, toda a criação está gemendo (Rm 8.22). Árvores, oceanos, animais, humanos, toda criação geme, sofre, tudo envelhece, tudo se desgasta, tudo morre. Por quê? Porque o pecado não destruiu apenas o coração humano. O pecado atingiu toda a criação. Por isso existem doenças, terremotos, enchentes, secas, câncer, demência, luto.

Mesmo descrevendo isso, Paulo usa uma imagem surpreendente, “Pois sabemos que até agora o Universo todo geme e sofre como uma mulher que está em trabalho de parto” (Rm 8.22). Observe que Ele não diz dores de funeral, são dores de parto. Isso muda completamente a perspectiva, afinal, o parto dói, mas sua dor anuncia vida. Assim é o sofrimento cristão, ele anuncia vida. A cruz não é o capítulo final, a ressurreição é.

Enquanto gememos em decorrência ao sofrimento sem sequer conseguir formular uma oração, ouvimos uma das maiores consolações da Bíblia: o Espírito Santo ora quando você não consegue (Rm 8.26).

        Quando o joio parece vencer, o reino continua crescendo. Jesus responde uma pergunta antiga, por que Deus permite o mal? Quer que arranquemos o joio? É exatamente o que nossa geração quer fazer. Eliminar todos os maus e classificam quem são esses maus. Muitos pretendem criar uma sociedade perfeita. E a resposta de Jesus é um sonoro não, pois vocês arrancariam também o trigo.

O Reino de Deus cresce pela Palavra, a semente que é semeada pelo semeador. O Reino de Deus não cresce e nem se dá pela força, pela coerção, pela violência, pelo poder político e nem pela imposição cultural.

A missão da Igreja nunca foi construir o paraíso na terra. A missão da Igreja é anunciar o Cristo crucificado e enquanto realiza essa missão... o trigo cresce, o joio também. Às vezes parecem iguais, mas chegará o dia da colheita. E perceba a sublimidade; quem faz e fará a separação não somos nós, são os anjos. O julgamento pertence a Cristo, a nossa tarefa é outra. Apenas semeamos, pregamos, batizamos, ensinamos, amamos, perseveramos.

        As quatro leituras desse culto (Salmo 119.57-64; Isaías 44.6-8; Romanos 8.18-27; Mateus 13.34-43) se convergem. O salmista aconselha, permaneça na Palavra. O profeta Isaías diz, confie no Deus que tudo governa. Paulo aos Romanos escreveu, espere a glória futura. Jesus disse, continue semeando até que Eu volte.

É uma única mensagem.

Enquanto o mundo pergunta sobre quem está no controle, a Igreja responde que é Cristo.

Enquanto o mundo pergunta por que ainda existe sofrimento, a Igreja responde que é porque ainda aguardamos a nova criação.

Enquanto o mundo pergunta por que o mal ainda prospera, Jesus responde porque a colheita ainda não chegou.

        Tudo converge em Jesus Cristo. Ele é a nossa porção, é o Primeiro e o Último, é àquele cuja glória supera todos os sofrimentos, é o semeador que lançou a boa semente.

Na cruz... parecia que o joio havia vencido; parecia que Deus estava em silêncio; parecia que o mal triunfara; o Filho de Deus foi condenado. Os discípulos fugiram, o céu permaneceu escuro, e exatamente naquele aparente silêncio... Deus realizava a maior obra da história.

Na cruz, Cristo venceu o pecado, a morte e o diabo. Na ressurreição, inaugurou a nova criação que Romanos 8 anuncia. Por essa razão, a nossa esperança não está em uma melhora gradual do mundo, está naquele que morreu e ressuscitou.

O Reino continua oculto sob a cruz, mas sua vitória já foi conquistada e será plenamente revelada quando Cristo voltar em glória.

        Vivemos entre dois tempos. Ainda há joio; ainda há lágrimas; ainda há doenças; ainda há injustiça; ainda há cemitérios; ainda há cruz. Todavia, já existe algo novo. Existe perdão, Batismo, Santa Ceia, Palavra, Espírito Santo, existe o Cristo reinando.

