terça-feira, 25 de agosto de 2026

A morte diária do ego! (Mt 16.21-28)

 30 de agosto de 2026

Próprio 17 – Décimo Quarto Domingo após Pentecostes

Salmo 26; Jeremias 15.15-21; Romanos 12.9-21; Mateus 16.21-28

Texto: Mateus 16.21-28

Tema: A morte diária do ego!

 

Meus irmãos e irmãs, se há uma coisa que define a cultura do nosso tempo, é a nossa obsessão pelo “eu”. Vivemos em uma época que nos ensina, do amanhecer ao anoitecer, a olhar para dentro de nós mesmos, a buscar a nossa autossatisfação, a promover a nossa imagem e a proteger, a qualquer custo, os nossos próprios interesses. A sociedade moderna nos diz que a chave para a felicidade é a autoafirmação: construir uma reputação sólida, acumular conforto e garantir que os nossos desejos estejam sempre no centro. Desde o momento em que a gente acorda até a hora de deitar, o mundo fica dizendo no nosso ouvido: Você tem que pensar em você primeiro. Faça a sua vontade. Garanta o seu terreno, proteja o seu orgulho e não leve desaforo para casa.

A gente aprende desde cedo a colocar o nosso “eu” no centro de tudo e é ele que precisa mandar na nossa casa, no nosso trabalho, nas nossas conversas e até na igreja.

O pastor Timothy Keller explicou no livro Ego Transformado que o nosso “ego” é feito de quatro coisas: é vazio, porque tenta encher o coração com coisas que passam e nunca se satisfaz. É dolorido, qualquer palavra torta, qualquer coisinha que não sai do nosso jeito já faz a gente remoer raiva e ficar chateado. É ocupado, passa o tempo todo querendo se comparar com o vizinho ou provar que está certo. É frágil, qualquer tempestade, perda ou decepção derruba de uma vez.

O grande perigo na caminhada com Deus é querer usar o Senhor só para abençoar a nossa vontade. As pessoas desejam que Deus guarde sua lavoura, proteja sua saúde e faça seus gostos interesseiros, mas não quer que Jesus mande em sua vida que em muitas situações pede para “abrir mão” dos nossos interesses.

Mateus 16 traz um relato sobre Pedro e por ele Jesus nos dá um recado muito claro e direto. Jesus não veio para fazer nossas vontades; Jesus pede o ego morra para e vivamos verdadeiramente.

O texto bíblico (Mt 16.21-28) apresenta um momento de grande virada no ministério de Jesus, “Desde então” (Mt 16.21).

Até antes desse episódio, Jesus estava ensinando as multidões, curando os doentes e fazendo grandes milagres. E num momento a sós com seus discípulos, Pedro pelo poder do Pai fez uma verdadeira declaração de fé: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!

E, desde aquele momento, Jesus começa a explicar como seria de fato a sua missão. Jesus disse aos discípulos que precisava ir para Jerusalém, que iria passar por muitos sofrimentos nas mãos das autoridades, que seria morto numa cruz e que, ao terceiro dia, ressuscitaria.

Ao ouvir isso, os discípulos se chocaram e Pedro, que pelo poder do Pai tinha acabado de confessar que Jesus era o Messias, agora, por força de si mesmo, chama Jesus de lado e o repreende dizendo:Deus não permita isso, Senhor! Isso nunca vai acontecer com o Senhor!” (Mt 16.22).

Por que Pedro fez isso? Pedro queria um Messias forte, com poder terreno, sem dor, sem sofrimento e sem cruz. Pedro queria a vitória de Jesus, mas não queria o caminho da dor. Pedro quis que Jesus e sua missão coubesse em seu próprio pensamento.

A resposta de Jesus para Pedro foi dura e direta: “Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço no meu caminho, porque não pensa nas coisas de Deus, mas sim nas coisas dos homens” (Mt 16.23).

Por que Jesus falou assim com Pedro? Porque a ideia de alcançar a glória sem passar pela cruz era a mesma tentação que o diabo tinha apresentado a Jesus no deserto (Mt 4).

Jesus Chamou Pedro de pedra de tropeço. Uma pedra de tropeço é uma pedra no meio do caminho. É a pedra escondida na terra que faz a junta de bois parar; que quebra o arado ou; que faz o caminhante tropeçar e cair feio.

Quantos estão tropeçando em pedras de tropeço ou até sendo uma pedra de tropeço. Pessoas querem um Jesus que perdoe os pecados, todavia, quando se pede que se abra mão dos próprios interesses por sua causa, parece ser inadmissível. Jesus pede para você “abrir mão” da sua razão e perdoar àquele que te ofendeu; passe por essa provação sem murmúrio.

Ainda há muitas pessoas sendo pedra de tropeço, ou seja, buscam um Jesus que sirva aos seus interesses, ao invés de servirem aos interesses de Cristo.

Diante do ataque do diabo por boca de Pedro, vendo Jesus que seus discípulos não tinham entendido o seu caminho, Jesus olha para eles e diz: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

Jesus usa três ordens bem claras aqui.

Negar a si mesmo

A palavra usada para “negar” é a mesma que Pedro usou mais tarde, na noite em que Jesus foi preso, quando disse três vezes: “Eu não conheço este homem!”.

Negar a si mesmo é olhar para a própria vontade, o orgulho, a teimosia, e dizer com firmeza: “...vocês não têm autoridade sobre mim; ...”.

Negar a si mesmo não significa ficar se diminuindo ou achando que não tem valor. Seus interesses são importantes e Jesus não os desvaloriza, todavia, o negar a si mesmo é tirar o seu orgulho do comando e entregar as rédeas da vida nas mãos de Jesus.

