segunda-feira, 30 de março de 2026

A ressurreição é o amém de Deus ao está consumado de Cristo na cruz!

 05 de abril de 2026

Domingo de Páscoa

Salmo 16; Atos 10.34-43; Colossenses 3.1-4; Mateus 28.1-10

Texto: Mateus 28.1-10

Tema: A ressurreição é o amém de Deus ao está consumado de Cristo na cruz!

 

Há notícias que mudam o dia. Outras mudam a história. Existe uma notícia que mudou… tudo.

Naquela manhã, o mundo ainda carregava o peso da sexta-feira. O silêncio da morte parecia definitivo. A cruz ainda estava fresca na memória. A esperança, aparentemente, havia sido enterrada junto com um corpo em um túmulo selado. Mas então… a terra tremeu.

Não foi apenas um abalo físico. Foi como se a criação inteira estivesse reagindo, anunciando que algo impossível havia acontecido. Aquilo que parecia encerrado estava, na verdade, começando.

O túmulo não conseguiu reter. A pedra não conseguiu impedir. A morte não conseguiu vencer. E desde aquele momento, nada, absolutamente nada, pode permanecer como antes.

O cristianismo não é uma filosofia de autoajuda ou um código moral abstrato; é um fato fincado no solo da história. Mateus registra um grande terremoto. Geologicamente, a terra tremeu em Jerusalém naquele tempo, mas espiritualmente, aquele tremor foi o cosmos reagindo à maior notícia da eternidade.

A terra tremeu na Sexta-feira porque o autor da vida morria. A terra tremeu no Domingo porque a morte estava sendo despejada de seu próprio território.

A ressurreição é o "Amém" do Pai ao "Está Consumado" do Filho. Se o túmulo estivesse ocupado, nossa fé seria apenas um clube social. Mas, porque Ele ressuscitou, este evento deve abalar as estruturas da sua vida hoje!

Mateus nos apresenta dois grupos diante do anjo deslumbrante como um relâmpago. Neles, contemplamos dois destinos diferentes diante da glória de Deus:

Os guardas: homens de guerra, treinados pelo Império, tornaram-se “como mortos”. O medo deles é o pavor do juízo. Para quem rejeita o Rei, sua glória é uma sentença de paralisia.

As Mulheres: Maria Madalena e as outras não tinham espadas, tinham amor. Para elas, o anjo diz: “Não tenham medo!”.

Perceba o contraste: o medo dos guardas é o pavor do tribunal; o “não temais” das mulheres é o convite da graça. O Rei que foi humilhado na Sexta-feira agora subjuga o terror da morte. Para quem crê, a ressurreição não é uma ameaça, é o fim de todo o pavor.

O anjo chama Jesus de “o Crucificado”. Isso nos ensina que a cruz não foi um acidente de percurso ou um erro de estratégia. A cruz foi o trono onde o Rei governou e venceu nossos inimigos.

O anjo declara: “Ele não está aqui; já ressuscitou, como tinha dito”. A ressurreição valida cada palavra de Jesus. Ele é Rei porque sua palavra é inabalável. O que Jesus prometeu no Cenáculo e no Getsêmani, Ele assinou com sangue na cruz e carimbou com o túmulo vazio. No grego, os verbos “crucificado” e “ressuscitou” indicam ações concluídas no passado com efeitos que duram para sempre. A dívida foi paga e o recibo foi rasgado!

O cristianismo não se baseia em um sentimento vago, mas em um lugar vazio.

O anjo convida a examinar as evidências. Os lençóis dobrados mostram que não houve pressa. Ladrões fogem; o Ressurreto tem autoridade e ordem.

Deus escolheu mulheres como as primeiras testemunhas em uma cultura onde o depoimento feminino não tinha valor jurídico. Se a história fosse uma mentira inventada, teriam usado homens influentes. Deus usa o que o mundo ignora para envergonhar os fortes.

O Reino de Jesus não é um monumento estático para ser visitado; é um movimento. Jesus não está esperando no túmulo; Ele é o Rei que “vai adiante de vocês”.

Se na Sexta-feira a placa dizia “Este é Jesus, o Rei dos Judeus” como uma acusação de morte, no Domingo o anjo a proclama como um decreto de vida eterna.

O apóstolo Paulo nos convoca ao escrever na carta aos Colossenses: “Se vocês foram ressuscitados com Cristo, ponham o seu interesse nas coisas lá do alto” (Cl 3.1).

Pare de viver como se o túmulo ainda estivesse ocupado por seus pecados.

Pare de ser escravo do medo e das emoções instáveis.

Olhe para cima: sua vida não está enterrada no chão das circunstâncias; ela está escondida com Cristo em Deus.

Que o terremoto da ressurreição remova hoje a pedra da descrença e da apatia dos nossos corações. Não servimos a um mártir morto, mas a um Rei Vivo. Que a nossa vida seja o reflexo desse túmulo vazio.

A ressurreição não é apenas uma verdade para ser celebrada… é uma realidade para ser vivida.

O túmulo está vazio, mas, muitas vezes, nossos corações ainda estão cheios de medo, culpa e incredulidade. Vivemos como se a pedra ainda estivesse no lugar, como se a morte ainda tivesse a última palavra. Mas não tem.

A ressurreição não permite uma fé morna. Ela não combina com uma vida parada. Ela não se encaixa em uma espiritualidade superficial. Ela chama. Ela confronta. Ela transforma. Amém!

 

Edson Ronaldo Tressmann
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Jesus, tu és o meu Rei!

 03 de abril

Sexta-feira Santa

Salmo 22; Isaías 52.13-53.12; Hebreus 4.14-16; 5.7-9; João 19.17-30

Texto: Mt 27.37

Tema: Jesus, tu és o meu Rei!

 

Há momentos na história em que o homem pensa estar no controle… mas, na verdade, está apenas cumprindo algo muito maior do que consegue compreender.

Naquela sexta-feira, parecia que Roma governava, que os líderes religiosos haviam vencido e que um homem estava sendo silenciado para sempre. Parecia o fim. Mas, no alto de uma cruz, entre o céu e a terra, Deus estava escrevendo a declaração mais ousada da eternidade, não com tinta, mas com sangue.

