segunda-feira, 26 de outubro de 2026

ἐλεύθερος, o livre, o liberto

 

31 de outubro - Culto da Reforma Luterana 509 anos

Salmo 46; Jeremias 31.31-34; Gálatas 5.1, 13-14; João 8.31-36

Tema: ἐλεύθερος, o livre, o liberto

 

          Seus amigos e familiares sabem que você é luterano?

          Por que você é luterano?

Vale a pena ser luterano?

Por qual razão você não é católico ou evangélico e sim, luterano?

Martinho Lutero adotou e assinou o nome Eleutherius (ἐλεύθερος, que significa “livre” ou “liberto” em correspondências e escritos entre os anos de 1517 e 1520).

Essa escolha de Martim Luder assinar Eleutherios, revela como o conceito de liberdade do Evangelho ter marcado profundamente sua vida.

O sobrenome original da família era Luder e por volta do final de 1517, após a publicação das 95 Teses e o início dos debates com Roma, Lutero percebeu a semelhança sonora entre o alemão Luder e a raiz grega Eleutheros. Como um profundo trocadilho humanista e teológico, ele adotou a forma latinizada: “Martinus Eleutherius”, Martinho, o Liberto, tornado livre pela graça de Deus.

Foi exatamente a partir dessa transição de Luder para Eleutherius que ele gradualmente fixou a grafia moderna do seu sobrenome em alemão: Luther.

Nesse período (1517–1520), Lutero assinou diversas cartas para amigos, teólogos e autoridades como “Martinus Eleutherius” ou “Martinus Eleutherius Augustinianus”. Ao se dirigir ao papa, a intenção do codinome era afirmar que sua postura e seus escritos não nasciam de uma rebeldia obstinada, mas da liberdade de consciência trazida pelo Evangelho de Cristo.

Lutero escreveu três importantes cartas direcionadas diretamente ao Papa Leão X. Carta de Maio de 1518: acompanhando as suas resoluções às 95 teses, enviada como uma explicação teológica formal. Carta de Março de 1519: um apelo de conciliação e respeito à Sé Romana. Carta de Outubro de 1520: a carta enviada por Martinho Lutero ao Papa Leão X em outubro de 1520 serviu de prefácio ao seu célebre tratado Da Liberdade do Cristão que representa um dos momentos mais dramáticos, paradoxais e decisivos de toda a história ocidental.

Essa correspondência marca o ponto de inflexão definitivo em que a esperança de reforma institucional interna cede lugar ao nascimento de uma nova era de liberdade de consciência.

O impacto histórico dessa carta desdobra-se em quatro dimensões fundamentais:

A última tentativa de conciliação e a “Ovelha entre Lobos”: naquela altura (1520), a Bula de Excomunhão (Exsurge Domine) já pairava sobre a cabeça de Lutero, enviada por Roma e defendida por teólogos inquisitoriais como Johann Eck. No entanto, impulsionado por negociações de intermediários (como o enviado papal Karl von Miltitz), Lutero escreveu ao pontífice adotando um tom surpreendente, ele tentou tratar Leão X como uma “inocente ovelha cercada por lobos” (a cúria romana corrupta e os bajuladores).

Enquanto a máquina eclesiástica exigia a retratação incondicional e ameaçasse sua queima na fogueira, Lutero escreve não como um rebelde sedento de poder, mas como um médico espiritual que tenta salvar o próprio papa de uma estrutura corrompida.

            Se por um lado a pessoa do papa foi tratada com cortesia formal, por outro, a instituição e a cúria romana receberam o julgamento mais severo possível. Lutero não poupou palavras, escrevendo que a Cúria Romana era mais corrupta do que a Babilônia ou Sodoma, descrevendo-a como um antro de impiedade sem esperanças que mercantilizava a fé cristã sob o nome sagrado de Pedro.

Essa franqueza histórica abriu os olhos da Europa para o fato de que o conflito não era um mero desentendimento acadêmico entre monges, mas uma fratura moral e estrutural profunda na cristandade ocidental.

Um dos trechos mais revolucionários da carta adverte Leão X contra os “aduladores” que o elevavam acima de tudo e de todos: “Não creias em ninguém que te exalta, mas sim em quem te humilha”.

Lutero argumentava que tentar colocar o papa acima de um Concílio Geral e atribuir-lhe o monopólio exclusivo de interpretar as Escrituras era abrir as portas para a tirania espiritual. Historicamente, essa posição desferiu um golpe mortal no absolutismo papal medieval, consolidando a ideia de que a autoridade final reside na Palavra de Deus (Sola Scriptura) e não em cargos humanos, emancipando a consciência individual perante o poder temporal e eclesiástico.

Ao enviar este tratado específico, Lutero resumiu o cerne da Reforma: o cristão é espiritualmente senhor de todas as coisas por meio da fé (livre de leis opressoras para a salvação), mas servo de todas as coisas por meio do amor.

Historicamente, essa carta selou o rompimento oficial. Poucas semanas depois de enviá-la e de ver o documento ser sumariamente ignorado e sua obra ameaçada, Lutero queimaria publicamente a bula papal em Wittenberg em dezembro de 1520.