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

Tomar a sua cruz

No tempo de Jesus, a cruz era o instrumento de execução mais terrível que existia. Quando os moradores viam um homem caminhando pelas estradas carregando a madeira da cruz nas costas, sabiam de três coisas. 1) - Esse homem perdeu seus direitos (não adiantava mais discutir, dar explicações ou tentar se defender); 2) - Esse homem se rendeu (estava debaixo do poder do império). 3) - Esse homem estava num caminho sem volta (quem saía carregando a cruz não voltava para casa no fim do dia para jantar com a família, ele ia para a morte).

Tomar a cruz não é suportar as lutas normais da vida. Tomar a cruz é a decisão diária de se manter fiel a Jesus, mesmo quando o melhor parece ser abandoná-lo.

Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

Siga-me

As duas primeiras atitudes: negar a si mesmo e tomar a cruz, são decisões firmes que a gente toma de uma vez por todas. Mas, “seguir”, significa um passo atrás do outro, todo santo dia.

Quando caminhamos numa picada, dentro de uma mata com alguém, aquele que caminha na frente é aquele que conhece o caminho. O caminhante segue atrás, pisando no caminho por onde o guia passou. Por um breve momento, talvez com ego ainda inflado pelo elogio, Pedro, quis caminhar na frente e ensinar a Jesus o que era melhor a se fazer. Por isso, as palavras “Para trás de mim...” é um chamado de Jesus para que Pedro ocupe o seu lugar e o siga, mesmo sendo por um caminho árduo.

        Jesus continua o seu ensino fazendo uma conta muito simples, que qualquer pessoa entende: “Porque quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa vai achá-la” (Mt 16.25).

O mundo diz que para ganhar a vida você tem que ajuntar tudo o que puder. O mundo diz que para ganhar a vida, é preciso defender seus direitos, pensar apenas no seu bem-estar. E, em oposição a isso, Jesus diz claramente que, quem vive desse jeito, buscando guardar tudo para si e defender seus direitos e fugindo do compromisso com Deus, vai chegar no final da jornada com as mãos completamente vazias. Por outro lado, aquele que “perde” os seus próprios interesses por interesse de Cristo, aquele que gasta seu tempo servindo aos irmãos, que usa os seus recursos para o bem do próximo e que deixa o seu orgulho ser crucificado, encontra a verdadeira vida. Por isso, Jesus questiona: “Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou o que o homem poderá dar em troca da sua alma?” (Mt 16.26).

Pense naquele homem que trabalhou a vida inteira. Comprou muitas terras, encheu o pasto de gado, ajuntou uma boa quantia no banco e conseguiu o respeito de todo mundo na região. Mas, para conseguir tudo isso, viveu de costas para Deus, alimentando seus próprios interesses e esquecendo da sua salvação. Quando chegar a hora de partir desta terra e ele estiver diante de Deus (Mt 16.27), de que vão adiantar as escrituras dos terrenos, o gado ou as benfeitorias? Nada disso compra a salvação de uma alma. O mundo inteiro não paga o valor da nossa vida eterna. Caríssimos, vivemos apenas uma vez. Pode ser que nossa vida seja interrompida pelo viver aqui, mas, a vida é uma. E o que será depois?

A verdadeira libertação não é a gente se achar melhor do que os outros, nem ficar se diminuindo. A verdadeira libertação é parar de pensar tanto em si mesmo e começar a olhar para Cristo.

Quando o ego morre:

- Não se fica com raiva quando alguém não elogia;

- Não perde o sono tentando defender a própria fama;

- Não fica amargurado quando as coisas na vida não saem do nosso jeito.

- Confia que a vida está guardada nas mãos daquele que deu a própria vida por nós na cruz.

O Evangelho da cruz é o evangelho da graça que transforma nossa vida inteira. A salvação é um presente do amor de Deus e para caminhar com Jesus, o ego precisa morrer diariamente.

Sob a cruz de Cristo nosso homem velho precisa morrer para vivermos a verdadeira vida. Que o Espírito Santo nos dê humildade e coragem para dizer não aos nossos próprios interesses que tantas vezes nos fazem tropeçar e ser uma pedra de tropeço. Deus abençoe a todos. Amém.

Oração

Senhor, nosso Deus e Pai querido, te agradecemos por tua Palavra tão clara e verdadeira. Reconhecemos diante do Senhor que o nosso coração muitas vezes é teimoso e cheio de orgulho. Muitas vezes queremos as tuas bênçãos e não queremos ser uma bênção seguindo teus passos.

Perdoe nossos pecados e tira de nós o orgulho, a vaidade e o desejo fazer prevalecer a nossa razão. Ensina e ajuda-nos a negar a nós mesmos, carregar nossa cruz e seguir teu Filho. Em nome de Jesus, oramos. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

Se desejar fazer um pix solidário

edson.ronaldotre@gmail.com

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A opinião pública e a voz do Pai! (Mt 16.13-20)

 23 de agosto de 2026

Próprio 16 – Décimo Terceiro Domingo após Pentecostes

Salmo 138; Isaías 51.1-6; Romanos 11.33-12.8; Mateus 16.13-20

Tema: A opinião pública e a voz do Pai!

 

            A voz do povo é a voz de Deus! Será?

       Os evangelhos registram que Jesus tentou por muitas vezes ficar sozinho com seus discípulos. Por nove vezes, esse plano foi fracassado e nessa, a décima oportunidade, Jesus chegou com seus discípulos aos vales solitários onde está a nascente do rio Jordão, aos pés do Monte Hermon, na cidade de Cesareia de Filipe.

       Podendo ter um momento a sós com seus discípulos, Jesus questiona sobre a opinião pública sobre: “Quem o povo diz que o Filho do Homem é?” (Mt 16.13).

       A designação Filho do Homem aponta para o mediador encarnado que verdadeiramente nasceu da virgem Maria, sofreu, morreu, ressuscitou e voltará para julgar.