Um dia a criação deixará de gemer. O joio desaparecerá, os justos resplandecerão como o sol. E isso não porque foram fortes, não porque venceram por si mesmos, mas por permaneceram unidos àquele que disse: “Eu sou o Primeiro e o Último; além de mim não há Deus” (Is 44.6).

Até esse dia, a Igreja continua vivendo da Palavra, sustentada pelo Espírito, firmada na cruz e alimentada pela esperança, confessando com o salmista: “Tu, ó Senhor Deus, és tudo o que eu tenho;”, amém.

 

Edson Ronaldo Tressmann

terça-feira, 7 de julho de 2026

A Palavra nunca falha, revela o tipo de coração que a recebe.

 Próprio 10 – Sétimo Domingo após Pentecostes

Salmo 65.9-13; Isaías 55.10-13; Romanos 8.12-17; Mateus 13.1-9,18-23

Textos: Isaías 55.10–11 e Mateus 13.1–23

Tema: A Palavra nunca falha, revela o tipo de coração que a recebe.

 

O grande paradoxo do nosso tempo é que, em meio a uma comunicação praticamente ilimitada, mensagens instantâneas, vídeos curtos, podcasts, notícias, opiniões, debates e um fluxo incessante de comentários, nunca foi tão difícil realmente ouvir. O excesso de palavras não tem produzido mais compreensão, e a abundância de conteúdo não tem gerado, necessariamente, transformação.

       Nesse cenário de excesso de vozes, muitos tratam a Palavra de Deus apenas como mais uma mensagem entre tantas competindo por atenção. Alguns, reduziram a Palavra de Deus a um conteúdo religioso entre tantos outros; outros, consideram a Palavra a um conjunto de princípios morais úteis para uma vida melhor; e, para muitos outros, a Palavra de Deus não passa de um discurso antigo, incapaz de dialogar com os desafios da sociedade contemporânea.

Tanto o profeta Isaías quanto o próprio Jesus revelam que a Palavra de Deus não é simplesmente um discurso sobre Deus, é a própria ação de Deus em favor do seu povo. A Palavra não apenas informa; ela transforma o pecador em Filho de Deus. A Palavra não apenas comunica; ela realiza. A Palavra não apenas orienta; ela cria aquilo que anuncia.

Onde a Palavra de Deus é proclamada, o próprio Deus age com poder, cumprindo infalivelmente o propósito para o qual envia e comunica sua Palavra.

       Deus continua falando para um mundo que desaprendeu a ouvir.

Assim como a chuva e a neve descem dos céus...” (Is 55.9).

Chuva significa vida. Sem chuva não há plantio e sem plantio não há pão e sem pão não há sustento e futuro.

O verbo hebraico יֵרֵד (yērēd) descer deliberadamente traz a ideia de que a chuva não cai por acaso, ela vem e tem um propósito. Diante disso, Deus afirma: “Assim será a minha Palavra” (Is 55.11).

A Palavra sai da boca de Deus exatamente como a chuva sai dos céus para cumprir sua missão. Mesmo num mundo de algoritmos, narrativas e tendências.

       Ao contar a parábola do semeador, Jesus mostra onde está o verdadeiro problema.

O profeta Isaías disse que “a Palavra nunca falha” e Jesus mostra que as sementes lançadas em quatro tipos de terreno parecem ter fracassado em três. Todavia, é preciso observar cuidadosamente que o problema não é a semente, o que muda é o tipo de solo.

       Na Fórmula de Concórdia afirmamos que a Palavra de Deus verdadeiramente opera e concede a graça de Deus, embora possa ser resistida pelo ser humano. A resistência humana não revela uma deficiência da Palavra, mas a dureza do coração que rejeita a ação do Espírito Santo que é efetivada pela Palavra (semente).

       Ao contar a parábola do semeador, Jesus desloca nossa atenção e nos leva a refletir sobre o tipo de coração que está recebendo essa Palavra de Deus?Será o coração tal como o caminho endurecido?

Caminho endurecido são àqueles que ouvem, mas não escutam e por não escutarem com atenção, a Palavra permanece na superfície e o coração se torna uma estrada pisada, compactada, endurecida.