A carta a Leão X não evitou o Cisma, mas cristalizou a transição de eras. Ela provou que a verdade do Evangelho não podia ser negociada em gabinetes de poder e que a verdadeira autoridade moral nasce da fidelidade à consciência informada pelas Escrituras, preparando o terreno para a modernidade e para a liberdade de pensamento no Ocidente.

            A relação entre o conceito grego de eleutérios (eleutheros/eleutheria) e a liberdade do Evangelho toca no coração do pensamento teológico da Reforma Protestante e na própria estrutura do Novo Testamento.

O termo grego ἐλεύθερος (eleutheros, livre, emancipado) e o substantivo ἐλευθερία (eleutheria, liberdade) expressam a transição de um estado de servidão para um estado de plena dignidade e autonomia responsável sob Deus.

No mundo greco-romano clássico, eleutheros definia o cidadão livre em oposição ao escravo (doulos) e significava, isenção de sujeição externa, ou seja, não pertencer a um senhor humano. Direito de fala e ação, a prerrogativa de participar da vida pública e decidir os próprios caminhos.

Quando os autores do Novo Testamento usam essa linguagem, eles pegam um conceito político-social e o elevam ao plano espiritual e existencial.

O fundamento da liberdade do Evangelho não é uma licença para o egoísmo, mas uma libertação radical promovida por Cristo: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará (eleutherosei)... Se, pois, o Filho os libertar (eleutherose), vocês serão verdadeiramente livres (eleutheroi)” (João 8.32, 36); “Foi para a liberdade (eleutheria) que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se submetam novamente a um jugo de escravidão” (Gálatas 5.1).

Para o Paulo, o Evangelho liberta o ser humano de três grandes tiranias. Da condenação da Lei, a religiosidade baseada no medo e no merecimento humano. Do poder do pecado e da culpa, a incapacidade moral de fazer o bem. Do medo da morte e do juízo, a tirania existencial.

Em 1520, Martinho Lutero escreveu um de seus tratados mais influentes, diretamente inspirado por esse conceito de eleutheria, “Da Liberdade do Cristão”. Lutero sintetizou o fundamento da liberdade do Evangelho em dois paradoxos célebres, “o cristão é um senhor livre sobre todas as coisas e não está sujeito a ninguém” (Pela fé em Cristo; eleutheros). “O cristão é um servo prestativo em todas as coisas e está sujeito a todos” (Pelo amor ao próximo; doulos).

Quando Frederico, o Sábio, protegeu Lutero, ele criou um escudo para que a liberdade de consciência fundada no Evangelho não fosse esmagada pelo absolutismo político ou eclesiástico.

Saber que a salvação é dádiva gratuita e que todo crente é livre (eleutheros) tirou dos leigos a dependência espiritual da hierarquia romana. O leigo não era mais um “escravo espiritual”, mas um filho livre de Deus, capacitando-o a julgar doutrinas e ler a Bíblia por si mesmo.

A liberdade do Evangelho (eleutheria) difere da mera autonomia individualista moderna. Ela não é a liberdade de fazer qualquer coisa, mas a liberdade para amar e servir sem medo. Como Paulo adverte aos Gálatas, “vocês, irmãos, foram chamados para a liberdade (eleutheria). Mas não usem a liberdade para dar ocasião à carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor” (Gálatas 5.13).

A verdadeira liberdade (eleutérios) nasce da certeza de ser aceito por Deus mediante a fé, o que liberta o indivíduo da necessidade de se autojustificar e o envia ao mundo para amar e defender a verdade com coragem. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Do espelho da Lei ao trono da graça (Mt 22.34-46)

25 de outubro 2026

Próprio 25 – Vigésimo Segundo Domingo após Pentecostes

Salmo 1; Levítico 19.1-2,15-18; 1Tessalonicenses 2.1-13; Mateus 22.34-46

Tema: Do espelho da Lei ao trono da graça

 

Meus irmãos, o texto sagrado que nos é apresentado hoje coloca diante de nós duas perguntas cruciais que definem o destino de toda alma humana. A primeira é feita pelos fariseus a Jesus: “Qual é o grande mandamento na lei?” A segunda é feita por Jesus aos fariseus: “Que pensais vós do Cristo? De quem é filho?”

Na resposta a essas duas perguntas reside a chave para compreendermos a nossa verdadeira condição diante de Deus e a gloriosa solução que Deus nos providenciou em seu Filho Jesus.

Os fariseus buscavam transformar a religião em um intrincado emaranhado de regras para exaltação própria, Jesus reduz o debate à essência da relação do homem com Deus. A incapacidade humana revelada na perfeição da Lei e a suficiência divina revelada no Messias.

Quando o doutor da Lei se aproxima de Jesus para testá-lo, nosso Senhor resume toda a Lei de Deus em duas dimensões inseparáveis: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Observe atentamente a profundidade dessa exigência: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de todo o teu entendimento e de toda a tua alma”.

A Lei de Deus não pede simplesmente uma conformidade externa, costumes religiosos ou rituais aparentes. A Lei exige perfeição absoluta de motivações, afeições e pensamentos. Ela exige que o amor a Deus e ao próximo seja o motor ininterrupto de cada pulsar do nosso coração. Contudo, devido à nossa natureza caída, nenhum ser humano é capaz de cumprir essa ordem de forma perfeita.