       A opinião pública a respeito sobre quem era Jesus variava. O Rei Herodes Antipas o tinha como ressurreição de João Batista. Outros, recordavam da profecia anunciada pelo profeta Malaquias (Ml 4.5) e diziam que Jesus era Elias devolvido a terra. Outros, recordando 2Macabeus (2Mac 2.4) acreditavam que o profeta Jeremias saiu da caverna, onde guardava o tabernáculo e arca da aliança. Outros diziam que Jesus fosse algum dos profetas.

       Apesar dessas opiniões positivas a respeito de Jesus, elas destacavam que Jesus não era o Messias. Além dessas opiniões positivas, vemos ao longo dos evangelhos opiniões negativas, tal como dos parentes de Jesus que o consideravam louco. Pessoas piedosas o tinham como alguém que andava com gente que não presta, tal como publicanos e pecadores e ainda um beberrão e comilão. Religiosos e políticos o tinham como um entusiasta, um inovador perigoso, charlatão e blasfemo.

       De acordo com a opinião pública, era unânime que Jesus não era o Messias. Nem sempre a voz do povo é a voz de Deus. Isso fica mais evidente, quando Jesus perguntou se eles concordavam com essa opinião pública e ouvimos Pedro responder, como sendo uma voz direta de Deus, que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.16).

       A voz de Deus, diferentemente da opinião pública, disse por boca de Pedro que Jesus é o Messias, o Cristo, o Ungido. Ou seja, o Filho do Homem é o Filho do Deus vivo, é o próprio Deus vivo. O próprio apostolo João enfatiza Jesus como sendo o eterno filho de Deus (Jo 1.1-18).

       Essa verdade e confissão dada pelo Pai, por boca de Pedro, é a rocha sobre a qual a igreja está edificada. Pela opinião pública, por suas muitas posições mesmo que positivas sobre Jesus, apenas afastam pessoas dessa confissão central.

       Qual é a opinião pública sobre Jesus?

A opinião pública sobre Jesus é variada e complexa. Muitas pessoas o veem como um homem que pregou o amor, a fraternidade, a paz e a justiça, admirando sua coragem diante do poder estabelecido e sua dignidade diante da morte. No entanto, muitos não reconhecem Jesus como o Messias prometido, preferindo soluções sociais e econômicas que regulariam a vida do mundo. A pesquisa de Lee D. Ross revelou que as opiniões de grupos protestantes e católicos, liberais e conservadores, são muito diferentes da opinião que o próprio Jesus teria atualmente.

       Confessar e crer na voz do Pai de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo é essencial. A partir dela, recebemos da boca de Jesus uma maravilhosa promessa de Jesus: “...e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e nem a morte poderá vencê-la...” (Mt 16.18, NTLH); “...sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela...” (Mt 16.18, ARA).

       Os israelitas imaginavam o reino dos mortos como sendo uma fortaleza em que havia uma porta de entrada. Quem atravessasse essa porta se mantinha preso e ninguém retornava do reino dos mortos.

       Jesus, ao ter sido revelado pelo Pai, por boca de Pedro, que é o Filho do Deus vivo, o próprio Deus vivo, é o vencedor da morte. Ele não permaneceu na sepultura. E a igreja, os que creem nessa verdade de que Jesus é o vencedor da morte, é o Deus vivo, pode se alegrar e refugir na certeza de que há vida eterna.

       Por essa razão, a igreja, tal como um batalhão em prontidão, com soldados ativos, “...apresentam o ... corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional... sendo um só corpo em Cristo e membros uns dos outros, tendo, ..., diferentes dons segundo a graça que nos foi dada... segundo a proporção da fé; ... dedicando-nos ao ministério; ...” (Rm 12.1,5-8).

       As portas do inferno, ou seja, opiniões públicas, mesmo que positivas a respeito de Jesus, querem nos afastar da fé no Cristo, o Filho do Deus vivo.

       As chaves do Reino dos céus continuam na igreja. Essa chave é Cristo, aquele que abre a porta do céu ao pecador arrependido. A mensagem do Cristo, o Filho do Deus vivo, como escreveu Paulo, continua sendo perfume para vida e para outros, cheiro de morte (2Co 2.12-14).

       Nem sempre a opinião pública é a voz de Deus e ainda hoje, a voz de Deus, pela confissão da Igreja, continua dizendo que Jesus é o Messias, o vencedor da morte que concede perdão, vida e salvação. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

Se desejar fazer um pix voluntário:

edson.ronaldotre@gmail.com

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sim, Senhor! A fé que se agarra à misericórdia de Cristo.

 16 de agosto de 2026

Próprio 15 – Décimo Segundo Domingo após Pentecostes

Salmo 67; Isaías 56.1,6-8; Romanos 11.1-2ª,13-15,28-32; Mateus 15.21-28

Tema: Sim, Senhor! A fé que se agarra à misericórdia de Cristo.

 

          É impressionante do que o amor de uma mãe é capaz. Respostas humilhantes e afirmações quase de repulsa não a ofendem quando a situação envolve socorrer seu(sua) filho(a). Não importa o que dizem de uma mãe, ela sempre busca pelo bem do(a) filho(a).

          Jesus havia ido para Tiro e Sidom. Os Tirios eram muitos hostis aos judeus. Suas práticas religiosas e culturais divergiam significativamente do judaísmo. Os judeus viam os cananeus como idólatras e moralmente corruptos.

          Jesus, enviado para as ovelhas perdidas de Israel, atravessa as fronteiras étnicas e nesse lugar, há um evento que destaca o quanto uma mãe supera de obstáculos para encontrar socorro para sua filha. O relato enumera que a misericórdia de Deus não conhece limites geográficos ou culturais.

          Se em Israel, entre os judeus que conheciam as leis e as promessas, Jesus era rejeitado e questionado, numa região gentia, onde as crenças judaicas não eram a norma, Jesus encontra uma fé nele que o levou a destacar essa fé.