E é fácil se tornar um caminho endurecido, afinal, vivemos permanentemente distraídos. É fácil se distrair, pois estamos muito ocupados e manter a agenda cheia é uma das artimanhas do inimigo que nos distrai com passarinhos que devoram.

Que tipo de coração está recebendo a Palavra de Deus?Será o solo raso?

       O solo raso são as muitas pessoas que recebem a Palavra de Deus com entusiasmo, mas não criam raízes, e, na primeira dificuldade abandonam tudo.

Um solo típico da nossa cultura que ama resultados imediatos.

Lembro a parábola do Bambu Chinês onde se diz que um agricultor plantou uma semente de bambu chinês. Durante o primeiro ano, regou, adubou e cuidou da terra, mas nada parecia acontecer. No segundo ano, continuou o mesmo trabalho, e novamente não houve nenhum broto visível. O terceiro ano passa, e a terra continua aparentemente estéril. No quarto ano, o agricultor persevera, embora muitos pensem que seu esforço é inútil. Então, no quinto ano, um pequeno broto rompe a superfície do solo e, em poucas semanas, cresce vários metros de altura.

Durante todos aqueles anos, o crescimento acontecia debaixo da terra. O bambu estava formando um sistema de raízes profundo e resistente, capaz de sustentar o rápido crescimento que viria depois. Sem esse período invisível de fortalecimento, ele não suportaria a altura que alcançaria.

       Algo semelhante acontece com a Palavra de Deus. Parece que nada está acontecendo. Mas Deus continua trabalhando onde nossos olhos não alcançam. A Palavra cria raízes no coração, fortalece a fé, confronta o pecado, consola o aflito e prepara o tempo da frutificação. O que parece silêncio pode ser justamente o período em que Deus está realizando sua obra mais profunda, tal como ocorre na terra após a chuva.

A diferença entre a história do bambu e a mensagem bíblica é que o bambu cresce por uma lei natural enquanto a Palavra de Deus age porque o próprio Deus está presente e atuando nela. Os luteranos ensinam que a eficácia da Palavra não depende do tempo, da habilidade do pregador nem da disposição humana, mas da promessa de Deus declarada pelo profeta Isaías: Assim será a minha palavra... não voltará para mim vazia (Is 55.11).

Mesmo quando os efeitos permanecem ocultos aos olhos humanos, Deus continua realizando, por meio da Palavra exatamente aquilo que determinou.

       Que tipo de coração está recebendo essa Palavra de Deus?Será entre os espinhos?

Os espinhos estão muito presentes em nossa geração. Jesus disse que os espinhos representam as preocupações; a riqueza; a sedução deste mundo.

Nunca houve tanto conforto e ao mesmo tempo, tanta ansiedade. Nunca se pode acumular tantos bens e nunca se esteve tão cansado. E em meio a isso a Palavra de Deus não desaparece, ela simplesmente vai sendo sufocada.

O problema muitas vezes é apenas uma agenda cheia demais, um coração ocupado e distraído demais.

Os espinhos modernos são a produtividade, o consumo, a performance, a comparação, o status, a aprovação e esses espinhos crescem junto com a Palavra de Deus e roubam o espaço que precisa ser da Palavra de Deus.

       Que tipo de coração está recebendo essa Palavra?Será a boa terra?

A boa terra não é uma questão de que Deus tenha pessoas exclusivamente escolhidas. A Boa Terra é o coração já preparado por Deus. É a terra onde a chuva já fez todo seu processo. Terra Boa não é um coração perfeito. É um coração que permanece ouvindo, que recebe, que confia, que persevera. É um coração que por ter sido preparado, ouve a Palavra e o fruto de trinta, sessenta, cem é inevitável.

Observe que nem todos produzem da mesma forma. Afinal, há diferentes situações vivenciais para àquele que recebe, crê e responde a Palavra. Há oposição na família, perseguição, zombaria, idade, saúde ...

       A Palavra nunca volta vazia.

O profeta Isaías responde o que acontece com a Palavra de Deus destacando que ela sempre cumpre o propósito divino e Jesus responde o que acontece com cada pessoa quando ouve a Palavra de Deus.