Qual é, então, a função do Grande Mandamento?

Não é alimentar o orgulho moral. O mandamento não foi dado para nos gabarmos de nossas boas obras. Os fariseus buscavam na lei uma forma de autojustificação, apegando-se a regras externas enquanto o coração permanecia distante e destituído de misericórdia. Aqui recebemos uma advertência grave sobre uma ilusão. O maior erro da razão humana é transformar a Lei em uma escada para o céu. Quando pregamos a Lei como meio de salvação, deixamos os homens orgulhosos na sua hipocrisia ou desesperados no seu pecado.

A Lei como Espelho. O grande Mandamento funciona como um espelho divino. Ao olharmos para a perfeição do amor exigido, não vemos a nossa grandeza, mas sim a nossa falência; percebemos a nossa incapacidade, o nosso egoísmo e o nosso pecado. A Lei nos mostra quem Deus é, Santo e Perfeito, e quem nós somos, pecadores necessitados de redenção.

A pergunta do doutor da Lei pretendia classificar obras de exterioridade, mas Jesus usou a própria Lei para desnudar os impulsos secretos do coração humano.

Se a história parasse aqui, estaríamos perdidos no desespero de uma condenação inevitável. Mas louvado seja Deus, porque a história não termina no versículo 40!

Jesus não deixa seus ouvintes presos ao desespero da Lei. Ele toma a iniciativa e confronta os fariseus com uma pergunta acerca do Messias: “Que pensais vós do Cristo? De quem é filho?” Prontamente, eles respondem: “De Davi”. E, então, utilizando do Salmo 110.1, “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita...”, Jesus revela o grande mistério de sua pessoa e obra.

Filho de Davi, sua Humanidade: segundo a carne e a descendência terrena, o Messias é homem verdadeiro, nascido da linhagem de Davi.

Senhor de Davi, sua Divindade: segundo a sua natureza divina, Jesus é o eterno Deus, coexistente com o Pai.

Por que essa verdade é a nossa única esperança?

Aqui entra o ensino doutrinário sobre as duas naturezas de Cristo. Para que Jesus fosse o nosso Redentor, Jesus precisava ser verdadeiro homem para viver sob a Lei e morrer em nosso lugar, e verdadeiro Deus para que a sua obediência e o seu sacrifício tivessem um valor infinito e vencessem o poder da morte e da ira de Deus. E essa verdade é destacada nos Credos da Igreja Cristã.

Aquilo que a Lei exigia e nós não podemos cumprir, o “Senhor de Davi” cumpriu por nós! Na sua humanidade, Jesus viveu em obediência ativa perfeita, amando ao Pai e ao próximo sem falhas. Na sua divindade, ofereceu-se na cruz em obediência passiva, vencendo os nossos maiores inimigos: o pecado, a morte e o diabo.

O Evangelho não faz exigências, mas anuncia gratuitamente o que Cristo fez por nós. Cristo é a solução para a impossibilidade oferecida pela Lei! Jesus é a justiça que nos faltava e a redenção de que precisávamos.

Quando o pecador é perdoado e justificado unicamente pela fé em Cristo, o puro Evangelho, a sua relação com a Lei muda completamente.

Não amamos a Deus e ao próximo para sermos salvos ou para merecermos o favor divino. Não! Nós amamos porque fomos salvos! O amor e as boas obras deixam de ser um fardo de barganha legalista e se tornam o fruto genuíno da gratidão e da habitação do Espírito Santo em nosso coração. A Lei, que antes nos condenava como um espelho de culpa, agora se torna para o cristão regenerado o trilho seguro pelo qual caminhamos com alegria, impulsionados pelo amor de Cristo.

Meus irmãos, onde você se encontra hoje?

Você está tentando se justificar diante de Deus por meio de rituais, tradições ou de uma moralidade aparente, como faziam os fariseus? Ou, você reconheceu a sua incapacidade no espelho da Lei e correu para os braços daquele que é o Filho e Senhor de Davi?

Que o Espírito Santo nos tire de toda autoconfiança moral e nos leve ao pé da cruz de Jesus. Nele, e somente Nele, encontramos o perdão das nossas falhas e a força para amar a Deus e ao nosso próximo de todo o coração. Que assim seja. Amém!

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A moeda e a alma: a quem pertence o seu coração?

 18 de outubro 2026

Próprio 24 – Vigésimo Primeiro Domingo após Pentecostes

Salmo 96.1-9; Isaías 45.1-7; 1Tessalonicenses 1.1-10; Mateus 22.15-22

Tema: A moeda e a alma: a quem pertence o seu coração?

 

 

Nas oficinas da Roma Antiga, quando um mestre artesão terminava de fundir uma moeda ou esculpir um monumento, ele cravava nele a eikōn, a imagem e a inscrição do imperador. Aquele pedaço de prata deixava de ser apenas metal bruto; tornava-se propriedade legal do Império. Onde quer que circulasse, aquela imagem dizia sem palavras: “Isto pertence a César”.

Se pegássemos hoje a sua carteira, o seu extrato bancário, o seu histórico de buscas no celular ou a sua agenda da semana... de quem é a imagem que veríamos gravada ali?

