terça-feira, 24 de setembro de 2019

Lázaros aos Lázaros!

Décimo sexto domingo após Pentecostes!
Salmo146; Amós 6.1-7; 1Timóteo 6.6-19; Lucas 16.19-31
Texto: Lucas 16.19-31
Tema: Lázaros aos Lázaros!

O maior desejo de uma pessoa é ser rico!
Quem nunca sonhou em ter muito dinheiro? Se você fosse rico, o que faria com suas riquezas?
Não apenas por este texto que concluímos que morreu é céu e inferno. O texto indica claramente a respeito do meu futuro eterno e que o mesmo está atrelado ao que nessa vida tenho depositado a minha confiança. Nas riquezas ou em Cristo! Cristo é o centro da minha fé.
A história do rico e de Lázaro mostra que o ímpio depois da morte está em tormento (Lc 16.23). As almas permanecem no céu ou no inferno até o dia do juízo final, quando serão reunidos com seus corpos. A descida de Cristo ao inferno (1Rs 3.19,20), mostra que os incrédulos estão em prisão. Só há apenas dois lugares: céu e inferno, e num deles, a nossa alma entra e depois, por ocasião da volta de Cristo, nosso corpo também irá. Por ocasião da volta de Cristo, os mortos irão ressuscitar e Jesus, dará aos piedosos a vida e alegria eterna; os ímpios, serão condenados, para junto com o diabo e seus anjos serem atormentados sem fim.
O Dr Piper ressalta que não haverá ateus no inferno, pois o castigo o convencerá a existência de um juiz justo e onipotente (Lc 16.27-28). O objetivo de Deus com a pregação da condenação visa o arrependimento (Mt 3.7-12). Deus não destinou o ser humano ao inferno, pois, logo após a queda em pecado, uma opção humana decorrente da tentação do diabo, Deus prometeu o salvador (Gn 3.15). Deus quer que todos sejam salvos (1Tm2.4). No entanto, o diabo não se cansa de tentar o ser humano para afastá-lo de Deus. E uma das mais perigosas tentações que tem feito milhares de pessoas se afastarem de Deus é o amor ao dinheiro (1Tm 6.10).
Para muitos ricos, os pobres são como Lázaro, ou seja, que Deus os socorra. Lázaro significa Deus Socorre. Aquele rico (Lc 16.19-31), assim como muitos atualmente, apenas considerava o pobre como um coitado que não aproveitou as oportunidades e que devia ser um vagabundo. Aquele rico não aproveitou a presença do pobre como sendo uma oportunidade de Deus para demonstração de amor.
Na época não havia talheres (surgiram por volta de 1500 com Leonardo da Vinci). E sem talheres, comiam com as mãos e limpavam seus dedos nos pães que eram jogados fora. E desses é que os cães e os mendigos se alimentavam.
Jesus, ao contar essa história relata algo que nos faz refletir. A situação do rico. Ele confiava somente em suas riquezas. Deliciava nelas e julgava-se superior aos demais. E Jesus, dizendo que mesmo no inferno, aquele rico não compreendia e julgava-se superior a Lázaro. No verso 24 está registrado o pedido do rico de que Abraão mande Lázaro com seu dedo refrescar lhe a boca.
E já que isso não era possível, àquele rico pediu de maneira mais humilde que Abraão mandasse Lázaro para seus irmãos (v.27).
O pedido foi negado com explicação do por que no v.29 “eles tem Moisés e os profetas”, ou melhor, eles tem a Palavra de Deus. Que as ouçam! Eles precisam ouvir a Palavra de Deus. Se não a ouvem, um milagre, não os fará crer (v.31).
Qual foi o pecado do rico? Foi justamente o que ele não fez. Constantemente confessamos nossos pecados dizendo: pequei pelo que pensei, falei, fiz e deixei de fazer.
Querido irmão e irmã – as desigualdades sociais são naturais? Será que é normal, uns terem toda a riqueza e outros toda a pobreza?
Não é pecado ser rico! Ela é um dom (Ec 5.10; Rm12.8). No entanto, como alerta Paulo a Timóteo, o amor a riqueza muitas vezes cega as pessoas. Por isso, Deus enviou o profeta Amós. E esse denunciou as desigualdades sociais. E nós precisamos falar, refletir sobre as desigualdades sociais.
Como lutar contra as desigualdades sociais?
Foi dito por Abraão ao rico: eles tem Moisés e os profetas. Todo resumo da lei e dos profetas conforme as palavras de Jesus é: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37,39).
Você tem ouvido Moisés e os profetas? Talvez você esteja sempre dentro da igreja, mas, assim como na época do profeta Amós, tem negado a prática do amor ao seu semelhante. Muitas pessoas carecem do básico para viver, ou precisam daquela TV velha que está no seu depósito para assistir.
Quantas congregações estão abastadas financeiramente, e outras necessitam apenas de algumas Bíblias novas para que as pessoas possam ler a Bíblia.
Por que é tão importante ouvir o que diz Moisés e os profetas?
Primeiro: para que haja salvação. Rm10.17 – por meio da sua Palavra, Deus opera, dá e fortalece a fé. Por isso, nos exorta no terceiro mandamento a ouvir atentamente a Palavra de Deus, e tirarmos um dos dias semanas para o ouvir.
Segundo: para sermos motivados a prática das boas obras (Ef 2.10; 2Tm 3.17).
Sem a Palavra de Deus não há fé e nem sequer obras que agradam a Deus, afinal, sem fé ninguém agrada a Deus (Hb 11.6).
Éramos miseráveis, mas, Jesus, sendo Deus, não ficou sentado no trono celestial, mas, aceitou descer e tomar nosso lugar para nos resgatar e nos socorrer (Fp 2.6).
Os Lázaros, socorridos por Deus em Jesus, são enviados ao mundo para socorrer os muitos Lázaros que necessitam de socorro. Amém!
Edson Ronaldo TREssmann