A Palavra de Deus nunca é neutra, ela sempre produz alguma coisa. Quando a Palavra de Deus não produz arrependimento... revela endurecimento. Quando não produz fé... expõe a incredulidade. Quando não produz vida... executa juízo. O fato é que a Palavra de Deus nunca retorna vazia. Até mesmo a rejeição confirma aquilo que Deus havia anunciado.

       Cristo é o semeador e é a própria semente semeada.

No profeta Isaías, vemos que a Palavra de Deus sai da boca de Deus. No apostolo João, ouvimos que a Palavra de Deus possui um nome: Jesus Cristo, o Logos eterno. O evangelista Mateus apresenta a parábola que apresenta Jesus Cristo como o semeador que semeia e ao mesmo tempo, a semente que é semeada.

As Confissões Luteranas chamam de verbum efficax (Palavra eficaz). Ela não apenas anuncia perdão, entrega perdão. Não apenas promete vida, comunica vida. Não apenas fala de Cristo, entrega o próprio Cristo.

       O profeta Isaías responde que a chuva continua descendo e silenciosamente gera vida por baixo da terra sem que os olhos vejam. A Palavra de Deus, tal como a chuva continua realizando exatamente aquilo que lhe é determinado realizar.

A Palavra de Deus é eficaz. Por ela, Deus criou o universo, chamou Abraão, abriu o Mar Vermelho, fez ossos secos viverem, ela é o Cristo, cria fé pelo Evangelho, sustenta a Igreja, continua e continuará realizando tudo aquilo que Deus determinou até o último dia.

       Que tipo de solo a Palavra de Deus encontra? Qual é o solo do seu coração hoje?

O semeador continua semeando a semente. Não se engane, o Espírito Santo trabalha por meio desse semeador e semente. Tal como a chuva que desce dos céus, a Palavra de Deus vem para remover a dureza do caminho, a superficialidade do solo raso e os espinhos que sufocam a fé e fazer produzir. A Palavra nunca volta vazia e quando é lançada para um coração que o Espírito Santo já vinha preparando, saiba que há produção de frutos. Amém.

 

Edson Ronaldo Tressmann

Se desejar fazer um pix voluntário: edson.ronaldotre@gmail.com

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Nada permanece o mesmo quando Deus fala!

 12 de julho de 2026

Próprio 10 – Sétimo Domingo após Pentecostes

Salmo 65.9-13; Isaías 55.10-13; Romanos 8.12-17; Mateus 13.1-9,18-23

Tema: Nada permanece o mesmo quando Deus fala!

 

Estamos vivendo na época do descartável, inclusive da palavra descartável. Nunca tantas palavras foram produzidas e consumidas em tão pouco tempo. Basta abrir o celular e somos bombardeados por discursos, promessas, notícias, propagandas, vídeos e opiniões. Todos querem falar. Todos querem ser ouvidos. Mas poucas palavras permanecem.

O paradoxo é impressionante. Nunca houve tanta comunicação e, ao mesmo tempo, tão pouca transformação. As palavras humanas conseguem informar, convencer, emocionar e até entusiasmar por alguns momentos. Porém, quase sempre, são incapazes de realizar aquilo de que o ser humano mais precisa, mudar o coração, vencer o pecado, restaurar a esperança e dar vida.

        É justamente nesse mundo saturado de palavras que a Bíblia apresenta uma Palavra completamente diferente. A Palavra de Deus não é apenas mais uma voz entre tantas. Ela não apenas comunica uma mensagem; ela realiza o que anuncia. Por isso o profeta Isaías declarou: “Assim será a minha Palavra; ela não voltará para mim vazia” (Is 55.11).

Que afirmação extraordinária!

A palavra de Deus não fracassa. Nenhuma promessa divina cai no chão. Nenhum sermão fiel é inútil. Nenhuma Escritura lida permanece sem efeito. Quando Deus fala... alguma coisa acontece.

Isaías começa olhando para algo extremamente comum. A chuva. A neve. Todos sabem como funciona. Ela cai. Penetra o solo. Molha. Amolece. Alimenta. Faz brotar. Ninguém consegue impedir isso.