Vivemos em uma era em que impérios políticos, ideologias sedutoras e mercados econômicos disputam incansavelmente a nossa atenção e a nossa fidelidade. Eles reclamam o nosso voto, o nosso consumo, o nosso tempo e o nosso medo. Prometem segurança, mas cobram em troca o bem mais valioso de um ser humano: a sua adoração.

A pergunta bíblica para o dia de hoje não é sobre quanto imposto devemos pagar, nem sobre qual sistema de governo é perfeito. A pergunta que ressoa das páginas de Isaías a Mateus é direta, penetrante e inadiável: a quem pertence, afinal, o seu coração?

Na crise do Exílio, no século VI a.C., Israel olhava para as muralhas de Babilônia e via um império inabalável. No entanto, o Deus de Israel faz algo que chocou a teologia da época. O profeta Isaías, no capítulo 45 destaca que o Senhor toma pela mão direita um rei pagão chamado Ciro, da Pérsia, e o chama de mashiach, o seu “ungido” (Is 45.1). Essa é a única vez no Antigo Testamento em que um imperador pagão recebe este título.

Ciro marchava sobre as nações achando que sua força militar e suas estratégias políticas eram as responsáveis por suas vitórias. Contudo, Deus declara: “Eu te cingirei, ainda que tu não me conheças” (Is 45.5).

Ciro pensava ser o dono da história, mas era apenas um instrumento temporário nas mãos do soberano do universo. Nenhuma autoridade política governa de forma autônoma. Impérios nascem e desmoronam, superpotências entram em colapso, mas o trono do Altíssimo permanece inabalável.

O Salmo 96 convida a rir da soberba dos impérios humanos. O salmista faz um jogo de palavras cortante entre Elohim (o Deus Criador) e os elilim (os deuses das nações). Elilim significa literalmente “coisas sem valor”, “sopros”, “sopas de vento” ou “nada”.

Render culto a líderes políticos, filosofias de estimação ou ao acúmulo de riquezas é prostrar-se diante do nada. Por três vezes o salmista ordena: “Atribuí ao Senhor glória e força; trazei ofertas e adorai-o na beleza da sua santidade” (Sl 96.7-9). A nossa lealdade suprema tem um único endereço.

Chegamos ao Templo de Jerusalém, na Semana Santa (Mateus 22.15-22). Uma aliança bizarra se forma, os fariseus (nacionalistas e anti-romanos) unem-se aos herodianos (aristocratas e colaboradores de Roma). Eles não se suportavam, mas o ódio comum por Jesus os uniu para armar uma armadilha perfeita: “É lícito pagar imposto (kēnsos) a César ou não?”

Se Jesus dissesse sim, seria rotulado como traidor do povo, conspirador pro-romano e profeta falso aos olhos da multidão oprimida. Se Jesus dissesse não, os herodianos o denunciariam imediatamente ao governador Pôncio Pilatos como um rebelde sedicioso e inimigo de Roma.

A resposta de Jesus, porém, destrói a cilada com uma simplicidade avassaladora. Ele diz: “Mostrai-me a moeda do imposto”.

Eles lhe entregaram um denário de prata. Aquela moeda trazia gravado o rosto do imperador Tibério e as inscrições sacrílegas: “Tiberivs Caesar Divi Augusti Filius Augustus” (Tibério César, Filho do Divino Augusto) e, no verso, “Pontifex Maximus” (Sumo Sacerdote). Para um judeu fiel, carregar aquilo era transportar uma blasfêmia esculpida no bolso.

Jesus olha para a prata e pergunta: De quem é esta imagem (eikōn) e inscrição (epigraphē)? Eles respondem: “De César”. E a resposta de Cristo entra para a história da humanidade: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21).

Jesus usou o verbo apodo-te, que significa devolver, restituir. A moeda traz impressa a eikōn de César! Pertence ao sistema econômico de César! Então, devolvam a ele a prata de seu império civil.

Mas e a Deus? O que devemos devolver a Deus?

Onde está gravada a eikōn, a imagem de Deus?

Não no metal, nem na prata, nem no ouro. Em Gênesis 1.26-27, a Bíblia declara que a Imagem de Deus (imago Dei) foi gravada na alma humana.

A distinção de Jesus é revolucionária. César tem o direito civil de cobrar taxas para manter estradas e a ordem pública. Mas César jamais terá o direito de reivindicar a sua consciência, o seu culto, a sua moral, o seu futuro ou o seu coração. O Estado pode pedir a sua moeda, mas só o Deus Criador pode requerer a sua vida.

Quando você pega um livro emprestado em uma biblioteca pública, a capa traz um carimbo informando a quem a obra pertence. Se você rabiscar as páginas ou tentar vendê-lo, estará violando os direitos do proprietário. O denário carregava a marca de César, e Jesus disse: restitua-o ao seu dono. Mas no fundo da sua consciência, no tecido da sua existência, existe o carimbo indelével do Criador: “Propriedade Exclusiva de Deus”. Quando entregamos o nosso coração a ideologias políticas, paixões gananciosas ou ao medo, estamos tentando entregar ao imperador aquilo que traz o selo de Deus!

