segunda-feira, 31 de agosto de 2026

#O silêncio que destrói e a fala que cura!

 06 de setembro de 2026

Próprio 18 - Décimo Quinto Domingo após Pentecostes

Salmo 32.1-7; Ezequiel 33.7-9; Romanos 13.1-10; Mateus 18.1-20

Tema: O silêncio que destrói e a fala que cura!

 

Vivemos em uma cultura que confunde silêncio com paz e tolerância com amor. Aprendemos a calar o que nos machuca, a varrer nossos conflitos para debaixo do tapete e a omitir a verdade em nome de uma falsa convivência pacífica. Contudo, as Escrituras nos alertam sobre uma realidade solene: existe um silêncio que destrói, assim como existe uma palavra que cura.

Nas leituras bíblicas de hoje (Salmo 32.1-7; Ezequiel 33.7-9; Romanos 13.1-10; Mateus 18.1-20), convergem para uma única e grande verdade. Deus preserva a sua comunidade mediante a Palavra que denuncia o pecado, conduz ao arrependimento, restaura o pecador e forma um povo governado pelo amor responsável.

Deus é o grande Atalaia e Pastor de nossas almas. Ele não nos abandona ao nosso próprio engano. Do Salmo ao Evangelho de Mateus, vemos a dinâmica da graça divina operando. O pecado é revelado, o pecador é conduzido à confissão, o perdão gera uma vida de amor, e esse amor assume a responsabilidade de buscar e restaurar o irmão que se desviou.

O silêncio que destrói por dentro (Salmo 32.1-7).

O Salmo 32 é um dos salmos penitenciais escritos por Davi após a dolorosa experiência do ocultamento e da subsequente confissão do seu pecado. Logo na abertura deste texto, é exposto a real anatomia da condição humana ao utilizar três termos precisos para descrever o mal que nos habita.

Transgressão (pesha' - פשע): não se trata de um simples erro inconsciente, mas de revolta, insurreição e ruptura deliberada da aliança com Deus.

Pecado (chatta'ah - חטאה): significa “errar o alvo”. O ser humano foi criado para viver diante do Criador, mas o pecado o faz perder completamente essa vocação original.

Iniquidade ('avon - עון): refere-se à culpa e à distorção interior. Não aponta apenas para atos isolados, mas para uma natureza humana deformada.

Enquanto Davi guardou silêncio sobre o seu pecado, tentando cobri-lo com a dissimulação, o resultado foi devastador: “Enquanto calava o meu pecado, envelheceram os meus ossos... a tua mão pesava sobre mim” (Sl 32.3-4). O pecado não confessado produz morte interior. O silêncio do pecador não anula a justiça de Deus; apenas o consome por dentro.

Mas o silêncio que destrói é quebrado pelo caminho da restauração. No versículo 5, observe os verbos de ação do salmista: “Não escondi... declarei”. E a resposta divina é imediata: “Tu perdoaste”. A ordem bíblica jamais muda, confissão  Absolvição = Alegria.

O perdão divino é revelado no salmo através de três verbos da graça.

Perdoar (nasa'): levantar o peso. A culpa esmagadora é removida de sobre os nossos ombros.

Cobrir (kasah): o pecado desaparece diante dos olhos divinos, expiado pelo sacrifício.

Não imputar (hashav): é um termo jurídico que declara: “Esta dívida não entra mais na sua conta”. É exatamente este termo que o apóstolo Paulo cita em Romanos 4 para explicar a doutrina da justificação pela fé.

O silêncio que destrói ao outro (Ezequiel 33.7-9)

Se o Salmo 32 nos alerta sobre o silêncio que destrói a nós mesmos, o profeta Ezequiel nos mostra o perigo do silêncio que destrói o nosso próximo.

Em Ezequiel 33, Jerusalém está prestes a cair. Nesse momento crítico de transição, Deus reorganiza o Seu povo e constitui o profeta como um tsopheh (צֹפֶה), um vigia, sentinela ou atalaia. No antigo Oriente, a função do Atalaia sobre o muro não era lutar contra o inimigo, mas enxergar o perigo e dar o alarme.

