Reflexão sobre o Salmo 136.1-9
“Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura
para sempre” (Sl 136.1)
Este
versículo resume toda a história da salvação. Não é apenas um convite à
gratidão, mas uma confissão de fé baseada naquilo que Deus é e no que Ele faz.
הוֹדוּ
(hôdû), “Deem graças”
O
verbo vem da raiz יָדָה (yādāh) tem um
significado muito mais amplo do que simplesmente “agradecer”.
Pode significar, confessar; reconhecer
publicamente; louvar; admitir a verdade.
Esse é o verbo usado tanto para confessar pecados (Lv 5.5), quanto confessar a grandeza de Deus (Sl 32.5;
Sl 106.1). A verdadeira
gratidão nasce da confissão.
Primeiro reconheço quem eu sou e depois reconheço quem Deus é. Não existe verdadeira adoração
sem verdadeira confissão.
לַיהוָה
(laYHWH), “ao SENHOR”
Não
é um deus qualquer, é o Deus da Aliança. O nome YHWH recorda
Êxodo 3, onde Deus disse “EU SOU O QUE SOU”.
Sempre que Israel ouvia esse nome lembrava-se da
libertação do Egito; da aliança; da fidelidade divina; das promessas.
O convite à gratidão está fundamentado
na identidade de Deus.
כִּי־טוֹב (kî-ṭôv), “porque Ele é bom”. טוֹב (ṭôv), não
significa apenas “bonzinho”. É uma
palavra extremamente rica e pode indicar, bondade
moral; perfeição; beleza; benefício; aquilo que produz vida. É a
mesma palavra usada em Gênesis 1, “E Deus viu
que era bom”.
Dessa
forma, quando o salmista afirma que “YHWH é bom”,
está dizendo que Ele
continua sendo o Deus Criador que produz vida, ordem e bênção. Sua
bondade não depende das circunstâncias, faz parte da sua natureza.
חֶסֶד (ḥesed). A
palavra mais importante do versículo.
A
palavra hebraica חֶסֶד (ḥesed) é uma
das mais importantes do Antigo Testamento e uma das mais difíceis de traduzir
por um único termo. Dependendo da versão da Bíblia, aparece traduzida como misericórdia,
benignidade, amor leal, amor fiel, graça, bondade, fidelidade ou amor
constante.
O
substantivo חֶסֶד (ḥesed) ocorre
cerca de 245 vezes no texto hebraico do Antigo Testamento. Há pequenas
diferenças de contagem entre edições críticas e programas de pesquisa bíblica,
mas 245 ocorrências é o número mais amplamente aceito.
A
maior concentração está nos Salmos, onde a palavra ocorre aproximadamente
127 vezes, ou seja, mais da metade de todas as ocorrências.
Ocorre
nos Salmos cerca de 127; em Jeremias, cerca de 31;
em Provérbios, cerca de 21; em Gênesis, Êxodo e 2
Samuel, cerca de 12. Isso mostra que o tema do ḥesed
permeia toda a história da salvação.
Um
dos textos mais importantes é Êxodo 34.6-7, quando Deus revela seu
próprio caráter a Moisés: “O Senhor, o Senhor
Deus, compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e grande em ḥesed e fidelidade”. É
como se Deus dissesse: “Se você quiser saber quem eu sou, saiba isto: sou
abundante em ḥesed”. Essa
autodeclaração tornou-se uma espécie de “credo” do Antigo Testamento e é
retomada diversas vezes pelos profetas e pelos salmistas.
O
Salmo 136 é único. A palavra ḥesed
aparece 26 vezes, uma em cada versículo. Cada ato de Deus na criação e
na história da redenção recebe a mesma resposta da congregação: “Porque o
seu חֶסֶד dura
para sempre”.
É
como um refrão litúrgico que ensina que toda a história da salvação possui uma
única explicação:
Deus
criou o mundo... Porque o seu ḥesed
dura para sempre.
Deus
libertou Israel do Egito... Porque o seu ḥesed dura para sempre.
Deus
abriu o Mar Vermelho... Porque o seu ḥesed
dura para sempre.
Deus
sustentou seu povo no deserto... Porque o seu ḥesed dura para sempre.
Deus
deu a terra prometida... Porque o seu ḥesed
dura para sempre.
Tudo
é explicado pelo ḥesed de
Deus.
Na
perspectiva cristã, todo o ḥesed do
Antigo Testamento encontra seu cumprimento em Jesus Cristo.
João
afirma que “o Verbo se fez carne... cheio de
graça e de verdade” (João 1.14). A expressão “graça e verdade” ecoa Êxodo 34.6, onde
Deus é descrito como abundante em ḥesed (amor
fiel) e 'emet (verdade/fidelidade). Em Cristo, o amor fiel da aliança
torna-se plenamente visível.
O
ḥesed não é
apenas um atributo de Deus; ele é revelado de maneira suprema na cruz. O
Calvário é a maior manifestação do amor fiel de Deus, que permanece para sempre
e alcança pecadores por pura graça.
