segunda-feira, 2 de março de 2026

Água viva para uma mulher sedenta

 08 de março de 2026

Terceiro domingo na Quaresma

Salmo 95.1-9; Êxodo 17.1-7; Romanos 5.1-8; João 4.5-26

Texto: João 4.5-26

Tema: Água viva para uma mulher sedenta

 

O evangelista João nos conduz a um encontro improvável: “Veio, pois, a uma cidade de Samaria chamada Sicar...” (Jo 4.5).

Jesus, judeu, fala com uma mulher samaritana, algo social, étnica e religiosamente improvável. No contexto do Dia Internacional da Mulher, este texto revela algo profundo: Cristo dignifica a mulher ao revelar-se a ela como o Messias. Não por mérito. Não por posição social. Mas por pura graça.

Deus escolhe o que é desprezado para revelar sua glória. O Evangelho não é recompensa para os fortes, mas consolo para pecadores.

          Dá-me de beber” (Jo 4.7).

Jesus inicia com um pedido. O criador pede água à criatura. Aqui vemos a humilhação do Filho de Deus.

O que temos aqui é a teologia da cruz. Deus se revela na fraqueza, não na aparência de glória. Cristo tem sede física, mas aponta para uma sede mais profunda: a sede da alma.

A mulher responde com surpresa: “Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim...?” (Jo 4.9). Ela vê divisões. Jesus vê necessidade.

No Dia Internacional da Mulher, lembramos que:

- Muitas mulheres carregam sede emocional, espiritual, social.

- Algumas vivem invisíveis.

- Outras carregam culpas secretas.

- Outras lutam para provar seu valor.

Jesus Cristo não começa com acusação. Jesus começa com convite: “Se conheceras o dom de Deus...” (Jo 4.10).

A Lei de Deus revelada em sua Palavra mostra a nossa sede. Todavia, o Evangelho de Jesus, oferece a água viva. E essa água viva não é conquista. É um dom oferecido gratuitamente por Jesus.

          Jesus ao oferecer a água viva aplica a lei ao dizer: “Vai, chama teu marido” (Jo 4.16). O intuito disso não era humilhar, afinal, essa mulher já havia tido cinco maridos e o atual não era seu marido. Jesus queria se revelar para ela.

          Ao lhe oferecer água viva, Jesus precisava dizer pra ela quem Ele era. Por isso, o diálogo sobre a sua vida moral era essencial. Afinal, a Lei expõe o pecado. O Evangelho consola o pecador. Sem Lei, não há sede. Sem Evangelho, não há esperança.

          O Dia Internacional da Mulher não é apenas celebração de força feminina. É também reconhecimento de:

feridas,

fracassos,

relacionamentos quebrados,

histórias difíceis.

          Você conhece alguma mulher que está sofrendo por um ou outro motivo? O que está fazendo? Espero que não seja você um causador dessa dor ou ferimento!

Observe que Jesus não ignora a verdade sobre a vida dessa mulher. Mas, não a abandona por causa dessa situação moral.

Jesus a conhece e Jesus permanece com ela, afinal, seu intuito é resgatar essa mulher. Caríssimo, infelizmente tenho observado algumas situações em que o homem tem se prevalecido e causado muitas dificuldades para mulheres. Também, há situações em que as mulheres têm abusado dos seus direitos e causados transtornos na vida de muitos homens.

Lembre-se: a dignidade cristã é ser conhecido plenamente e amado gratuitamente em Jesus Cristo.

          Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.26).

          Este é um dos momentos mais impressionantes do Evangelho: Jesus revela claramente sua identidade messiânica e o faz a uma mulher samaritana. Não aos fariseus. Não aos líderes religiosos.

No Dia internacional da mulher, isso ecoa poderosamente: a mulher, frequentemente marginalizada na história, é colocada aqui como primeira ouvinte explícita da auto-revelação messiânica de Cristo. Isso não é política moderna. É Evangelho eterno.

A identidade mais profunda da mulher cristã não está em papéis sociais, conquistas ou reconhecimento humano, mas em ser destinatária da graça de Cristo. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

O deserto interior: quando o coração coloca Deus no banco dos réus!

 08 de março de 2026

Terceiro domingo na Quaresma

Salmo 95.1-9; Êxodo 17.1-7; Romanos 5.1-8; João 4.5-26

Texto: Salmo 95.1-9

Tema: O deserto interior: quando o coração coloca Deus no banco dos réus!

 

          No Salmo 95 é o texto litúrgico mais famoso sobre Massá (Ler o Salmo 95).

          Davi, a quem esse Salmo é atribuído, transforma o evento geográfico em Refidim para advertir sobre a postura do coração (Sl 95.8-9).

          O problema em Massá não foi a sede, mas o fechamento da mente. O povo viu os milagres no Egito e no Mar Vermelho, mas se recusaram a crer que Deus estava de fato com eles. Por descrença deixaram de descansar em Deus.

          O Salmo 95 começa com um toque de trombeta para a adoração: “Vinde, cantemos ao Senhor!” (Sl 95.1), mas termina com um trovão de advertência. Spurgeon diria que a adoração que agrada a Deus não é apenas o som dos lábios, mas submissão a sua vontade. Davi nos transporta de volta ao deserto, não para nos ensinar geografia, mas para nos mostrar a anatomia da queda humana.