          Na época de Jesus, a mulher era reconhecida como sendo inferior ao homem e com um papel muito limitado. A mulher não participava da vida pública e entre os judeus, a mulher não era mais que um objeto pertencente ao marido e sua servidora. Sua palavra não tinha valor, nem sequer diante de um juiz.

          A luz desse pensamento, para muitos era correto o fato de Jesus, diante do pedido dessa mulher estrangeira, tê-la ignorado, demonstrado aparente preconceito e insensibilidade aos seus sofrimentos dela e tê-la humilhada publicamente.

          Essa mulher e mãe, poderia ter se afastado, mas, foi persistente, afinal, ela apesar do seu amor pela filha, acreditava na misericórdia de Jesus.

          O evangelho de Marcos 3.7-8 registra que Jesus tornou-se conhecido na região de Tiro e Sidom e àquela mulher confirmou o que em Israel era discussão. Os líderes em Israel discutiam se Jesus, por causa de suas palavras e atos, era de fato o Filho de Davi, àquela mulher, em terra estrangeira e pagã, considerada pelos judeus como cães, clama: “Senhor, Filho de Davi, tenha pena de mim!” (Mt 15.22).

          Notemos a combinação dos títulos “Senhor” e “Filho de Davi”. Ou seja, ela crê em quem é Jesus e por saber da sua situação, iniciou o contato com o lamento tradicional dos mendigos: “tem misericórdia de mim”.

          Uma mãe desesperada clama por sua filha, mas diz para que Jesus tenha misericórdia dela como mãe. Os filhos não percebem o quanto uma mãe sofre por causa deles.

          Não bastasse o seu sofrimento, essa mulher parece ter sido submetida a três testes.

          O primeiro teste é do silêncio.

          Nada é pior do que você falar com alguém e esse alguém não responder. Liga e não atende. Envia mensagem e não responde. Procura e não encontra.

          Essa mulher já estava se humilhando em estar gritando. Seus gritos chegaram a incomodar os discípulos (Mt 15.24) e ainda teve que passar pela aparente indiferença de Jesus.

          Homens não falavam com mulheres em público; judeus não falavam com gentios; rabinos respeitáveis não falavam com mulheres. O agir de Jesus não era estranho para os discípulos e por isso pedem que a mande embora.

          Não foi a indiferença de Jesus que incomodou os discípulos, i incômodo foi o barulho daquela mulher. Mas, essa mulher e mão, convicta de sua fé, continua clamando.

          Jesus, como sempre, deseja ensinar seus discípulos e por isso, parece ser correto despedir e mandar essa mulher barulhenta embora, afinal, Jesus foi enviado para as ovelhas perdidas de Israel (Mt 15.24). Para bons ouvidos, essa fala de Jesus foi uma direta de que, ela não era parte da prioridade de Jesus. E, mesmo tendo ouvido isso, essa mulher com convicção de fé se ajoelha diante de Jesus e súplica: “Senhor, me ajude!” (Mt 15.25).

          Observe o quanto uma mãe é capaz de fazer. Todavia, essa mãe foi ao extremo por crer fielmente quem era Jesus.

          Mesmo, diante de uma mãe caída aos seus pés, Jesus para verbalizar a convicção teológica dos seus discípulos disse: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo para os cachorros” (Mt 15.26). Possivelmente os discípulos estavam orgulhosos de seu mestre, o mestre que havia os colocado em confusão após o embate com os líderes judeus (Mt 15.1-20).

          Mas, é exatamente aí que o texto chega a um clímax.

          Na cultura daquela época, os cães só eram um pouco menos desprezíveis do que os porcos. E mesmo assim, diante de tal humilhação aparente, a mulher, por fé responde: “Sim, senhor, — respondeu a mulher — mas até mesmo os cachorrinhos comem as migalhas que caem debaixo da mesa dos seus donos” (Mt 15.27).

          Senhor, eu sei quem tu és, quem é teu povo, mas, eu sou apenas um cachorrinho que quer se alimentar das migalhas dos seus filhos, cuja mesa está farta.

          Essa mulher percebeu e creu na grande e na suficiência da graça que ela sabia não merecer. Tanto que essa mulher se apropriou das palavras de Jesus e destacou que sim, ela sabia que era cachorrinho, e que nada merecia, mas queria apenas, assim como os cachorrinhos em casa, se apropriar das migalhas.

          Ela reconhece que Jesus tem misericórdia para todos. E todo seu pedido é por uma migalha de misericórdia para sua filha.

          O texto em última análise deseja mostrar para os discípulos a diferença do tratamento prático a partir da lei e da cultura. Lutar contra nossas convicções enraizadas não é fácil.

          A fé que salva é a fé que se satisfaz apenas e somente na dádiva imerecida. Por isso, no sermão do monte, Jesus havia dito que os “mendigos de espírito” são felizes. Como escreveu o apostolo Paulo aos Romanos: “...se a escolha de Deus se baseasse no que as pessoas fazem, então a sua graça não seria a verdadeira graça” (Rm 11.6) e aos cristãos da Ásia Menor: “Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus” (Ef 2.8). A graça concede o que a justiça própria não alcança e a fé recebe o que os méritos não podem merecer. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

Se desejar fazer um pix voluntário pelo material, agradeço.

Pix: edson.ronaldotre@gmail.com

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Quando as águas se levantam, Cristo continua sendo o Senhor.

09 de agosto de 2026 - Próprio 14 – 11° Domingo após Pentecostes

Salmo 18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33

Tema: Quando as águas se levantam, Cristo continua sendo o Senhor.

 

Será que Deus está vendo o que está acontecendo comigo?

O Salmo 18 é um cântico de Davi após experimentar a libertação de Deus. O contexto indica que Davi não está falando de uma teoria sobre Deus, fala como alguém que foi cercado pela morte e experimentou a intervenção divina.

