06 de setembro de 2026
Próprio
18 - Décimo Quinto Domingo após Pentecostes
Salmo
32.1-7; Ezequiel 33.7-9; Romanos 13.1-10; Mateus 18.1-20
Tema:
O
silêncio que destrói e a fala que cura!
Vivemos
em uma cultura que confunde silêncio com paz e tolerância com amor. Aprendemos
a calar o que nos machuca, a varrer nossos conflitos para debaixo do tapete e a
omitir a verdade em nome de uma falsa convivência pacífica. Contudo, as
Escrituras nos alertam sobre uma realidade solene: existe um silêncio que destrói, assim como existe
uma palavra que cura.
Nas
leituras bíblicas de hoje (Salmo 32.1-7; Ezequiel 33.7-9; Romanos 13.1-10;
Mateus 18.1-20), convergem para uma única e grande verdade. Deus preserva a sua comunidade
mediante a Palavra que denuncia o pecado, conduz ao arrependimento, restaura o
pecador e forma um povo governado pelo amor responsável.
Deus
é o grande Atalaia e Pastor de nossas almas. Ele não nos abandona ao nosso
próprio engano. Do Salmo ao Evangelho de Mateus, vemos a dinâmica da graça
divina operando. O pecado é revelado, o pecador é conduzido à confissão, o
perdão gera uma vida de amor, e esse amor assume a responsabilidade de buscar e
restaurar o irmão que se desviou.
O silêncio que destrói por dentro
(Salmo 32.1-7).
O
Salmo 32 é um dos salmos penitenciais escritos por Davi após a dolorosa
experiência do ocultamento e da subsequente confissão do seu pecado. Logo na
abertura deste texto, é exposto a real anatomia da condição humana ao utilizar
três termos precisos para descrever o mal que nos habita.
Transgressão (pesha'
- פשע): não se trata de um simples erro inconsciente, mas de revolta,
insurreição e ruptura deliberada da aliança com Deus.
Pecado (chatta'ah
- חטאה): significa “errar o alvo”. O
ser humano foi criado para viver diante do Criador, mas o pecado o faz perder
completamente essa vocação original.
Iniquidade ('avon
- עון): refere-se à culpa e à distorção interior. Não aponta apenas para atos
isolados, mas para uma natureza humana deformada.
Enquanto
Davi guardou silêncio sobre o seu pecado, tentando cobri-lo com a dissimulação,
o resultado foi devastador: “Enquanto calava o
meu pecado, envelheceram os meus ossos... a tua mão pesava sobre mim”
(Sl 32.3-4). O pecado não confessado produz morte interior. O silêncio do
pecador não anula a justiça de Deus; apenas o consome por dentro.
Mas
o silêncio que destrói é quebrado pelo caminho da restauração. No versículo 5,
observe os verbos de ação do salmista: “Não
escondi... declarei”. E a resposta divina é imediata: “Tu perdoaste”. A ordem bíblica jamais muda, confissão
O
perdão divino é revelado no salmo através de três verbos da graça.
Perdoar (nasa'): levantar o peso. A culpa esmagadora é removida
de sobre os nossos ombros.
Cobrir (kasah): o
pecado desaparece diante dos olhos divinos, expiado pelo sacrifício.
Não imputar (hashav):
é um termo jurídico que declara: “Esta dívida
não entra mais na sua conta”. É exatamente este termo que o apóstolo
Paulo cita em Romanos 4 para explicar a doutrina da justificação pela fé.
O silêncio que destrói ao outro
(Ezequiel 33.7-9)
Se
o Salmo 32 nos alerta sobre o silêncio que destrói a nós mesmos, o profeta
Ezequiel nos mostra o perigo do silêncio que destrói o nosso próximo.
Em
Ezequiel 33, Jerusalém está prestes a cair. Nesse momento crítico de transição,
Deus reorganiza o Seu povo e constitui o profeta como um tsopheh (צֹפֶה),
um vigia, sentinela ou atalaia. No antigo Oriente, a função do Atalaia
sobre o muro não era lutar contra o inimigo, mas enxergar o perigo e dar o
alarme.