Em 1Tessalonicenses 1, o apóstolo Paulo escreve a uma igreja jovem situada na capital da província romana da Macedônia. Tessalônica era um polo comercial fervilhante, repleto de templos dedicados ao culto imperial e a divindades pagãs como Cabiro e Dionísio. Adorar a César e aos deuses locais era o requisito para ter sucesso social e comercial. Mas Paulo comemora a mudança radical daquela comunidade: “Pois eles mesmos relatam de que maneira nos acolhestes e como vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro, e esperardes dos céus o seu Filho” (1Ts 1.9-10).

Os cristãos de Tessalônica entenderam perfeitamente a mensagem de Mateus 22. Eles continuaram sendo cidadãos trabalhadores e pagando seus impostos, mas recusaram-se a queimar incenso nos altares de César. Eles demonstraram a obra da fé, o trabalho do amor e a firmeza da esperança (1Ts 1.3).

A conversão autêntica exige uma mudança de lealdade, significa abandonar os ídolos do nosso tempo para servir de todo o coração ao Deus Vivo.

Irmãos e irmãs, não entre em desespero diante dos cenários turbulentos do mundo moderno. Governos sobem e caem, moedas se desvalorizam, impérios nascem e desaparecem, mas o Deus de Isaías 45 continua assentado no trono. Os governantes das nações são apenas atores temporários no palco sob o controle do Deus Altíssimo.

A moeda de prata levava a efígie de César e voltou para as mãos de César. Mas você carrega em sua alma a imagem e a semelhança do Deus vivo. Por isso, nenhuma ideologia política tem o direito de ser o seu senhor absoluto. Nenhuma ambição financeira tem o direito de comprar a sua integridade ou a sua consciência. Nenhum império humano ou promessa terrena tem o direito de receber a sua adoração.

Devolva a César a moeda que é dele, mas entregue o seu coração, a sua vida inteira e a sua adoração eterna àquele a quem você verdadeiramente pertence, ao Senhor vosso Deus! Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Do vale da sombra da morte a eternidade!

 11 de outubro 2026

Próprio 23 – Vigésimo Domingo após Pentecostes

Salmo 23; Isaías 25.6-9; Filipenses 4.4-13; Mateus 22.1-14

Tema: Do vale da sombra da morte ao banquete da graça!

 

          Quantas vezes você aceitou um convite para um jantar ou celebração especial esperando momentos inesquecíveis, mas, no caminho para a festa, enfrentou imprevistos, trânsito ou notícias difíceis?

Nossa vida cristã muitas vezes parece essa travessia. Caminhamos em direção ao banquete prometido por Deus, mas no trajeto cruzamos por vales escuros, incertezas e lutas diárias.

A Bíblia desenha uma única e contínua história de amor e redenção. O mesmo Deus que nos guia no vale escuro da vida presente nos convida para o seu banquete eterno, oferecendo-nos paz hoje e glória amanhã.

 

Quando lemos estes quatro textos juntos, descobrimos que a Bíblia desenha uma única grande história. Deus não apenas nos guia pelas veredas desta vida, mas nos convida para um banquete eterno. O mesmo Deus que prepara uma mesa perante os nossos inimigos no deserto (Sl 23) é àquele que prometeu banquetear todos os povos no monte Sião, engolindo a morte para sempre (Is 25). Essa promessa ganha forma nas palavras de Jesus, que compara o Reino de Deus às bodas do Filho (Mt 22), e se torna a nossa paz diária em qualquer circunstância (Fp 4).

No Salmo 23, Davi utiliza duas metáforas orientais fundamentais para descrever a aliança com Deus.

O pastor (ro'eh, versículo 1 a 4). No oriente próximo antigo, o pastor não é apenas um trabalhador, mas uma fígura de liderança protegendo o rebanho. O “vale da sombra da morte” (gey tzalmavet, literalmente vale de trevas densas) reflete as fendas escuras das montanhas da Judeia. A vara (shevet) serve para defesa contra predadores, e o cajado (mish’enet) para guiar e resgatar as ovelhas.

O hospedeiro (bolei ha-Shulchan, v. 5 a 6). No versículo 5 há uma mudança de cena. De pastagem para a tenda do hospedeiro. Na cultura beduína, se um fugitivo entrasse na tenda de um anfitrião, garantia proteção absoluta contra os perseguidores, “na presença dos meus inimigos”. Ungir a cabeça com óleo (dishenta vatshemen) e fazer o cálice transbordar (cosi revayah) eram os rituais supremos de honra e acolhimento.

O Pastor que nos guia nos caminhos da vida é o mesmo Hospedeiro que prepara a mesa no deserto, antecipando o banquete eterno.

Pense no refúgio de uma tempestade violenta. Do lado de fora, ventos e ameaças; do lado de dentro da tenda do Rei, uma mesa posta com fartura e segurança absoluta. Onde você está hoje? No vale de sombras ou na mesa farta?

Deus não espera você sair do vale para se relacionar com você. Ele serve a mesa no meio do vale e na presença dos seus inimigos.

O profeta Isaías projeta a metáfora da mesa do Salmo 23 para uma dimensão universal e cósmica.

O banquete de vinhos finos (mishteh shemarim).

No Monte Sião, Deus preparará um banquete não apenas para Israel, mas para todos os povos. Os “vinhos purificados” indicam vinhos envelhecidos sobre as borras e filtrados, o topo do luxo e da celebração no antigo Oriente.