Há
245 lembretes do ḥesed no
Antigo Testamento. Mas Deus decidiu escrever um último, definitivo e eterno
lembrete não com tinta, mas com o sangue de seu próprio Filho na cruz. O
Calvário é o ḥesed de Deus tornado
visível.
חֶסֶד (ḥesed) é o amor que Deus promete e jamais
abandona. Não é um sentimento. É compromisso. É fidelidade. É
graça.
Sempre que aparece ḥesed, Deus
está agindo em favor de um povo que não merece.
לְעוֹלָם (le‘ôlām), “para sempre”. Literalmente: “até a eternidade”.
Não
significa apenas “muito tempo”,
significa sem fim, sem interrupção, sem mudança.
A misericórdia de Deus nunca expira. Ela não possui prazo de validade.
“Deem graças” é uma ordem que é seguida de duas
razões, porque Ele é bom; porque o seu חסד
(ḥesed) dura para
sempre.
A
gratidão cristã nunca nasce dos sentimentos. Nasce da revelação de Deus.
O imperativo, “Deem graças”, expõe nosso pecado. Por quê?
Lutero
dizia que o Primeiro Mandamento resume todos os demais. Quem não vive em
constante gratidão está confiando em outro deus. A ingratidão revela
incredulidade. Na carta aos Romanos, no capítulo 1.21 diz: “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus,
nem lhe deram graças”.
O
primeiro pecado mencionado por Paulo na carta aos Romanos não é homicídio, nem
adultério, é a falta de gratidão. Isso pelo fato de que toda ingratidão nasce de um coração que esqueceu
a graça.
Pensamos
e vivemos dizendo: “Tenho direito”; “Mereço”; “Conquistei”
e o Salmo 136 desmonta essa ilusão. Afinal, tudo vem do Senhor, pois “Ele é bom”. Mesmo quando nós não
somos, sua bondade não depende da nossa fidelidade, depende apenas de quem Deus
é.
“Seu
חסד dura para sempre”. Aqui
encontramos Cristo, onde na cruz mostra o significado máximo do ḥesed.
Jesus
assume nossa culpa, cumpre a aliança, paga nossa dívida, ressuscita e continua
amando pecadores. A cruz
prova que o amor de Deus não termina quando o nosso pecado começa.
Vivemos numa cultura de reclamação.
Quanto mais temos, mais sentimos que falta.
É
importante distinguir gratidão de circunstâncias. O mundo agradece quando tudo
vai bem. O cristão agradece porque Deus permanece o mesmo quando tudo parece ir
mal. A bondade divina e o seu ḥesed não
oscilam com a economia, a saúde ou as emoções; eles permanecem firmes porque
pertencem ao caráter imutável de Deus.
Não damos graças como deveríamos.
Somos ingratos porque, por natureza, confiamos mais em nós mesmos do que no
Senhor.
Apesar da nossa ingratidão, Deus permanece טוֹב (ṭôv) —
perfeitamente bom; e seu חֶסֶד (ḥesed)
permanece para sempre. Esse amor fiel alcança seu ápice em Jesus Cristo, que
garante definitivamente a reconciliação entre Deus e os pecadores.
A
gratidão do cristão não é o preço da graça, mas a resposta de quem foi
alcançado por ela. Em Cristo, confessamos com alegria: “Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura
para sempre”.
Tema:
O milagre que você esqueceu de ver
Existe
uma fotografia que se repete diariamente em milhões de casas.
Uma
criança ganha um brinquedo novo. Durante alguns minutos ela sorri. Corre,
abraça, brinca. Mas bastam poucos dias e o brinquedo perde o encanto. Logo ela
pede outro, depois outro, outro. Na verdade, essa não é apenas a história das
crianças. É a história da humanidade.
Vivemos na geração da satisfação
imediata. Compramos um celular novo, meses depois ele parece velho.
Compramos um carro, logo desejamos outro. Recebemos um aumento, rapidamente o
salário deixa de ser suficiente.
Junto
com as inúmeras possibilidades, tecnologia, medicina, conforto, há também
ansiedade, frustração e reclamação.
As
redes sociais nos convencem de que sempre existe alguém vivendo melhor do que
nós. A propaganda diz diariamente: “Você
merece mais”.
Sem
perceber, começamos a viver olhando apenas para aquilo que ainda não temos. A
gratidão desaparece. A reclamação domina.
Interessante
perceber que Israel vivia exatamente isso. Bastaram poucos dias fora do Egito
para esquecerem os milagres. Atravessaram o Mar Vermelho, receberam o maná,
água da rocha, viram Deus agir, mesmo assim reclamavam.
Talvez
o maior milagre desta semana tenha sido você acordar, seu coração bater, você
respirar enquanto dorme. A terra continua girando. O sol nasceu outra vez e,
talvez você nem tenha percebido, afinal, nos acostumamos com os milagres
diários.
“Deem graças ao Senhor...”
Não
porque tudo está perfeito, mas porque Deus continua sendo quem sempre foi.