Ao escrever “Eu te amo, ó Senhor, força minha” usando o verbo רָחַם (rāḥam) no sentido de amar profundamente, ter compaixão, demonstrar afeição, Davi não está destacando que “ele é forte”, mas que “Deus é a sua força”.

Temos aqui uma das grandes diferenças entre a fé bíblica e a espiritualidade moderna. A espiritualidade moderna diz que você precisa descobrir a força que existe dentro de você. A fé bíblica anuncia descubra aquele que é a sua força.

Para enfatizar com todas as letras que Deus é a sua força, Davi utiliza-se de sete imagens para um único Deus. Minha força; minha rocha; minha fortaleza; meu libertador; meu Deus; meu escudo; minha salvação; meu alto refúgio. Não se trata de uma mera repetição desnecessária, se trata de uma teologia experiencial pela qual Davi diz que “não sabe explicar tudo o que aconteceu com ele, mas sabe quem esteve com ele”.

Davi relata o drama vivido escrevendo que “laços de morte me cercaram”. A expressão hebraica apresenta a morte como um caçador que lança suas cordas sobre a vítima. Davi, no seu limite, não faz uma oração decorativa, ele grita. A fé verdadeira aprende a clamar.

Não existe na Bíblia, uma fé que nunca sofre, existe uma fé que clama em meio ao sofrimento. No sofrimento, Deus conduz o pecador a abandonar sua autoconfiança.

A história de Jó mostra que quando Deus respondeu os questionamentos de Jó, não fez uma explicação detalhada sobre o sofrimento. Deus revelou quem Ele é ao dizer: “Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra?

        O problema no livro de Jó não é sobre o porquê Jó estava sofrendo? Mas, sobre quem sou eu diante do Criador? Por isso, a pergunta “onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra?” é ontológica, ou melhor, Deus questiona: “Onde você estava quando Eu criei aquilo que você sequer consegue compreender?

A utilização de imagens do mundo antigo, fundamentos da terra; medidas; cordel; bases; pedra angular; mar; portas; profundezas; morte, não visa fornecer uma cosmologia científica, o ponto é teológico, ou seja, destacar que o mundo não está fora de controle. O mundo possui um Criador; o caos não é Deus; o mar não é uma divindade rival; a morte não possui a última palavra.

Quando lemos que Jesus caminha sobre o mar, muito mais que uma descrição de que Jesus domina o mar, temos uma revelação cristológica. Jesus está fazendo algo que, no Antigo Testamento, pertencia ao próprio Deus. Por isso a reação dos discípulos: “verdadeiramente és Filho de Deus!

A narrativa apresentada por Mateus não termina com “Jesus realizou um milagre”, termina destacando quem é Jesus? E a resposta é Ele é o Filho de Deus.

Os discípulos não procuram Jesus no meio do mar. Jesus vai até eles. Na verdade, eles estavam tão ocupados em remar e com tanto desespero que nem sequer reconheceram a Cristo.

        O apostolo Paulo ao escrever aos Romanos não digas em teu coração” (Rm 10.6) objetiva enumerar que o homem religioso quer subir, alcançar Deus, conquistar Deus, produzir sua própria justiça. E Paulo questiona quem descerá ao abismo? para elencar que a lógica do Evangelho é surpreendente, pois o homem não precisa subir ao céu e nem descer ao abismo. Deus já realizou a obra em Cristo. E essa ...palavra está perto de ti” (Rm 10.8). O apostolo Paulo chega ao centro da questão enfatizando que Deus não está distante, Deus se aproxima através da Palavra, mesmo em meio a tempestade.

Não precisamos de uma experiência extraordinária para encontrar Deus. Deus vem ao nosso encontro por meios concretos: Palavra; Batismo; Santa Ceia; pregação; absolvição.

        Seja qual for a tempestade, por ela se é conduzido a confessar a fé. Por isso, nos convém olhar atentamente as palavras “se com a tua boca confessares...” (Rm 10.9).

Paulo utilizou o verbo ὁμολογέω. Esse significa confessar, declarar publicamente, reconhecer.

Confessar Jesus como Senhor significa reconhecer Jesus é quem Ele diz ser. Observe que em meio a tempestade, Jesus disse aos seus discípulos: eu sou e, logo depois os discípulos confessaram: verdadeiramente Ele é o Filho de Deus.

É preciso, antes de julgar, que os discípulos estavam no naquela tempestade não poder terem sido desobedientes. Eles estavam ali porque Jesus os mandou. Isso significa que não basta estar na obediência para não ter tempestade.

        Mateus narra que o barco estava longe. O verbo βασανιζόμενον carrega a ideia de ser atormentado, afligido. O barco não está simplesmente navegando, está sendo torturado pelas ondas e Jesus aparece entre três e seis da manhã, ou seja, depois de uma longa noite. Em meio ao cansaço e falta de força dos discípulos, Jesus veio até eles.

Jesus chegou até eles enumera a mesma estrutura de Romanos 10. Não foram os discípulos que “subiram até Jesus” foi “Jesus que veio até eles”. E Jesus veio até eles caminhando sobre o mar”. O mar não o domina; o vento não lhe causa medo; a tempestade não o assusta. Assim, quando retornamos a pergunta feita em Jó 38: quem é o Senhor que governa o mar? Recebe a resposta pelo evangelista Mateus de que é Jesus.

        Quando Jesus responde ...sou eu...” (Mt 14.27) diante do questionamento dos discípulos sobre quem ele era, achando ser um fantasma, Jesus se identifica assim como o Senhor se identificou com Moisés na sarça ardente.

Mesmo que em meio ao vento forte, os discípulos tenham encontrado segurança na Palavra de Jesus, também nessa situação, ocorre uma tensão muito humana. Pedro quer uma confirmação: Senhor, se és tu...”. Quem já não viveu uma situação em que a fé se mistura com a dúvida? Jesus não o rejeita, pelo contrário, convida: “Vem!”.

