09
de agosto de 2026 - Próprio 14 – 11° Domingo após Pentecostes
Salmo
18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33
Tema:
Quando as águas se levantam, Cristo continua sendo o Senhor.
Será que Deus está vendo o que está acontecendo comigo?
O
Salmo 18 é um cântico de Davi após experimentar a libertação de Deus. O
contexto indica que Davi não está falando de uma teoria sobre Deus, fala como
alguém que foi cercado pela morte e experimentou a intervenção divina.
Ao
escrever “Eu te amo, ó Senhor, força minha”
usando o verbo רָחַם (rāḥam) no sentido de amar profundamente, ter compaixão, demonstrar afeição,
Davi não está destacando que “ele é forte”,
mas que “Deus é a sua força”.
Temos
aqui uma das grandes diferenças entre a fé bíblica e a espiritualidade moderna.
A espiritualidade
moderna diz que você precisa descobrir a força que existe dentro
de você. A fé
bíblica anuncia descubra aquele que é a sua força.
Para
enfatizar com todas as letras que Deus é a sua força, Davi utiliza-se de sete
imagens para um único Deus. Minha força; minha rocha; minha fortaleza; meu
libertador; meu Deus; meu escudo; minha salvação; meu alto refúgio.
Não se trata de uma mera repetição desnecessária, se trata de uma teologia
experiencial pela qual Davi diz que “não sabe
explicar tudo o que aconteceu com ele, mas sabe quem esteve com ele”.
Davi
relata o drama vivido escrevendo que “laços de
morte me cercaram”. A expressão hebraica apresenta a morte como um
caçador que lança suas cordas sobre a vítima. Davi, no seu limite, não faz uma
oração decorativa, ele grita. A fé verdadeira aprende a clamar.
Não
existe na Bíblia, uma fé que nunca sofre, existe uma fé que clama em meio ao
sofrimento. No sofrimento, Deus conduz o pecador a abandonar sua
autoconfiança.
A
história de Jó mostra que quando Deus respondeu os questionamentos de Jó, não fez
uma explicação detalhada sobre o sofrimento. Deus revelou quem Ele é ao dizer: “Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da
terra?”
O problema no livro de Jó não é sobre o porquê Jó estava sofrendo? Mas, sobre quem sou eu diante do Criador? Por isso, a
pergunta “onde estavas tu quando eu lançava os
fundamentos da terra?” é ontológica, ou melhor, Deus questiona: “Onde você estava quando Eu criei aquilo que você sequer
consegue compreender?”
A
utilização de imagens do mundo antigo, fundamentos
da terra; medidas; cordel; bases; pedra angular; mar; portas; profundezas;
morte, não visa fornecer uma cosmologia científica, o ponto é
teológico, ou seja, destacar que o mundo não está fora de controle. O mundo possui um Criador;
o caos não é Deus; o mar não é uma divindade rival; a morte não possui a última
palavra.
Quando
lemos que Jesus caminha sobre o mar, muito mais que uma descrição de que
Jesus domina o mar, temos uma revelação cristológica. Jesus está fazendo
algo que, no Antigo Testamento, pertencia ao próprio Deus. Por isso a reação
dos discípulos: “verdadeiramente és Filho de
Deus!”
A
narrativa apresentada por Mateus não termina com “Jesus
realizou um milagre”, termina destacando “quem é Jesus?” E a resposta é “Ele é o Filho de Deus”.
Os discípulos não procuram Jesus no
meio do mar. Jesus vai até eles. Na verdade, eles estavam
tão ocupados em remar e com tanto desespero que nem sequer reconheceram a
Cristo.
O apostolo Paulo ao escrever aos Romanos
“não digas em teu coração” (Rm
10.6) objetiva enumerar que o homem religioso quer subir, alcançar Deus,
conquistar Deus, produzir sua própria justiça. E Paulo questiona “quem descerá ao abismo?” para elencar que
a lógica do Evangelho é surpreendente, pois o homem não precisa subir ao céu e
nem descer ao abismo. Deus
já realizou a obra em Cristo. E essa “...palavra
está perto de ti” (Rm 10.8). O apostolo Paulo chega ao centro da
questão enfatizando que Deus
não está distante, Deus se aproxima através da Palavra, mesmo em
meio a tempestade.