A destruição do véu (ha-martef). Isaías fala da remoção da “coberta que envolve todos os povos”, uma referência ao véu de luto e ao desespero da mortalidade.

Engolir a Morte (billa ha-mavet la-netzach). A morte, que em Ugarite e no antigo Oriente próximo era retratada como o deus Mot (que engolia os vivos), é surpreendentemente engolida por Deus. Deus destruirá a morte para sempre e enxugará as lágrimas de todos os rostos.

O banquete de Isaías é a resposta definitiva ao “vale das sombras” do Salmo 23. A mesa no deserto encontra sua concretização na mesa da eternidade.

Pense no alívio de quem recebe o diagnóstico de cura definitiva após anos de incerteza. Isaías nos mostra a festa da vitória final de Deus, onde a dor, a morte e o luto não terão mais a palavra final.

A esperança cristã não é uma vaga ilusão, mas a certeza do banquete celestial. As lágrimas que você chora hoje no vale têm data para acabar, pois o próprio Deus as enxugará pessoalmente.

Na parábola das bodas, Jesus conecta a promessa de Isaías 25 à realidade do seu Reino e à responsabilidade do convite.

No costume judaico, havia dois convites. O primeiro avisava sobre a festa; o segundo anunciava que a refeição estava pronta. Aqueles que recusaram o segundo convite cometeram uma afronta formal à autoridade real.

As esquinas das ruas (diexodous ton hodon). Quando os convidados originais rejeitam o convite, o rei envia os servos às saídas das cidades para chamar “maus e bons”. A graça de Deus ultrapassa os limites formais e alcança os marginalizados.

A veste nupcial (endyma gamou). O homem sem a veste nupcial representa a tentativa de entrar no Reino nos seus próprios termos. Na tradição oriental, o próprio anfitrião muitas vezes fornecia a veste adequada aos convidados. Recusar-se a usá-la era rejeitar a transformação dada pelo Rei.

O banquete prometido em Isaías 25 e prefigurado no Salmo 23 exige uma resposta de fé. A graça abre a porta da festa, mas a justiça e a conversão (a veste) demonstram que realmente aceitamos o Rei.

Paulo escreve da prisão em Roma, mas demonstra o que significa viver alimentado por esse banquete e guardado por esse Pastor.

Regozijai-vos sempre (chairete en Kyrio pantote). A alegria cristã não é uma emoção passageira, mas um imperativo fundamentado na presença do Senhor (“O Senhor está próximo”, ho kyrios engys).

A Paz de Deus (eirene tou Theou). A paz que “excede todo o entendimento” atua como uma guarda militar (phrouresei) sobre nossos corações e mentes em Cristo.

Paulo usa um termo das religiões de mistério gregas (myeo “fui iniciado/aprendi o segredo”). Ele aprendeu a viver tanto na fartura quanto na necessidade. Paulo revela o segredo do contentamento (memyemai).

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13). Não se trata de uma promessa de poder ilimitado ou sucesso material, mas da capacidade dada por Cristo (en to endynamounti me) de suportar e permanecer fiel em qualquer circunstância, seja na escassez ou na mesa farta.

Paulo vive a experiência do Salmo 23 no cativeiro romano. Porque ele sabe que o banquete de Isaías 25 e Mateus 22 o aguarda, ele pode dizer com autoridade, “Tudo posso Naquele que me fortalece”.

Confie no Pastor no meio do vale. As trevas temporárias não anulam a mesa que Deus preparou para você.

Aceite o convite e vista a graça. O banquete do Reino é gratuito, mas exige um coração renovado pelas vestes da justiça de Cristo.

Viva em alegria e contentamento. Seja na escassez ou na abundância, o Senhor está próximo e a paz dele guarda o seu coração.

“Tudo posso” não é uma fórmula mágica para conquistas materiais, mas a capacitação de Cristo para passar pelo vale com o coração em paz. Seja no momento de escassez ou de abundância, a nossa satisfação está em Cristo, nosso Pastor e Hospedeiro.

No Salmo 23, aprendemos que temos um Pastor que nos guia e nos protege no vale.

Em Isaías 25, contemplamos a promessa do banquete onde a morte será destruída.

Em Mateus 22, ouvimos o convite da graça e a chamada para vestir a justiça de Cristo.

Em Filipenses 4, recebemos a força necessária para viver satisfeitos em qualquer circunstância.

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O cântico do amado. Quando a graça encontra o juízo (Is 5.1-7)

 04 de outubro de 2026

Próprio 22 – Décimo Nono Domingo após Pentecostes

Salmo 80.7-19; Isaías 5.1-7; Filipenses 3.4b-14; Mateus 21.33-46

Tema: O cântico do amado. Quando a graça encontra o juízo.

 

Tudo começa como uma canção suave de amor. Imagine a cena: o profeta Isaías veste o manto de um menestrel, toma sua harpa e começa a entoar uma melodia doce nas praças de Jerusalém. As pessoas se aproximam, sorriem e esperam ouvir uma poesia romântica sobre um amigo e sua vinha.