Uma placa foi pregada. Três línguas foram usadas. Nenhuma delas conseguiu conter o peso daquela verdade. O que começou como zombaria… tornou-se revelação. O que foi escrito para humilhar… tornou-se a proclamação do verdadeiro Rei.

Sugestão Visual: Uma coroa de espinhos e uma placa de madeira envelhecida no centro do altar com a inscrição: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”.

Naquela sexta-feira, o que foi projetado para ser uma peça de ironia tornou-se a maior declaração teológica da história. Pilatos escreveu aquelas palavras para provocar os judeus; os soldados as leram para ridicularizar um homem desfigurado.

Contudo, no plano eterno, Deus estava usando a caneta de um pagão para assinar uma verdade absoluta: aquele homem pendurado entre o céu e a terra, vertendo sangue e água, é de fato e por direito o Rei do Universo.

Como profetizou Isaías, Jesus não tinha beleza nem majestade que nos agradasse (Is 53.3-7). Paulo nos lembra que a glória de Jesus não foi manifestada em um palácio, mas no “esvaziamento” da cruz (Fp 2.5-11). Por isso, João registra a defesa de Jesus perante Pilatos: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36).

Acima da cabeça de Cristo, a placa brilhava em três línguas (Hebraico, Latim e Grego), alcançando todo o mundo civilizado da época. O mundo via um criminoso; Deus via o Cordeiro.

Os líderes religiosos tentaram editar a verdade, pedindo a Pilatos: “Não escrevas 'O Rei', mas que ele 'disse ser' o Rei”. A resposta de Pilatos foi profética: “O que escrevi, escrevi”. Deus não permitiu que aquela placa fosse alterada porque a realeza de Jesus não é uma opinião, uma alegação ou um “post” sujeito a curtidas; é um fato cósmico.

Diferente dos reis da terra, que exigem o sangue de seus súditos para proteger suas coroas, este Rei derrama o seu próprio sangue para proteger seus súditos.

Jesus não convocou legiões de anjos. Por quê? Porque seu Reino é feito de pessoas resgatadas, e o resgate exigia o prego. Cada golpe de martelo era um selo de perdão.

No Reino de Deus, a lógica é invertida. A vida nasce da morte, a exaltação nasce da humilhação. Ele venceu o pecado e a morte justamente quando parecia ter sido tragado por eles. Aquela placa era o “Título de Propriedade” de Cristo sobre a humanidade que Ele comprava naquele instante.

A cruz é o trono onde Jesus assina o nosso decreto de anistia. Ele é o Rei que:

- Recebe a condenação em nosso lugar.

- Escolhe salvar o ladrão ao Seu lado enquanto Ele mesmo se entrega à morte.

- Troca o brilho do ouro pelo vermelho do sangue para que tivéssemos livre acesso ao Pai.

Hoje, Sexta-Feira Santa, a pergunta não é se Jesus é Rei, a história e a eternidade já selaram isso. A pergunta crucial é: Jesus é o Rei da sua vida?

Não olhe para a cruz apenas como uma tragédia histórica. Olhe para ela como o campo de batalha onde o seu Rei venceu a sua maior guerra. Ajoelhe-se diante daquele que não usou o seu poder para descer da cruz, mas usou o seu amor para permanecer nela até o fim.

Diga hoje com convicção: “Jesus, Tu és o meu Rei”. Se Jesus é o seu Rei, Jesus tem a palavra final sobre o seu medo, sobre a sua culpa e sobre o seu futuro. Na Sexta-Feira Santa, o Rei morre para que os súditos vivam. Que a placa pregada no madeiro seja, hoje, gravada com fogo em nossa alma.

O mais impressionante não é que aquela placa tenha sido escrita. O mais impressionante é que ela continua sendo verdadeira… quer o mundo aceite ou não.

Impérios caíram. Reis foram esquecidos. Coroas se tornaram pó. Mas aquele homem crucificado continua reinando.

E aqui está o ponto que não pode ser ignorado: você não pode olhar para a cruz e permanecer neutro. Porque se Ele é Rei, e Ele é, então isso muda tudo. Muda a forma como você vive. Muda a forma como você enfrenta a dor. Muda a forma como você lida com o pecado, com a culpa e com o futuro.

A cruz não permite espectadores. Ela exige rendição. Naquela sexta-feira, muitos passaram diante da cruz e seguiram suas vidas como se nada tivesse acontecido.

Hoje, dois mil anos depois, ainda há quem faça o mesmo. Mas alguns… param. Olham. Reconhecem. E se rendem. Porque entendem algo que os outros não perceberam: aquele não era apenas um homem morrendo… era um Rei reinando.

E a pergunta que ecoa até hoje não é se a placa estava certa. A pergunta é: você já se curvou diante dela na certeza de que Jesus é teu Rei? Porque no final, não será sobre o que estava escrito no madeiro… mas sobre o que está escrito, ou não, no seu coração. Amém.

 

Edson Ronaldo Tressmann

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O banquete da entrega. A fé desfruta o que a razão não explica.

 02 de abril de 2026

Quinta-feira Santa

Salmo 116.12-19; Êxodo 24.3-11; Hebreus 9.11-22; Mateus 26.17-30

Texto: Mateus 26.17-30

Tema: O banquete da entrega. A fé desfruta o que a razão não explica.

 

Na Jerusalém dos dias comuns, a vida seguia em um ritmo quase previsível. Ruas conhecidas, rostos familiares, uma cidade com algo entre 20 e 30 mil habitantes. Mas tudo mudava completamente com a aproximação da Páscoa judaica.

Dias antes da celebração, começava uma verdadeira invasão de peregrinos. Vindos da Galileia, da Judeia, e até de terras distantes do Império Romano, multidões subiam para a cidade santa. O que era uma cidade relativamente pequena se transformava em um mar de gente. As ruas ficavam apertadas, as casas lotadas, e os arredores tomados por acampamentos improvisados. Jerusalém podia facilmente ultrapassar a marca de 100 mil pessoas, talvez muito mais.

E é exatamente nesse cenário que acontece a Quinta-feira Santa.