Não
precisamos de uma experiência extraordinária para encontrar Deus. Deus vem ao
nosso encontro por meios concretos: Palavra; Batismo; Santa Ceia; pregação; absolvição.
Seja qual for a tempestade, por ela se é
conduzido a confessar a fé. Por isso, nos convém olhar atentamente as palavras “se com a tua boca confessares...” (Rm 10.9).
Paulo
utilizou o verbo ὁμολογέω. Esse significa confessar,
declarar publicamente, reconhecer.
Confessar Jesus como Senhor
significa reconhecer Jesus é quem Ele diz ser.
Observe que em meio a tempestade, Jesus disse aos seus discípulos: eu sou e, logo depois os discípulos confessaram:
“verdadeiramente Ele é o Filho de Deus”.
É
preciso, antes de julgar, que os discípulos estavam no naquela tempestade não
poder terem sido desobedientes. Eles estavam ali porque Jesus os mandou. Isso
significa que não basta estar na obediência para não ter tempestade.
Mateus narra que “o barco estava longe”. O verbo βασανιζόμενον
carrega a ideia de ser atormentado, afligido.
O barco não está simplesmente navegando, está sendo torturado pelas ondas
e Jesus aparece entre três e seis da manhã, ou seja, depois de uma
longa noite. Em meio ao cansaço e falta de força dos discípulos, “Jesus veio até eles”.
Jesus chegou até eles enumera a mesma
estrutura de Romanos 10. Não foram os discípulos que “subiram até Jesus” foi “Jesus que veio até eles”. E Jesus veio até
eles “caminhando sobre o mar”. O
mar não o domina; o vento não lhe causa medo; a tempestade não o assusta.
Assim, quando retornamos a pergunta feita em Jó 38: quem
é o Senhor que governa o mar? Recebe a resposta pelo evangelista
Mateus de que é Jesus.
Quando Jesus responde “...sou eu...” (Mt 14.27) diante do
questionamento dos discípulos sobre quem ele era, achando ser um fantasma, Jesus
se identifica assim como o Senhor se identificou com Moisés na sarça ardente.
Mesmo
que em meio ao vento forte, os discípulos tenham encontrado segurança na Palavra
de Jesus, também nessa situação, ocorre uma tensão muito humana. Pedro quer
uma confirmação: “Senhor, se és tu...”.
Quem já não viveu uma situação em que a fé se mistura
com a dúvida? Jesus não o rejeita, pelo contrário, convida: “Vem!”.
E aqui está um ponto importante para
nossa reflexão. Por um breve momento, Pedro anda sobre as águas. Pedro
sai do barco e participa do milagre, mas sua fraqueza se mostra num
detalhe, “reparando na força do vento, teve medo”.
Jesus
vai ao encontro de Pedro, o segura firme, e estando seguro nas mãos de Cristo, o
exorta: “Homem de pequena fé, por que duvidaste?”
O grego ὀλιγόπιστε, “homem de pequena fé”
destaca uma fé pequena e vacilante. Temos aqui uma das grandes
consolações do texto, Jesus
não exige uma fé gigantesca para salvar.
Pergunte-se: em
quem a minha fé confia? A eficácia da fé não está na intensidade.
Não se é salvo porque acreditamos “fortemente”.
Uma fé fraca em Cristo também salva.
Pedro queria caminhar sobre as águas e
Cristo o conduz. Todavia, “não consegue se
sustentar por si só”. Na tempestade temos nossa fraqueza revelada e a necessidade de
clamar por socorro.
Deus
não constrói nossa confiança mostrando nossa capacidade. Cristo destrói nossa
autoconfiança para nos ensinar a confiar somente nEle.