A linguagem atrai e envolve: a história de um homem apaixonado que dedicou a vida a cultivar um solo fértil para quem ele ama. Porém, à medida que a música avança, a melodia lírica perde a suavidade. O tom romântico mascara a preparação de um processo judicial. A voz do profeta e a voz do próprio Deus fundem-se em um único veredito.

O que começou como uma balada de amor termina no tribunal divino.

A tragédia deste cântico não começa na ira de Deus, mas no seu cuidado superabundante. O profeta descreve a dedicação exaustiva do viticultor, Yahweh, para com a sua vinha, Israel.

A localização perfeita, Keren Ben-Shemen, literalmente “um chifre, filho do óleo”. O termo indica um outeiro elevado, ensolarado e de solo extremamente fértil. Deus não plantou sua vinha em um deserto pedregoso; deu-lhe o melhor lugar da terra.

O trabalho árduo, ’Izzēq, o viticultor cavou o solo com a enxada, removeu cada rocha dura e preparou a terra com esforço braçal profundo para que as raízes crescessem sem obstáculos.

A muda mais nobre, Sōrēq, Deus não plantou uma semente qualquer. Ele escolheu a sōrēq, a videira nobre de bagos avermelhados, adocicados e de altíssima qualidade.

Ergueu uma torre de vigia no centro contra invasores e animais, e escavou na rocha viva o lagar, yeqev, para receber o suco da colheita abundante que viria.

Deus fez tudo o que era necessário. A vinha tinha a melhor terra, a melhor lei, a melhor proteção e a presença divina. Não havia falta de recurso, deficiência de meios ou escassez de graça.

Quando chega o tempo da colheita, o viticultor se aproxima esperando uvas doces, ‘anāvīm, mas a vinha produz b’ushīm.

No hebraico, b’ushīm deriva do radical bā’ash, que significa literalmente “feder” ou “estragar”. Não eram apenas uvas silvestres pequenas; eram frutos degenerados, azedos, tóxicos e com odor repugnante. E relembrando, tudo isso era da sōrēq, a videira nobre de bagos avermelhados, adocicados e de altíssima qualidade.

Diante disso, Deus apela ao povo e faz uma pergunta retórica devastadora: Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? Por que, esperando eu que desse uvas, deu uvas azedas? Isaías 5.4.

Esta pergunta desmascara o coração humano. A incapacidade de Israel em produzir bons frutos, mesmo sob as melhores condições externas, ilustra a falência do livre-arbítrio decaído. O homem sem o Espírito Santo pode manter a aparência ou a ordem moral humana, mas é incapaz de gerar os frutos espirituais que Deus exige.

Nossa estagnação e rebeldia não são culpa das circunstâncias ou da falta de graça divina, são fruto da resistência do nosso próprio coração.

Diante do fruto podre, o viticultor anuncia a sentença.

Remove a proteção: Retira a cerca, mesukah e a parede, gader. A vinha é entregue ao pisoteio de nações pagãs.

O abandono agrícola: A terra não será mais podada nem cavada; espinhos cobrirão o solo.

A ordem às nuvens: Deus ordena às nuvens que não derramem chuva sobre ela. Aqui a máscara da parábola cai por completo, apenas Deus pode comandar as nuvens.

Isaías encerra a introdução revelando a identidade da vinha através de um trocadilho poético, a paronomásia, que na língua hebraica é como descrever que Deus esperava Mishpat, justiça e Equidade; mas encontrou Mispach, derramamento de sangue e Opressão. Deus esperava Tzedaqah, retidão, mas ouviu Tze'aqah, o clamor das vítimas de injustiça.

A ortodoxia de Israel era pura fachada. Eles mantinham o culto e as cerimônias, mas no portão da cidade praticavam a opressão. O clamor tze'aqah dos fracos desmentia a religiosidade do povo.

Se a história parasse em Isaías 5, estaríamos irremediavelmente perdidos debaixo da sentença do viticultor. Mas a teologia bíblica revela a resposta de Deus para o drama da vinha. No Novo Testamento, Jesus alude diretamente a este texto na Parábola dos lavradores maus (Mateus 21) e, de forma definitiva, no Evangelho de João: “Eu sou a videira verdadeira [hē ampelos hē alēthinē], e meu Pai é o agricultor” (João 15.1).

O termo alēthinē não significa apenas “verdadeiro em oposição ao falso”, mas “definitivo e supremo em oposição ao imperfeito”. Israel foi a vinha original que falhou e produziu frutos podres, b’ushīm. Jesus é o “remanescente de um homem só”, a videira verdadeira que cumpre perfeitamente a vontade do Pai.

No Antigo Testamento, pertencer ao povo de Deus significava estar na estrutura étnica e geográfica de Israel. No Novo Testamento, pertencer ao povo de Deus significa estar unido pela fé a Jesus Cristo.

Isaías 5 provou que o ser humano não pode produzir frutos de justiça, tzedaqah, por esforço próprio. Por isso Jesus declara: “Sem mim nada podeis fazer” (João 15.5). Os frutos que agradam ao Pai só surgem em nossa vida quando permanecemos ligados a Jesus.

A igreja moderna tem à disposição o maior volume de recursos teológicos e tecnológicos da história. Deus não busca apenas a forma cultual, mas a prática da justiça, do amor e da verdade no dia a dia.

