terça-feira, 4 de agosto de 2026

Quando a voz de Cristo vence o medo!

 09 de agosto de 2026

Próprio 14 – Décimo Primeiro Domingo após Pentecostes

Salmo 18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33

Texto: Mateus 14.22-33

Tema: Quando a voz de Cristo vence o medo!

 

Você já viu seu pai com medo? Imagine um homem sentado sozinho dentro do carro, depois de um dia difícil. Ele respira fundo. Olha para o celular. Uma mensagem sobre o filho. Uma conta que ainda não sabe como vai pagar. Uma preocupação com a família. Uma conversa que ficou mal resolvida. Um medo que ele não contou para ninguém. Então ele desliga o carro, enxuga o rosto e entra em casa.

Existem tempestades que ninguém vê. Existem homens que aprenderam a consertar coisas, pagar contas, trabalhar, proteger a família, resolver problemas... mas nunca aprenderam a dizer: eu estou com medo.

Além dos pais, existem filhos que carregam tempestades que ninguém percebe. Saudade, ausência, mágoas, palavras que nunca foram esquecidas, a vontade de ter tido um pai diferente. Ou simplesmente a dor de perceber que o pai que ama também é um homem limitado, imperfeito e cheio de lutas.

Talvez por isso o Evangelho de hoje seja tão atual.

O evangelista Mateus nos leva para dentro de uma tempestade. O vento soprava contra o barco. As ondas batiam com força. Homens experientes estavam remando. Mas não conseguiam avançar. Eles estavam fazendo tudo o que sabiam fazer e, mesmo assim, estavam afundando. Essa possivelmente é uma das experiências mais difíceis da vida: quando fazemos tudo o que conseguimos e ainda assim não conseguimos controlar o que está acontecendo. Naquela noite os discípulos descobriram que há tempestades que são maiores do que a nossa experiência. É aí que o Evangelho começa a falar conosco.

O Evangelho de hoje nos conduz para dentro de uma noite escura no mar. Ali descobrimos algo decisivo, Cristo não abandona seu povo nas águas.

          O “...barco já estava no meio do lago. E as ondas batiam com força no barco porque o vento soprava contra ele” (Mt 14.24), a expressão βασανιζόμενον ὑπὸ τῶν κυμάτων, literalmente significa “atormentado pelas ondas”.

Desde os Pais da Igreja o barco frequentemente simboliza a Igreja atravessando o mundo cercada por perigos. A igreja continua sendo “açoitada” por divisões, vícios, frieza espiritual, ansiedade, pressões econômicas, afastamento da fé.

Gostamos de acreditar que conseguimos resolver tudo. “Eu dou conta”; “Eu sei o que fazer”; “Eu já passei por isso antes”; “Eu consigo”; mas chega um momento em que não adianta já ter passado por isso ou aquilo e é justamente aí que Deus nos ensina que a nossa segurança não está na força que temos, mas naquele que está conosco.

Há tempestades que nos deixam cansados.

          Lutero dizia que Deus frequentemente conduz o cristão ao limite de suas forças para ensinar que a preservação da vida depende da graça e não do poder humano. Porque enquanto tudo vai bem, o homem confia em si mesmo, mas é no meio das tempestades que aprendem a clamar.

          Já de madrugada, entre as três e as seis horas, Jesus foi até lá, andando em cima da água” (Mt 14.25).

Jesus chega quando estamos no limite.

Perceba o horário. Era de madrugada, era o momento mais escuro. Os discípulos estavam cansados, pois tinham passado horas lutando contra o vento. E é justamente nesse momento que Jesus aparece.

Isso ensina que o silêncio de Deus não significa seu abandono.

Às vezes pensamos: “Deus se esqueceu de mim”; “Deus não está vendo”; “Por que Ele não faz alguma coisa?”; mas o fato de você não perceber, não significa que Deus não esteja trabalhando.

Jesus estava longe dos olhos dos discípulos, mas não estava longe deles. Isso também acontece conosco. Há momentos em que não conseguimos enxergar a presença de Deus, mas Ele continua presente.

A fé não depende daquilo que os nossos olhos conseguem enxergar. A fé depende daquilo que Cristo prometeu. Por isso, Romanos 10.17 diz: “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo”.

Isso é muito importante. A fé não nasce porque a vida ficou fácil. A fé nasce quando Cristo fala.