A chuva e a neve não perguntam à terra se pode cair. Ela simplesmente cai.

O profeta Isaías disse: “Assim também é a minha Palavra” (Is 55.11).

Que comparação maravilhosa!

A Palavra não é comparada a um livro. Nem a uma teoria. Nem a uma religião. Ela é comparada à chuva.

A chuva não faz barulho para chamar atenção, todavia, após a chuva a paisagem muda completamente. O mesmo ocorre na pregação da Palavra.

Um sermão aparentemente simples. Uma leitura bíblica. Uma explicação do catecismo. Uma absolvição. Uma palavra na Santa Ceia. Parece algo pequeno. Mas, Deus realiza um milagre invisível.

Lutero dizia que Deus escolheu agir por meios simples. Água; Pão; Vinho; Palavra. O poder nunca esteve nos meios... o poder está naquele que fala. A Palavra cria vida. A Palavra não apenas anuncia perdão; ela concede perdão. A Palavra não apenas oferece esperança, ela gera esperança. A Palavra não apenas informa sobre Cristo, ela entrega Cristo.

        Usando a imagem do profeta Isaías, podemos dizer que o maior milagre não é a chuva cair sobre a terra. O maior milagre é a Palavra de Deus chegar a um coração morto e gerar vida.

        Na parábola do semeador contada por Jesus, o curioso é que o semeador não faz seleção. O semeador lança sementes por toda parte. No caminho; entre as pedras; entre os espinhos e na boa terra.

O Evangelho é anunciado para todos. O problema não é a semente e Jesus deixa isso absolutamente claro. A semente que é a Palavra é perfeita, o problema é o solo que recebe essa semente.

Há corações endurecidos onde a Palavra bate... e nem entra. ... o maligno a arranca imediatamente.

Há corações superficiais que recebem tudo com entusiasmo... mas basta chegar a primeira perseguição... e tudo desaparece.

Há corações sufocados onde a Palavra cresce junto aos espinhos que crescem mais. Esses espinhos são as preocupações, o dinheiro, a carreira, o prazer, o orgulho. Tudo vai estrangulando lentamente a fé até que ela deixa de produzir fruto.

Jesus não diz em nenhum momento que a Palavra perdeu o poder. O problema é sempre o solo, o coração pecaminoso. E assim surge a pergunta: e a boa terra? Será que Deus tem seus escolhidos?

O ser humano não produz seu próprio coração novo. A terra não se torna boa por si mesma. O solo é trabalhado, preparado, arado, irrigado, e assim transformado. E aqui retornamos a imagem do profeta Isaías em que o profeta mostra que a chuva vem de fora. A terra apenas recebe a água e essa que vem de fora produz vida.

A graça de Deus é oferecida pela Palavra e a boa terra não é um coração melhor que o outro, é um coração constantemente visitado por Deus por sua Palavra assim como a terra é visitada pela chuva.

Davi no Salmo 65 expressa essa verdade com uma afirmação maravilhosa: “Tu visitas a terra e a regas” (Sl 65.9); “Fazendo chover, mostras o teu cuidado pela terra e a tornas boa e rica” (Sl 65.9).

O verbo hebraico é paqad e significa muito mais que visitar. Significa intervir; agir; transformar; produzir vida. Dessa forma, Davi enfatiza que quando Deus visita, jorra sua Palavra, mesmo no deserto a vida floresce. O solo seco produz e a morte começa a perder espaço.

Ninguém nasceu boa terra. Todos nascem pedras, espinhos, caminho endurecido. Mas Deus vai visitando, jorrando Palavra e desertos vão florescendo.

        O apostolo Paulo escreveu que “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).

Observe e perceba a ordem. Primeiro Deus age; depois se responde. Primeiro Deus chama; depois ouvimos. Primeiro Deus gera; depois vivemos. Fala-se muito de que o Espírito transforma as pessoas, todavia, além disso, o Espírito Santo cria filhos.

