Próprio 10 – Sétimo Domingo após Pentecostes
Salmo
65.9-13; Isaías 55.10-13; Romanos 8.12-17; Mateus 13.1-9,18-23
Textos:
Isaías 55.10–11 e Mateus 13.1–23
Tema: A
Palavra nunca falha, revela o tipo de coração que a recebe.
O
grande paradoxo do nosso tempo é que, em meio a uma comunicação praticamente
ilimitada, mensagens instantâneas, vídeos curtos, podcasts, notícias, opiniões,
debates e um fluxo incessante de comentários, nunca foi tão difícil realmente
ouvir. O excesso de palavras não tem produzido mais compreensão, e a abundância
de conteúdo não tem gerado, necessariamente, transformação.
Nesse cenário de excesso de vozes, muitos
tratam a Palavra de Deus apenas como mais uma mensagem entre tantas competindo
por atenção. Alguns, reduziram a Palavra de Deus a um conteúdo
religioso entre tantos outros; outros, consideram a Palavra a um
conjunto de princípios morais úteis para uma vida melhor; e, para muitos
outros, a Palavra de Deus não passa de um discurso antigo,
incapaz de dialogar com os desafios da sociedade contemporânea.
Tanto
o profeta Isaías quanto o próprio Jesus revelam que a Palavra de Deus não é
simplesmente um discurso sobre Deus, é a própria ação de Deus em favor do seu
povo. A Palavra não apenas informa; ela transforma o pecador em Filho de Deus. A
Palavra não apenas comunica; ela realiza. A Palavra não apenas orienta; ela cria
aquilo que anuncia.
Onde
a Palavra de Deus é proclamada, o próprio Deus age com poder, cumprindo
infalivelmente o propósito para o qual envia e comunica sua Palavra.
Deus continua falando para um mundo que desaprendeu a
ouvir.
“Assim como a chuva e a neve descem dos céus...”
(Is 55.9).
Chuva
significa vida. Sem chuva não há plantio e sem plantio não há pão e sem pão não
há sustento e futuro.
O
verbo hebraico יֵרֵד (yērēd) descer
deliberadamente traz a ideia de que a chuva não cai por acaso, ela
vem e tem um propósito. Diante disso, Deus afirma: “Assim
será a minha Palavra” (Is 55.11).
A
Palavra sai da boca de Deus exatamente como a chuva sai dos céus para cumprir
sua missão. Mesmo num mundo de algoritmos, narrativas e tendências.
Ao contar a parábola do semeador, Jesus mostra onde está o
verdadeiro problema.
O
profeta Isaías disse que “a Palavra nunca falha”
e Jesus mostra que as sementes lançadas em quatro tipos de terreno parecem ter fracassado
em três. Todavia, é preciso observar cuidadosamente que o problema não é a
semente, o que muda é o tipo de solo.
Na Fórmula de Concórdia afirmamos que a Palavra de Deus
verdadeiramente opera e concede a graça de Deus, embora possa ser resistida
pelo ser humano. A resistência humana não revela uma deficiência da Palavra,
mas a dureza do coração que rejeita a ação do Espírito Santo que é efetivada
pela Palavra (semente).
Ao contar a parábola do semeador, Jesus
desloca nossa atenção e nos leva a refletir sobre “o tipo de coração que está recebendo essa Palavra de Deus?”
Será o coração tal como o caminho endurecido?
Caminho
endurecido são àqueles que ouvem, mas não escutam e por não escutarem com atenção,
a Palavra permanece na superfície e o coração se torna uma estrada pisada, compactada,
endurecida.
E é fácil se tornar um caminho
endurecido, afinal, vivemos permanentemente distraídos. É fácil
se distrair, pois estamos muito ocupados e manter a agenda cheia é uma das artimanhas
do inimigo que nos distrai com passarinhos que devoram.
“Que tipo de coração está recebendo a Palavra de Deus?”
Será o solo raso?
O solo raso são as muitas pessoas que recebem a
Palavra de Deus com entusiasmo, mas não criam raízes, e, na primeira
dificuldade abandonam tudo.
Um
solo típico da nossa cultura que ama resultados imediatos.
Lembro
a parábola do Bambu Chinês onde se diz que um agricultor plantou uma semente de
bambu chinês. Durante o primeiro ano, regou, adubou e cuidou da terra, mas nada
parecia acontecer. No segundo ano, continuou o mesmo trabalho, e novamente não
houve nenhum broto visível. O terceiro ano passa, e a terra continua
aparentemente estéril. No quarto ano, o agricultor persevera, embora muitos
pensem que seu esforço é inútil. Então, no quinto ano, um pequeno broto rompe a
superfície do solo e, em poucas semanas, cresce vários metros de altura.
Durante
todos aqueles anos, o crescimento acontecia debaixo da terra. O bambu estava
formando um sistema de raízes profundo e resistente, capaz de sustentar o
rápido crescimento que viria depois. Sem esse período invisível de
fortalecimento, ele não suportaria a altura que alcançaria.
