09 de agosto de 2026
Próprio
14 – Décimo Primeiro Domingo após Pentecostes
Salmo
18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33
Texto:
Mateus
14.22-33
Tema:
Quando a voz de Cristo vence o medo!
Você
já viu seu pai com medo? Imagine um homem sentado sozinho
dentro do carro, depois de um dia difícil. Ele respira fundo. Olha para o
celular. Uma mensagem sobre o filho. Uma conta que ainda não sabe como vai
pagar. Uma preocupação com a família. Uma conversa que ficou mal resolvida. Um
medo que ele não contou para ninguém. Então ele desliga o carro, enxuga o rosto
e entra em casa.
Existem
tempestades que ninguém vê. Existem homens que aprenderam a consertar coisas,
pagar contas, trabalhar, proteger a família, resolver problemas... mas nunca
aprenderam a dizer: eu estou com medo.
Além
dos pais, existem filhos que carregam tempestades que ninguém percebe. Saudade,
ausência, mágoas, palavras que nunca foram esquecidas, a vontade de ter tido um
pai diferente. Ou simplesmente a dor de perceber que o pai que ama também é um
homem limitado, imperfeito e cheio de lutas.
Talvez
por isso o Evangelho de hoje seja tão atual.
O
evangelista Mateus nos leva para dentro de uma tempestade. O vento soprava
contra o barco. As ondas batiam com força. Homens experientes estavam remando. Mas
não conseguiam avançar. Eles estavam fazendo tudo o que sabiam fazer e,
mesmo assim, estavam afundando. Essa possivelmente é uma das experiências
mais difíceis da vida: quando fazemos tudo o que conseguimos e ainda assim
não conseguimos controlar o que está acontecendo. Naquela noite os
discípulos descobriram que há tempestades que são maiores do que a nossa
experiência. É aí que o Evangelho começa a falar conosco.
O
Evangelho de hoje nos conduz para dentro de uma noite escura no mar. Ali
descobrimos algo decisivo, Cristo não abandona seu povo nas águas.
O “...barco
já estava no meio do lago. E as ondas batiam com força no barco porque o vento
soprava contra ele” (Mt 14.24), a expressão βασανιζόμενον ὑπὸ τῶν
κυμάτων, literalmente significa “atormentado
pelas ondas”.
Desde
os Pais da Igreja o barco frequentemente simboliza a Igreja
atravessando o mundo cercada por perigos. A igreja continua sendo “açoitada” por divisões, vícios, frieza
espiritual, ansiedade, pressões econômicas, afastamento da fé.
Gostamos
de acreditar que conseguimos resolver tudo. “Eu
dou conta”; “Eu sei o que fazer”;
“Eu já passei por isso antes”; “Eu consigo”; mas chega um momento em que não
adianta já ter passado por isso ou aquilo e é justamente aí que Deus nos ensina
que a nossa segurança não está na força que temos, mas naquele que está
conosco.
Há
tempestades que nos deixam cansados.
Lutero dizia que Deus frequentemente
conduz o cristão ao limite de suas forças para ensinar que a preservação da
vida depende da graça e não do poder humano. Porque enquanto tudo vai bem, o
homem confia em si mesmo, mas é no meio das tempestades que aprendem a clamar.
“Já de
madrugada, entre as três e as seis horas, Jesus foi até lá, andando em cima da
água” (Mt 14.25).
Jesus
chega quando estamos no limite.
Perceba
o horário. Era de madrugada, era o momento mais escuro. Os discípulos estavam
cansados, pois tinham passado horas lutando contra o vento. E é justamente
nesse momento que Jesus aparece.
Isso
ensina que o silêncio
de Deus não significa seu abandono.
Às
vezes pensamos: “Deus se esqueceu de mim”;
“Deus não está vendo”; “Por que Ele não faz alguma coisa?”; mas o fato
de você não perceber, não significa que Deus não esteja trabalhando.
Jesus
estava longe dos olhos dos discípulos, mas não estava longe deles. Isso também
acontece conosco. Há momentos em que não conseguimos enxergar a presença de
Deus, mas Ele continua presente.
A
fé não depende daquilo que os nossos olhos conseguem enxergar. A
fé depende daquilo que Cristo prometeu. Por isso, Romanos 10.17 diz: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo”.
Isso
é muito importante. A fé não nasce porque a vida ficou fácil. A fé nasce quando
Cristo fala.