O texto começa com uma palavra
extraordinária, וֹדוּ (Hôdû), do
verbo יָדָה (Yadah). O
curioso é que essa mesma palavra significa confessar,
louvar, agradecer. Por quê? Porque,
na Bíblia, ninguém agradece verdadeiramente antes de confessar.
Esse
mesmo verbo aparece em Levítico para a confissão dos pecados e aparece inúmeras
vezes nos Salmos para o louvor e isso não é coincidência. Enquanto justificamos
nossos pecados, nunca conheceremos a alegria da graça. Por isso nossos cultos
começam com confissão e isso não porque Deus precise ouvir, mas porque nós
precisamos reconhecer quem Deus é diante dos nossos pecados. A verdadeira gratidão nasce
quando reconhecemos que eu não mereço.
“Deem
graças” é um imperativo, e todo imperativo revela aquilo que não
fazemos. Você vive agradecido? Você acorda
louvando? Você termina o dia reconhecendo a graça? Ou reclama mais do que
agradece?
Romanos
1 nos traz um maravilhoso ensinamento, pois o primeiro pecado mencionado por
Paulo na decadência humana não é assassinato, nem adultério, nem sequer o
roubo. O primeiro pecado é este: “Não lhe
deram graças”.
O
diagnóstico é que a ingratidão é idolatria. Toda reclamação constante revela
que outro deus ocupa nosso coração. A murmuração é música para o diabo.
Conta-se
que dois homens estavam presos na mesma cela. Ambos olhavam por uma pequena
janela. Enquanto um via apenas a lama, o outro contemplava as estrelas. A
diferença estava no coração.
Atente-se ao fato de que é o nome de
Deus que muda tudo, לַיהוָה “ao Senhor”. Não é qualquer deus, é YHWH,
é o Deus da Aliança, do Êxodo. Esse nome carregava séculos de memória.
Quando
um israelita ouvia YHWH, lembrava imediatamente das dez pragas, da páscoa, do
cordeiro, do sangue, do mar vermelho, do Sinai, da nuvem, do fogo, do maná, das
promessas. Cada letra
desse nome respirava fidelidade.
Hoje
acontece o mesmo. Quando ouvimos o nome de Jesus... lembramos da cruz, do
túmulo vazio, do Batismo, da Santa Ceia, do perdão, da ressurreição. Assim, não agradecemos a uma ideia,
agradecemos uma pessoa.
Deus é bom mesmo quando a vida não
é, por isso, כי טוב porque Ele é bom.
Louvamos
a Deus não porque hoje foi um bom dia, ou porque o salário aumentou; nem porque
ninguém ficou doente. Agradecemos
porque Deus é bom.
O
fundamento da fé nunca são as circunstâncias. É o caráter de Deus.
טוב é a
palavra usada sete vezes em Gênesis 1. Toda criação nasce dessa bondade. Mesmo
depois da queda em pecado, depois da cruz, Deus continua sendo exatamente o
mesmo.
Lutero dizia que Deus muitas vezes
esconde seu rosto atrás de máscaras (enfermidade, uma perda, uma cruz) e mesmo
por trás dessas máscaras continua sendo um Pai Amoroso.
O coração do evangelho numa única
palavra, חסד, hesed. Nenhuma tradução consegue
esgotá-la completamente. Diz-se que é misericórdia,
graça, lealdade, amor da aliança, bondade perseverante, fidelidade,
compromisso. Hesed é o amor que permanece quando nós falhamos, quando nós
quebramos alianças. Como escreveu Chemnitz, “a
fidelidade de Deus repousa em sua própria natureza e não na mutabilidade do
homem”.
O maior sermão sobre o חסד aconteceu
numa sexta-feira, no Calvário. Ali Deus respondeu definitivamente, “o meu amor dura para sempre”.
Quando
Pedro negou, o amor permaneceu. Quando Judas traiu, o amor permaneceu. Quando
os soldados zombaram, o amor permaneceu. Quando os cravos perfuraram as mãos, o
amor permaneceu. Quando o céu escureceu, o amor permaneceu e esse amor dura
para sempre, pois Jesus disse, “Está consumado”.
לְעוֹלָם “para sempre”, literalmente, até a eternidade. Tudo neste mundo acaba. Flores murcham.
Juventude passa. Empresas fecham. Impérios desaparecem. Tecnologias envelhecem.
Corpos adoecem. Mas existe uma coisa que nunca termina: o amor de Deus. Nosso
descanso não está em nossa fidelidade, está na fidelidade eterna de Cristo.
Na cultura da comparação a gratidão
é destruída.
Na cultura do desempenho o descanso
é destruído.
Na cultura dos direitos a percepção
da graça é destruída.
Na cultura da velocidade, a
contemplação é impedida e sem contemplação não existe gratidão. Por isso o
Salmo mande parar e olhar, confessar e agradecer.
“Deem
graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre” (Sl
136.1), resume toda a história da salvação. Não é apenas um convite à gratidão,
mas uma confissão de fé baseada naquilo que Deus é e no que Ele faz. Amém
Edson Ronaldo Tressmann
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