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Mitos e Verdades sobre o dinheiro

Décimo sexto domingo após Pentecostes!
Salmo146; Amós 6.1-7; 1Timóteo 6.6-19; Lucas 16.19-31
Texto para prédica: 1Tm 6.6-19
Tema: Mitos e verdades sobre o dinheiro (1Tm 6.6 - 19)

Há um quadro no telejornal na Record que diz: mitos e verdades sobre a alimentação. Hoje, proponho refletirmos um pouco sobre os mitos e verdades do dinheiro.
Para combater mitos a respeito do dinheiro, o apostolo Paulo escreve a presente perícope (1Tm 6.6-19), afinal, pessoas cristãos estavam se perdendo por começarem a amar o dinheiro.
As pessoas sonham com a felicidade. A felicidade parece estar naquilo que não possuímos. As pessoas gastam todas as suas energias e forças na busca das coisas materiais e quando as conseguem, caem na real, e observam que a tão sonhada felicidade não está ali.
O apostolo Paulo usa a Palavra contentamento no sentido de suficiência interior que guarda a pessoa em paz a despeito das circunstâncias externas. Você se sente mais em paz quando a conta bancária está cheia?
Paulo, o apostolo, combate os falsos mestres que estavam fazendo da piedade uma fonte de lucro. Era como se o dinheiro lhes trouxesse a felicidade, o contentamento, a segurança eterna. “É claro que a religião é uma fonte de muita riqueza, mas só para a pessoa que se contenta com o que tem” (1Tm 6.6) e admoesta: “Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males. E algumas pessoas, por quererem tanto ter dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimento” (1Tm 6.10). Seus óculos são feitos de moeda? Ou, você tem se vislumbrado com a riqueza?
Falsos mestres, além de distorcerem a doutrina, amavam o dinheiro e não encontraram e nem encontram contentamento. O pastor que é pastor só por dinheiro está fadado ao fracasso!
1 – Dinheiro é temporal! (v.7).
Nunca presenciei um velório em que a mudança ou dinheiro fosse colocado junto a cova do falecido. E mesmo que você já tenha visto, saiba que, essa mudança, ou dinheiro, não ressuscitarão e nem tomarão lugar, quer seja no inferno ou no céu.
O apostolo Paulo alerta sobre o perigo do amor, apego ao dinheiro. O dinheiro e a riqueza são bênçãos (Ec 5.10-20; Rm 12.8), quando usados corretamente e em favor do próximo, caso contrário é uma maldição.
Jesus instruiu acerca do dinheiro e da riqueza. Das 38 parábolas, em dezesseis discute esse assunto. Além disso, há cerca de 2 mil versículos que lidam com a questão do dinheiro e das posses.
Por que toda essa conversa sobre dinheiro? Para alertar a usar o mesmo corretamente e não apegar-se ao vintém como fonte de contentamento e salvação: “Pois onde estiverem as suas riquezas, aí estará o coração de vocês” (Mt 6.21).
O apostolo escreveu: “Portanto, se temos comida e roupas, fiquemos contentes com isso. Porém os que querem ficar ricos caem em pecado, ao serem tentados, e ficam presos na armadilha de muitos desejos tolos, que fazem mal e levam as pessoas a se afundarem na desgraça e na destruição” (1Tm 6.8-9).
2 – Sem dinheiro com o dono das riquezas! (v.8)
Jesus ensinou a orar: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”. Infelizmente essa frase foi trocada pelos ambiciosos, que oram dizendo: “O dinheiro meu, deposita na conta hoje”.
Ao ensinar a orar: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”, Jesus instruiu a pedir o pão de cada dia e assim, quis mostrar que o necessário para o corpo e a vida é concedido pelo Pai Celestial. “Portanto, se temos comida e roupas, fiquemos contentes com isso” (1Tm 6.8). Palavras convidativas a satisfação nas coisas que Deus concede. Ou seja, repouse em paz e tranquilo, pois, o essencial para o corpo e a vida não faltará.
3 – O amor ao dinheiro pode destruir qualquer pessoa (v.9 - 10)
“Porém os que querem ficar ricos caem em pecado, ao serem tentados, e ficam presos na armadilha de muitos desejos tolos, que fazem mal e levam as pessoas a se afundarem na desgraça e na destruição. Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males. E algumas pessoas, por quererem tanto ter dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimentos” (1Tm 6.9-10).
