31 de
outubro - Culto da Reforma Luterana 509 anos
Salmo
46; Jeremias 31.31-34; Gálatas 5.1, 13-14; João 8.31-36
Tema: ἐλεύθερος, o livre, o liberto
Seus
amigos e familiares sabem que você é luterano?
Por que você é
luterano?
Vale a pena ser luterano?
Por qual razão você não é católico ou evangélico e sim,
luterano?
Martinho
Lutero adotou e assinou o nome Eleutherius
(ἐλεύθερος, que significa “livre” ou “liberto”
em correspondências e escritos entre os anos de 1517 e 1520).
Essa
escolha de Martim Luder assinar Eleutherios,
revela como o conceito de liberdade do Evangelho ter marcado profundamente sua
vida.
O
sobrenome original da família era Luder e por volta do final de 1517, após a
publicação das 95 Teses e o início dos debates com Roma, Lutero percebeu a
semelhança sonora entre o alemão Luder
e a raiz grega Eleutheros. Como um
profundo trocadilho humanista e teológico, ele adotou a forma latinizada: “Martinus Eleutherius”, Martinho, o Liberto, tornado livre pela graça de Deus.
Foi
exatamente a partir dessa transição de Luder para Eleutherius
que ele gradualmente fixou a grafia moderna do seu sobrenome em alemão: Luther.
Nesse
período (1517–1520), Lutero assinou diversas cartas para amigos, teólogos e
autoridades como “Martinus Eleutherius”
ou “Martinus Eleutherius Augustinianus”.
Ao se dirigir ao papa, a intenção do codinome era afirmar que sua postura e
seus escritos não nasciam de uma rebeldia obstinada, mas da liberdade de consciência trazida
pelo Evangelho de Cristo.
Lutero
escreveu três importantes cartas direcionadas diretamente ao Papa Leão X. Carta de Maio de 1518:
acompanhando as suas resoluções às 95 teses, enviada como uma explicação
teológica formal. Carta
de Março de 1519: um apelo de conciliação e respeito à Sé Romana. Carta de Outubro de 1520:
a carta enviada por Martinho Lutero ao Papa Leão X em outubro de 1520
serviu de prefácio ao seu célebre tratado Da
Liberdade do Cristão que representa um dos momentos mais dramáticos,
paradoxais e decisivos de toda a história ocidental.
Essa
correspondência marca o ponto de inflexão definitivo em que a esperança
de reforma institucional interna cede lugar ao nascimento de uma nova era de
liberdade de consciência.
O
impacto histórico dessa carta desdobra-se em quatro dimensões fundamentais:
A última tentativa de conciliação e a “Ovelha
entre Lobos”: naquela altura (1520), a Bula
de Excomunhão (Exsurge Domine) já pairava sobre a cabeça de Lutero,
enviada por Roma e defendida por teólogos inquisitoriais como Johann Eck. No
entanto, impulsionado por negociações de intermediários (como o enviado papal
Karl von Miltitz), Lutero escreveu ao pontífice adotando um tom surpreendente,
ele tentou tratar Leão X como uma “inocente ovelha cercada por lobos” (a
cúria romana corrupta e os bajuladores).
Enquanto
a máquina eclesiástica exigia a retratação incondicional e ameaçasse sua queima
na fogueira, Lutero escreve não como um rebelde sedento de poder, mas como um
médico espiritual que tenta salvar o próprio papa de uma estrutura corrompida.
Se por um lado a pessoa
do papa foi tratada com cortesia formal, por outro, a instituição e a cúria
romana receberam o julgamento mais severo possível. Lutero não poupou palavras,
escrevendo que a Cúria Romana era mais corrupta do que a Babilônia ou Sodoma,
descrevendo-a como um antro de impiedade sem esperanças que mercantilizava a fé
cristã sob o nome sagrado de Pedro.
Essa
franqueza histórica abriu os olhos da Europa para o fato de que o conflito não
era um mero desentendimento acadêmico entre monges, mas uma fratura moral e
estrutural profunda na cristandade ocidental.
Um
dos trechos mais revolucionários da carta adverte Leão X contra os “aduladores” que o elevavam acima de tudo e de
todos: “Não creias em ninguém que te exalta, mas
sim em quem te humilha”.
Lutero
argumentava que tentar colocar o papa acima de um Concílio Geral e atribuir-lhe
o monopólio exclusivo de interpretar as Escrituras era abrir as portas para a
tirania espiritual. Historicamente, essa posição desferiu um golpe mortal no
absolutismo papal medieval, consolidando a ideia de que a autoridade final
reside na Palavra de Deus (Sola Scriptura) e não em cargos humanos, emancipando
a consciência individual perante o poder temporal e eclesiástico.