Na carta aos Romanos, o apostolo Paulo usa a palavra hebraica “Abba” (Rm 8.15) indicando que a criança não chama Deus de Pai porque decidiu fazê-lo. Ela chama de Pai porque recebeu a identidade de filho e é o Espírito Santo que testemunha dentro de nós dizendo que “você pertence ao Pai”.

Que conforto!

Minha certeza de filho não repousa na intensidade da minha fé; nem na estabilidade do meu coração; nem na perfeição da minha obediência. A certeza repousa na fidelidade daquele que me fala por sua Palavra e que por sua Palavra produz vida em mim. A terra boa tem os passarinhos enxotados, as pedras e os espinhos retirados.

Se o profeta Isaías disse que a Palavra de Deus nunca volta vazia... como explicar os três solos improdutivos? Qual é a razão da rejeição a Palavra?

A resposta das Confissões Luteranas é profundamente bíblica descrevendo que a Palavra nunca fracassa. A Palavra de Deus sempre realiza a missão de Deus. Todavia, essa missão nem sempre é a mesma. Ela consola; julga; cria fé; revela incredulidade; endurece os que a recusam. A Palavra de Deus nunca é neutra.

Ninguém sai de um culto sem alguma ocorrência... diante da pregação da Palavra, alguma coisa aconteceu. Ou se foi aproximado de Cristo... ou se ficou mais endurecido. Ninguém permanece igual depois de ouvir Deus falar.

        O maior fruto não é aquele que o ser humano produziu. É o que Deus produziu por sua Palavra. Por essa razão, Jesus conclui a parábola dizendo que uns produzem trinta, outros sessenta, outros cem.

Perceba um detalhe importante. Jesus nunca exige a mesma quantidade de fruto, afinal, Deus conhece os seus filhos. Uns sofrem muito; outros vivem mais tempo; alguns tem grandes oportunidades; outros vivem escondidos; por isso a classificação dessa produção de frutos.

O fruto não é resultado da força da terra. É resultado da força da semente. Cristo nunca abandona aquilo que começou.

        Como anunciou o profeta Isaías, sua Palavra continua descendo como a chuva e continua irrigando, criando, perdoando, ressuscitando mortos espirituais e transformando pecadores em filhos.

Muitas vezes o coração está cheio de pedras e tomado por espinhos. O Evangelho não procura corações perfeitos. O Evangelho cria corações novos. Cristo é o semeador e a semente é o próprio Cristo.

Jesus Cristo é a semente lançada na cruz. Parecia que aquela semente havia morrido. Mas, ao terceiro dia, ela rompeu o solo da sepultura. Da morte nasceu a vida. Da cruz nasceu o perdão. Da ressurreição nasceu a nova criação. E esse Cristo continua sendo semeado pela Palavra por meio da pregação, do Batismo e da Santa Ceia e onde essa Palavra é anunciada, o Espírito Santo continua fazendo aquilo que nenhuma força humana consegue fazer: criar fé, conceder perdão, gerar filhos de Deus e produzir frutos para a vida eterna. Amém.

 

Edson Ronaldo Tressmann

Se desejar fazer um pix voluntário: edson.ronaldotre@gmail.com

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Rei dos cansados (Mateus 11.25-30)

 05 de julho de 2026

Próprio 9 – Sexto Domingo após Pentecostes

Salmo 145.1-14; Zacarias 9.9-12; Romanos 7.14-25; Mateus 11.25-30

Tema: O Rei dos cansados

 

Vivemos em uma época marcada pela exaustão. Há pessoas cansadas do trabalho que nunca termina, dos relacionamentos que exigem mais do que conseguem oferecer, do bombardeio constante de notícias, das cobranças externas e das expectativas que carregam sobre si mesmas. Muitos acordam já fatigados, não apenas fisicamente, mas também emocional e espiritualmente, sentindo o peso de uma vida que parece exigir sempre mais e oferecer cada vez menos descanso.

O peso mais difícil não vem de fora, mas de dentro. É o peso do pecado que habita em nós. É conhecer a vontade de Deus e perceber que muitas vezes fazemos justamente o contrário. É carregar a culpa das palavras que não deveríamos ter dito, das atitudes que deveríamos ter tomado e dos pecados que insistem em nos acompanhar. É o sofrimento descrito por Paulo: querer fazer o bem, mas encontrar em si mesmo outra força que o arrasta para o mal. É o peso de uma consciência que acusa e de um coração que reconhece suas próprias limitações.