Algo semelhante acontece com a Palavra de
Deus. Parece que nada está acontecendo. Mas Deus continua trabalhando onde
nossos olhos não alcançam. A Palavra cria raízes no coração, fortalece a fé,
confronta o pecado, consola o aflito e prepara o tempo da frutificação. O que
parece silêncio pode ser justamente o período em que Deus está realizando sua
obra mais profunda, tal como ocorre na terra após a chuva.
A
diferença entre a história do bambu e a mensagem bíblica é que o bambu cresce
por uma lei natural enquanto a Palavra de Deus age porque o próprio Deus está
presente e atuando nela. Os luteranos ensinam que a eficácia da Palavra não
depende do tempo, da habilidade do pregador nem da disposição humana, mas da
promessa de Deus declarada pelo profeta Isaías: “Assim
será a minha palavra... não voltará para mim vazia” (Is 55.11).
Mesmo
quando os efeitos permanecem ocultos aos olhos humanos, Deus continua
realizando, por meio da Palavra exatamente aquilo que determinou.
“Que
tipo de coração está recebendo essa Palavra de Deus?” Será entre os espinhos?
Os espinhos estão
muito presentes em nossa geração. Jesus disse que os espinhos representam as preocupações;
a riqueza; a sedução deste mundo.
Nunca
houve tanto conforto e ao mesmo tempo, tanta ansiedade. Nunca se pode acumular
tantos bens e nunca se esteve tão cansado. E em meio a isso a Palavra de Deus
não desaparece, ela simplesmente vai sendo sufocada.
O
problema muitas vezes é apenas uma agenda cheia demais, um coração ocupado e distraído
demais.
Os
espinhos modernos são a produtividade, o consumo, a performance, a comparação, o
status, a aprovação e esses espinhos crescem junto com a Palavra de Deus e
roubam o espaço que precisa ser da Palavra de Deus.
“Que
tipo de coração está recebendo essa Palavra?” Será a boa terra?
A boa terra não
é uma questão de que Deus tenha pessoas exclusivamente escolhidas. A Boa Terra
é o coração já preparado por Deus. É a terra onde a chuva já fez todo seu
processo. Terra Boa não é um coração perfeito. É um coração que permanece
ouvindo, que recebe, que confia, que persevera. É um coração que por ter sido
preparado, ouve a Palavra e o fruto de trinta, sessenta, cem é inevitável.
Observe
que nem todos produzem da mesma forma. Afinal, há diferentes situações
vivenciais para àquele que recebe, crê e responde a Palavra. Há oposição na
família, perseguição, zombaria, idade, saúde ...
A
Palavra nunca volta vazia.
O
profeta Isaías responde o que acontece com a
Palavra de Deus destacando que ela sempre cumpre o propósito divino
e Jesus responde o que acontece com cada pessoa
quando ouve a Palavra de Deus.
A Palavra de Deus nunca é neutra,
ela sempre produz alguma
coisa. Quando a Palavra de Deus não produz arrependimento... revela
endurecimento. Quando não produz fé... expõe a incredulidade. Quando não produz
vida... executa juízo. O fato é que a Palavra de Deus nunca retorna vazia. Até
mesmo a rejeição confirma aquilo que Deus havia anunciado.
Cristo é o
semeador e é a própria semente semeada.
No
profeta Isaías, vemos que a Palavra de Deus sai da boca de Deus. No apostolo João,
ouvimos que a Palavra de Deus possui um nome: Jesus Cristo, o Logos
eterno. O evangelista Mateus apresenta a parábola que apresenta Jesus Cristo como
o semeador que semeia e ao mesmo tempo, a semente que é semeada.
As
Confissões Luteranas chamam de verbum efficax (Palavra eficaz). Ela não apenas anuncia perdão, entrega
perdão. Não apenas promete vida, comunica vida. Não apenas fala de Cristo, entrega
o próprio Cristo.
O profeta Isaías responde que a chuva continua descendo e
silenciosamente gera vida por baixo da terra sem que os olhos vejam. A Palavra
de Deus, tal como a chuva continua realizando exatamente aquilo que lhe é
determinado realizar.
A
Palavra de Deus é eficaz. Por ela, Deus criou o universo, chamou Abraão, abriu
o Mar Vermelho, fez ossos secos viverem, ela é o Cristo, cria fé pelo Evangelho,
sustenta a Igreja, continua e continuará realizando tudo aquilo que Deus
determinou até o último dia.
Que
tipo de solo a Palavra de Deus encontra? Qual é
o solo do seu coração hoje?
O
semeador continua semeando a semente. Não se engane, o Espírito Santo trabalha
por meio desse semeador e semente. Tal como a chuva que desce dos céus, a
Palavra de Deus vem para remover a dureza do caminho, a superficialidade do
solo raso e os espinhos que sufocam a fé e fazer produzir. A Palavra nunca volta vazia
e quando é lançada para um coração que o Espírito Santo já vinha preparando,
saiba que há produção de frutos. Amém.
Edson Ronaldo Tressmann
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