          A fé dos discípulos não seria sustentada se o mar estivesse tranquilo, a fé é sustentada pela voz do Senhor. Isso também vale para nós. A fé não é sustentada pela estabilidade financeira, pelo sucesso dos filhos, pela ausência de problemas. A fé é sustentada pela Palavra de Cristo.

          Ao verem Jesus andando sobre o mar, os discípulos gritam de medo e pensam estar vendo um fantasma.

O coração humano, devido sua natureza pecaminosa, frequentemente interpreta a presença de Deus como ameaça quando ainda não reconhece sua voz.

No meio do medo, Jesus fala: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo!” (Mt 14.27).

Quando se ouve Jesus Cristo falar: “Sou eu”, ἐγώ εἰμι, “EU SOU”, não se trata apenas de uma identificação. Há um eco claro do nome divino revelado no Antigo Testamento. Ou seja, o Senhor que andou sobre as águas é o próprio Deus encarnado que anteriormente havia se revelado a Moisés na sarça ardente.

O Senhor está no meio da tempestade. E há algo muito bonito nessa cena. Jesus não acalma primeiro o mar para depois falar. Primeiro Ele fala, depois vem a paz. Isso é fundamental para a vida cristã. Temos aqui o centro de Romanos 10.17 onde a fé nasce quando Cristo fala.

Muitas vezes, queremos que Deus mude as circunstâncias para então conseguirmos ter paz. Todavia, Jesus em muitas situações faz o contrário. Primeiro Ele nos dá a sua Palavra no meio das circunstâncias para crermos que Ele vem ao nosso encontro.

          A tempestade, o vento e as ondas podem continuar, mas, se a Igreja é o barco, nesse barco existe uma Palavra, a Palavra de Deus. Essa Palavra muda tudo. No entanto, é preciso observar que Pedro anda sobre as águas, mas também tem medo.

Ao ouvir a Palavra de Jesus, Pedro exclama: “Senhor, se é o senhor mesmo, mande que eu vá até aí andando em cima da água”. Jesus responde: “Venha!

Pedro sai do barco e acontece algo extraordinário. Ele anda sobre as águas. Contudo é preciso observar que enquanto Pedro olha para Jesus, ele caminha seguramente, mas, a força do vento, as ondas, a tempestade, faz Pedro deixar de olhar para Jesus Cristo.

Isso é muito parecido com o que acontece conosco. Passamos muito tempo olhando para o tamanho dos problemas, das notícias, dos conflitos, nos sentimos fracos e julgamos não conseguir controlar e assim deixamos de olhar para Jesus Cristo e o medo nos paralisa.

Pedro acreditava, tinha fé, tanto que ouviu o convite de Jesus sobre vir e foi, mas Pedro também teve medo. Isso é muito importante. Ter fé não significa nunca sentir medo.

Muitos cristãos também têm fé e sentem medo. Um pai cristão pode confiar em Deus e ainda assim chorar, orar e continuar preocupado, conhecer a Palavra e, mesmo assim, passar por noites de angústia. Isso não significa que a fé desapareceu, significa que somos seres humanos pecadores.

          Enquanto os olhos de Pedro permaneceram fixos em Cristo, ele caminhava sobra as águas, em meio ao vento e a tempestade. Entretanto, Mateus narra que “...quando sentiu a força do vento, ficou com medo e começou a afundar” (Mt 14.30). Nossos olhos naturais, devido a natureza pecaminosa, muitas vezes desviam o olhar de Jesus Cristo. É preciso relembrar as palavras do apostolo Paulo aos coríntios: “Porque vivemos pela fé e não pelo que vemos” (2Co 5.7).

Caríssimos irmãos, enquanto nossos olhos estão voltados para Jesus Cristo, caminhamos seguramente sobre aquilo que naturalmente nos destruiria.

A fé sempre está misturada com a fraqueza decorrente do pecado. Pedro realmente crê, mas também teme e assim somos nós. Pais cristãos querem confiar, querem conduzir a família, querem permanecer firmes, mas frequentemente sentem a força contrária, O medo e o desespero em muitas situações os levam ao naufrágio, pois deixam de olhar para Cristo.