O perigo de buscar uma suposta felicidade no dinheiro é que o mesmo nos conduz a tentação de fazer do dinheiro um deus. Um deus que socorre a todo e qualquer momento. Dessa forma, a pessoa, passa a buscá-lo de uma maneira desenfreada, chegando ao ponto de cometer ilegalidades para obtê-lo.
Salomão (Ec 5.10) escreveu que “quem ama o dinheiro jamais dele se farta, e quem ama a abundância nunca se farta da renda.”
O amor ao dinheiro é uma das grandes armadilhas do diabo para desviar pessoas da fé cristã. Muitos se esqueceram e deixaram Deus de lado para buscar ganhar dinheiro. Pesquisa rápida: Porque muitos não estão no culto hoje? Estão trabalhando para ganhar mais dinheiro ou ostentando o seu dinheiro, gastando-o.
Você já reparou como os ricos vivem? São inquietos, inseguros, medrosos. Qualquer alteração no mercado econômico, suas bases ficam abaladas. Todo rico vive perturbado por duas coisas: angustiado em ganhar e com medo de perder.
“Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males...”.
É preciso destacar que o amor ao dinheiro é apenas uma das muitas fontes de todos os tipos de males. Nesse sentido, não precisamos apelar para a pobreza como fonte de felicidade assim como fazem os franciscanos.
O amor ao dinheiro, apego aos bens materiais, leva pessoas à amargura, afastamento de Cristo e desprezo aos pobres. Por amor ao dinheiro, Judas traiu Jesus e suicidou-se. Por amor ao dinheiro, Ananias e Safira mentiram ao Espírito Santo. Por amor ao dinheiro, vidas tem sido destruídas. Por amor ao dinheiro, pessoas foram perante o altar e prometeram amar até o fim apenas para usufruir dos bens. Por amor ao dinheiro, pessoas traficam de drogas, cigarro, sequestram, assassinam ... Lembre-se: o amor ao dinheiro é apenas uma fonte para tantos males.
O maior perigo do amor ao dinheiro é o afastamento da fé cristã. Para que os cristãos não se percam no amor ao dinheiro, o apostolo escreve (vv. 11 a 16) cinco maneiras de como proceder.
1 – Fuja da tentação do amor ao dinheiro (v.11)
Fuja do amor ao dinheiro, cuidado, pois, dos dez mandamentos de Deus, dois tratam da cobiça. Fuja dessas coisas! Ao contrário, viva uma vida correta, de dedicação a Deus, de fé, de amor, de perseverança e de respeito pelos outros.
2 – Combata o bom combate da fé (v.12)
Tudo lhes é dado pelo Pai. Ele é Senhor.
Combater é um termo emprestado do atletismo, e quer dizer: agonizar. A enfatizar para que se combata o bom combate, o apostolo aconselha a colocar toda a energia no andar com Deus e no fazer a obra de Deus. Para que ficar desperdiçando as energias no ganhar muito dinheiro, se Deus nos dá o que necessitamos dia após dia.
Combater o bom combate da fé é confessar a fé, mesmo que tudo parece indicar ao contrário.
Paulo escreve “toma posse da vida eterna” como sendo algo já real. Em outras palavras, o apostolo quer transmitir a certeza de que nada adianta ficar sofrendo pelo aqui e agora, pois, em Cristo já temos a vida eterna.
3 – Confesse a fé! (vv.12-16)
O perigo era negar a fé cristã diante da perseguição.
4 – Depositem a confiança em Deus (v.17)
As riquezas tornam as pessoas orgulhosas. Elas passam a se julgar merecedoras das riquezas. Aqui vejo o quão perigoso é a teologia da prosperidade. Ela ressalta que a fidelidade nos dízimos e vida santa é que dá a riqueza. A riqueza torna as pessoas orgulhosas de si.
Muitos ostentam poder, tudo devido a riqueza. Ela pode pagar o melhor advogado, médico, ... a riqueza faz viver uma verdadeira ilusão. A riqueza é instável. É como querer atravessar um rio pisando em pedras de isopor. Salomão escreveu: “Não se mate de trabalhar, tentando ficar rico, nem pense demais nisso. Pois o seu dinheiro pode sumir de repente, como se tivesse criado asas e voado para longe como uma águia” (Pv 23.5).
5 – Faça coisas que a riqueza muitas vezes impede fazer (v.18-19)
Não deixe o amor ao dinheiro dominar você. Não deixe o dinheiro ser seu patrão e nem seja servo do dinheiro. Use seu dinheiro para o bem dos outros. Se não quer fazer o bem com as próprias mãos, doe seu dinheiro a quem o faz. Seja uma pessoa generosa assim como Deus é generoso com você todos os dias. Amém!
Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Honrados em administrar as coisas de Deus!