Por isso, as leituras do culto de hoje falam diretamente ao coração, pois apresentam um Rei diferente de todos os Reis deste mundo.

A Palavra de Deus revela um Rei cujo poder se manifesta de maneira surpreendente. Ele não exige que os cansados encontrem forças para chegar até Ele; Ele mesmo vem ao encontro deles. Não pisa sobre os fracos para demonstrar sua grandeza; sustém os que tropeçam e levanta os que caem. Não condena os pecadores para afirmar sua justiça; assume sobre si a culpa deles para lhes oferecer perdão. Este é o Rei Jesus: poderoso em misericórdia, glorioso em compaixão e rico em graça para salvar.

O Rei dos cansados. Um rei misericordioso.

Davi declara no Salmo 145: “O Senhor Deus é bom e cheio de compaixão; ele demora a ficar irado e tem sempre muito amor” (Sl 145.8).

O mundo costuma admirar reis fortes, conquistadores e vencedores. Mas Deus revela sua grandeza de outra maneira. Sua majestade aparece em sua misericórdia. Seu poder aparece em sua compaixão. Sua glória aparece em sua graça. O salmista afirma: “Ele ajuda os que estão em dificuldade e levanta os que caem” (Sl 145.14).

O verbo hebraico (samekh) significa literalmente “apoiar”, “segurar”.

Que imagem extraordinária!

Não temos um Deus que observa os caídos à distância. Pelo contrário, temos um Deus que se inclina para sustentar os caídos. Deus não abandona os fracos. Deus segura àqueles que já não conseguem permanecer em pé.

Uma verdade consoladora, afinal, todos nós vacilamos, tropeçamos, passamos por dias em que nossa fé enfraquece. No entanto, a nossa esperança não está na força de nossas mãos, está nas mãos daquele que nos sustenta.

O Rei dos cansados veio até nós

O profeta Zacarias anunciou: “...o seu rei está chegando” (Zc 9.9).

Observe a direção do movimento. Não somos nós que vamos até o Rei. É o Rei que vem até nós. Ele não vem montado num cavalo de guerra. Não vem cercado por exércitos. Não vem para destruir. Não vem para esmagar. Ele vem montado num jumento.

Segundo Keil & Delitzsch, o jumento não simboliza pobreza apenas. No Antigo Oriente, era também um animal associado à paz. O Messias não viria como conquistador militar. Viria como portador da reconciliação. Por isso o profeta afirma: “Ele acabará com os carros de guerra de Israel e com a cavalaria de Jerusalém; os arcos e as flechas serão destruídos. Ele fará com que as nações vivam em paz; o seu reino irá de um mar a outro, ...” (Zc 9.10).

O reino messiânico elimina os instrumentos humanos de salvação.

Jesus vem em humildade, vem em paz, vem para reconciliar.

As palavras “eu fiz uma aliança com vocês, que foi selada com sangue...” (Zc 9.11) antecipa claramente a Nova Aliança. A libertação não ocorre pela espada, mas pelo sangue. Aqui temos uma ligação com Mateus. Mateus 21 aplica explicitamente esta profecia à entrada triunfal de Cristo em Jerusalém. O Rei prometido é Jesus que reina pela cruz.

A libertação não vem pela espada. Vem pelo sangue. Não vem pela força. Vem pela cruz. Não vem pelo mérito. Vem pela graça.

O Rei prometido e anunciado pelo profeta Zacarias é Jesus. E sua coroação acontece numa cruz.

Na cruz Jesus derrota os inimigos que realmente escravizam a humanidade: o pecado, a morte e Satanás.

Os cansados continuam lutando

Talvez alguém imagine que, depois da conversão, toda luta termina, mas o apostolo Paulo afirma na carta aos Romanos, capítulo 7 uma realidade diferente.

O apostolo confessa: “Eu não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer. Pelo contrário, faço justamente aquilo que odeio” (Rm 7.15).