        E aqui está um ponto importante para nossa reflexão. Por um breve momento, Pedro anda sobre as águas. Pedro sai do barco e participa do milagre, mas sua fraqueza se mostra num detalhe, “reparando na força do vento, teve medo”.

Jesus vai ao encontro de Pedro, o segura firme, e estando seguro nas mãos de Cristo, o exorta: “Homem de pequena fé, por que duvidaste?” O grego ὀλιγόπιστε, homem de pequena fé” destaca uma fé pequena e vacilante. Temos aqui uma das grandes consolações do texto, Jesus não exige uma fé gigantesca para salvar.

        Pergunte-se: em quem a minha fé confia? A eficácia da fé não está na intensidade. Não se é salvo porque acreditamos “fortemente”. Uma fé fraca em Cristo também salva.

        Pedro queria caminhar sobre as águas e Cristo o conduz. Todavia, não consegue se sustentar por si só”. Na tempestade temos nossa fraqueza revelada e a necessidade de clamar por socorro.

Deus não constrói nossa confiança mostrando nossa capacidade. Cristo destrói nossa autoconfiança para nos ensinar a confiar somente nEle.

Quando Pedro estava afundando, “Jesus imediatamente estendeu a mão”. Temos aqui o verbo mais bonito dessa passagem, εὐθέως ἐκτείνας τὴν χεῖρα, imediatamente, estendendo a mão...” (Mt 14.31).

Observe que Jesus não espera Pedro melhorar. Jesus não diz para que Pedro, primeiro aumente sua fé. Jesus simplesmente estendeu a mão.

        O Evangelho dessa passagem é a palavra imediatamente. Pedro afunda e grita: Senhor, salva-me! e Cristo age, estendendo sua mão imediatamente.

Se no Salmo 18, o salmista escreveu “na minha angústia invoquei o Senhor”. Se em Romanos 10, Paulo anotou que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. E se o evangelista Mateus 14 destacou a súplica de Pedro: “Senhor, salva-me!”, tudo isso não são meras coincidências. É uma linha teológica que visa enfatizar que todo aquele que está em aflição pode clamar ao Senhor e o Senhor salva aquele que clama.

        É particularmente útil perceber a continuidade entre Antigo e Novo Testamento. O Deus que domina as águas em Jó e no Salmo não é diferente daquele que o evangelista Mateus narra sobre. O Senhor da criação está presente na pessoa de Jesus.

O relato sobre a caminhada sobre as águas não é uma história sobre Pedro. É uma história sobre quem Jesus é. E pela confissão dos discípulos, descobrimos que Jesus verdadeiramente é o Filho de Deus” (Mt 14.33).

        O que começou com medo; passou pela dúvida; se tornou clamor e salvação, para finalmente concluir em confissão. A tempestade se tornou lugar de revelação e isso é profundamente cristão.

Quantos ainda hoje se perguntam: Por que Deus permite a tempestade? A partir dos textos de hoje, a resposta é: para que conheçamos quem Jesus é quando nossas forças acabam. Deus não abandona seu povo no caos.

        Os textos (Salmo 18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33) trazem uma teologia da descida de Deus diante da religião humana que tenta subir até Deus.

        Desde os pais da igreja, há uma interpretação de que o barco em meio a tempestade é a imagem da Igreja. Claro que não se pode forçar a alegoria, mas, pela própria narrativa nos é permitido aplicar pastoralmente dessa forma.

O barco, a igreja, está em águas agitadas; está longe da terra; enfrenta vento contrário; carrega discípulos; parece vulnerável; mas está sob a Palavra de Jesus, sou eu, não tenham medo.

        A Igreja pode estar no meio da tempestade, mas não está abandonada por Cristo.

        Pedro comete um erro muito humano. Passa a medir Jesus pelo tamanho da tempestade que parece ser bem maior.

        Se você estiver numa tempestade, não pergunte se “sua fé é suficientemente forte?” Maior que a tempestade é Cristo e é justamente Ele por suas mãos (Evangelho) que nos agarra e nos sustenta. Quando Pedro estava afundando, Cristo estendeu a mão.

        Não olhe para o tamanho da sua fé, olhe para Cristo que pelo evangelho nos estende a sua graça.

O vento pode ser forte. A noite pode ser longa. A fé pode ser pequena. O barco pode estar prestes a afundar, mas Jesus Cristo continua sendo Senhor sobre as águas.

Você não precisa caminhar sobre as águas para provar que tem fé! Você é colocado na fé naquele que caminha sobre as águas e que de fato é o Senhor, o Filho de Deus!

Uma fé pequena em Cristo é suficiente. Cristo continuará sendo aquele que “imediatamente estendeu a mão” e a Igreja confessará que “verdadeiramente és Filho de Deus”. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

Se quiser voluntariamente fazer um pix edson.ronaldotre@gmail.com

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Quando a voz de Cristo vence o medo!

 09 de agosto de 2026

Próprio 14 – Décimo Primeiro Domingo após Pentecostes

Salmo 18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33

Texto: Mateus 14.22-33

Tema: Quando a voz de Cristo vence o medo!

 

Você já viu seu pai com medo? Imagine um homem sentado sozinho dentro do carro, depois de um dia difícil. Ele respira fundo. Olha para o celular. Uma mensagem sobre o filho. Uma conta que ainda não sabe como vai pagar. Uma preocupação com a família. Uma conversa que ficou mal resolvida. Um medo que ele não contou para ninguém. Então ele desliga o carro, enxuga o rosto e entra em casa.

Existem tempestades que ninguém vê. Existem homens que aprenderam a consertar coisas, pagar contas, trabalhar, proteger a família, resolver problemas... mas nunca aprenderam a dizer: eu estou com medo.

Além dos pais, existem filhos que carregam tempestades que ninguém percebe. Saudade, ausência, mágoas, palavras que nunca foram esquecidas, a vontade de ter tido um pai diferente. Ou simplesmente a dor de perceber que o pai que ama também é um homem limitado, imperfeito e cheio de lutas.