Décimo quinto domingo após Pentecostes!
Salmo 113; Amós 8.4-7; 1Timóteo 2.1-15; Lucas 16.1-15
Texto para prédica: Lucas 16.1-5
Tema para prédica: Honrados em administrar as coisas de Deus!
  
Jesus é um verdadeiro contador de histórias. Histórias que ensinam e instruem. E a parábola do administrador infiel (Lucas 16) é escatológica, ou seja, trata sobre um assunto dos fins dos tempos.
No capítulo 15 e 16, Lucas narra parábolas contadas por Jesus. Havia três tipos de ouvintes. Primeiro: cobradores de impostos e pessoas de má fama. Segundo: os discípulos. Esses desejavam ouvir e aprender de Jesus. Terceiro: os fariseus e os mestres da lei. Esses apenas ouviam com o objetivo de criticar Jesus. E a crítica estava atrelada ao fato de Jesus acolher pessoas que eram mal vistas na sociedade.
Ao contar as parábolas, da ovelha e da moeda perdida, do filho pródigo, do administrador desonesto, do rico e de Lázaro, da viúva e do juiz, do fariseu e do publicano, Jesus se apresenta como o enviado de Deus para buscar o perdido. Com essas histórias, Cristo está comunicando que cada pecador desesperado pode se agarrar na única alternativa que o salva: na misericórdia divina.
Ao contar a parábola do administrador desonesto, Jesus destaca que esse homem adquiriu riquezas ilicitamente. A lei judaica proibia e proíbe cobrar juros sobre empréstimos. Esse homem, além dos juros, superfaturava de 20% a 50% as taxas de juros sobre o trigo e o azeite de oliva. A lei judaica dizia que essa prática era cúmulo da injustiça.
O administrador, pelo sua atitude, ressaltada por Jesus de inteligente, era conhecedor da lei judaica. Por ser conhecedor da lei de Deus, o administrador sabia o rigor que a administração exigia dele e quais eram suas responsabilidades como administrador. A maior de todas era justamente a fidelidade no gerenciamento. E, é justamente nesse ponto que a parábola enfatiza a observação do patrão: “Eu andei ouvindo umas coisas a respeito de você. Agora preste contas da sua administração porque você não pode mais continuar como meu administrador.” (Lc 16.2).
O administrador temeu, pois seu patrão conhecia a verdade. E é justamente nessa situação que o administrador desonesto descobre a maior de todas as virtudes do seu patrão. O administrador deveria ter sido preso imediatamente e não ter mais acesso às contas do patrão. No entanto, o patrão o deixa livre.
Por esse ato, o administrador percebe a misericórdia do patrão. E nessa misericórdia, arrisca todas as suas chances. Sem que os outros saibam que havia sido despedido, chama cada um dos devedores e reduz os juros das dívidas, ou melhor, retirando as taxas indevidas. Fez isso com o objetivo de ser recebido posteriormente na casa desses empreiteiros como forma de gratidão pela seu suposto ato.
Reduzir as dívidas, alguns casos em até 50%, levou muitos a comemorar. Houve uma festa de gratidão na vila em resposta a imensa bondade do patrão.
O fato era que por ter sido despedido, o administrador não poderia dar tal ordem e nem sequer os devedores podiam assinar qualquer contrato. Mas, o administrador agarrou-se na misericórdia do patrão que o deixou livre e é elogiado por sua perspicácia.
Quem diria, Jesus elogiar um ato de corrupção. A pergunta que muitos se fazem é o motivo desse elogio.
O patrão em sua misericórdia permitiu que o administrador ficasse solto e com liberdade para agir. Agora, o patrão tinha duas alternativas diante do acontecido. Primeiro: voltar-se aos devedores e dizer que o administrador havia sido despedido dias antes e seus descontos não eram válidos e a dívida permanecia como antes. E expor o administrador a um grande vexame. Ou, segundo: ficar em silêncio, aceitar a gratidão daquelas pessoas que haviam recebido perdão de boa parte de suas dívidas.
Os devedores perdoados louvavam ao patrão pela sua generosidade. No Oriente Médio, a maior qualidade de um nobre é sua generosidade, sua misericórdia.
O objetivo do administrador foi um sucesso. Foi perspicaz e ao mesmo tempo, agarrou-se na misericórdia do patrão. Nesse sentido, pela esperteza do administrador, Jesus destaca: “as pessoas deste mundo são muito mais espertas nos seus negócios do que as pessoas que pertencem a luz” (Lc 16.8).
O termo “espertas” – “esperto” – em sua etimologia transmite a ideia de “instinto de autopreservação.”