A fé dos discípulos não seria
sustentada se o mar estivesse tranquilo, a fé é sustentada pela voz do Senhor.
Isso também vale para nós. A fé não é sustentada pela estabilidade financeira,
pelo sucesso dos filhos, pela ausência de problemas. A fé é sustentada pela
Palavra de Cristo.
Ao verem Jesus andando sobre o mar, os
discípulos gritam de medo e pensam estar vendo um fantasma.
O
coração humano, devido sua natureza pecaminosa, frequentemente interpreta a
presença de Deus como ameaça quando ainda não reconhece sua voz.
No
meio do medo, Jesus fala: “Coragem!
Sou eu. Não tenham medo!” (Mt 14.27).
Quando
se ouve Jesus Cristo falar: “Sou eu”,
ἐγώ εἰμι, “EU SOU”, não se
trata apenas de uma identificação. Há um eco claro do nome divino revelado no
Antigo Testamento. Ou seja, o Senhor que andou sobre as águas é o próprio Deus
encarnado que anteriormente havia se revelado a Moisés na sarça ardente.
O
Senhor está no meio da tempestade. E há algo muito bonito
nessa cena. Jesus não acalma primeiro o mar para depois falar. Primeiro Ele
fala, depois vem a paz. Isso é fundamental para a vida cristã. Temos
aqui o centro de Romanos 10.17 onde a fé nasce quando Cristo fala.
Muitas
vezes, queremos que Deus mude as circunstâncias para então conseguirmos ter
paz. Todavia, Jesus em muitas situações faz o contrário. Primeiro Ele nos dá a
sua Palavra no meio das circunstâncias para crermos que Ele vem ao nosso
encontro.
A tempestade, o vento e as ondas podem
continuar, mas, se a Igreja é o barco, nesse barco existe uma Palavra, a
Palavra de Deus. Essa Palavra muda tudo. No entanto, é preciso observar que Pedro
anda sobre as águas, mas também tem medo.
Ao
ouvir a Palavra de Jesus, Pedro exclama: “Senhor,
se é o senhor mesmo, mande que eu vá até aí andando em cima da água”.
Jesus responde: “Venha!”
Pedro
sai do barco e acontece algo extraordinário. Ele anda sobre as águas. Contudo é
preciso observar que enquanto Pedro olha para Jesus, ele caminha seguramente, mas,
a força do vento, as ondas, a tempestade, faz Pedro deixar de olhar para Jesus
Cristo.
Isso
é muito parecido com o que acontece conosco. Passamos muito tempo olhando para
o tamanho dos problemas, das notícias, dos conflitos, nos sentimos fracos e julgamos
não conseguir controlar e assim deixamos de olhar para Jesus Cristo e o medo nos
paralisa.
Pedro
acreditava, tinha fé, tanto que ouviu o convite de Jesus sobre vir e foi, mas
Pedro também teve medo. Isso é muito importante. Ter fé não significa nunca sentir medo.
Muitos
cristãos também têm fé e sentem medo. Um pai cristão pode confiar em Deus e
ainda assim chorar, orar e continuar preocupado, conhecer a Palavra e, mesmo
assim, passar por noites de angústia. Isso não significa que a fé desapareceu, significa que somos seres humanos
pecadores.
Enquanto os olhos de Pedro permaneceram
fixos em Cristo, ele caminhava sobra as águas, em meio ao vento e a tempestade.
Entretanto, Mateus narra que “...quando sentiu a
força do vento, ficou com medo e começou a afundar” (Mt 14.30). Nossos
olhos naturais, devido a natureza pecaminosa, muitas vezes desviam o olhar de
Jesus Cristo. É preciso relembrar as palavras do apostolo Paulo aos coríntios: “Porque vivemos pela fé e não pelo que vemos”
(2Co 5.7).
Caríssimos
irmãos, enquanto nossos olhos estão voltados para Jesus Cristo, caminhamos seguramente
sobre aquilo que naturalmente nos destruiria.
A fé sempre está misturada com a fraqueza
decorrente do pecado. Pedro realmente crê, mas também teme e assim somos nós. Pais
cristãos querem confiar, querem conduzir a família, querem permanecer firmes, mas
frequentemente sentem a força contrária, O medo e o desespero em muitas
situações os levam ao naufrágio, pois deixam de olhar para Cristo.