Ao
enviar este tratado específico, Lutero resumiu o cerne da Reforma: o cristão é espiritualmente
senhor de todas as coisas por meio da fé (livre de leis opressoras para a
salvação), mas servo de todas as coisas por meio do amor.
Historicamente,
essa carta selou o rompimento oficial. Poucas semanas depois de enviá-la e de
ver o documento ser sumariamente ignorado e sua obra ameaçada, Lutero queimaria
publicamente a bula papal em Wittenberg em dezembro de 1520.
A
carta a Leão X não evitou o Cisma, mas cristalizou a transição de eras. Ela
provou que a verdade do Evangelho não podia ser negociada em gabinetes de poder
e que a verdadeira autoridade moral nasce da fidelidade à consciência informada
pelas Escrituras, preparando o terreno para a modernidade e para a liberdade de
pensamento no Ocidente.
A relação entre o conceito grego de eleutérios
(eleutheros/eleutheria) e a liberdade do Evangelho toca no
coração do pensamento teológico da Reforma Protestante e na própria estrutura
do Novo Testamento.
O
termo grego ἐλεύθερος (eleutheros, livre,
emancipado) e o substantivo ἐλευθερία (eleutheria,
liberdade) expressam a transição de
um estado de servidão para um estado de plena dignidade e autonomia responsável
sob Deus.
No
mundo greco-romano clássico, eleutheros
definia o cidadão livre em oposição ao escravo (doulos)
e significava, isenção de
sujeição externa, ou seja, não pertencer a um senhor humano. Direito de fala e ação, a
prerrogativa de participar da vida pública e decidir os próprios caminhos.
Quando
os autores do Novo Testamento usam essa linguagem, eles pegam um conceito
político-social e o elevam ao plano espiritual e existencial.
O
fundamento da liberdade do Evangelho não é uma licença para o egoísmo, mas uma
libertação radical promovida por Cristo: “E
conhecerão a verdade, e a verdade os libertará (eleutherosei)... Se, pois, o Filho os libertar (eleutherose), vocês
serão verdadeiramente livres (eleutheroi)”
(João 8.32, 36); “Foi para a liberdade (eleutheria) que Cristo
nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se submetam novamente a um jugo
de escravidão” (Gálatas 5.1).
Para
o Paulo, o Evangelho liberta o ser humano de três grandes tiranias. Da condenação da Lei, a
religiosidade baseada no medo e no merecimento humano. Do poder do pecado e da culpa, a
incapacidade moral de fazer o bem. Do medo da morte e do juízo, a tirania existencial.
Em
1520, Martinho Lutero escreveu um de seus tratados mais influentes, diretamente
inspirado por esse conceito de eleutheria,
“Da Liberdade do Cristão”. Lutero
sintetizou o fundamento da liberdade do Evangelho em dois paradoxos célebres, “o cristão é um senhor livre sobre todas as coisas e não
está sujeito a ninguém” (Pela fé em
Cristo; eleutheros). “O cristão é um servo prestativo em todas as coisas e está
sujeito a todos” (Pelo amor ao
próximo; doulos).
Quando
Frederico, o Sábio, protegeu Lutero, ele criou um escudo para que a liberdade de consciência fundada no Evangelho
não fosse esmagada pelo absolutismo político ou eclesiástico.
Saber
que a salvação é dádiva gratuita e que todo crente é livre (eleutheros) tirou dos leigos a dependência
espiritual da hierarquia romana. O leigo não era mais um “escravo espiritual”, mas um filho livre de
Deus, capacitando-o a julgar doutrinas e ler a Bíblia por si mesmo.
A
liberdade do Evangelho (eleutheria)
difere da mera autonomia individualista moderna. Ela não é a liberdade de fazer
qualquer coisa, mas a liberdade
para amar e servir sem medo. Como Paulo adverte aos Gálatas, “vocês, irmãos, foram chamados para a liberdade (eleutheria). Mas não
usem a liberdade para dar ocasião à carne; ao contrário, sirvam uns aos outros
mediante o amor” (Gálatas 5.13).
A
verdadeira liberdade (eleutérios)
nasce da certeza de ser aceito por Deus mediante a fé, o que liberta o
indivíduo da necessidade de se autojustificar e o envia ao mundo para amar e
defender a verdade com coragem. Amém
Edson
Ronaldo Tressmann
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