          O Salmo 95 é um convite que termina em um lamento; uma festa que termina em um funeral. Ele começa com o coro dos remidos exultando em Deus, a Rocha da nossa salvação, mas termina com a voz solene do próprio Deus jurando em sua ira devido a incredulidade. Um incrédulo é como um cadáver diante de Deus.

O salmista Davi, para quem se atribui esse Salmo, nos leva de volta a Massá e Meribá, não para uma lição de história, mas para um exame de cardiologia espiritual. O salmista nos mostra que o maior deserto não estava sob os pés dos israelitas, mas dentro deles.

Não sejam teimosos, como os seus antepassados foram em Meribá, quando estavam em Massá, no deserto” (Sl 95.8).

A incredulidade torna o coração como uma estrada batida pelo pecado, onde nada penetra e nada brota.

O povo não pecou por sentir sede (uma necessidade legítima), mas por transformar a sede em uma arma contra a soberania de Deus. O problema nunca é a circunstância difícil, mas o que fazemos com ela. Massá é o lugar onde o homem coloca Deus no banco dos réus.

Por causa da natureza pecaminosa, somos um solo rebelde. A sede do povo no deserto não foi o grave problema. Sempre há pessoas amadas por Deus passando por dificuldades. O problema do povo foi a exigência em forma de intimação.

Caríssimo irmão e irmã no Senhor: o endurecimento do coração começa quando paramos de ver Deus como um Pai amoroso e passamos a tratá-lo como um servo que deve satisfazer nossos caprichos.

O povo de Deus fechou sua mente para Deus. Voltando a frase de Spurgeon, destaco que tal como o barro que endurece no sol, quando resistimos a verdade da Palavra de Deus, o ser humano vai se tornando impenetrável pela verdade.

Ali eles me puseram à prova e me desafiaram, embora tivessem visto o que eu havia feito por eles” (Sl 95.9).

Spurgeon sempre fazia uma observação em seus sermões dizendo: “o mesmo sol que derrete a cera, endurece o barro”. O povo viu o Mar Vermelho se abrir, mas o milagre de ontem não alimentou a fé de hoje.

Observem o paradoxo da incredulidade. O mesmo povo que teve o Mar Vermelho diante dos seus olhos e uma magnifica libertação, agora estava em Maná, e seus estômagos influenciaram em sua mente alimentando a dúvida sobre o amor e a fidelidade de Deus para com eles.

Lembre-se: milagres não convertem ninguém. Se o coração está decidido a não crer, ele verá a mão de Deus e a chamará de “coincidência”, “sorte”, “destino”.

A incredulidade é voluntária, por isso é condenatória. Ela não é decorrente de um não desejo de Deus em não escolher. Àquele povo viu maravilhosas obras divinas, mas se recusaram a conhecer o “Caminho” (Sl 95.10). Eles queriam as mãos de Deus, ou seja, a provisão, mas recusavam seu coração a Deus, manter a comunhão com Deus.

Esse povo sobre quem o salmista escreve viu a obra de Deus, esse povo conhecia os caminhos de Deus (Sl 95.10).

Ao fazer esse destaque o salmista deseja nos lembrar que conhecer as obras de Deus é saber o que Ele faz. Conhecer os caminhos de Deus é saber quem Ele é.

A incredulidade do povo deve-se justamente ao fato de duvidarem sobre quem Deus é. Quem é Deus? Responder essa questão quando tudo está bem é uma coisa. Agora, responder essa pergunta quando tudo está ruim, é outra coisa.

O povo de Deus, aproveitando-se da sede, se deixaram levar pela conclusão de que Deus os havia levado até o deserto para matá-los. E isso foi um insulto a graça de Deus. Esse povo ousou medir a infinitude do amor de Deus pela finitude da sede.

Fiquei irado e fiz este juramento: ‘Vocês nunca entrarão na Terra Prometida, onde eu lhes teria dado descanso” (Sl 95.11; Hb 3.7-11).

A incredulidade não traz apenas consequências eternas. Na verdade, a incredulidade traz agitação presente. Quem não confia, não descansa. Quem não acredita, semeia dúvidas para outros.

O povo de Deus vagou por quarenta anos num deserto que em poucos dias poderiam ter atravessado. A incredulidade tornou o caminho mais longo. O descanso foi adiado.

O descanso de Deus é o que o apostolo Paulo escreveu aos Filipenses: a paz que excede todo entendimento.

A incredulidade é a prisão com grades de ansiedade. A incredulidade é a algema que nos mantém no deserto da preocupação. E para isso, temos a resposta de Jesus, que ao vencer o tentador disse o que Moisés interpretou sobre esse episódio: nem só de pão viverá o homem.

O castigo é a própria incredulidade. Quem não crê se condena a uma vida de agitação eterna. O “descanso” em Canaã era um símbolo do descanso da alma em Cristo.

          Da parte de Deus existe uma urgência do hoje. O salmista enfatiza: “Escutem hoje o que ele nos diz” (Sl 95.7). O amanhã é o período em que os tolos se perdem. A graça rejeitada hoje torna o coração mais duro para o convite de amanhã.

          O apóstolo Paulo ao escrever aos Coríntios (1Co 10.4) enfatiza que a rocha ferida em Massá, da qual saiu água, era figura de Cristo. Enquanto o povo murmurou contra a rocha, a rocha ferida, Cristo, os iria salvar.