Enquanto do lado de fora havia barulho, movimento e aglomeração, dentro de um cenáculo tudo era silêncio, intimidade e profundidade. A cidade estava cheia de gente celebrando a antiga libertação do Egito. Mas, em um ambiente reservado, Jesus celebrava algo infinitamente maior.

A superlotação de Jerusalém também ajuda a entender a urgência e a tensão daquela noite. As autoridades estavam em alerta. Qualquer movimento poderia gerar tumulto. Por isso, tudo acontece quase escondido, longe da multidão, longe dos olhares públicos.

Assim, no meio de uma cidade tomada por milhares de pessoas, Deus escolhe agir de forma discreta. Não no centro do barulho, mas na profundidade de uma mesa. Não diante das multidões, mas diante de poucos.

Porque, enquanto Jerusalém transbordava de gente, naquela quinta-feira à noite o céu se concentrava em um único lugar: uma mesa, um pão e um cálice.

          Naquela noite em Jerusalém, aparentemente tudo era apenas uma refeição. Uma mesa preparada. Pão partido. Cálices de vinho circulando entre amigos. Mas, na verdade, o que acontecia ali mudaria para sempre a história. Enquanto a cidade celebrava a antiga libertação do Egito, dentro de um cenáculo silencioso o próprio Deus estava preparando uma libertação ainda maior. Não mais da escravidão do faraó, mas da escravidão do pecado.

Àquela mesa estavam homens imperfeitos, cheios de dúvidas, medos e fraquezas. Um deles trairia. Todos os outros fugiriam. Ainda assim, Jesus se senta com eles.

E é justamente nesse cenário de fragilidade humana que Jesus parte o pão e declara algo absolutamente escandaloso e maravilhoso: “Isto é o meu corpo… isto é o meu sangue”.

Naquela noite, Deus não apenas explicou o amor. Deus se deu em alimento.

A Quinta-feira Santa marca o início da Festa dos Pães sem Fermento. Jesus prepara o ambiente com cuidado e discrição. O evangelista Marcos nos dá a entender que o local foi mantido em segredo para evitar que Judas antecipasse a traição antes da hora marcada.

Ao redor da mesa, Jesus não está mais “com pressa” como os antigos hebreus na saída do Egito (Ex 12.11). Ele se reclina. O descanso à mesa simboliza que a verdadeira libertação estava prestes a acontecer. Naquela noite, a tradição judaica previa quatro cálices de vinho, ervas amargas e o cordeiro pascal. Mas, entre o segundo e o terceiro cálice, Jesus interrompe a tradição milenar para instituir algo novo.

À mesa, o clima de celebração é cortado por uma revelação dolorosa: “Um de vocês me trairá”.

Judas era tão hábil em ocultar suas intenções que os outros discípulos não suspeitaram dele; cada um perguntou: “Sou eu, Senhor?”.

Note que todos chamam Jesus de Senhor, mas Judas é o único que o chama apenas de Rabi (Mestre). Para Judas, Jesus era um professor a ser analisado, não o Senhor a ser adorado.

A traição não torna Jesus uma vítima indefesa. O fato de Ele saber quem o trairia mostra que tudo o que estava por vir era uma deliberação divina. Jesus não foi pego de surpresa; Jesus se entregou voluntariamente.

Ao partir o pão e oferecer o vinho, Jesus profere palavras simples e poderosas: “Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue”.

Infelizmente, ao longo da história, a Ceia que deveria ser o símbolo da união tornou-se um campo de batalha doutrinário. Surgiram correntes para tentar explicar o inexplicável:

Transubstanciação: A mudança da substância.

Consubstanciação: A presença real com os elementos.

Símbolo: Uma lembrança memorial.

Presença Espiritual: Uma comunhão mística.

Jesus não pediu para analisar a Ceia; Jesus pediu para comer e beber. O sacramento é um presente de autoridade absoluta de Cristo para sua Igreja. Onde a mente humana esbarra no mistério, Jesus oferece o seu verdadeiro corpo e sangue e com isso o verdadeiro alimento.

Certa vez, perguntaram a Martinho Lutero como ele explicava a presença de Cristo na Ceia. Ele respondeu de forma surpreendentemente simples: “Eu não preciso explicar. Cristo disse: Isto é o meu corpo. Então eu tomo, como e agradeço”.

Às vezes tentamos resolver o mistério com argumentos. Mas a fé faz algo muito mais simples: confia na Palavra de Cristo, tomai, comei, isto é o meu sangue. Tomai, bebei, isto é o meu sangue.

O maior obstáculo para receber a graça da Santa Ceia não é a falta de inteligência, mas a falta de compreensão sobre o próprio pecado.

Muitos vivem como se não tivessem pecados, ou como se pudessem “pagar” suas falhas com boas obras e penitências. Assim, quem se julga merecedor, sai da mesa vazio.

A Ceia é o lugar do perdão imerecido. Jesus enfatiza que seu sangue é derramado “para remissão dos pecados”. É um plano conduzido pelo Pai para agraciar os caídos.

          Santa ceia é alimento para o coração e não para a mente. A Santa Ceia não foi feita para ser resolvida como uma equação matemática; ela foi feita para consolar o coração aflito.

Um pastor contou que certa vez um homem da igreja evitava participar da Santa Ceia. Sempre permanecia sentado. Depois de algum tempo, o pastor perguntou: “Por que você nunca vem à mesa do Senhor?” O homem respondeu: “Pastor, eu não me sinto digno”. O pastor então disse algo muito importante: “Se a mesa fosse para os dignos, eu também não poderia ir. A mesa é justamente para quem sabe que precisa de perdão”. Aquele homem começou a chorar. E naquele dia, pela primeira vez em muitos anos, ele se levantou e recebeu a Ceia.

O “re-viver” desta quinta-feira santa nos convida a silenciar as disputas doutrinárias e apenas aceitar o convite: Tomai e comei. A fé desfruta o que a razão não entende. Saímos desta celebração com o sabor do pão e do vinho, mas, acima de tudo, com a certeza de que a dívida foi paga e o perdão nos foi entregue gratuitamente pelo corpo e sangue de Jesus.

Aquela mesa continua posta. Não no cenáculo de Jerusalém, mas em cada altar onde Cristo reúne seu povo. E, curiosamente, os convidados continuam sendo do mesmo tipo: pecadores, falhos, gente que também se pergunta em silêncio: “Sou eu, Senhor?