O instinto e a necessidade de auto preservação que leva o administrador a agir. O administrador disse para si mesmo. Como vou viver agora, afinal, “não tenho forças para cavar a terra e tenho vergonha de pedir esmola,” (Lc 16.3). Preciso me auto preservar! E para sua auto preservação, agarrou-se onde poderia se agarrar naquele momento.
As pessoas querem se auto preservar. O que um ser humano é capaz de fazer para se auto preservar?
Para sua autopreservação as pessoas deste mundo são espertas, inteligentes e perspicazes. E dessa forma, ao ressaltar que “as pessoas deste mundo são muito mais espertas nos seus negócios do que as pessoas que pertencem a luz” (Lc 16.8), Jesus está enfatizando que muitos dos críticos, ou seja, fariseus e escribas, se auto preservavam diante das pessoas, mas, não estavam se auto preservando diante de Deus. Por essa razão, “Jesus disse a eles: Para as pessoas vocês parecem bons, mas Deus conhece o coração de vocês. Pois aquilo que as pessoas acham que vale muito não vale nada para Deus” (Lc 16.15).
Gostamos de nos apresentar bem diante dos homens e muitas vezes, vivemos uma falsa religiosidade. Ou melhor, nos escondemos atrás das nossas máscaras.
A parábola apresentada por Lucas é escatológica. Trata sobre o fim dos tempos. Em outras palavras, somos denunciados como pessoas que desfrutam dos bens de Deus (v.1). Como os estamos gerenciando?
É preciso que compreendamos que as vocações pertencem a esse mundo. Elas nos foram concedidas para serem direcionadas ao próximo. Em nossas vocações, não estamos nos voltando à Deus, mas, nos inclinando ao nosso próximo. Exercer nossa vocação é continuar na obra criadora de Deus. No batismo, Deus o autor do mesmo, nos vocacionou para amar e servir ao próximo onde estivermos (Gustav Wingren, Luther on Vocation).
Somos mordomos das coisas criadas para preservar a criação. O mordomo é alguém que administra os bens de outra pessoa. A pessoa não possui esses bens, mas tem o privilégio de desfrutá-los e usá-los em benefício do próximo. É necessário ouvir atentamente a palavra de Deus mediante o profeta Amós: “Escutem, vocês que maltratam os necessitados e exploram os humildes aqui neste país. Vocês dizem: “Quem dera que a festa da Lua Nova já tivesse terminado para que pudéssemos voltar a vender os cereais! Como seria bom se o sábado já tivesse passado! Aí começaríamos a vender trigo de novo, cobrando preços bem altos, usando pesos e medidas falsos e vendendo trigo que não presta. ...” (Am 8. 4-6a).
Como estamos administrando o que temos recebido de Deus, em favor do próximo?
O ladrão diz: o que é seu é meu, passe para cá. O egoísta exclama: o que é meu, é meu, fico com tudo. O cristão, mordomo responsável ressalta que o que é meu é uma dádiva de Deus, vou compartilhá-la.
O apostolo Pedro, escreveu aos cristãos que estavam vivendo em fuga constante devido as perseguições: “Sejam bons administradores dos diferentes dons que receberam de Deus. Que cada um use o seu próprio dom para o bem dos outros!” (1Pe 4.10).
Se porventura, estamos negligenciando nossas vocações e deixando de socorrer nosso próximo, é preciso agarrar-se na única coisa que nos auxiliará: a misericórdia daquele que nos dá todas as coisas para administrarmos. As parábolas do filho pródigo, do fariseu e do publicano e do administrador infiel, anunciam a necessidade que temos de nos agarrar na misericórdia divina para nossa preservação. Afinal, como pecadores, nas coisas deste mundo usamos a oportunidade com sabedoria para nos preservar.
Jesus anuncia que tanto o filho esbanjador, quanto o administrador desonesto traem a confiança que foi depositada neles. Ambos, o esbanjador e o desonesto, não apresentaram desculpas. Reconheceram seus erros e se agarraram no único lugar que lhes era possível agarrar: na misericórdia do pai e do patrão.
Deus é misericordioso! Em seu filho veio ao nosso encontro e nos resgatou.
Ao nos presentear com a fé, quer seja pelo Batismo ou Pregação, nos coloca numa posição de mordomos dentro do seu reino e por isso, nos faz três admoestações (Lc 16.9-13). Primeiro: usar as oportunidades que temos para servir ao próximo com alegria (Lc 16.9); Segundo: sermos fiéis no uso daquilo que administramos (Lc 16.10-12); Terceiro: dedicar-se com firmeza em nossos propósitos (Lc 16.13; Mt 6.19-24).
Para terminar vale lembrar que ao sermos colocados como administradores das coisas de Deus nesta vida, somos honrados pela oportunidade de continuar agindo na criação de Deus que está aí para que o próximo seja abençoado, assim como nós somos abençoados. Amém!