          Caríssimo irmão e irmã no Senhor: não permita que as dificuldades, tragédias, situações adversas, feche a sua mente para a fidelidade e o amor de Deus em Cristo. A adoração a Deus é realizada por àquilo que Ele é.

          A rocha que foi ferida em Massá é a rocha ferida no Calvário. Da rocha em Massá saiu água para saciar a sede de um povo rebelde. Da rocha, Jesus Cristo, sai sangue e água para lavar o pecado do maior dos rebeldes.

          Jesus Cristo é o meu verdadeiro descanso. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O encontro que divide a eternidade.

 01 de março de 2026

Segundo domingo na Quaresma

Salmo 121; Gênesis 12.1-9; Romanos 4.1-8,13-17; João 3.1-17

Texto: João 3.1-17

Tema: O encontro que divide a eternidade.

 

          Nicodemos não era um homem comum. Ele era a elite da religião, da moral e do intelecto. Ele tinha currículo, tinha respeito e tinha a Lei de Moisés. Mas, sob o manto da noite, ele carregava algo que o status não podia preencher: um vazio inquietante.

          Nicodemos chega com elogios: “Rabi, sabemos que és Mestre vindo de Deus”. Ele busca estabelecer um diálogo intelectual, todavia, Jesus o interrompe. Jesus não quer o seu reconhecimento acadêmico, Jesus quer o novo nascimento. Jesus diz que ver o Reino de Deus não depende de esforço, mas de origem.

          A pessoa pode ser um mestre na igreja, um dizimista fiel e um cidadão exemplar, mas se não nascer de novo, continuará cego para as coisas de Deus. A moralidade sem novo nascimento é apenas um cadáver perfumado perambulando por aí.

          Nicodemos pergunta: “Como pode um homem nascer, sendo velho?”. Ele, tão sábio pensa no físico; mas Jesus fala do espiritual.

          Em janeiro de 1995, McArthur Wheeler e seu comparsa decidiram roubar dois bancos em Pittsburgh. Sem máscara, sem disfarce e confiando cegamente em um truque absurdo, eles acreditavam que não seriam identificados. A estratégia? Passar suco de limão no rosto para ficarem invisíveis.

          Wheeler baseou-se na ideia de que o limão pode ser usado para escrever mensagens invisíveis. O problema é que ele interpretou isso de forma literal. Depois de cobrir o rosto com o suco ácido, tirou uma foto com uma Polaroid para testar a eficácia do método. Como não conseguiu se ver na imagem, achou que estava pronto para agir. No entanto, é provável que a foto tenha saído errada ou que ele simplesmente não tenha conseguido enxergar direito.

          Quando foi preso, Wheeler ficou em choque ao descobrir que as câmeras captaram tudo. “Mas eu passei suco de limão em mim mesmo!”, exclamou, sem entender o que deu errado. O plano não só falhou, como ainda deixou seu rosto queimado e seus olhos irritados. A polícia não teve nenhum trabalho para identificá-lo.

          O caso chamou a atenção dos pesquisadores Justin Kruger e David Dunning que estudaram o fenômeno e chegaram a uma conclusão intrigante: pessoas com baixo conhecimento em determinada área tendem a superestimar suas habilidades.

          Esse efeito psicológico, batizado de Efeito Dunning-Kruger, mostra como a confiança excessiva pode levar a erros catastróficos.

          Assim foi com Nicodemos. Cego por sua suposta inteligência não conseguia captar as palavras de Jesus sobre o nascer de novo.

          Assim como o vento sopra onde quer, o Espírito sopra sobre quem Ele quer. Você não controla a Deus. O novo nascimento não é uma decisão administrativa da mente humana, é um milagre de Deus na alma.

          Jesus recorda a Nicodemos a história da serpente de bronze no deserto (Números 21). O povo estava morrendo pelo veneno da desobediência e a cura não veio de remédios humanos, mas de olhar para o alto. E assim como a serpente foi erguida no deserto, Cristo seria erguido na cruz.

          O veneno é o pecado que causa a morte eterna e o antidoto é a cruz. Não se trata de “tentar mais”, trata de “crer Naquele que foi levantado”.

          Jesus fala para Nicodemos sobre a fonte, o alcance e o propósito de sua obra (Jo 3.16). Observe que a salvação é para todo que crê e não apenas aos que Deus supostamente escolheu.

          A fonte é o amor de Deus. O alcance é o mundo. O propósito é a vida eterna.

          Nicodemos veio à noite. Afinal, tinha uma posição religiosa para preservar. Sua religiosidade estava baseada nas regras e aparências. No entanto, enquanto Jesus lhe falava, o Espírito Santo soprava sobre ele. Quando a Palavra de Deus é pregada, o Espírito Santo sopra sobre as pessoas. E os que rejeitam essa Palavra, correm o perigo de perder uma oportunidade valiosa.

O termo grego anothen (Jo 3.3) deve ser traduzido primariamente como “do alto”.

O novo nascimento não é apenas um “recomeço” (sentido temporal), mas uma mudança de origem (sentido espacial/espiritual).

Nicodemos era um mestre em Israel, mas Jesus o confronta com o fato de que nada que venha da “terra” (esforço, lei, rito) pode produzir o Reino. O novo nascimento vem de Deus, pelo poder do Espírito Santo. O homem é puramente passivo nesse ato, assim como um bebê não escolhe nascer fisicamente, a alma é regenerada pela ação do Espírito Santo.