A pergunta do versículo 4 ecoa hoje. O Pai nos deu o seu Filho, a sua Palavra, o seu Espírito e os sacramentos. Se a nossa vida produz corrupção, mispach e opressão no lugar de justiça, mishpat, a responsabilidade é unicamente da nossa incredulidade.

A única solução para a nossa incapacidade natural de produzir frutos bons é a união vital com Cristo. Não se trata de “tentar mais estritamente”, mas de depender mais profundamente da videira verdadeira através da oração, da Palavra e da comunhão.

O cântico da vinha começa revelando a tragédia de um amor rejeitado e termina apontando para a esperança da graça plenamente realizada em Jesus.

Que o Senhor examine os nossos corações hoje. Que Ele não encontre em nós o odor das uvas podres da autossuficiência e da injustiça, mas o fruto doce do Espírito, gerado naqueles que permanecem unidos à videira verdadeira. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Máscaras da religiosidade ou o caminho do arrependimento? #Mt 21.23-32

 27 de setembro de 2026

Próprio 21 – Décimo Oitavo Domingo após Pentecostes

Salmo 25.1-10; Ezequiel 18.1-4,25-32; Filipenses 2.1-4, 14-18; Mateus 21.23-27

Tema: Máscaras da religiosidade ou o caminho do arrependimento?

Texto: Mateus 21.23-32

 

Jesus se encontra no Templo, cercado por homens cobertos de autoridade, prestígio e justiça própria. Os líderes religiosos o confrontam sobre sua autoridade, mas Jesus responde desnudando o coração daqueles homens com uma pergunta incisiva: “E que vos parece?” (Mt 21.28).

Através da parábola dos dois filhos, exclusiva de Mateus, Jesus não apenas responde aos seus opositores, mas desconstrói a perigosa ilusão de que a salvação pode ser conquistada por merecimento ou pelo cumprimento de deveres externos.

Ambos os filhos recebem o mesmo chamado do pai: “Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha” (Mt 21.28,30). A resposta de cada um expõe duas atitudes espirituais opostas.

O primeiro filho respondeu prontamente que iria, mas não foi. Ele representa os líderes religiosos da época e muitos frequentadores de igrejas hoje. Gente de vocabulário correto, presença assídua, dizimistas e praticantes da lei moral, mas cujo coração jamais foi quebrantado. Dizem “sim” com a boca, mas vivem um “não” com a vida.

O segundo filho respondeu rudemente que não iria. No entanto, o texto bíblico relata que, depois, mudou de ideia e foi (Mt 21.29).

O verbo grego utilizado por Mateus para descrever essa mudança é metamelomai, a dor interior, o luto da alma pelo pecado cometido, o sobressalto do coração que reconhece sua indignidade diante do Pai. É preciso recordar que “Não pode haver fé num coração que, primeiramente, não esteve atemorizado”.

Judas sentiu o peso do verbo metamelomai após trair Jesus, mas não encontrou o caminho de volta; remoeu a culpa sem se agarrar à graça. Já o segundo filho da parábola sentiu a dor de afrontar o pai e usou essa contrição para voltar e fazer a sua vontade.

O que impedia os fariseus de experimentarem essa transformação? A justiça própria. Eles se julgavam sãos por supostamente estarem cobertos de suas boas obras que não viam necessidade de um médico.

Por isso, Jesus profere uma das declarações mais impactantes de todo o seu ministério: “Em verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21.31). Os marginalizados e moralmente falidos daquela sociedade não tinham ilusões sobre sua retidão. Sabiam-se desgraçados e surrados pelo pecado; por isso, quando ouviram a mensagem de João Batista e de Jesus, agarraram-se a Jesus desesperadamente.

Ao perguntar qual dos dois filhos fez a vontade do pai, os próprios líderes religiosos responderam: “O segundo”. Mas qual é, em essência, a vontade de Deus?

A vontade do Pai não é que você apresente um currículo de boas obras para ser aceito por Ele. Antes de qualquer obediência ativa, a vontade de Deus é que você se aproxime dEle como um pecador necessitado, tocado pelo seu amor e confiando inteiramente na obra de Cristo.

Essa era a angústia que dilacerava a alma de Martinho Lutero e de tantos outros na Idade Média: Como posso ser aceito por um Deus santo sendo eu um pecador? A resposta das Escrituras resplandece na cruz. Você não é aceito pelo que faz para Deus, mas pelo que Jesus fez por você.

O arrependimento e a fé não são obras humanas, mas dons concedidos pelo Espírito Santo através da Palavra.

A parábola dos dois filhos confronta as máscaras do nosso coração. Deus não procura por promessas vazias ou religiosidade estética. Ele busca corações contritos que reconheçam sua falência e que precisam estar nos braços da sua graça.

Despoje-se de sua autossuficiência. Reconheça sua necessidade e volte para a vinha do Pai, não para conquistar o amor dEle, mas porque, em Jesus Cristo, você já foi graciosamente aceito. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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ἐλεύθερος, o livre, o liberto

  31 de outubro - Culto da Reforma Luterana 509 anos Salmo 46; Jeremias 31.31-34; Gálatas 5.1, 13-14; João 8.31-36 Tema: ἐ λεύθερος , o ...