Deus
diz ao profeta que, se o ímpio não for avisado do seu mau caminho e morrer, “o seu sangue eu o requererei da tua mão”. Essa
expressão deriva da legislação da aliança, ou seja, quem se cala torna-se
corresponsável pela tragédia. O silêncio do Atalaia mata. Não porque o profeta tenha o poder
de condenar, mas porque ele escondeu a única Palavra capaz de salvar.
Observe
o coração pastoral de Deus no encargo do Atalaia. O objetivo divino nunca é a
condenação, mas a conversão. A advertência não é um ato de vingança, mas um
instrumento da graça. A ira bíblica serve ao propósito da salvação. Deus
denuncia o perigo para que o pecador se volte e viva.
A fala que cura e restaura
(Mateus 18.1-20)
No
Novo Testamento, Jesus pega o encargo do Atalaia de Ezequiel e o estende a toda
a comunidade de fé. Em Mateus 18, Jesus ensina sobre a disciplina e a
reconciliação na Igreja, dizendo: “Se teu irmão
pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só”.
A
Igreja inteira é chamada a exercer o papel de Atalaia da graça. No entanto, a
forma como essa fala deve ser exercida exige o correto entendimento do amor
cristão, como ensinado por Paulo em Romanos 13.1-10.
Paulo
ensina que, após sermos justificados pela graça, somos chamados a viver em uma
nova ordem de amor. O apóstolo afirma: “A
ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros”
(Rm 13.8). O verbo amar (agapan) está no presente, ou seja, é algo
contínuo, é uma dívida permanente que jamais se quita.
O
amor bíblico (agape) não é mera emoção sentimental; é decisão, serviço e
responsabilidade pela vida do outro. E é aqui que os textos se alinham
perfeitamente. O amor é o
cumprimento da Lei, e corrigir um irmão em erro é um ato de supremo amor.
Ignorar o pecado do irmão não é amor ou tolerância; é omissão e abandono. O
silêncio diante do erro do irmão é deixá-lo caminhar para a ruína. A fala
inspirada pelo amor é o remédio da graça.
A
instrução de Jesus em Mateus 18 não visa expor, humilhar ou banir o pecador,
mas ganhar o irmão. A correção bíblica segue etapas claras de proteção e
cuidado pastoral. A correção é pessoal e privada, pois resguardar a
dignidade e busca a reconciliação no nível mais discreto possível. Quando há
necessidade de testemunhas é para confirmar a verdade e buscar mediação
em amor. Quando o assunto vai para a Igreja, é o apelo para o resgate final.
Isso
revela que a autoridade dada à Igreja para “ligar
e desligar” não é um poder tirânico, mas o ministério restaurador da
Palavra de Cristo no meio do seu povo.
Querida
igreja, as quatro leituras desta semana revelam que o nosso Deus é um Deus que
fala e nos convida a sair do silêncio destrutivo para vivermos na verdade que
cura.
Quebre o silêncio diante de Deus
(Salmo 32): Se você tem escondido o seu pecado, confesse
hoje. Há perdão pleno, cancelamento de dívida e alegria transbordante na
presença do Senhor.
Assuma o seu papel de Atalaia
(Ezequiel 33): Não se cale diante do mundo e nem dentro
do seu lar. Omitir a Palavra da verdade àqueles que estão se perdendo não é
gentileza, é omissão perigosa.
Pratique a fala que cura no corpo de
Cristo (Romanos 13 e Mateus 18):
Se você vê seu irmão se desviando do caminho, não comente com os outros, vá até
ele em amor. Não o abandone no erro. Lembre-se de que a dívida do amor jamais
caduca. Fale a verdade em amor, pois a palavra dita com sabedoria e graça é
instrumento da cura de Cristo.
Que
o Senhor nos livre do silêncio da cumplicidade e nos conceda a coragem da fala
restauradora. Que sejamos uma comunidade onde a graça abunda, o pecado é
confessado e abandonado, e o amor responsável edifica o corpo de Cristo. Amém.
Edson Ronaldo Tressmann
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