Quem fala assim não é incrédulo, é um cristão, é um apostolo, é um homem regenerado pelo Espírito Santo.

A descrição do apostolo é a experiência de todos os cristãos. O cristão ama a Lei de Deus, deseja obedecê-la, quer agradar ao Senhor, todavia, encontra em sua natureza pecaminosa uma resistência permanente.

A velha natureza continua lutando contra a nova natureza. Martinho Lutero dizia que o cristão é simultaneamente justo e pecador. Justo diante de Deus por causa de Cristo e pecador em sua carne.

Todos conhecem e enfrentam essa batalha. Quantas vezes prometemos ser mais pacientes? Mais amorosos? Mais fiéis? Mais dedicados? E quantas vezes falhamos novamente?

Além disso, o grande perigo é cair em um de dois erros.

Primeiro, perfeccionismo. Viver pensando que é possível atingir perfeição nesta vida. Segundo: desespero. Viver pensando que as lutas provam que Deus abandonou na luta.

C.F.C. Walther, diante do perigo desses dois erros, responde destacando que a luta não prova ausência de fé, pelo contrário, a luta é evidência da fé. Afinal, um incrédulo não combate o pecado. O cristão o combate. Pois enquanto o incrédulo faz as pazes com o pecado, o cristão sofre por causa dele, chegando ao ponto de gritar o grito do apostolo Paulo: “Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte?” (Rm 7.24). Esse não é o grito da incredulidade, é o grito de uma fé ferida que anseia pela libertação.

O Rei dos cansados oferece descanso

Ouça atentamente as palavras mais doces do Evangelho: “Venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso” (Mt 11.28).

Perceba que Jesus não está chamando os fortes, os autossuficientes, os que acreditam ter tudo sob controle. Jesus chama e convida os cansados, os abatidos, os culpados, os pecadores, os que chegaram ao fim de si mesmos.

O homem de Romanos 7 encontra sua resposta nas palavras de Jesus apresentadas em Mateus 11.

Diante do clamor: “Como sou infeliz!”, Cristo responde: “Venham a mim”.

Ao peso da culpa, Jesus responde: “Eu lhes darei descanso”. Diante da consciência acusadora, Jesus Cristo declara: “a carga que eu ponho sobre vocês é leve”.

Para o pecador cansado, Jesus Cristo oferece descanso. Não é um descanso temporário. Não é uma pausa emocional. Jesus oferece o descanso da reconciliação com Deus. O descanso do perdão. O descanso da justificação. O descanso de saber que Cristo fez tudo aquilo que nenhum pecador conseguiria e consegue fazer.

A carga de Jesus é leve porque foi Jesus quem carregou o peso da condenação; Jesus suportou o fardo da cruz e sua paz é verdadeira porque foi comprada com seu sangue.

Uma sociedade cheia de pessoas cansadas. Cansadas de correr, de provar seu valor, de tentar consertar a própria vida e de lutar sozinhas.

Não sei dizer como você está hoje. Talvez hoje você esteja carregando algum peso; uma culpa antiga; uma luta secreta; uma tristeza profunda; uma batalha espiritual; uma sensação de fracasso. Ouça a boa-notícia da Palavra de Deus.

O Deus do Salmo 145 continua sustentando os que vacilam. O Rei anunciado pelo profeta Zacarias continua vindo ao encontro dos pecadores. O Salvador proclamado por Paulo continua sendo a única resposta para a miséria pecaminosa. E o Jesus Cristo descrito por Mateus continua dizendo: “Venham a mim”.

E esse vir não é amanhã, não é quando você melhorar, não é quando você estiver mais forte, não é quando você merecer. É agora. Pode vir com sua culpa, com suas lágrimas, com suas lutas, com seu cansaço.

O Rei dos cansados está de braços abertos e vindo até Ele, se encontra descanso e descobre que a graça dEle é maior que seu pecado, é mais forte que sua fraqueza e mais duradoura que todas as suas lutas. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

  26 de julho de 2026 Próprio 12 – Nono Domingo após Pentecostes Salmo 125; Deuteronômio 7.6-9; Romanos 8.28-39; Mateus 13.44-52 Texto...