Talvez por isso o Evangelho de hoje seja tão atual.

O evangelista Mateus nos leva para dentro de uma tempestade. O vento soprava contra o barco. As ondas batiam com força. Homens experientes estavam remando. Mas não conseguiam avançar. Eles estavam fazendo tudo o que sabiam fazer e, mesmo assim, estavam afundando. Essa possivelmente é uma das experiências mais difíceis da vida: quando fazemos tudo o que conseguimos e ainda assim não conseguimos controlar o que está acontecendo. Naquela noite os discípulos descobriram que há tempestades que são maiores do que a nossa experiência. É aí que o Evangelho começa a falar conosco.

O Evangelho de hoje nos conduz para dentro de uma noite escura no mar. Ali descobrimos algo decisivo, Cristo não abandona seu povo nas águas.

          O “...barco já estava no meio do lago. E as ondas batiam com força no barco porque o vento soprava contra ele” (Mt 14.24), a expressão βασανιζόμενον ὑπὸ τῶν κυμάτων, literalmente significa “atormentado pelas ondas”.

Desde os Pais da Igreja o barco frequentemente simboliza a Igreja atravessando o mundo cercada por perigos. A igreja continua sendo “açoitada” por divisões, vícios, frieza espiritual, ansiedade, pressões econômicas, afastamento da fé.

Gostamos de acreditar que conseguimos resolver tudo. “Eu dou conta”; “Eu sei o que fazer”; “Eu já passei por isso antes”; “Eu consigo”; mas chega um momento em que não adianta já ter passado por isso ou aquilo e é justamente aí que Deus nos ensina que a nossa segurança não está na força que temos, mas naquele que está conosco.

Há tempestades que nos deixam cansados.

          Lutero dizia que Deus frequentemente conduz o cristão ao limite de suas forças para ensinar que a preservação da vida depende da graça e não do poder humano. Porque enquanto tudo vai bem, o homem confia em si mesmo, mas é no meio das tempestades que aprendem a clamar.

          Já de madrugada, entre as três e as seis horas, Jesus foi até lá, andando em cima da água” (Mt 14.25).

Jesus chega quando estamos no limite.

Perceba o horário. Era de madrugada, era o momento mais escuro. Os discípulos estavam cansados, pois tinham passado horas lutando contra o vento. E é justamente nesse momento que Jesus aparece.

Isso ensina que o silêncio de Deus não significa seu abandono.

Às vezes pensamos: “Deus se esqueceu de mim”; “Deus não está vendo”; “Por que Ele não faz alguma coisa?”; mas o fato de você não perceber, não significa que Deus não esteja trabalhando.

Jesus estava longe dos olhos dos discípulos, mas não estava longe deles. Isso também acontece conosco. Há momentos em que não conseguimos enxergar a presença de Deus, mas Ele continua presente.

A fé não depende daquilo que os nossos olhos conseguem enxergar. A fé depende daquilo que Cristo prometeu. Por isso, Romanos 10.17 diz: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo”.

Isso é muito importante. A fé não nasce porque a vida ficou fácil. A fé nasce quando Cristo fala.

          A fé dos discípulos não seria sustentada se o mar estivesse tranquilo, a fé é sustentada pela voz do Senhor. Isso também vale para nós. A fé não é sustentada pela estabilidade financeira, pelo sucesso dos filhos, pela ausência de problemas. A fé é sustentada pela Palavra de Cristo.

          Ao verem Jesus andando sobre o mar, os discípulos gritam de medo e pensam estar vendo um fantasma.

O coração humano, devido sua natureza pecaminosa, frequentemente interpreta a presença de Deus como ameaça quando ainda não reconhece sua voz.

No meio do medo, Jesus fala: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo!” (Mt 14.27).

Quando se ouve Jesus Cristo falar: “Sou eu”, ἐγώ εἰμι, “EU SOU”, não se trata apenas de uma identificação. Há um eco claro do nome divino revelado no Antigo Testamento. Ou seja, o Senhor que andou sobre as águas é o próprio Deus encarnado que anteriormente havia se revelado a Moisés na sarça ardente.

O Senhor está no meio da tempestade. E há algo muito bonito nessa cena. Jesus não acalma primeiro o mar para depois falar. Primeiro Ele fala, depois vem a paz. Isso é fundamental para a vida cristã. Temos aqui o centro de Romanos 10.17 onde a fé nasce quando Cristo fala.

Muitas vezes, queremos que Deus mude as circunstâncias para então conseguirmos ter paz. Todavia, Jesus em muitas situações faz o contrário. Primeiro Ele nos dá a sua Palavra no meio das circunstâncias para crermos que Ele vem ao nosso encontro.

          A tempestade, o vento e as ondas podem continuar, mas, se a Igreja é o barco, nesse barco existe uma Palavra, a Palavra de Deus. Essa Palavra muda tudo. No entanto, é preciso observar que Pedro anda sobre as águas, mas também tem medo.

Ao ouvir a Palavra de Jesus, Pedro exclama: “Senhor, se é o senhor mesmo, mande que eu vá até aí andando em cima da água”. Jesus responde: “Venha!

Pedro sai do barco e acontece algo extraordinário. Ele anda sobre as águas. Contudo é preciso observar que enquanto Pedro olha para Jesus, ele caminha seguramente, mas, a força do vento, as ondas, a tempestade, faz Pedro deixar de olhar para Jesus Cristo.

Isso é muito parecido com o que acontece conosco. Passamos muito tempo olhando para o tamanho dos problemas, das notícias, dos conflitos, nos sentimos fracos e julgamos não conseguir controlar e assim deixamos de olhar para Jesus Cristo e o medo nos paralisa.

Pedro acreditava, tinha fé, tanto que ouviu o convite de Jesus sobre vir e foi, mas Pedro também teve medo. Isso é muito importante. Ter fé não significa nunca sentir medo.