A Santa Ceia não é a mesa dos perfeitos. É a mesa dos perdoados. Ali não recebemos uma teoria. Recebemos um presente.

Não somos convidados a entender tudo. Somos convidados a confiar. Por isso, quando nos aproximamos do pão e do vinho, não estamos apenas lembrando de algo que aconteceu há dois mil anos. Estamos recebendo hoje aquilo que foi conquistado naquela noite e consumado na cruz. Cristo ainda nos diz: “Tomai e comei”, “Tomai e bebei”. E nesse simples gesto, o céu toca a terra.

Saímos da mesa talvez sem compreender todos os mistérios, mas com algo muito mais importante: a certeza de que nossos pecados foram perdoados, nossa dívida foi paga e nossa vida foi reconciliada com Deus. Porque naquela noite, antes da cruz, Jesus já nos entregava o maior de todos os presentes: seu próprio corpo, seu próprio sangue, para o perdão dos nossos pecados.

Antes de nos aproximarmos da mesa do Senhor, pense em algo simples.

          Imagine alguém afogado em dívidas impossíveis de pagar. Cada dia chega uma nova cobrança. Cada carta aumenta o desespero. Não há saída. Então, um dia, alguém bate à porta. Entrega um envelope. Dentro dele há apenas uma frase: “A dívida foi paga”. Nenhuma parcela restante. Nenhuma condição escondida. Tudo foi quitado.

É exatamente isso que Jesus declara na mesa da Ceia.

Quando recebemos o pão e o vinho, corpo e sangue, estamos recebendo a garantia de que: nossa dívida diante de Deus foi paga. Não com prata. Não com ouro. Mas com o corpo e o sangue de Jesus Cristo.

Aqui está o que mais assusta: naquela mesa, ninguém era digno. Nem Pedro com sua impulsividade. Nem João com sua fragilidade. Nem os outros que fugiriam horas depois. E muito menos Judas, que já carregava a traição no coração. Ainda assim, Jesus partiu o pão. Ainda assim, ofereceu o cálice.

Isso significa uma coisa difícil de aceitar: se a mesa dependesse de mérito, ela estaria vazia até hoje. Mas ela não está.

O mais chocante não é que Jesus tenha dado seu corpo e seu sangue. O mais chocante é que Ele continua oferecendo… sabendo exatamente quem somos.

Ele sabe dos seus pensamentos. Ele conhece seus pecados escondidos. Ele vê aquilo que ninguém mais vê. E mesmo assim, Ele diz: “Tomai e comei”; “Tomai e bebei”.

A pergunta não é se você é digno. A pergunta é: você vai recusar um convite que custou sangue?

Porque naquela mesa não há meio termo. Ou você recebe… ou você rejeita.

E rejeitar não é apenas recusar pão e vinho. É virar as costas para o único pagamento que poderia quitar a sua dívida. Hoje, a mesa está posta e o convite é feito!

 

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 23 de março de 2026

Domingo de Ramos: o rei que entra, o servo que sofre, o Senhor que reina!

 29 de março de 2026

Domingo de Ramos

Salmo 118.19-29; Isaías 50.4-9; Filipenses 2.5-11; Mateus 26.1.27-66

Tema: Domingo de Ramos: o rei que entra, o servo que sofre, o Senhor que reina!

 

O Domingo de Ramos começa com aplausos, mas caminha inevitavelmente em direção ao silêncio da cruz. Entre ramos estendidos e vozes que clamam “hosana”, já ecoa, ainda que distante, o grito de rejeição. Aquele que entra em Jerusalém não é apenas celebrado como Rei, Ele avança como Servo, consciente de que sua coroa passará pela cruz.

As Escrituras nos colocam diante desse paradoxo sagrado: o Rei prometido é também a pedra rejeitada; o Senhor glorioso é o Servo que sofre; o Filho exaltado é o Cordeiro entregue. Em Salmo 118, as portas se abrem para recebê-lo com louvor. Em Isaías 50, vemos sua disposição em sofrer sem recuar. Em Filipenses 2, contemplamos sua humilhação voluntária e sua exaltação soberana. E em Mateus 26, encaramos a resposta humana, instável, contraditória, muitas vezes infiel.

O Domingo de Ramos não é apenas memória, é revelação. Revela quem Cristo é e revela quem nós somos diante de Jesus. Porque quando o Rei entra, nenhum coração permanece neutro.

O Domingo de Ramos não é apenas uma celebração da entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém é o início do caminho que conduz à cruz. A liturgia une louvor e sofrimento, glória e humilhação, porque revela quem Cristo realmente é e como o coração humano responde a Ele.

O Salmo 118.19–29 abre essa visão com um clamor de adoração: “Bendito o que vem em nome do Senhor!”.

Esse salmo, cantado na entrada em Jerusalém, proclama que o Messias é o Rei prometido. As portas da justiça se abrem, e o povo celebra. Mas há uma tensão: o mesmo texto fala da pedra rejeitada que se torna a principal. Ou seja, o Rei que chega será rejeitado.

Essa verdade se aprofunda em Isaías 50.4–9, onde nos é retratado o Servo do Senhor que ouve a Deus; que fala com fidelidade; que não recua diante do sofrimento; Ofereci as costas aos que me feriam…” (Is 50.6).

O Domingo de Ramos já carrega a sombra da cruz. Aquele que entra como Rei é o Servo que sofre voluntariamente. Ele não é vítima, Ele é obediente.

Essa obediência é plenamente revelada na carta aos Filipenses 2.5–11.

O apóstolo Paulo descreve o movimento de Cristo: sendo Deus, não se apegou à sua glória; esvaziou-se; humilhou-se; tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz. E então vem a exaltação: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho…” (Fp 2.10-11).

O que o Domingo de Ramos anuncia, a cruz realiza, e a ressurreição confirma: o Rei é glorificado justamente por meio da humilhação.

O texto do Evangelho narrado por Mateus 26.1, 27–66 nos leva ainda mais fundo: ele revela não apenas quem Cristo é, mas como os homens respondem a Ele.