          Jesus não está falando de duas coisas diferentes, mas de um único meio através do qual o Espírito opera pela Palavra. A água é o elemento visível, e o Espírito é o poder invisível.

A religião de Nicodemos era baseada em “fazer”. Jesus apresenta o “receber”. O novo nascimento é o “meio da graça” que Deus usa para implantar uma nova natureza no pecador que precisa ser alcançado pelo Espírito Santo para ser salvo.

          Caríssimo irmão e irmã na fé, não existe evolução espiritual para o homem natural. A carne não pode ser “treinada” ou “melhorada”, é preciso ser substituída por uma nova criação. E essa nova criação se dá pela Palavra e Batismo.

          Pare de tentar “reformar” sua vida velha. Ela está morta para Deus. Você precisa de uma vida que não é sua, mas de Cristo em você. E para isso, o Espírito (o Pneuma) é livre. Ouvimos o “som” (a pregação da Palavra), mas não controlamos o destino do vento.

          Conversão não é um processo mecânico que o homem manipula com “orações decididas” ou fórmulas. A conversão é o sopro livre de Deus sobre a pessoa por sua Palavra.

          É difícil para o ser humano compreender que Deus amou o mundo não porque o mundo fosse “amável”, mas porque Deus decidiu, em sua vontade, salvar o que estava perdido. Nicodemos estava enclausurado, vivendo como se ele precisasse se fazer amado por Deus e Jesus lhe diz que o amava sem que ele merecesse.

          O sacrifício de Jesus Cristo é a prova de que o amor de Deus é uma ação histórica e concreta. Ele “deu”, um ato único e definitivo na cruz, para que a morte fosse vencida pela vida eterna.

O encontro de Nicodemos termina com um convite ao olhar da fé. Assim como os israelitas olhavam para a serpente de bronze e viviam, somos lembrados que a fé não é uma “obra” que fazemos para ganhar a salvação, mas o olho que se abre para ver o Salvador já levantado na cruz e que a venceu.

Saia das sombras da sua própria justiça, como Nicodemos, e olhe para o Cristo levantado na cruz. Diante da Palavra temos o encontro que divide a eternidade Amém

Edson Ronaldo Tressmann

A Palavra que cria o futuro do nada

 01 de março de 2026

Segundo domingo na Quaresma

Salmo 121; Gênesis 12.1-9; Romanos 4.1-8,13-17; João 3.1-17

Texto: A Palavra que cria o futuro do nada

Tema: Gênesis 12.1-9

 

O texto anterior a esse narra o evento catastrófico que foi a Torre de Babel. Os construtores tentavam fazer um “nome” para si mesmo através do seu esforço. Em Gênesis 12, vemos Deus escolher um homem de uma família de idólatras (Josué 24.2) para que o nome de Deus fosse ofertado para todas as nações.

Segundo a análise gramatical de Keil & Delitzsch, o imperativo Lekh-lekha (“Sai de ti” ou “Vai-te") não é apenas uma ordem geográfica, mas uma separação radical.

Deus não escolheu Abrão porque ele era piedoso; Deus se mostra piedoso em escolher Abrão. O que podemos perceber aqui é a creatio ex nihilo (criação do nada de Gênesis 1 e 2) aplicada à história de um homem.

          A expressão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai” é para Abrão um Lei. Isso representava uma sentença de morte social. Deus pede para ele deixar todas as suas redes de segurança. Vá para um lugar, onde você não terá amparo familiar. É como deixar a sua autoconfiança. É bom estar perto da família, afinal, qualquer problema se tem para onde correr. A ordem divina visava que Abrão ficasse sem nada onde se segurar, a não ser a promessa de Deus.

          Após esse comando, temos sete promessas e sem condicional (Gn 12.2-3).

Seus descendentes vão formar uma grande nação.

Eu o abençoarei,

O seu nome será famoso,

Você será uma bênção para os outros.

Abençoarei os que o abençoarem

Amaldiçoarei os que o amaldiçoarem.

Por meio de você eu abençoarei todos os povos do mundo.

As promessas são puro evangelho. Deus não disse que se Abrão fizesse isso ou aquilo. Deus assume a inteira responsabilidade da felicidade de Abrão.

          Abrão é exemplo de uma fé justificadora no sentido de ir sem saber para onde iria (Hb 11.8). Abrão troca o visível (família e segurança) pelo invisível (Promessa).

          Pela lógica, Abrão era um tolo. Deixar família e segurança social por uma incógnita. Todavia, Abrão creu que Deus é fiel as suas promessas. O ir de Abrão é um movimento natural de alguém que foi cativado pela voz de Deus. A fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Rm 10.17).

          Esse chamado de Deus a Abrão nos conduz para uma questão reflexiva: Você teria coragem de deixar suas bênçãos para ir em busca de outras?

          Abrão tinha setenta e cinco anos quando partiu de Harã, como o Senhor havia ordenado” (Gn 12.4).

          Observe que Abrão partiu, e sua partida não foi por má vontade, foi pelo fato de Deus ter falado. O motor da história é a Palavra de Deus, tal como na criação, onde Deus falava e as coisas aconteciam.