Muitos cristãos também têm fé e sentem medo. Um pai cristão pode confiar em Deus e ainda assim chorar, orar e continuar preocupado, conhecer a Palavra e, mesmo assim, passar por noites de angústia. Isso não significa que a fé desapareceu, significa que somos seres humanos pecadores.

          Enquanto os olhos de Pedro permaneceram fixos em Cristo, ele caminhava sobra as águas, em meio ao vento e a tempestade. Entretanto, Mateus narra que “...quando sentiu a força do vento, ficou com medo e começou a afundar” (Mt 14.30). Nossos olhos naturais, devido a natureza pecaminosa, muitas vezes desviam o olhar de Jesus Cristo. É preciso relembrar as palavras do apostolo Paulo aos coríntios: “Porque vivemos pela fé e não pelo que vemos” (2Co 5.7).

Caríssimos irmãos, enquanto nossos olhos estão voltados para Jesus Cristo, caminhamos seguramente sobre aquilo que naturalmente nos destruiria.

A fé sempre está misturada com a fraqueza decorrente do pecado. Pedro realmente crê, mas também teme e assim somos nós. Pais cristãos querem confiar, querem conduzir a família, querem permanecer firmes, mas frequentemente sentem a força contrária, O medo e o desespero em muitas situações os levam ao naufrágio, pois deixam de olhar para Cristo.

O fato é que muitas vezes, queremos, assim como Pedro ter uma certeza de que é a Palavra de Deus e pedimos para ir até Cristo. Mas, somos constantemente impedidos de seguir em direção a Cristo e quando naufragamos, Jesus vem ao encontro e novamente nos alcança. A nossa esperança nunca esteve na perfeição da nossa fé. A nossa esperança está em Cristo.

          Quando Pedro afunda, Jesus estende a mão.

Ao perceber que estava afunadando, Pedro faz uma oração de apenas três palavras: Senhor, salva-me!No grego, Κύριε, σῶσόν με!

Que oração simples. Não houve discurso. Não houve explicação. Não houve tentativa de mostrar força. Pedro simplesmente reconheceu que não consigo se salvar. Imediatamente Jesus estendeu a mão.

Aqui está o coração do Evangelho. Pedro não foi salvo porque teve uma fé perfeita. Pedro foi salvo porque Jesus é um Salvador perfeito.

Não foi a mão de Pedro que segurou em Jesus. Foi a mão de Jesus que segurou Pedro. Essa diferença é fundamental e isso traz enorme consolo para nós.

Pais imperfeitos, mães imperfeitas, filhos imperfeitos, famílias imperfeitas, cristãos imperfeitos. Não somos salvos porque conseguimos fazer tudo certo, somos salvos porque Cristo nos alcança por sua Palavra, cuidado e promessa.

Quando você não sabe mais o que dizer, Cristo continua sendo seu Salvador.

A salvação não repousa na perfeição da fé, mas no objeto da fé que é Cristo. Nossa esperança não está na perfeição humana, está em Cristo.

          Mateus narra que quando Jesus entrou no barco “vento se acalmou” (Mt 14.32) e então os discípulos adoram dizendo “De fato, o senhor é o Filho de Deus!” (Mt 14.33).

A tempestade termina em adoração. O milagre não é apenas demonstração de poder, é revelação de quem Jesus é. Jesus não é apenas um mestre moral, não é apenas um profeta, Jesus é o Filho eterno de Deus que domina o caos, o mar, o medo, o pecado, a morte. E é exatamente por isso que sua Palavra cria fé.

Na carta aos Romanos (Rm 10.17), o apostolo Paulo não fala de qualquer palavra religiosa. Fala da Palavra de Cristo. A fé nasce porque o próprio Cristo vem ao encontro de pecadores através da sua Palavra. Por isso podemos confiar nele.

Pais não precisam ser heróis.

Hoje é Dia dos Pais e vivemos numa época em que os homens são forçados a “serem forte o tempo todo”; “não demonstrar medo”; “ter que resolver tudo”; “dar conta de tudo”; e o Evangelho mostra Pedro afundando no meio do mar por causa do medo.

Pai, aprenda a gritar: Senhor, salva-me!Essa é uma das maiores lições para um pai cristão: Você não precisa ser um herói. Você precisa saber para quem clamar.

Um pai cristão não é aquele que nunca enfrenta tempestades. É aquele que, no meio da tempestade, ensina sua família a ouvir a voz de Jesus. afinal, chegará o dia em que o dinheiro, a experiência e as forças não serão suficientes. Os conselhos não irão satisfazer e tudo que nossos filhos precisarão saber é que soubemos clamar para Jesus.

A maior herança que um pai pode deixar aos seus filhos não é uma conta bancária, uma casa, um carro, um sobrenome famoso. A maior herança é ensinar os filhos a ouvir a voz de Cristo e clamar a ele nas horas difíceis.

Queridos irmãos, o barco continua atravessando mares difíceis. A igreja e a família continuam enfrentando ventos contrários. Não obstante, o centro do Evangelho não é o tamanho da tempestade, é a presença de Cristo e sua Palavra.

Cristo ainda vem ao nosso encontro. Ele vem através da sua Palavra, do Batismo, da Absolvição, da Santa Ceia. Jesus continua estendendo suas mãos para pecadores cansados e assustados dizendo: Sou eu. Não tenham medo”.

A Igreja e a família aprendem no meio do temporal aquilo que nunca aprenderiam num mar tranquilo: “De fato, o senhor é o Filho de Deus!” (Mt 14.33). Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

A morte diária do ego! (Mt 16.21-28)

  30 de agosto de 2026 Próprio 17 – Décimo Quarto Domingo após Pentecostes Salmo 26; Jeremias 15.15-21; Romanos 12.9-21; Mateus 16.21-28...