Ali vemos a traição; a negação; o falso testemunho; a condenação injusta.

O mesmo Cristo que foi aclamado é rejeitado. O mesmo que foi exaltado com ramos é ferido, cuspido e condenado. E aqui está o ponto central do Domingo de Ramos: a revelação de Cristo sempre expõe o coração humano.

Diante de Jesus, não há neutralidade.

- Alguns louvam… mas não permanecem

- Outros conhecem… mas se calam

- Outros rejeitam abertamente

- E alguns creem, seguem e permanecem

A multidão que gritou “hosana” é a mesma que, dias depois, gritará “crucifica-o”. Isso não é apenas história, é um espelho da alma humana. Por isso, o Domingo de Ramos não é apenas celebração é confronto. Ele nos pergunta:

- Seu louvor é circunstancial ou perseverante?

- Sua fé é pública ou silenciosa?

- Seu coração segue Cristo… ou apenas o momento?

Os textos revelam um único movimento divino:

- No Salmo: o Rei é anunciado

- Em Isaías: o Servo sofre

- Em Filipenses: o Filho se humilha e é exaltado

- Em Mateus: o Cordeiro é entregue

Tudo converge para a mesma verdade: Cristo não veio apenas para ser admirado, veio para ser crido, seguido e confessado. Isso nos leva à mesma advertência ecoada por Jesus Cristo: o perigo não está apenas em rejeitar Cristo abertamente, mas em segui-lo superficialmente.

Neste Domingo de Ramos, a pergunta decisiva não é se você reconhece Jesus como Rei. A pergunta é: você está disposto a segui-lo também no caminho da cruz?

O caminho que começa com ramos não termina em aplausos, termina em rendição. O Cristo que foi aclamado é o mesmo que foi rejeitado, ferido e crucificado. E, ainda assim, é exatamente por esse caminho que Ele reina.

O Domingo de Ramos nos conduz a uma decisão inevitável. Não basta reconhecer o Rei à distância, nem celebrar sua chegada apenas quando tudo parece glorioso. O chamado é mais profundo: seguir o Cristo que entra em Jerusalém… e não abandoná-lo no Getsêmani; confessá-lo não apenas nos dias de vitória, mas também nos momentos de custo, silêncio e dor.

A cruz revela que não existe discipulado sem entrega, nem fé verdadeira sem perseverança. O Rei que entra é o Servo que sofre, e o Senhor que reina é aquele que se humilhou até o fim.

Diante disso, resta uma pergunta que não pode ser evitada: quando os ramos caírem e a multidão se calar, você ainda permanecerá com Ele?

Porque, no fim, não é sobre como começamos a jornada com Cristo é sobre permanecermos com Ele até o fim. Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando Cristo chama, até os mortos vivem

 22 de março de 2026

Quinto Domingo na Quaresma

Salmo 130; Ezequiel 37.1–14; Romanos 8.1–11; João 11.1-45

Texto: João 11.1–45

Tema: Quando Cristo chama, até os mortos vivem

 

Existem momentos na vida em que a esperança parece desaparecer. Momentos em que a oração sobe aos céus… mas nenhuma resposta parece voltar. Momentos em que o silêncio de Deus pesa sobre o coração como uma noite longa e fria.

O Evangelho nos leva hoje para dentro de uma casa assim. Uma casa em Betânia. Uma casa cheia de lágrimas. Ali morava um homem chamado Lázaro. Ele estava doente. Muito doente. Suas irmãs, Marta e Maria, enviam uma mensagem simples a Jesus: “Senhor, aquele a quem amas está enfermo” (Jo 11.3).

É uma oração curta. Sem discursos. Sem exigências. Apenas confiança. Mas então acontece algo que parece incompreensível. Jesus não vai imediatamente. O evangelista João escreveu que que Jesus permaneceu ainda dois dias onde estava.

Imagine o coração daquelas irmãs. Cada hora passando. Cada respiração de Lázaro ficando mais fraca. Talvez elas olhassem repetidamente para a estrada esperando ver Jesus chegar. Mas Jesus não veio enquanto havia possibilidade. E então Lázaro morreu.

Quantas vezes nossa fé passa exatamente por esse momento? Oramos… Esperamos… Confiamos… E parece que Deus está em silêncio.

As palavras de Cristo: “Esta enfermidade não é para morte, mas para a glória de Deus” (Jo 11.4) não significa que Lázaro não morreria. Na verdade, essas palavras significam algo mais profundo: a morte não teria e não tem a última palavra.

Aqui está uma verdade profunda da fé cristã: Deus às vezes permite que a situação pareça piorar antes de revelar a sua glória.

        Quando Jesus finalmente chega a Betânia, Lázaro já está morto há quatro dias. Para os judeus daquela época isso significava algo terrível: não havia mais nenhuma esperança.

O corpo já estava em decomposição. Tudo havia acabado. Marta corre ao encontro de Jesus e diz: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11.21).

Em quantas situações, mesmo que em pensamento, exclamamos: “Senhor… se o Senhor tivesse agido antes…?

Jesus exclamou para Marta algo que muda a história da humanidade: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11.25). Jesus não diz apenas que dá ressurreição. Jesus diz algo muito maior:

Ele é a ressurreição. Onde Cristo está, a morte não tem autoridade final.

        Depois disso Maria chega chorando. A multidão chora. O ar está pesado de luto. Então acontece algo extraordinário: “Jesus chorou” (Jo 11.35).

Duas palavras. Mas nelas está um dos maiores consolos do Evangelho. O Deus que ressuscita mortos também sente a dor do coração humano. Jesus Cristo não observa nosso sofrimento de longe. Ele entra nele. Ele caminha até o túmulo. O termo grego utilizado por Jesus em sua fala e escrito por João é enebrimesato e significa que Jesus ficou profundamente comovido. É um Jesus indignado contra a morte. Afinal, a morte não faz parte do plano original de Deus. Ela é o inimigo que entrou no mundo por causa do pecado.

        Então Jesus chega diante do túmulo. Uma caverna fechada por uma pedra. Jesus diz: “Tirai a pedra” (Jo 11.39). Marta responde com uma honestidade dolorosa: “Senhor… já cheira mal” (Jo 11.39). Essas palavras desejam destacar que a morte era real, definitiva e irreversível.