Deus diz ao profeta que, se o ímpio não for avisado do seu mau caminho e morrer, “o seu sangue eu o requererei da tua mão”. Essa expressão deriva da legislação da aliança, ou seja, quem se cala torna-se corresponsável pela tragédia. O silêncio do Atalaia mata. Não porque o profeta tenha o poder de condenar, mas porque ele escondeu a única Palavra capaz de salvar.

Observe o coração pastoral de Deus no encargo do Atalaia. O objetivo divino nunca é a condenação, mas a conversão. A advertência não é um ato de vingança, mas um instrumento da graça. A ira bíblica serve ao propósito da salvação. Deus denuncia o perigo para que o pecador se volte e viva.

A fala que cura e restaura (Mateus 18.1-20)

No Novo Testamento, Jesus pega o encargo do Atalaia de Ezequiel e o estende a toda a comunidade de fé. Em Mateus 18, Jesus ensina sobre a disciplina e a reconciliação na Igreja, dizendo: “Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só”.

A Igreja inteira é chamada a exercer o papel de Atalaia da graça. No entanto, a forma como essa fala deve ser exercida exige o correto entendimento do amor cristão, como ensinado por Paulo em Romanos 13.1-10.

Paulo ensina que, após sermos justificados pela graça, somos chamados a viver em uma nova ordem de amor. O apóstolo afirma: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros” (Rm 13.8). O verbo amar (agapan) está no presente, ou seja, é algo contínuo, é uma dívida permanente que jamais se quita.

O amor bíblico (agape) não é mera emoção sentimental; é decisão, serviço e responsabilidade pela vida do outro. E é aqui que os textos se alinham perfeitamente. O amor é o cumprimento da Lei, e corrigir um irmão em erro é um ato de supremo amor. Ignorar o pecado do irmão não é amor ou tolerância; é omissão e abandono. O silêncio diante do erro do irmão é deixá-lo caminhar para a ruína. A fala inspirada pelo amor é o remédio da graça.

A instrução de Jesus em Mateus 18 não visa expor, humilhar ou banir o pecador, mas ganhar o irmão. A correção bíblica segue etapas claras de proteção e cuidado pastoral. A correção é pessoal e privada, pois resguardar a dignidade e busca a reconciliação no nível mais discreto possível. Quando há necessidade de testemunhas é para confirmar a verdade e buscar mediação em amor. Quando o assunto vai para a Igreja, é o apelo para o resgate final.

Isso revela que a autoridade dada à Igreja para “ligar e desligar” não é um poder tirânico, mas o ministério restaurador da Palavra de Cristo no meio do seu povo.

Querida igreja, as quatro leituras desta semana revelam que o nosso Deus é um Deus que fala e nos convida a sair do silêncio destrutivo para vivermos na verdade que cura.

Quebre o silêncio diante de Deus (Salmo 32): Se você tem escondido o seu pecado, confesse hoje. Há perdão pleno, cancelamento de dívida e alegria transbordante na presença do Senhor.

Assuma o seu papel de Atalaia (Ezequiel 33): Não se cale diante do mundo e nem dentro do seu lar. Omitir a Palavra da verdade àqueles que estão se perdendo não é gentileza, é omissão perigosa.

Pratique a fala que cura no corpo de Cristo (Romanos 13 e Mateus 18): Se você vê seu irmão se desviando do caminho, não comente com os outros, vá até ele em amor. Não o abandone no erro. Lembre-se de que a dívida do amor jamais caduca. Fale a verdade em amor, pois a palavra dita com sabedoria e graça é instrumento da cura de Cristo.

Que o Senhor nos livre do silêncio da cumplicidade e nos conceda a coragem da fala restauradora. Que sejamos uma comunidade onde a graça abunda, o pecado é confessado e abandonado, e o amor responsável edifica o corpo de Cristo. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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