13
de setembro de 2026
Próprio
19 -
Décimo Sexto Domingo após Pentecostes
Salmo
103.1-12; Gênesis 50.15-21; Romanos 14.1-12; Mateus 18.21-35
Tema:
A
memória da graça contra a aritmética do vingador
As
quatro leituras convergem para um dos temas mais profundos das Escrituras: o perdão de Deus recebido pela
graça transforma o relacionamento do cristão com o próximo. No Salmo 103
vemos que Deus perdoa abundantemente; Moisés em Gênesis 50 mostra que José se torna
instrumento desse perdão; Paulo na epistola aos Romanos, no capítulo 14, mostra
que a igreja aprende a abandonar o julgamento mútuo; Em Mateus 18, Jesus mostra
que quem vive do perdão de Deus torna-se também um perdoador. Quem vive
diariamente do perdão infinito de Deus não pode viver aprisionando o próximo às
suas dívidas.
O
Salmo 103 é um dos maiores hinos da graça do Antigo Testamento. Davi começa
falando consigo mesmo, “Bendize, ó minha alma...”.
A
adoração começa antes da boca, começa no coração. Por isso, ao dizer, “não te esqueças”.
O
verbo hebraico shakach “esquecer”
possui sentido de negligenciar. Não
significa apenas perder a memória, significa viver como se Deus nunca tivesse
feito nada, por isso, o salmista faz um exercício espiritual dizendo lembrar diariamente da graça. Por essa razão, o
salmista enumera cinco grandes benefícios da graça (perdão, cura, redenção,
misericórdia e renovação).
Perdão: “É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades”. O
verbo hebraico salach é usado quase exclusivamente para Deus destacando
que o verdadeiro perdão pertence somente ao Senhor.
Cura: “Cura
todas as enfermidades”. Nem toda enfermidade física desaparece nesta
vida. Mas todo pecado encontra cura definitiva diante de Deus.
Redenção: “Redime
tua vida da cova”. “Cova” shachat
pode significar sepultura ou destruição. Deus não apenas evita um problema, ele
salva da morte eterna.
Misericórdia: “Coroa-te
de graça e misericórdia”. A palavra hebraica hesed aparece
novamente. É o amor da aliança. Amor que permanece quando não há mérito.
Renovação: “Sacia
de bens...”. A graça não apenas perdoa. Ela restaura continuamente.
O
centro do Salmo 103 são as palavras “O Senhor é
misericordioso...”. Essas palavras são praticamente uma citação de
Êxodo 34 da qual Davi entende que todo perdão começa no caráter de Deus.
O perdão é infinito: “Quanto dista o Oriente do Ocidente...”
Que
imagem magnífica! O Oriente jamais encontra o Ocidente. O pecado perdoado
jamais retorna como acusação diante de Deus. Não significa que Deus sofre
amnésia, significa que Deus decidiu não tratar mais o pecador conforme sua
culpa.
Ao
ler o relato de Gênesis 50.15-21 a luz do Novo Testamento, vemos que José é como
uma figura de Cristo.
Após
a morte de Jacó, os irmãos entram em pânico e pensam que José iria se vingar. Eles
ainda não compreenderam plenamente o perdão.
Observemos
que muitas pessoas, mesmo perdoadas, continuam carregando culpa durante muitos
anos, isso pelo fato da culpa possuir memória longa.
No
texto de Gênesis 50 é narrado que “José chorou”.
Por quê? Porque percebe que seus
irmãos ainda acreditavam que seu amor era condicionado. Eles pensavam que enquanto
Jacó estava vivo eles foram poupados e, com a morte do pai, o perdão havia acabado
e José revela justamente o contrário perguntando aos irmãos: “Estou eu no lugar de Deus?”
Caríssimo,
o equívoco da vingança é que esse desejo pretende ocupar o lugar do Juiz que
não é da pessoa. Diante dos irmãos, dos quais José tinha todos os motivos para
vingar-se, José recusa ocupar o trono de Deus e declara que somente Deus é quem
julga.
José reconhece: “Vós intentastes o mal contra mim”. O verbo
hebraico chashav significa planejar.
Era verdade que os irmãos planejaram mal, todavia, o
que Deus fez? Deus planejou
salvação mesmo diante daquela maldade. De maneira alguma podemos concluir que Deus
aprovou o pecado. Na verdade, essas palavras enfatizam que a providência divina
é maior que a maldade humana (Romanos 8.28).
José é um tipo de Cristo, tendo sido
vendido, humilhado e exaltado. Salvou justamente àqueles que o rejeitaram; perdoou
os culpados, assim Cristo.
Na carta aos Romanos 14.1-12, o apóstolo
Paulo aplica esse princípio dentro da igreja onde o problema não era a heresia,
era o julgamento.
Alguns
cristãos, mesmo livres em Cristo, ainda observavam certas restrições
alimentares enquanto outros não mais observavam. Uns valorizavam determinados
dias e outros, não. O problema não era essas diferenças. O problema foi
transformar opiniões em critérios de salvação.
Assim, o “fraco”
na fé possuía consciência limitada e o “forte”
na fé compreendia melhor a liberdade cristã. Paulo escreveu que ambos pertenciam
ao Senhor, e por essa razão os questionou: Quem
és tu para julgar?
O
verbo empregado possui sentido judicial, através do qual o apóstolo Paulo
proíbe ocupar o tribunal que pertence exclusivamente a Cristo.
O
centro dessa perícope (Rm 14.1-12) são as palavras: vivemos
para o Senhor. E por elas, Paulo enfatiza que a
identidade cristã não é construída sobre preferências pessoais, é construída
sobre pertencimento, por isso, vivemos; morremos;
somos do Senhor. Quem pertence
totalmente a Cristo não precisa controlar espiritualmente o irmão.