          Keil & Delitzsch observam que Abrão atravessa a terra onde “estavam então os cananeus”. Ou seja, Abrão era um estrangeiro em terra hostil. E mesmo assim, Abrão não constrói uma fortaleza para se proteger, ele constrói um altar. Abrão não se defende com armas, sua defesa e certeza é a promessa do cuidado de Deus. O altar significa que o Reino de Abrão é outro.

          A promessa “por meio de você eu abençoarei todos os povos do mundo” (Gn 12.3) aponta diretamente para Jesus Cristo.

          Gênesis 12 não se trata de como ser um “bom viajante”, mas, como um Deus misericordioso justifica o ímpio e vem em busca dele quando o mundo parece ter se tornado um caos. E esse Deus misericordioso que chama, guia por caminhos que só ele conhece.

          A fé é um abraço nas promessas, em especial na promessa que é Jesus. Amém

 

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Identidade de Filho e a Rocha da Escritura

 Primeiro Domingo na Quaresma

22 de fevereiro de 2026

Salmo 121; Gênesis 12.1-9; Romanos 5.12-19; Mateus 4.1-11

Texto: Mateus 4.1-11

Tema: A Identidade de Filho e a Rocha da Escritura

 

          Spurgeon frequentemente dizia: “Deus teve um Filho sem pecado, mas nunca teve um filho sem tentação”.

          Todos os filhos de Deus são tentados e não é pecado ser tentado, o pecado é cair na tentação, por isso oramos para que Deus não nos deixe cair em tentação.

          Precisamos observar que após ser batizado, o próprio Pai indicou Jesus como sendo o seu filho amado. E por ocasião da tentação, o diabo põe isso em dúvida dizendo: se és filho de Deus (Mt 4.2).

          O diabo tem o mesmo modus operandi desde a queda. Deus ordenou para que o homem não comesse do fruto do conhecimento do bem e do mal. O diabo, usando a serpente disse para a mulher: “É verdade que Deus mandou que vocês não comessem as frutas de nenhuma árvore do jardim?” (Gn 3.1).

          Desde quando o Diabo lançou a humanidade nas trevas da queda em pecado. Desde quando Satanás conseguiu lançar o ser humano no pecado, ele oprimiu Jó, enganou Davi, fez Pedro negar, ...

          O termo grego e hebraico para Diabo e Satanás significa adversário, inimigo do homem.

          E esse adversário do ser humano é conforme disse Jesus, homicida e mentiroso. Pedro o chama de um leão que ruge com intuito de devorar.

          O diabo é real e poderoso e como escreveu o apóstolo Paulo pode até se transformar num anjo de luz (2Co 11.14). O seu primordial objetivo é fazer com que a luz do evangelho não brilhe para as pessoas (2Co 4.4).

          O texto destaca que Jesus foi levado ao deserto, todavia, Jesus já estava no deserto da Judéia (Mt 3.1,13) onde foi batizado. O verbo grego sugere a ideia de ser conduzido para cima, ou seja, num lugar situado mais alto. Uma tradição do século XII situa esse deserto numa região infértil a oeste de Jericó, onde há uma pedra de calcário.

          Mateus e Lucas destacam que os 40 dias foram preparatórios para a primeira tentação e que as tentações ocorreram num único dia. Marcos indica que as tentações ocorreram durante os 40 dias.

          A tentação ocorre logo após o Batismo e isso nos traz uma importante lição do motivo pelo qual o diabo tenta, tenta e tenta. Deus havia pronunciado a confirmação de que Jesus era o seu filho amado (Mt 3.17) e o diabo quer por isso em dúvida. O diabo não concorda que um filho de Deus esteja esgotado de fome. Aliás, esse é um dos grandes ataques do diabo, que aliado a essa tese junta-se a terceira tentação, onde todo filho de Deus só é considerado filho de Deus quando há muita prosperidade.

          O diabo sempre buscou e busca impedir a obra redentora de Cristo. Assim, se o ser humano ver Cristo como um mestre, um doador de bênçãos, um guru, está tudo bem. O que para o diabo é inadmissível para o diabo é que as pessoas creiam em Jesus como redentor de suas vidas.

          A primeira tentação nem parecia ser uma tentação. O diabo se mostra solidário com a fome de Jesus e lhe propõe aliviar sua fome, pois tinha poder para isso.

          A proposta de Satanás era para que Jesus não levasse em conta o plano de Deus e agisse por conta própria e acordo com sua vontade e necessidade.

          Aqui temos uma semente do ateísmo prático, melhor dizendo, adorasse o egoísmo como norma de vida. Quantos ainda vivem dizendo que os fins justificam os meios. Você está com fome e possui poder, então por que passar fome?

          Ao citar a passagem de Deuteronômio 8.3, Jesus recorda que o povo de Deus também caiu na tentação. Muitos recolheram mais do que o necessário para um dia e no outro dia viram apenas vermes. O recolhimento de maná apenas para o dia era uma maneira de confiar na Palavra de Deus, na qual reforça que Deus concede diariamente as suas bênçãos. Dessa forma, Jesus estava dizendo ao diabo que muito mais que ir contra a vontade do plano de Deus era melhor seguir o plano divino.

          Qual tem sido a sua fome?

          Muitas vezes, se é tentado diante da fome, se é tentado a adorar o egoísmo e justificar um ato de corrupção, traição, sobrecarga de trabalho.