Edson Ronaldo Tressmann

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Perdidos e achados!

14º Domingo após Pentecostes!
Sl 119. 169 - 176; Ez 34. 11 - 24; 1Tm 1. 12 - 17; Lc 15. 1 - 10
Texto para prédica: Lucas 15.1-10
Tema: Perdidos e achados!

Você já percebeu o quanto é importante a seção de perdidos e achados?
Dias atrás acompanhando uma reportagem sobre o departamento de perdidos e achados numa rodoviária, assustei-me com a quantidade de objetos que lá estavam. O próprio repórter questionou sobre a quantidade de pertences perdidos.
Os objetos perdidos tem um dono e com certeza fazem falta para quem o perdeu.
A igreja é um departamento de perdidos e achados! E aqui está uma das grandes críticas da atualidade referente a igreja. A crítica dos fariseus e escribas é a mais forte crítica a igreja em pleno século 21. “Este homem (Jesus) se mistura com gente de má fama e toma refeições com eles” (Lc 15.2).
No oriente médio, comer a mesa junto com alguém é uma questão de honra. Os fariseus e os escribas entendiam que não havia honra nenhuma a ser dada aos publicanos e pecadores. Outra coisa, o convidado é que dava honra ao dono de sua presença. E os escribas e fariseus não entendiam que tipo de honra poderia dar a Jesus os pecadores estarem na sua companhia.
Isso, o mundo, e infelizmente, muitos cristãos, não conseguem entender que a igreja é a composição de pecadores resgatados por Cristo. São os perdidos que foram achados pela graça de Deus.
As Confissões Luteranas descrevem no Artigo VII da Confissão de Augsburgo que a “igreja cristã, propriamente falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos, todavia, já que nesta vida continuam entre os piedosos muitos falsos cristãos e hipócritas, também, pecadores manifestos. Os sacramentos nada obstante são eficazes, embora os sacerdotes que os administram não sejam piedosos. Conforme o próprio Cristo indica: "Na cadeira de Moisés estão sentados os fariseus, ...” (LC, 2006, p.32).
A igreja está representada pelos escribas e fariseus e também pelos pecadores e publicanos. Defino a igreja com as palavras de Cristo na parábola, ou seja, os que causam alegria e festa no céu por se arrependerem (Lc 15.7,10).
A igreja é a composição dos arrependidos!
Jesus atraía pecadores! Parecia imã de pecadores. Por que Jesus atraia pecadores? Porque os amava. Jesus disse à Zaqueu, um cobrador de impostos, homem corrupto na época (alguns hoje, diriam que era um petista): “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar quem está perdido” (Lc 19.10).
Certa vez em Chicago, havia um menino que caminhava vários quilômetros para participar das aulas de escola Bíblica. Um dia alguém lhe perguntou: por que não frequenta a escola bíblica que há próximo a sua casa? Ao que ele respondeu: por que aqui me amam como eu sou.
Os pecadores, os publicanos criticados por serem honrados e por darem honra a Jesus, estando com ele a mesa, eram amados por Cristo. E esse amor é que não lhes permitia dar crédito a crítica dos fariseus e escribas.
A igreja é uma associação dos perdidos achados.
No entanto, em nossos dias, a igreja está sendo criticada por ter em os seus pecadores deploráveis. E convém lembrar novamente: “igreja cristã, propriamente falando, outra coisa não é senão a congregação de todos os crentes e santos, todavia, já que nesta vida continuam entre os piedosos muitos falsos cristãos e hipócritas, também, pecadores manifestos. Os sacramentos nada obstante são eficazes, embora os sacerdotes que os administram não sejam piedosos. Conforme o próprio Cristo indica: "Na cadeira de Moisés estão sentados os fariseus, ...” (LC, 2006, p.32). Na igreja, Deus continua manifestando seu amor, oferecendo seu perdão aos pecadores arrependidos e assim causando a maior alegria e festa no céu. Amém!
Edson Ronaldo Tressmann