Mas então Jesus levanta os olhos ao céu e clama com grande voz: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11.43). Jesus disse o nome, pois, se dissesse, venha para fora, todos os mortos viriam.

Não há ritual. Não há esforço humano. Apenas a Palavra de Cristo. E acontece algo que ninguém esperava. O morto começa a se mover. As faixas funerárias ainda envolvem seu corpo. Passo após passo… Lázaro sai do túmulo. O impossível acabou de acontecer. O túmulo perdeu seu prisioneiro. E Jesus diz: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11.44).

        Entenda algo importante. Essa história não foi escrita apenas para contar um milagre impressionante. Ela aponta para algo muito maior. Quando Jesus chamou Lázaro para fora do túmulo, Ele estava mostrando o que um dia fará com todos os que pertencem a Jesus.

A riqueza não impede a morte. A medicina não a evita completamente. Nenhum poder humano vence a morte. Mas Cristo venceu.

Aquele que chorou diante do túmulo de um amigo é o mesmo que saiu do próprio túmulo três dias depois. E um dia Ele falará novamente. Como escreve o apóstolo Paulo: “Ao som da trombeta de Deus… os mortos em Cristo ressuscitarão” (1Ts 4.16-17).

Assim como Lázaro ouviu a voz de Cristo… um dia os que pertencem a Jesus e morreram em Cristo ouvirão essa mesma voz. E quando Cristo chama… até os mortos vivem.

        Há algo muito mais profundo que isso nessa história. Quando Jesus ressuscita Lázaro, os líderes religiosos começam a planejar a morte de Jesus. Lázaro sai do túmulo… para que Cristo caminhe em direção à cruz.

Jesus devolve a vida ao amigo sabendo que isso o levaria à própria morte. Porque essa é a essência do Evangelho. Cristo entrou na nossa morte para nos dar a sua vida.

Ele foi colocado em um túmulo para que o túmulo não fosse o nosso “destino final”.

A palavra cemitério vem do grego e significa literalmente: “lugar de dormir”. Porque para aqueles que estão em Cristo… a morte não é o fim. Não esqueça, após a morte há vida eterna. Em Jesus Cristo uma eterna bem-aventurança.

Essa história nos lembra algo próximo da nossa realidade. Ela acontece dentro de uma família. Uma casa com doença. Uma casa com lágrimas. Mesmo quem ama Jesus enfrenta momentos difíceis. Há conflitos entre marido e esposa. Distâncias entre pais e filhos. Feridas antigas dentro da família. No entanto, o Evangelho mostra algo poderoso: Jesus Cristo entra na casa onde há dor. Jesus não fica distante dos problemas da família. Por essa razão: leve sua família a Cristo. Leve seus conflitos a Jesus Cristo. Leve suas lágrimas a Cristo. Afinal, quando Cristo fala… até aquilo que parece morto pode voltar a viver.

Talvez alguém esteja vivendo como Marta e Maria. Mandou recado para Jesus em oração. Espera. Não entende o silêncio divino. Muitos estão lutando contra a ansiedade, pensando que a vida saiu do controle. Recorde-se: Jesus sabe exatamente o que está acontecendo. Jesus Cristo continua no controle. Ele não perdeu o governo da nossa história.

        A história termina com um homem saindo de um túmulo. Mas, essa história aponta para outro túmulo. Depois de chamar Lázaro para fora… Jesus caminhou em direção a Jerusalém. Lá seria preso. Julgado. Pregado numa cruz. Lá, o Filho de Deus seria colocado num túmulo. O Senhor da vida seria colocado atrás de uma pedra. Mas ao terceiro dia… a pedra foi removida. E o mesmo Senhor que disse: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11.43) saiu do próprio túmulo vitorioso.

Quando Cristo chama… até os mortos vivem. Amém.

 

Edson Ronaldo Tressmann

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terça-feira, 10 de março de 2026

Diante da luz: a tragédia da incredulidade contumaz

15 de março de 2026

Quarto domingo na Quaresma

Salmo 142; Isaías 42.14-21; Efésios 5.8-14; João 9.1-41

Texto: João 9.1–41

Tema: Diante da luz: a tragédia da incredulidade contumaz

 

Imagine entrar em uma sala completamente escura. Você tropeça, tateia, esbarra nos móveis. Não consegue distinguir o caminho nem os perigos ao redor. Quando alguém acende a luz, tudo muda: você passa a ver não apenas os objetos, mas também o caminho seguro.

Assim é Cristo. Ele não apenas ilumina a realidade; Ele revela a verdade, mostra o caminho e expõe aquilo que estava escondido.

Mas a presença da luz produz dois efeitos distintos: quem sabe que está em trevas recebe alívio; quem insiste em dizer que vê sente-se confrontado.

João 9 mostra exatamente isso: a tragédia da incredulidade contumaz diante da luz de Cristo.

O capítulo começa com Jesus encontrando um homem cego de nascença. Os discípulos fazem uma pergunta típica do pensamento religioso humano: “Quem pecou: este homem ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9.2).

A pergunta revela uma mentalidade legalista: a tentativa de explicar todo sofrimento como punição direta por algum pecado específico.

Mas Jesus responde de forma surpreendente: “Nem ele pecou nem seus pais; mas isso aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse nele” (Jo 9.3).

Jesus desloca o foco do pecado humano para a ação salvadora de Deus.

O homem não é apenas alguém com um problema físico. Ele é um retrato da condição espiritual da humanidade. Assim como ele nasceu sem visão, nós nascemos em trevas espirituais.

Não somos apenas pessoas com “dificuldade para enxergar”. Sem Cristo, estamos completamente cegos, mesmo enxergando bem.

O cego não pede cura. Ele não procura Jesus. Ele sequer demonstra fé antes do milagre. É Jesus quem o vê. Isso é graça.

Cristo faz lodo com saliva, coloca nos olhos do homem e ordena: “Vai e lava-te no tanque de Siloé” (Jo 9.7)

Deus usa meios simples para realizar sua obra: barro, água e a Palavra de Cristo. Aqui vemos um princípio profundo: Deus age através de meios visíveis para operar realidades espirituais invisíveis.