          Vendo que Jesus estava resoluto em segui com o plano de Deus, o diabo o levou para o pináculo do templo. O motivo disso, era pelo fato dos israelitas acreditarem que seria no Templo de Jerusalém que o Messias iria se proclamar como tal. Assim, a suposta tentação sugeria a Jesus se aclamar como Messias e não ter a necessidade de passar por tudo que passaria.

          Ao citar Deuteronômio 6.16, Jesus elucidava sobre o cuidado para não forçar a ação divina sem motivo por um suposto fanatismo religioso. Cuidado com a velha fórmula: se Deus existe? Sim, Ele existe e o diabo quer te fazer crer que ele não está nem aí para você.

          Jesus rejeitou a glória do Messias de Israel. E diante dessa rejeição, o diabo o conduziu para um alto monte e lhe ofereceu toda a glória do mundo.

          Para os romanos, o Império da época, os imperadores eram deuses. Dessa forma, o diabo oferece toda riqueza, prestígio e domínio de um grande imperador. Ambição por poder torna o homem um idólatra, pois substitui o verdadeiro Deus por outro.

          Jesus foi tentado no deserto, longe dos homens e isso mostra que as tentações não estão apenas nas más companhias, elas estão também quando estamos isolados de tudo e de todos.

          A tentação do diabo não foi quanto ao acometimento de um grande crime, mas, de duvidar do que Deus tinha acabado de lhe anunciar por ocasião do seu batismo.

          Quantas pessoas estão sendo tentadas a batizar novamente e novamente, pois, o argumento ainda continua sendo válido para muitos. Se você é filho de Deus, isso não. Aquilo não, aquilo outro não, você precisa descer para as águas e assim, de descida em descida, acaba abandonando a Cristo.

          A maior de todas as tentações do diabo é conduzir a dúvida se de fato somos filhos de Deus.

          O ponto é “as Escrituras Sagradas afirmam” (Mt 4.4,7,10).

          Tenho visto algumas pessoas se afastando de Cristo e dos seus meios da graça, pregação e santa ceia pelo simples fato de que muitos tentam buscar entender e provar a Bíblia racionalmente. Muitos que, surgem com questões aparentemente simples, mas que vão inquietando o crente e assim, a pessoa passa a duvidar racionalmente e deixa de crer.

          Jesus não usou argumentos racionais ou elevados para contrapor Jesus, Ele apenas citou: “as Escrituras Sagradas afirmam” (Mt 4.4,7,10).

          Todavia, mesmo diante das afirmações das Escrituras Sagradas, há o advogado do diabo, que implanta uma dúvida por um argumento que leva a simples fé em uma grande dúvida.

          A única arma para resistir o diabo que também a usa, é a Palavra. O apóstolo Paulo escreveu que a Palavra de Deus é a espada do Espírito (Ef 6.17). O salmista elencou que a Palavra de Deus é lâmpada para nossos pés (Sl 119.105). O apostolo Paulo enfatizou que a Palavra é de Deus e é útil para ensinar a verdade, condenar o erro, corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver (2Tm 3.16).

          Por isso, o livro mais atacado do mundo é a Bíblia. E os ataques diabólicos são por frases simples:

          - seu pastor nunca te contou isso;

          - a Bíblia foi escrita por homens, não por Deus;

          - o cânone bíblico foi decidido por votação e conveniência política;

          - a Bíblia é cópia de cópia de tradução;

          - há coisas que é dito nos apócrifos que não dizem na Bíblia;

          - Se a Bíblia é perfeita, por que existem quatro versões diferentes da ressurreição?

          - a Bíblia contém erros geográficos;

          - o Deus do Antigo Testamento é tirano e genocida;

          - A frase de Carl Sagan: afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias;

          - a Bíblia é apenas uma mitologia entre tantas outras;

          Caríssimos, quando as Escrituras Sagradas deixam de afirmar, o Diabo pode dizer qualquer coisa que é acreditado. E por retirar a autoridade das Escrituras que afirmam, o Diabo está conseguindo levar muitos para longe do Salvador Jesus.

          O Diabo usou a Bíblia e Jesus pela Bíblia apenas afirmou o que elas diziam e assim venceu. A criatura humana tentada pelo diabo prefere dar ouvidos aos seus argumentos do que voltar-se ao simples fato de que as Escrituras Sagradas afirmam.

          Caríssimos, recorde-se que o diabo é covarde, pois, nos ataca quando estamos fracos (fome), cansados e sozinhos.

          Cuidado:

          para não querer ser independente de Deus

          Presunção de fanatismo religioso e soberba espiritual

          Obter prosperidade em detrimento da verdadeira adoração

          Por isso:

          Sempre ouça o que a Palavra tem a dizer

          Saiba que Deus te protege em qualquer circunstância

          Adore somente a Deus

          Não esqueça, a tentação ocorre logo após o Batismo, ou seja, onde Deus diz: “Este é o meu Filho amado”, o Diabo coloca sua dúvida: “Se tu és o Filho de Deus...”.

          Deserto não é sinal de abandono, é campo de treinamento do cristão. A tentação ataca justamente a nossa certeza de que somos filhos de Deus. A Bíblia é um aparelho na academia dos lutadores de Deus.

          Quando o diabo tentou Jesus, não negou a existência de Deus. Ele questionou a relação desse Deus com seu Filho. Isso para imprimir o conceito de que Deus não existe e é uma mentira. O diabo quis que Jesus deixasse de confiar na providência invisível de Deus e apegar-se ao visível e material.