domingo, 1 de setembro de 2019

Você está realmente bem!?

13º Domingo após Pentecostes
Salmo 1; Deuteronômio 30.15-20; Filemon 1-21; Lucas 14.25-35
Texto para prédica: Salmo 1
Tema: Você está realmente bem!?

Quando alguém pergunta para outra pessoa: você está bem? A resposta costumeira é: “estou bem. É melhor dizer que está bem, para ver se fica melhor”. As pessoas querem e desejam estar bem. Ninguém quer estar mal. Mas, será que você está realmente bem?
O Salmo 1 inicia com a mesma palavra com a qual o Salmo 2 termina – Ashërey. Essa palavra, aparece vinte e seis vezes nos Salmos, e significa “felicidades de”, ou melhor, “abençoado”.
A palavra que aparece nas traduções bíblicas “bem aventurado” descreve o estado de alguém.
Você está realmente bem?
O Salmista descreve o estado da pessoa como um homem abençoado. Ou seja, o salmista diz que “tudo está bem para aquele homem o qual” ama a lei de Deus e que está afastado dos ímpios. Lembre-se: nada é agradável para quem a lei do Senhor é desagradável.
Está bem aquela pessoa que “não anda”, ou seja, que não vive e convive nos conselhos dos ímpios.
O salmista sabe que nenhuma sociedade, e nenhum cidadão persiste se não for estruturada e mantida por certos decretos e leis. Assim, uma sociedade e um cidadão que ignora a lei do Senhor, e seguir a impiedade, não pode e nem poderá estar bem. Deixará de estar abençoado, de ser feliz, para ser amaldiçoado e infeliz.
Os ímpios, por ignorar a lei do Senhor, buscam andar pelos seus próprios caminhos, isso por que entendem que o mesmo está correto e que em seu caminhar não há erro.
A situação moral que se vive atualmente coloca o cristão numa encruzilhada. Humanamente perdeu-se o sentido ético das coisas. Tudo parece ser tão normal, que o caminho errado tornou-se certo. Corre-se o risco de caminhar no conselhos dos ímpios sem se dar conta de que esse caminho não é mais o caminho de Deus.
O caminho do ímpio se deve a um único fator. A impiedade é propriamente o mal da incredulidade. Passa-se a caminhar na impiedade e no caminho dos ímpios, porque se esqueceu de Deus, não sabe mais quem ele é e qual é o seu caminho. Os ímpios “sentam na roda dos escarnecedores, zombadores”, ou seja, violam a fé.
Estar bem, ser abençoado e feliz, é aquele que vive na e da fé. A convicção daquele que está bem e é abençoado é que Deus tem e oferece o melhor. O apóstolo Paulo em suas epístolas se dedica a ensinar sobre a fé em Cristo. Na carta aos Romanos, por onze capítulos alicerça a fé, e em cinco capítulos constrói os costumes provenientes da fé. Aos gálatas, em cinco capítulos ensina a fé e no sexto, os costumes provenientes da fé. É abençoado quem anda na lei do Senhor, ou seja, que vive na e da fé.
Ao contrastar a vida do ímpio com a vida do abençoado, o salmista faz uso de um dos termos mais dramáticos e negativos sobre o relacionamento com Deus e sua Palavra. O salmista fala sobre os escarnecedores, zombadores.
Muitas pessoas que dizem estar bem, na verdade, ouviram o conselho, passaram a seguir o caminho e infelizmente acabaram se assentando com os ímpios. E isso é revelado pela sua decisão.
A promessa dirigida por Deus pelo profeta Ezequiel, foi dada ao povo de Judá que estava se afastando. O apóstolo Paulo escreve aos Coríntios que “todos compareceremos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2Co 5.10). Jesus conforme narrado pelo evangelista Marco (Mc 4.26-34) diz que o Reino de Deus é a ação de Deus no mundo. E Deus age no mundo através da obra de seu Filho Jesus e a mesma se concretiza na segunda vinda de Jesus. E se Jesus ainda não voltou, é sinal de que Deus continua agindo em seu reino para salvar seus filhos. O problema é que em oposição ao reino de Deus se encontram os ímpios.
Você está realmente bem?
Ao descrever o estado de uma pessoa abençoada, o salmista diz que a mesma sente prazer na lei do Senhor.
Enquanto que o ímpio viola a fé, a pessoa abençoada e feliz, tem prazer na sua vida na e da fé.
No período pós-bíblico, período do exilio, a palavra prazer descrevia o negócio de uma pessoa. Ou seja, a pessoa passava a maior parte do tempo onde estava seu negócio. O seu negócio e trabalho era algo agradável e prazeroso. Assim, o salmista escreve que “o estado de alguém abençoado é daquele que sente prazer em meditar na lei do Senhor, ...” (Sl 1.1,2). Uma pessoa está bem, se sente abençoada quando a sua vida está estruturada na Palavra do Senhor. Assim, ao escrever que “na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2), o salmista diz que só sente abençoado quem tem a sua vida governada pela Palavra de Deus. Se sente abençoado aquele que por detrás de tudo que faz está a Palavra de Deus.
Você está realmente bem?
Uma pessoa se sente abençoada quando tem sucesso (Sl 1.3). No entanto, o salmista não fala de sucesso econômico, político ou na vida pessoal. A pessoa que se sente abençoada sabe do seu sucesso diante de Deus. O que na verdade o ímpio ainda não tem, “por isso, os perversos não prevalecerão no juízo ...” (Sl 1.5).
A pessoa se sente abençoada ao saber pela fé que no da do juízo não ficará deitada, mas que se levantará ao som da última trombeta e tomará posse da vida eterna.
“Pois o Senhor conhece ...”, ou seja, o Senhor redime. O termo conhecer significa redenção. “Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, ...” (Sl 1.6). Como escreveu o profeta Habacuque, o apóstolo Paulo aos Romanos e aos Gálatas e ao autor a carta aos Hebreus: “O justo viverá pela fé” (Hc 2.4; Rm 1.17; Gl 3.11; Hb 10.38).
Você está realmente bem?
O justo, aquele que foi e é redimido por Jesus Cristo está muito bem. O ímpio ao contrário, está numa situação desesperadora. No entanto, o justo deve evitar seu conselho, caminho e assento, mas, para o ímpio Jesus continua lançando a sua semente para que pelo seu poder o coloque em seu Reino e o salve. Amém!
Rev. M.S.T. Edson Ronaldo Tressmann