A cura não nasce da iniciativa do homem, mas da Palavra de Cristo. A fé cresce à medida que Deus se revela e vemos isso nesse homem curado, que no início diz: “Um homem chamado Jesus” (Jo 9.11), depois, “Ele é profeta” (Jo 9.17) e por fim, quando Jesus o encontra novamente, ele se prostra e confessa: “Senhor, eu creio” (Jo 9.38).

Enquanto o cego passa a ver, os fariseus passam por um processo oposto. Assim como os incrédulos contumazes, investigam o milagre, interrogam o homem, pressionam seus pais, tentam desacreditar o ocorrido e finalmente expulsam o homem da sinagoga.

A luz está diante deles, mas eles se recusam a reconhecê-la. Isso é incredulidade contumaz: não é ignorância, é resistência persistente à verdade.

Os fariseus tinham as Escrituras, conheciam a Lei e aguardavam o Messias. Mas, quando o Messias se manifesta diante deles, preferem defender seu sistema religioso.

O problema deles não era falta de evidência. Era orgulho espiritual. Eles dizem: “Nós vemos” (Jo 9.41) e justamente por isso permanecem cegos.

A maior barreira para o Evangelho não é a fraqueza humana, mas a pretensão da autojustiça.

          Jesus conclui o episódio com uma declaração profunda: “Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os cegos vejam e que fiquem cegos os que veem” (Jo 9.39).

A luz de Cristo nunca é neutra. Ela revela corações. Alguns são conduzidos à fé. Outros endurecem ainda mais. O cego reconhece sua necessidade e recebe visão. Os fariseus afirmam enxergar e permanecem na escuridão. E aqui está o perigo da incredulidade contumaz: quanto mais a verdade é rejeitada, mais o coração se endurece.

          O momento mais belo da narrativa ocorre após a expulsão do homem da sinagoga. Quando Jesus soube que o haviam expulsado, foi procurá-lo (Jo 9.35).

Os líderes religiosos o rejeitaram. Mas Cristo o buscou. A Lei, mal utilizada pelos fariseus, excluiu. O Evangelho de Jesus acolheu. E ali acontece o encontro decisivo: “Crês tu no Filho do Homem?” (Jo 9.35).

Quando Jesus se revela, o homem responde com adoração. Ele foi expulso da sinagoga, mas encontrou o próprio Filho de Deus. O que é a exclusão humana diante da comunhão com Cristo?

          No capítulo seguinte, Jesus se apresenta como o Bom Pastor. Ele disse que as ovelhas reconhecem sua voz.

O homem que era cego é exatamente isso: uma ovelha de Cristo. Ele ouviu a Palavra de Jesus. Creu. Adorou. Enquanto isso, aqueles que deveriam guiar o povo tornam-se, na linguagem do capítulo 10, ladrões e falsos pastores.

          O mundo fala muito sobre cegueira física. Milhões de pessoas vivem sem visão (39 milhões no mundo) e outras 246 milhões com problemas severos na visão. Todavia, Jesus revela algo muito mais grave: a cegueira espiritual daqueles que insistem em dizer que veem.

A pior cegueira não é a incapacidade de enxergar. É a recusa em reconhecer que precisamos da luz que é Cristo.

Diante de Cristo, a Luz do mundo, só existem duas respostas: ou humildemente confessamos nossa cegueira; ou endurecemos o coração como os fariseus.

O homem curado resume tudo em uma frase simples e poderosa: “Uma coisa sei: eu era cego e agora vejo” (Jo 9.25). Que essa também seja a nossa confissão. Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

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segunda-feira, 9 de março de 2026

Passos de luz: a jornada da bondade, justiça e verdade

 15 de março de 2026

Quarto domingo na Quaresma

Salmo 142; Isaías 42.14-21; Efésios 5.8-14; João 9.1-41

Texto: Efésios 5.8-14

Tema: Passos de luz: a jornada da bondade, justiça e verdade


Você caminha?

Caminhamos em casa, no trabalho, pra ir até a escola. Muitos praticam caminhada como exercício. O fato é que todos nós caminhamos, pouco ou muito, as pessoas caminham.

A vida como caminhada.

Na carta de Paulo aos cristãos da Ásia Menor, em especial Efésios 5, é organizado em forma de parênese (exortação) destacando três “caminhadas”.

1andai em amor” (Ef 5.2);

2andai como filhos da luz” (Ef 5.8);

3vede cuidadosamente como andais” (Ef 5.15);

Nossa perícope é o recorte da segunda exortação: andai como filhos da luz!

Efésios é uma carta escrita em grego por um apóstolo que respira hebraico ao escrever essa carta. Dessa forma, os três convites de caminhada: “andai em amor” (Ef 5.2), “andai como filhos da luz” (Ef 5.8) e “vede cuidadosamente como andais” (Ef 5.15), transmitem a ideia da tradução do verbo hebraico halak (“andar”, ou seja, conduzir a vida diante de Deus).

Como posso conduzir minha vida diante de Deus?

Temos aqui um imperativo “andai como filhos da luz” seguido por um predicativo ético “o fruto da luz consiste em bondade, justiça e verdade”.

Bondade, justiça e verdade, resume toda a tríade bíblica: eu e o próximo; eu e Deus; eu e eu.

O tripé “bondade, justiça e verdade” (Ef 5.9) alinha-se à tríade sapiencial profética de ḥéṣed/ṣĕdāqāh/ʾĕmet (misericórdia, justiça, verdade (Mq 6.8; Sl 85.10-11).

Caríssimos irmãos, a graça de Deus transforma, ela não dá soberba pessoal. Muitas pessoas se dizem convertidas por serem isso e aquilo e apontam o dedo para outros que são isso e aquilo. Cuidado com a soberba espiritual pessoal.

Bondade é doar-se como o bom samaritano, justiça é tratar o próximo com equidade, verdade é rejeitar o erro, mas falar com graça e firmeza (Mq 6.8; Jo 1.14).

Andai como filhos da luz! Conduza a vida diante de Deus.

Andai verbo grego peripateite que traduz a vida inteira como um percurso. O apostolo Paulo indica que esse percurso é “em amor” assim “como Cristo… se entregou”.