Quando
Pedro estava afundando, “Jesus imediatamente
estendeu a mão”. Temos aqui o verbo mais bonito dessa passagem, εὐθέως
ἐκτείνας τὴν χεῖρα, “imediatamente,
estendendo a mão...” (Mt 14.31).
Observe
que Jesus não espera Pedro melhorar. Jesus não diz para que Pedro, primeiro aumente sua fé.
Jesus simplesmente estendeu a mão.
O Evangelho dessa passagem é a palavra “imediatamente”. Pedro afunda e grita: “Senhor, salva-me!” e Cristo age, estendendo sua mão imediatamente.
Se
no Salmo 18, o salmista escreveu “na
minha angústia invoquei o Senhor”. Se em Romanos 10, Paulo
anotou que “todo aquele que invocar o nome do
Senhor será salvo”. E se o evangelista Mateus 14 destacou a
súplica de Pedro: “Senhor, salva-me!”,
tudo isso não são meras coincidências. É uma linha teológica que visa enfatizar
que todo aquele que
está em aflição pode clamar ao Senhor e o Senhor salva aquele que clama.
É particularmente útil perceber a
continuidade entre Antigo e Novo Testamento. O Deus que domina as águas em Jó e
no Salmo não é diferente daquele que o evangelista Mateus narra sobre. O Senhor da criação está
presente na pessoa de Jesus.
O
relato sobre a caminhada sobre as águas não é uma história sobre Pedro. É uma
história sobre quem Jesus é. E pela
confissão dos discípulos, descobrimos que Jesus “verdadeiramente
é o Filho de Deus” (Mt 14.33).
O que começou com medo; passou pela
dúvida; se tornou clamor e salvação, para finalmente concluir em confissão. A
tempestade se tornou lugar de revelação e isso é profundamente cristão.
Quantos
ainda hoje se perguntam: Por que Deus permite a
tempestade? A partir dos textos de hoje, a resposta é: para que conheçamos quem Jesus é
quando nossas forças acabam. Deus não abandona seu povo no caos.
Os textos (Salmo 18.1-6;
Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33) trazem uma teologia da descida
de Deus diante da religião humana que tenta subir até Deus.
Desde os pais da igreja, há uma
interpretação de que o barco em meio a tempestade é a imagem da Igreja. Claro
que não se pode forçar a alegoria, mas, pela própria narrativa nos é permitido
aplicar pastoralmente dessa forma.
O
barco, a igreja, está em águas agitadas; está longe da terra; enfrenta vento
contrário; carrega discípulos; parece vulnerável; mas está sob a Palavra de
Jesus, sou eu, não tenham
medo.
A Igreja pode estar no meio da tempestade, mas não está
abandonada por Cristo.
Pedro comete um erro muito humano. Passa
a medir Jesus pelo tamanho da tempestade que parece ser bem maior.
Se você estiver numa tempestade, não
pergunte se “sua fé é suficientemente forte?”
Maior que a tempestade é Cristo e é justamente Ele por suas mãos (Evangelho)
que nos agarra e nos sustenta. Quando Pedro estava afundando, Cristo estendeu a
mão.
Não olhe para o tamanho da sua fé, olhe
para Cristo que pelo evangelho nos estende a sua graça.
O
vento pode ser forte. A noite pode ser longa. A fé pode ser pequena. O barco
pode estar prestes a afundar, mas Jesus Cristo continua sendo Senhor sobre as
águas.
Você não precisa caminhar sobre as águas
para provar que tem fé! Você é colocado na fé naquele que caminha sobre as águas
e que de fato é o Senhor, o Filho de Deus!
Uma
fé pequena em Cristo é suficiente. Cristo continuará sendo
aquele que “imediatamente estendeu a mão”
e a Igreja confessará que “verdadeiramente és
Filho de Deus”. Amém
Edson Ronaldo Tressmann
Se quiser voluntariamente fazer um pix edson.ronaldotre@gmail.com