          Assim como não houve Jesus sem cruz, não há cristianismo e cristãos sem cruz. Pare com essa ideia terrível de que ser cristão é apenas obter vitórias e glórias. Recorde que quem ofereceu glórias e prosperidade para ser adorado foi o diabo.

          A única vitória que é concedida ao cristão é a vitória de Cristo sob o tentador na cruz. É a vitória sobre a morte eterna. O cristão luta a partir da vitória, não para alcançar a vitória. E essa vitória nos é dada pela fé e a fé é um presente concedido por Deus pela sua Palavra no batismo e na Pregação. Todavia, isso se resume na simples expressão de que as Escrituras Sagradas afirmam.

          Imagine um imenso e poderoso navio de guerra navegando em uma noite de tempestade. O capitão, orgulhoso da força de seus canhões e do aço de sua estrutura, avista uma luz à distância, diretamente em sua rota.

          Ele ordena ao sinalizador que envie uma mensagem: “Alterem seu curso 10 graus para o sul. Estamos em rota de colisão”.

          A resposta volta rapidamente: “Negativo. Alterem VOCÊS o curso 10 graus para o norte”.

          O capitão, irritado, envia outra mensagem, agora usando sua autoridade: “Eu sou um capitão de 30 anos de serviço. Alterem o curso agora! Nós somos um Encouraçado Real, o maior navio da frota. Se não saírem do caminho, passaremos por cima de vocês!

          A luz responde calmamente: “Nós somos um farol. A escolha é sua”.

          O diabo é assim, ele vem com barulho, ostentação e ameaças. Oferece os reinos do mundo, mostra poder e tenta intimidar os seguidores de Jesus para que mudem o curso e abandonem a vontade de Deus.

          Jesus ainda é o Farol. Jesus não precisou gritar, fazer demonstrações de força ou “bater de frente” com o ego de Satanás. Ele permaneceu imóvel sobre a rocha da Escritura. Por isso, quando Jesus disse “as Escrituras Sagradas afirmam” destacava que “não iria se mover, pois a Palavra de Deus é a verdade fixa”.

          Deus teve um Filho sem pecado, mas nunca teve um filho sem tentação” e para esses filhos que somos nós, quando tentados, a vitória de Jesus é a nossa, permaneça em Cristo. Amém.

 

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A glória que sustenta a cruz diária!

 Transfiguração do Senhor

15 de fevereiro

Salmo 2.6-12; Êxodo 24.8-18; 2Pedro 1.16-21; Mateus 17.1-9

Texto: Mt 17.1-9

Tema: A glória que sustenta a cruz diária!

 

É realmente necessário recordar a transfiguração de Jesus?

Em algum momento da vida você já esteve numa esquina sem saber qual caminho seguir? Isso é a transfiguração, uma esquina na qual somos orientados por qual caminho seguir.

Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas registram esse episódio para evitar que fábulas fossem inventadas em torno do tema. Anos mais tarde, o apóstolo Pedro escreveu que os apóstolos não inventaram essa história. Eles foram testemunhas oculares (2Pe 1.16-18).

Seis dias depois, Jesus foi para um monte alto, levando consigo somente Pedro e os irmãos Tiago e João” (Mt 17.1).

Seis dias depois! Depois do que? No capítulo 16 Jesus anunciou a revelação da sua glória, seu sofrimento e morte. Esses seis dias serviram como um tempo de reflexão.

          Passado esse período reflexivo, Pedro, Tiago e João foram convidados para subirem o monte com Jesus e os outros nove ficaram no pé do monte. Jesus nunca teve um grupo favorito, na verdade, era preciso de credencial visual específica para o tempo pós crucificação e ressurreição.

          Levando esses três discípulos, Jesus estava observando uma lei bíblica que destaca que “pela boca de duas ou três testemunhas se estabelecerá toda palavra” (Dt 17.6; Mt 18.16).

          Era preciso de um número legalmente suficiente de testemunhas para o que estava prestes a acontecer e para pregarem sobre a glória de Cristo, era preciso ver e não apenas ouvir falar. Era preciso ser uma testemunha ocular (2Pe 1.16-17).

          Pedro, Tiago e João estavam presentes pelo fato de Pedro ser porta-voz e líder de ação. Tiago seria o primeiro a selar seu testemunho com o martírio. João seria o último a morrer, servindo como testemunha de longo prazo da divindade de Jesus Cristo.

          A transfiguração é um evento crucial e num momento específico.

          A transfiguração não é meramente uma questão de espiritualidade, mas responsabilidade. Afinal, revelar a glória divina poderia causar uma confusão mental ou um orgulho espiritual perigoso.

          Uma das testemunhas, Pedro, enfrentou um êxtase egoísta. Por um instante quis transformar um momento de preparação em momento de destino. Pedro desejou pular o sofrimento e estar direto na glória. Pedro revive a tentação de evitar que Jesus fosse até Jerusalém sofrer e padecer pelos pecados, tal como narrado no capítulo 16.

Ali, eles viram a aparência de Jesus mudar: o seu rosto ficou brilhante como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17.2).

A aparência de Jesus mudou. A glória não foi refletida nele, assim como aconteceu com Moisés no monte Sinai (Ex 34.33-35). A glória irradiou dentro de Jesus.