Ao destacar a metáfora da luz e das trevas, o apostolo Paulo reflete as palavras do profeta Isaias: “o povo que andava em trevas viu grande luz” (Is 9.2) e “levanta-te, resplandece” (Is 60.1).

O chamado apostólico não é “faça diferente”, mas “seja quem você já é em Cristo”.

Continue caminhando nesse mundo, sendo luz, agindo com bondade, justiça e verdade. Nessa caminhada, o cristão foi colocado pelo Espírito Santo. Afinal, sem Cristo, se caminha “segundo o curso deste mundo... sem Deus no mundo” (Efésios 2.2; 2.12). Em Jesus Cristo, a graça irrompeu a escuridão e me colocou numa caminhada sob a luz: “o povo que andava em trevas viu grande luz” (Isaías 9.2); Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor” (Colossenses 1.13). Essa luz não é uma ideia, é uma pessoa: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8.12).

Observe que o apóstolo Paulo não diz “agora tendes luz”, mas “agora sois luz no Senhor”.

Andar na luz envolve comunhão e confissão.

Andar como filhos da luz é ser conduzido pelo Espírito Santo em três direções inseparáveis: bondade, justiça e verdade. Qualidades do próprio Deus, cujas obras enchem a terra de sua bondade (Salmos 33.5), cujos caminhos são justiça (Deuteronômio 32.4) e cuja palavra é verdade (João 17.17).

A vida como caminhada: O tripé da luz (bondade, justiça e verdade).

Bondade é a disposição generosa que se inclina ao bem do outro simplesmente porque Deus é bom (Salmos 119.68). É mais do que simpatia; é ação concreta. O bom samaritano cruzou a rua, reteve agenda e abriu a bolsa (Lucas 10.33–35). A fé que o Espírito produz se torna “fé que opera pelo amor” (Gálatas 5.6). Se a nossa bondade termina em nós, é vaidade; se aponta para Deus, é fruto do Espírito.

Bondade é a ação concreta do bom.

Justiça é o compromisso de tratar pessoas, palavras e recursos de acordo com o padrão reto de Deus. Ela começa no coração e se estende às relações, ao trabalho, às finanças e às causas públicas. O Evangelho nos liberta do egoísmo que supervaloriza meus direitos e minimiza os dos outros.

Verdade é a simplicidade sem máscara de quem anda na luz de Deus. Andar “na verdade” significa permitir que a Palavra nos meça e molde.

Verdade é uma vida sem máscaras.

Um detalhe que não pode passar despercebido: o apóstolo Paulo chama isso de fruto, não de performance. E fruto nasce de união: “sem mim nada podeis fazer” (João 15.5). É o Espírito Santo quem vivifica (Efésios 2.5) derrama o amor de Deus em nós (Romanos 5.5) e nos fortalece (Efésios 3.16).

O tripé, bondade, justiça e verdade nos protege de falsificações.

Bondade sem verdade vira sentimentalismo que aprova o que Deus reprova (Romanos 1.32).

Verdade sem bondade degenera em dureza farisaica (Mateus 23.23).

Justiça sem bondade e verdade pode se tornar milimétrica com o outro e complacente consigo (Mateus 7.1–5).

Vida cristã não é moralismo autopropulsor; é dependência diária. Andar como filho da luz é alimentar-se da luz todos os dias.

Palavra como lâmpada (Salmos 119.105);

Oração como respiração (Lucas 11.13);

Comunhão como estufa onde o fruto amadurece (Hebreus 10.24–25);

Andar como filhos da luz é estar diante de Deus.

Falar sobre os frutos e sobre o andar como filhos da luz, conduz muitas pessoas a exclamar: “vejo pouco desse fruto em mim”. A boa notícia é que Deus mesmo promete fazer do deserto um pomar (Isaías 32.15), por isso, nos planta “junto às águas” para que, no calor, a folha não murche e no ano de sequidão não deixe de dar fruto (Jeremias 17.7–8; Salmos 1.3). Apenas ande como filho da luz!

A vida cristã não é um evento estático, é um percurso constante.

A vida como caminhada.

Quem aqui caminha?

Apesar de todos caminharem, tenho observado que as pessoas caminham cada vez menos.

É sucesso não só entre os adolescentes, mas também os adultos, os patinetes. E o sucesso é pelo fato de oferecerem o que as pessoas querem: caminhar pouco.

O mesmo desejo de caminhar pouco se reflete na vida cristã. Meditação, oração, comunhão, são atividades pouco praticadas.

O apóstolo Paulo preocupava-se, pois, em Éfeso, uma cidade muito importante na época, reinavam espíritos da escuridão: ganância, mentira, injustiça, discriminação, libertinagem .... e ao exortar: desperta, o apóstolo enumera que algo estava progredindo terrivelmente e precisava parar. Por essa razão, o convite: “Desperta, tu que dormes…” (Ef 5.14). Essas palavras são eco das palavras do profeta Isaías 26.19; 60.1 que indicam algo que precisa ser interrompido.

A vida como caminhada.

É preciso andar!

O que fazer quando alguém está perdido e não tem como continuar? É preciso retornar ao início, de onde tudo partiu.

Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Efésios 5.14) são um mandamento e uma promessa!

O apostolo pinta o pecador como alguém dormindo e quando se dorme, coisas acontecem ao redor e nem se percebe (Ef 2.1-5). É tal como o profeta Jonas que dormia durante uma tempestade (Jn 1.5).

Para o pecador não resta apenas a escuridão, resta a promessa de que a luz será acessa.

Despertar significa admitir que o coração sem Deus não está neutro, está corrompido e incapaz de agradá-lo (Romanos 7.18; 1Coríntios 2.14).

Despertar é uma ação em passos concretos: confessar, romper com as obras infrutíferas das trevas, andar como filhos da luz (Efésios 5.8–11; 1João 1.7–9).

Desperta, tu que dormes!” é um chamado para interromper a negligência e a inércia das obras infrutíferas.

Se você percebe que tem “dormido”, não adie: “ainda por um pouco a luz está convosco; andai enquanto tendes luz… crede na luz, para que sejais filhos da luz” (João 12.35–36). Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

A ressurreição é o amém de Deus ao está consumado de Cristo na cruz!

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