O tribunal é de Cristo e saber que todos
compareceremos diante dele elimina duas atitudes: a
arrogância e o desprezo.
Quando Jesus fala sobre o perdão, Pedro
pergunta: “Até sete vezes?”
Os
rabinos ensinavam sobre a necessidade do perdão ser dado apenas três vezes e
por isso, Pedro acredita estar sendo extremamente generoso ao perguntar sobre
sete vezes e Jesus responde sobre setenta vezes sete.
Não
é uma questão matemática, é um estilo de vida. O discípulo nunca contabiliza
perdões a ponto de dizer essa é a última vez.
Caríssimos, o texto destaca que existem
dois devedores. Primeiro: o que deve dez
mil talentos; depois: o outro
que deve cem denários.
Um
talento corresponde aproximadamente a vinte anos de trabalho, assim, dez mil talentos equivale a cerca de duzentos
mil anos de salário. Outro detalhe, “dez mil”
(myrioi) era o maior número usado na língua grega e com isso Jesus destaca
que era uma dívida impagável. Essa dívida representa nossa dívida diante de
Deus.
O outro devedor devia cem denários, ou seja, cem dias de trabalho.
Observem a diferença no tamanho das dívidas. E essa diferença visa destacar o tamanho
do perdão que recebemos de Deus.
O servo perdoado se tornou impiedoso. E
a tragédia não é apenas sua crueldade, a tragédia foi viver como se nunca
tivesse sido perdoado de uma dívida tão astronômica. Quem perde a consciência da graça torna-se
inevitavelmente severo.
Jesus conclui: “Se não perdoardes de coração...”.
No
pensamento bíblico, coração não significa emoção. É o centro da vontade.
Perdoar de coração significa renunciar
deliberadamente ao direito da vingança. Perdoar
de coração não significa negar a dor e nem esquecer
automaticamente. Perdoar de coração
não significa restaurar imediatamente a relação. Perdoar de coração significa entregar o julgamento
definitivamente nas mãos de Deus.
No Salmo recebemos o anúncio de um
Deus que lança nossos pecados para longe. A história de José mostra uma vida de
perdão, onde não se busca a vingança. O apóstolo Paulo mostra que o perdão
molda a vida comunitária. Jesus revela que o perdão recebido se torna
necessariamente perdão oferecido. Tudo aponta para a cruz.
Na
cruz acontece aquilo que o Salmo apenas anunciava. Na cruz, Deus remove
definitivamente nossos pecados. Na cruz, Cristo se torna o verdadeiro José, que
salva exatamente aqueles que o feriam. Na cruz nasce a igreja descrita pelo
apóstolo Paulo. Na cruz aprendemos a viver como um servo perdoado.
1.Vivemos na cultura do cancelamento; Cristo chama para a cultura da
reconciliação.
A
sociedade atual preserva arquivos permanentes de erros. Redes sociais, notícias
e memórias digitais tornam fácil condenar alguém indefinidamente. O Evangelho
segue na direção oposta. Deus não minimiza o pecado, mas, em Cristo, oferece
perdão real e uma nova identidade. Isso desafia a igreja a ser um lugar onde o
arrependimento encontra acolhimento, e não uma sentença perpétua.
2.O ressentimento aprisiona quem o
alimenta.
Os
irmãos de José permaneceram presos ao medo por anos, mesmo depois de terem sido
perdoados. Da mesma forma, muitos vivem dominados por culpas antigas ou por
mágoas nunca entregues a Deus. O perdão cristão não altera o passado, mas
impede que ele continue governando o presente.
3.A liberdade cristã exige
humildade.
Em
Romanos 14, Paulo lembra que diferenças em questões secundárias não devem
romper a comunhão. Em uma época marcada por polarização, inclusive dentro das
igrejas, é necessário distinguir entre doutrinas essenciais e opiniões ou
práticas legítimas. O cristão é chamado a defender a verdade sem transformar
preferências pessoais em condição para a salvação.
4.Perdoar não é negar a justiça,
mas confiar o julgamento a Deus.
A
parábola de Mateus 18 não elimina a responsabilidade civil, a disciplina
eclesiástica ou a necessidade de proteger vítimas. Perdoar não significa
ignorar o mal ou permitir abusos contínuos. Significa renunciar à vingança
pessoal e confiar que a justiça pertence ao Senhor, que julga com perfeita
retidão.
5.O Evangelho cria uma comunidade
de pessoas perdoadas.
A
igreja não é formada por pessoas moralmente superiores, mas por pecadores
reconciliados com Deus. Quando essa verdade é esquecida, surgem legalismo,
dureza e julgamentos. Quando é lembrada, florescem misericórdia, paciência e
disposição para restaurar o irmão arrependido.
O
perdão de Deus é a fonte e o modelo de toda a vida cristã.
O Deus do Salmo 103 remove nossos pecados “tão
longe quanto o Oriente está do Ocidente”. Em José vemos esse perdão
tomando forma na história. Em Romanos, ele sustenta a comunhão da igreja. Em
Mateus, Jesus declara que quem recebeu uma dívida infinita cancelada não pode
viver cobrando, sem misericórdia, as pequenas dívidas do próximo.
O
perdão cristão não nasce do esforço humano, mas da cruz de Cristo. Somente quem
vive diariamente da absolvição concedida por Deus pode aprender a dizer, com
palavras e ações: “Assim como fui perdoado,
também perdoo”. Esse é o testemunho do Reino em um mundo marcado
pela vingança, pela polarização e pelo ressentimento.
Edson
Ronaldo Tressmann
Se
desejar fazer um pix voluntário e solidário
edson.ronaldotre@gmail.com