O
fato é que muitas vezes, queremos, assim como Pedro ter uma certeza de que é a
Palavra de Deus e pedimos para ir até Cristo. Mas, somos constantemente
impedidos de seguir em direção a Cristo e quando naufragamos, Jesus vem ao encontro
e novamente nos alcança. A nossa esperança nunca esteve na perfeição da
nossa fé. A nossa esperança está em Cristo.
Quando Pedro afunda, Jesus estende
a mão.
Ao
perceber que estava afunadando, Pedro faz uma oração de apenas três palavras: “Senhor, salva-me!” No grego, Κύριε,
σῶσόν με!
Que
oração simples. Não houve discurso. Não houve explicação. Não houve tentativa
de mostrar força. Pedro simplesmente reconheceu que “não consigo se salvar”. Imediatamente
Jesus estendeu a mão.
Aqui
está o coração do Evangelho. Pedro não foi salvo porque teve uma fé
perfeita. Pedro foi salvo porque Jesus é um Salvador perfeito.
Não
foi a mão de Pedro que segurou em Jesus. Foi a mão de Jesus que segurou Pedro. Essa
diferença é fundamental e isso traz enorme consolo para nós.
Pais
imperfeitos, mães imperfeitas, filhos imperfeitos, famílias imperfeitas, cristãos
imperfeitos. Não somos salvos porque conseguimos fazer tudo certo, somos salvos
porque Cristo nos alcança por sua Palavra, cuidado e promessa.
Quando
você não sabe mais o que dizer, Cristo continua sendo seu Salvador.
A
salvação não repousa na perfeição da fé, mas no objeto da fé que é Cristo. Nossa
esperança não está na perfeição humana, está em Cristo.
Mateus narra que quando Jesus entrou
no barco “vento se acalmou” (Mt 14.32)
e então os discípulos adoram dizendo “De fato, o
senhor é o Filho de Deus!” (Mt 14.33).
A
tempestade termina em adoração. O milagre não é apenas
demonstração de poder, é revelação de quem Jesus é. Jesus não é apenas um mestre
moral, não é apenas um profeta, Jesus é o Filho eterno de Deus que domina o
caos, o mar, o medo, o pecado, a morte. E é exatamente por isso que sua Palavra cria fé.
Na
carta aos Romanos (Rm 10.17), o apostolo Paulo não fala de qualquer palavra
religiosa. Fala da Palavra de Cristo. A fé nasce porque o próprio Cristo vem ao
encontro de pecadores através da sua Palavra. Por isso podemos confiar nele.
Pais
não precisam ser heróis.
Hoje
é Dia dos Pais e vivemos numa época em que os homens são forçados a “serem forte o tempo todo”; “não demonstrar medo”; “ter que resolver tudo”; “dar conta de tudo”; e o Evangelho mostra Pedro
afundando no meio do mar por causa do medo.
Pai,
aprenda a gritar: “Senhor, salva-me!”
Essa é uma das maiores lições para um pai cristão: Você
não precisa ser um herói. Você precisa saber para quem clamar.
Um
pai cristão não é aquele que nunca enfrenta tempestades. É aquele que, no meio
da tempestade, ensina sua família a ouvir a voz de Jesus. afinal, chegará o dia
em que o dinheiro, a experiência e as forças não serão suficientes. Os
conselhos não irão satisfazer e tudo que nossos filhos precisarão saber é que
soubemos clamar para Jesus.
A
maior herança que um pai pode deixar aos seus filhos não é uma conta bancária, uma
casa, um carro, um sobrenome famoso. A maior herança é ensinar os filhos a ouvir a voz
de Cristo e clamar a ele nas horas difíceis.
Queridos
irmãos, o barco continua atravessando mares difíceis. A igreja e a família
continuam enfrentando ventos contrários. Não obstante, o centro do Evangelho
não é o tamanho da tempestade, é a presença de Cristo e sua Palavra.
Cristo
ainda vem ao nosso encontro. Ele vem através da sua Palavra, do Batismo, da
Absolvição, da Santa Ceia. Jesus continua estendendo suas mãos para pecadores
cansados e assustados dizendo: “Sou eu. Não
tenham medo”.
A
Igreja e a família aprendem no meio do temporal aquilo que nunca aprenderiam
num mar tranquilo: “De fato, o senhor é o Filho
de Deus!” (Mt 14.33). Amém.
Edson
Ronaldo Tressmann