O fato é que muitas vezes, queremos, assim como Pedro ter uma certeza de que é a Palavra de Deus e pedimos para ir até Cristo. Mas, somos constantemente impedidos de seguir em direção a Cristo e quando naufragamos, Jesus vem ao encontro e novamente nos alcança. A nossa esperança nunca esteve na perfeição da nossa fé. A nossa esperança está em Cristo.

          Quando Pedro afunda, Jesus estende a mão.

Ao perceber que estava afunadando, Pedro faz uma oração de apenas três palavras: Senhor, salva-me!No grego, Κύριε, σῶσόν με!

Que oração simples. Não houve discurso. Não houve explicação. Não houve tentativa de mostrar força. Pedro simplesmente reconheceu que não consigo se salvar. Imediatamente Jesus estendeu a mão.

Aqui está o coração do Evangelho. Pedro não foi salvo porque teve uma fé perfeita. Pedro foi salvo porque Jesus é um Salvador perfeito.

Não foi a mão de Pedro que segurou em Jesus. Foi a mão de Jesus que segurou Pedro. Essa diferença é fundamental e isso traz enorme consolo para nós.

Pais imperfeitos, mães imperfeitas, filhos imperfeitos, famílias imperfeitas, cristãos imperfeitos. Não somos salvos porque conseguimos fazer tudo certo, somos salvos porque Cristo nos alcança por sua Palavra, cuidado e promessa.

Quando você não sabe mais o que dizer, Cristo continua sendo seu Salvador.

A salvação não repousa na perfeição da fé, mas no objeto da fé que é Cristo. Nossa esperança não está na perfeição humana, está em Cristo.

          Mateus narra que quando Jesus entrou no barco “vento se acalmou” (Mt 14.32) e então os discípulos adoram dizendo “De fato, o senhor é o Filho de Deus!” (Mt 14.33).

A tempestade termina em adoração. O milagre não é apenas demonstração de poder, é revelação de quem Jesus é. Jesus não é apenas um mestre moral, não é apenas um profeta, Jesus é o Filho eterno de Deus que domina o caos, o mar, o medo, o pecado, a morte. E é exatamente por isso que sua Palavra cria fé.

Na carta aos Romanos (Rm 10.17), o apostolo Paulo não fala de qualquer palavra religiosa. Fala da Palavra de Cristo. A fé nasce porque o próprio Cristo vem ao encontro de pecadores através da sua Palavra. Por isso podemos confiar nele.

Pais não precisam ser heróis.

Hoje é Dia dos Pais e vivemos numa época em que os homens são forçados a “serem forte o tempo todo”; “não demonstrar medo”; “ter que resolver tudo”; “dar conta de tudo”; e o Evangelho mostra Pedro afundando no meio do mar por causa do medo.

Pai, aprenda a gritar: Senhor, salva-me!Essa é uma das maiores lições para um pai cristão: Você não precisa ser um herói. Você precisa saber para quem clamar.

Um pai cristão não é aquele que nunca enfrenta tempestades. É aquele que, no meio da tempestade, ensina sua família a ouvir a voz de Jesus. afinal, chegará o dia em que o dinheiro, a experiência e as forças não serão suficientes. Os conselhos não irão satisfazer e tudo que nossos filhos precisarão saber é que soubemos clamar para Jesus.

A maior herança que um pai pode deixar aos seus filhos não é uma conta bancária, uma casa, um carro, um sobrenome famoso. A maior herança é ensinar os filhos a ouvir a voz de Cristo e clamar a ele nas horas difíceis.

Queridos irmãos, o barco continua atravessando mares difíceis. A igreja e a família continuam enfrentando ventos contrários. Não obstante, o centro do Evangelho não é o tamanho da tempestade, é a presença de Cristo e sua Palavra.

Cristo ainda vem ao nosso encontro. Ele vem através da sua Palavra, do Batismo, da Absolvição, da Santa Ceia. Jesus continua estendendo suas mãos para pecadores cansados e assustados dizendo: Sou eu. Não tenham medo”.

A Igreja e a família aprendem no meio do temporal aquilo que nunca aprenderiam num mar tranquilo: “De fato, o senhor é o Filho de Deus!” (Mt 14.33). Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

Quando a voz de Cristo vence o medo!

  09 de agosto de 2026 Próprio 14 – Décimo Primeiro Domingo após Pentecostes Salmo 18.1-6; Jó 38.4-18; Romanos 10.5-17; Mateus 14.22-33 ...