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Empatia e Apatia diante da Deficiência fisica


Texto: Jó 29.15
Tema: Empatia e Apatia diante da Deficiência física
Por Edson Ronaldo TREssmann

Dia 21 a 28 de agosto é a semana nacional da Pessoa com deficiência. Convém refletir sobre o tema.
Historicamente, as pessoas com deficiência foram excluídas e discriminadas na sociedade.
Na Antiguidade Clássica, as crianças que nasciam com alguma limitação eram abandonadas ou sacrificadas. Antiguidade Na Roma antiga, se as pessoas com deficiência não eram sacrificadas, podiam ser utilizadas para fins de prostituição ou de entretenimento de pessoas ricas.
Séc. IV
A partir do século IV, as pessoas com deficiência passaram a ser internadas em instituições asilares voltadas para os marginalizados sem atendimento específico.
Séc. XI - XII
Entre os séculos XI e XII, as incapacidades físicas e os problemas mentais eram considerados sinais da ira divina, tachados como “castigo de Deus”.
Séc. XII- XIII
Somente nos séculos XVII e XVIII teve início a valorização das pessoas com deficiência, com a criação dos primeiros métodos de aprendizagem específicos para este público, como o Sistema Braille e a leitura labial.
Séc XIX
Com a revolução industrial, passou-se a valorizar a formação de cidadãos produtivos e do aumento da mão de obra; pessoas com deficiência passaram a ser compreendidas como possibilidade de mão de obra.
Séc.XX
No período pós primeira e segunda Guerras Mundiais desenvolveram-se programas de reabilitação para os ex combatentes, que voltavam das batalhas com mutilações e outras deficiências.
Até metade do século XX (1950), o atendimento da pessoa com deficiência passou a ser realizado nas escolas especiais e/ou nas classes especiais das escolas regulares.
Em 1960 foram realizados os primeiros jogos paraolímpicos.
Após a década de 90, foram formuladas as principais legislações específicas para as pessoas com deficiência, que preconizam a sua inclusão na sociedade, por meio da igualdade de oportunidades.
O termo “inválido”, no sentido de inútil e sem valor profissional, foi o primeiro termo empregado para se referir às pessoas com deficiência.
As pessoas com deficiência não devem ser tratadas por termos que denotem sentimento de pena ou de compaixão, pois elas são, acima de tudo, pessoas com talentos, aptidões e defeitos, como qualquer outra.
Na década de 20, acreditava-se que as pessoas com deficiência apresentavam capacidade reduzida e por esse motivo utilizava-se o termo “incapacitado” para se referir a elas.
Entre as décadas de 60 e 80, as expressões adotadas foram “deficientes” e “excepcionais”, pois as pessoas com deficiência eram consideradas menos eficientes e diferentes das demais.
Em 1988, surge a expressão “pessoa portadora de deficiência”. Essa expressão foi duramente criticada, uma vez que só se porta algo que se pode deixar de portar e a deficiência é uma condição inata ou adquirida que faz parte da pessoa e que não pode ser abandonada.
Na década de 90, passou-se a utilizar “pessoas com necessidades especiais”, termo que denotava a necessidade de adaptações às dificuldades e incapacidades das pessoas com deficiência. No entanto, absolutamente todas as pessoas, com ou sem deficiência, podem ter “necessidades especiais” em dado momento das suas vidas. Podemos citar uma gestante ou um idoso que podem precisar de algumas adaptações na sua rotina de atividades.
A partir de 2009, a terminologia “pessoa com deficiência” foi promulgada pela Convenção Internacional sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência da ONU e passou a ser adotada até hoje. Esse termo tem associado um certo empoderamento, uma vez que pressupõe o uso do poder pessoal para fazer escolhas, tomar decisões e assumir o controle da situação de vida de cada um.
O QUE É DEFICIÊNCIA?
Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos, de longo prazo, de natureza física, intelectual, mental ou sensorial, os quais, em interação com uma ou mais barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
As deficiências podem ter origem genética e surgir no período de gestação, em decorrência do parto ou nos primeiros dias de vida do bebê. Na vida adulta, podem ser consequência de doenças transmissíveis ou crônicas, perturbações psiquiátricas, desnutrição, abusos de drogas, traumas e lesões.
As deficiências adquiridas, além de causadas por sequelas de doenças, podem ser provocadas também por acidentes. Os de trânsito estão entre as principais causas de deficiência física em pessoas adultas no mundo.
QUAIS OS TIPOS DE DEFICIÊNCIA?
Podem ser classificadas de acordo com a área específica que afetam no organismo.
DEFICIÊNCIA AUDITIVA
DEFICIÊNCIA VISUAL
DEFICIÊNCIA FÍSICA
DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
DEFICIÊNCIA PSICOSSOCIAL OU POR SAÚDE MENTAL
DEFICIÊNCIA MÚLTIPLA
O termo “deficiência física” não deve ser generalizado e englobar qualquer tipo de deficiência (auditiva, visual, intelectual, psicossocial/mental ou múltipla), pois cada uma delas tem as suas especificidades.
Evite generalizações para se referir à pessoa com deficiência. Por exemplo, dizer que toda pessoa com síndrome de Down tem talento artístico ou toda pessoa com deficiência visual tem audição apurada. Nem todo cego sabe ler braille. Nem todo surdo sabe Libras.
Por isso, as palavras de Jó são tão impactantes: “Eu era olhos para os cegos e pés para os aleijados” (Jó 29.15).
Destacamos as palavras de Tiago, a fé sem obras é coisa morta (Tg 2.17).
A igreja precisa ser empática – sentir o que o outro sente. Mas, essa igreja enfrenta o problema de ter entre seus pares, pessoas apáticas – não sentem a dor dos outros.
Em Cafarnaum, entre tantas pessoas que interditavam a casa e sua entrada, 4 amigos foram empáticos e foram em busca do socorro subindo no telhado com àquele paralitico (Mc 2.1-5).
Temos aqui, muitas pessoas apáticas, querendo ouvir. E quatro empáticos que sentiram a dor do outro e foram em busca de socorro.
A deficiência física como tal, nos textos do AT, exigem um respeito total à dignidade da pessoa com qualquer deficiência que seja. O respeito e dignidade do deficiente está intimamente ligada à ideia de temor a Deus.
Se o mais fraco, por causa da sua limitação, não incute medo, temor ou respeito, você deve temer a Deus, que está do seu lado e o defende, já que ele não tem como fazê-lo. Ouça: “Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o SENHOR” (Lv 19.14).
O texto hebraico parece dizer: terás medo é do teu Deus. O deficiente visual ou auditivo não pode cobrar tua falta de respeito, não te ouve e nem vê o que fazes, mas o teu Deus está aí em defesa deles. Deus é defensor dos fracos; por isso é a ele que deves temer, respeitando a dignidade da pessoa com deficiência.
Davi tinha empatia. Tanto que (2Sm 9.13) sustentou até o fim da vida o neto de Saul, Meribaal, que, quando criança, tinha caído e quebrado as pernas, ficando deficiente.
Os muitos relatos bíblicos nos evangelhos e Atos dos Apóstolos mostram a compaixão de Jesus, de seus discípulos pelo povo sofredor. A igreja quando reflete sobre a pessoa com deficiência é convidada a ser empática, mesmo que muitos sejam apáticos.
As pessoas com deficiência eram vistas em Israel como pessoas desprotegidas, as quais, em um dado momento da história deveriam ter suas situações redimidas.
Quero terminar ressaltando uma simples frase que aparece em João 11.44: “E o morto saiu. Os seus pés e as suas mãos estavam enfaixados com tiras de pano, e o seu rosto estava enrolado com um pano. Então Jesus disse: Desenrolem as faixas e deixem que ele vá” (Jo 11.44).
É muito estranha essa frase, ou, muito instrutiva.
O morto saiu com as mãos e os pés amarrados, enquanto seu rosto era envolvido pelo sudário. Onde já se viu morto sair de mãos e pés atados e, ainda, com o rosto totalmente coberto, enrolado por um pano?
Bem! Quero apenas dizer que milhares de pessoas estão com as mãos e pés atados, incapazes de se mover e de agir, com o rosto totalmente coberto, sem enxergar, sem ouvir, sem perceber, sem possibilidade de falar, sem cara reconhecível, sem identidade. O que estamos fazendo? Agindo com empatia ou apatia?
Jesus diz uma coisa aos discípulos de então e a nós: Desamarrai-o e deixai-o ir! Ou, seja como Jó: “olhos para os cegos e pés para os aleijados” (Jó 29.15).
Amamos por que Cristo nos amou primeiro (1Jo 4.19). Jesus, por sua empatia a nossa deficiência suportou a morte, morte de cruz (Fp 2). Amém!
Edson Ronaldo TREssmann
Bibliografia
Coleção Paraná Inclusivo. Volume I. Conhecendo a pessoa com deficiência.

Do vale da sombra da morte a eternidade!

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