          E os três discípulos viram Moisés e Elias conversando com Jesus” (Mt 17.3).

          Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas e Profecias narradas no Antigo Testamento. A Transfiguração, onde a glória de Jesus é vista e com essa glória está conversando com Moisés e Elias enfatiza que Jesus é o cumprimento da Lei e das Profecias.

          Jesus não revelou sua glória para todos, pois, isso alimentaria expectativas meramente políticas e materiais dos judeus.

          Pedro, Tiago e João só compreendem essa visão após a ressurreição. Era necessário compreender o fato para poder testemunhar corretamente.

Então Pedro disse a Jesus: - Como é bom estarmos aqui, Senhor! Se o senhor quiser, eu armarei três barracas neste lugar: uma para o senhor, outra para Moisés e outra para Elias. Enquanto Pedro estava falando, uma nuvem brilhante os cobriu, e dela veio uma voz, que disse: - Este é o meu Filho querido, que me dá muita alegria. Escutem o que ele diz!” (Mt 17.4-5).

          Pedro cometeu o equívoco da comparação, colocando Jesus, Elias e Moisés no mesmo nível e o próprio Pai o interrompe dizendo: “Este é meu Filho...” (Mt 17.5).

          A interrupção divina e o pavor dos discípulos destacam a pequenez humana diante da voz de Deus e apenas a voz de Jesus é capaz de levantar e permitir que se continue na caminhada, mesmo em meio ao sofrimento e morte.

Os discípulos estavam numa encruzilhada e precisavam saber por onde seguir.

          Seis dias antes (Mt 16.21), Jesus revelou que deveria sofrer e morrer e isso chocou profundamente os discípulos. Por essa razão, era preciso ver a glória para suportar a humilhação da cruz.

          O evento da Transfiguração é a prova de que o sofrimento de Jesus não é uma derrota, mas uma escolha voluntária de alguém que possui toda majestade divina.

          Esses mesmos três discípulos (Pedro, Tiago e João) foram chamados para acompanhar Jesus mais de perto na agonia do jardim do Getsêmani. Como dito anteriormente, Pedro era o porta-voz e líder de ação; Tiago o primeiro a selar seu testemunho com o martírio e João o último a morrer e assim servindo como testemunha de longo prazo da divindade de Jesus Cristo.

          No Messias sofredor, toda a Lei de Moisés e as profecias demonstradas pelo profeta Elias estavam se cumprindo na subida de Jesus para Jerusalém.

          A transfiguração é o ponto de equilíbrio entre o Messias sofredor e o Messias glorioso. Pedro, Tiago e João viram a glória, mas a chave para compreensão estava na ressurreição. A transfiguração mostra quem foi crucificado.

          Pedro ainda estava preso a ideia de que o sofrimento não era necessário. E diante do seu desejo de permanecer ali, na glória, sem sofrimento, a voz do céu enfatizou que a voz de Jesus fosse ouvida.

          A Transfiguração ensina sobre o perigo do entusiasmo carnal diante da glória. A maior expectativa ainda é do Messias da glória sem o Messias da cruz.

          A Transfiguração é um evento similar ao Batismo de Jesus. No Batismo, Jesus foi selado para seu ofício, na Transfiguração, Jesus foi selado para o seu sacrifício.

          A Transfiguração não é um espetáculo, é um real e verdadeiro destaque a autoridade da Palavra de Jesus e de que seja qual for a glória, a mesma só pode ser vista sob as lentes da cruz.

Em pleno século vinte e um precisamos do relato da transfiguração para suportar nossos próprios vales de sofrimento.

A Transfiguração ocorre num momento crítico no ministério de Jesus, todavia, aconteceu pouco antes da última e definitiva subida de Jesus para Jerusalém, onde Ele seria crucificado.

Caríssimo irmão e irmã na fé, também temos momentos no “monte” com Jesus, ou seja, momentos de oração e êxtase, todavia, esses momentos servem para nos fortalecer para a caminhada na “planície”, onde as lutas e as cruzes diárias nos esperam.

          A Transfiguração nos ensina que nos resta apenas a Palavra de Jesus. Nenhuma outra voz e nenhuma outra revelação é maior que a voz do próprio Jesus. Jesus é a Palavra final do Pai. Jesus era tudo o que Moisés e Elias possuíam.

          Quando estavam descendo do monte, ele lhes deu esta ordem: - Não contem para ninguém o que viram até que o Filho do Homem seja ressuscitado” (Mt 17.9).

          A ordem quanto a manter silêncio era pelo fato de Pedro, Tiago e João ainda não compreenderem totalmente como a “glória” e o “sofrimento” coexistiam. Se tivessem pregado a Transfiguração antes da Ressurreição, o público teria buscado um rei político em vez de um Salvador sofredor.

          É de suma importância a pregação sobre a Transfiguração, afinal, quantos hoje buscam a glória, ignorando a cruz. Quantos buscam revelação ignorando a revelação de Moisés e Elias que se cumpriram em Jesus Cristo.

Precisamos do relato da Transfiguração para fixar nosso olhar em Jesus, “E levantando os olhos, não viram a ninguém, senão a Jesus” (Mt 17.8).

          O Jesus que brilhou no monte é o mesmo que foi “desfigurado” na cruz por amor a você. Ele se despiu da sua glória para que nós pudéssemos ser revestidos com essa glória.

 

Edson Ronaldo Tressmann

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