13 de setembro de 2026
Próprio
19 - Décimo Sexto Domingo após Pentecostes
Salmo
103.1-12; Gênesis 50.15-21; Romanos 14.1-12; Mateus 18.21-35
Gênesis
50.15-21
Tema: O
Deus que transforma o mal em graça.
Nos
últimos anos de sua vida, o reformador Martinho Lutero dedicou seu tempo e sua
alma a comentar o livro de Gênesis. Ao chegar aos capítulos finais, ele
debruçou-se sobre a história de José e de seus irmãos, contemplando nela um dos
maiores espelhos da vida cristã.
A
história de José não é apenas um relato bíblico sobre dinâmicas familiares do
passado; é um raio-X do coração humano perante o santo Deus. É o retrato
dramático da luta entre uma consciência culpada que busca a salvação pelas
obras e um Deus Todo-Poderoso que responde com o puríssimo Evangelho.
Hoje,
olhando para o texto de Gênesis 50, somos convidados a olhar para nossas
próprias vidas e descobrir como o Senhor transforma as nossas ruínas no cenário
da sua glória.
Após
a morte de Jacó, pai da família, uma sombra antiga voltou a pairar sobre os
corações dos irmãos de José. Décadas haviam se passado. Eles haviam
experimentado a imensa bondade de José, que os acolheu no Egito e providenciou
sustento durante a fome. No entanto, diante do caixão do pai, o pavor os
dominou novamente: “É bem possível que José nos
guarde rancor e nos pague em definitivo todo o mal que lhe fizemos”
(Gn 50.15).
Por que esse medo? É assim que a Lei atua
na consciência do pecador. A Lei faz com que a pessoa olhe para Deus e para os seus
servos e veja apenas um juiz vingativo. Martinho Lutero escreveu com precisão: “a consciência culpada é uma coisa tímida e assustada”.
Ela é incapaz de crer na graça pura por si mesma e sempre supõe que o perdão
recebido anteriormente não passou de uma “trégua
temporária”.
Quantos vivem exatamente assim?
Recebem a absolvição no culto, mas na primeira tempestade da semana acha que
Deus o está punindo. Muitos acham que a graça é boa demais para ser verdade e
vivem esperando o momento em que a “conta”
do passado vai chegar.
Para
tentar escapar desse medo, os irmãos de José elaboraram uma artimanha: inventaram uma justificativa
humana. Mandaram dizer para José: “Teu
pai ordenou antes de morrer...” (Gn 50.16). Isso revela a própria
natureza humana tentando alcançar a aceitação por meio do mérito de
intermediários ou de obras. Muitos tentam apresentar suas “boas intenções” ou a memória de seus pais como
escudo contra a ira de Deus.
Diante
da angústia dos irmãos, José responde com palavras que atravessam os séculos: “Não temais; acaso estou eu no lugar de Deus? Vós, na
verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer
como se vê neste dia, para conservar a vida a um povo numeroso” (Gn
50.19-20).
Aos
olhos humanos, a trajetória de José foi uma tragédia do mal absoluto. Foi vendido
como escravo por seus próprios irmãos, acusado injustamente de crime, jogado no
fundo de uma prisão e dado como morto por seu pai. No entanto, Deus usou essa tragédia
para gerar salvação e preservar a vida de muitos.
O
teólogo Martin Chemnitz, em um trecho dos seus Loci Theologici, traz uma
distinção fundamental: Deus
não é o autor do pecado.
Os
irmãos de José agiram motivados por uma intenção maligna (khasav), e por
essa vontade corrupta eram totalmente culpados diante da Lei. Deus não instigou
a má vontade deles. Todavia, em sua infinita sabedoria e poder, Deus governou e
curvou o resultado daquela ação má para cumprir o seu propósito salvífico.
Esta é a profunda mensagem da cruz!
O maior pecado da história da humanidade, rejeição e assassinato do Filho de
Deus no Calvário, foi transformado por Deus no maior ato de salvação do
universo. O Diabo e os homens tencionavam o mal, mas na cruz Deus gerou a vida
eterna para nós.
Para
Martinho Lutero, José é uma figura vívida do próprio Jesus Cristo. José tinha
todo o poder político e militar do Egito nas mãos. Ele tinha o direito e a
autoridade para julgar e condenar seus agressores. Mas
o que ele fez? Ele chorou, absolveu e falou ao coração deles.
Quando
os irmãos vieram cheios de pavor, José disse: “Acaso
estou eu no lugar de Deus?” Com essa declaração, José recusou-se a
atuar como o Juiz da Lei. Ele não impôs penitências aos seus irmãos, não exigiu
um “período de provação” para ver se
eles realmente haviam mudado, nem os manteve sob chantagem moral. Em vez disso,
aplicou o puríssimo Evangelho:
Remoção do medo: “Não temais”
Anúncio da Graça: Mostrou que Deus já
havia coberto e perdoado a dívida.
Promessa concreta: “Eu vos sustentarei a vós e a vossos pequeninos”.
E a Escritura conclui: “Assim os consolou e lhes
falou ao coração” (Gn 50.21).
Essa
atitude de José é um modelo perfeito do verdadeiro cuidador da alma. O papel da
Igreja e de cada cristão não é esmagar o pecador arrependido sob o peso da
culpa nem guardar rancor. Nosso papel é pronunciar a absolvição completa e
demonstrá-la com atos de amor sacrificial.
Esse
encargo pastoral e cristão foi resumido por C. F. W. Walther com as seguintes
palavras: “Quando um pecador está aterrorizado
por seus crimes, não lhe dê mais Lei. Faça como José: chore com ele, mostre-lhe
a graciosa providência de Deus e fale-lhe ao coração com a doce promessa do
Evangelho”.
Meus irmãos, onde a consciência acusadora encontra refúgio
contra o terror do juízo divino?
Se
você permanece sob o tribunal interno da Lei, atormentado pela lembrança de
suas transgressões e pelo justo temor da ira de Deus, contemple a obra daquele
que é o verdadeiro e definitivo José: Jesus Cristo. Aquele que entregou sua
vida em sacrifício expiatório no Calvário e ressuscitou para a nossa
justificação exerce agora toda a sua autoridade soberana não para condenar o
pecador contrito, mas para absolvê-lo. A justiça de Deus contra o pecado foi
plenamente satisfeita na cruz; portanto, Cristo não exige retribuição nem obras
de satisfação de suas mãos.
Esta
graça não permanece distante ou teórica: ela é concretamente distribuída e
aplicada a você hoje através dos meios de graça, na Palavra pregada e nos sacramentos.
Neles, o próprio Cristo atua eficazmente, pronunciando a absolvição objetiva ao
pecador amedrontado: “Não temais. Vossos pecados
estão perdoados; a maldição da Lei foi convertida em bênção de salvação”.
Não
confie nos sentimentos oscilantes de sua consciência, firme-se unicamente na
promessa objetiva do Evangelho. Na justiça imputada de Cristo, a dívida está
quitada, o favor de Deus é garantido e a paz com o Pai está selada para sempre.
Amém.
Edson
Ronaldo Tressmann
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