02 de agosto de 2026
Próprio
13 – Décimo Domingo após Pentecostes
Salmo
136.1-9; Isaias 55.1-5; Romanos 9.1-5; Mateus 14.13-21
Texto:
Mateus 14.13-21
Tema: “tragam para mim”. Quando o pouco encontra as
mãos de Cristo!
Queridos
irmãos e irmãs em Cristo, vivemos em uma época em que muita gente parece ter
tudo, mas, ao mesmo tempo, sente que não tem nada. Temos tecnologia, velocidade
e informação na palma da mão. Nunca foi tão fácil conversar com alguém do outro
lado do mundo. Mas nunca houve tanta solidão. Nunca tivemos tantos recursos,
mas também nunca vimos tanta ansiedade, depressão, medo e vazio. Há pessoas que
acordam cansadas antes mesmo de começar o dia. Trabalham, correm, pagam contas,
cuidam da família, enfrentam problemas de saúde, vivem sob pressão constante e,
quando finalmente colocam a cabeça no travesseiro, continuam sem encontrar descanso.
Há momentos em que a vida parece um deserto. O corpo se desgasta. A alma perde
o ânimo. A esperança parece secar como terra sem chuva.
Foi
num cenário similar que Jesus entrou. A notícia da morte de João Batista havia
acabado de chegar. Seu precursor havia sido assassinado. O caminho da cruz
começava a ficar ainda mais evidente diante dele. Humanamente falando, Jesus
tinha motivos para querer ficar sozinho. Mas acontece algo impressionante. A
multidão corre atrás dele. Era um povo faminto. Não apenas com fome de pão. Era
gente procurando sentido para viver. Pessoas carregando culpa. Famílias
machucadas. Doentes. Cansados. Desanimados. Pessoas que talvez já tivessem
ouvido de muita gente que “não havia mais solução para a situação”.
Se
essa cena acontecesse hoje, talvez víssemos ali pessoas esperando o resultado
de uma biópsia, alguém desempregado há meses, um casal tentando salvar o
casamento, pais chorando por um filho distante da fé, jovens que sorriem nas
redes sociais, mas choram quando desligam o celular.
O
mundo mudou. A fome do coração continua a mesma. E o Evangelho nos mostra uma
verdade extraordinária, Cristo nunca abandona quem chega até Ele com fome.
Mateus
registrou que “Ao desembarcar, Jesus viu uma
grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos”. A
palavra usada para “compadeceu-se” é σπλαγχνίζομαι
(splagchnízomai). Essa palavra fortíssima, descreve uma compaixão que nasce das
profundezas do ser. É o amor que sente a dor do outro. Não é um olhar distante.
Não é uma simples pena. É Deus entrando no sofrimento humano. Enquanto muitas
pessoas olham para multidões apenas como números, estatísticas ou problemas
sociais, Jesus enxerga pessoas.
Enquanto
o mundo costuma perguntar sobre o quanto determinada pessoa produz, Cristo
pergunta sobre o quanto ela está sofrendo. Jesus não vê apenas um CPF, Jesus vê
um pecador amado. Martinho Lutero dizia que Cristo sempre se deixa encontrar
justamente pelos necessitados. Deus não revela sua glória afastando-se dos miseráveis, mas
aproximando-se deles. Essa continua sendo uma das maiores diferenças
entre o Evangelho e o pensamento do mundo.
Como
isso é impactante numa cultura que admira os fortes, os vencedores, os
influenciadores, os autossuficientes. O Evangelho anuncia que Deus salva
justamente aqueles que reconhecem que não conseguem salvar a si mesmos. A graça não é salário para quem
merece. É presente para quem nada tem além da própria necessidade.
Aquela multidão tinha fome de pão. Mas existia uma fome muito maior. Porque o maior deserto da vida não é
a falta de dinheiro. Não é a falta de saúde. Não é a falta de oportunidades. O
maior deserto é viver longe de Deus.
Quando
a tarde chega, os discípulos fazem um pedido bastante lógico: “Despede as multidões”. Eles fazem as contas. O
lugar é deserto. Está ficando tarde. Não existe mercado por perto. Não há
comida suficiente. Tudo parece absolutamente impossível.
É
exatamente assim que costumamos agir. Quando enfrentamos um problema, fazemos os
cálculos. Quando olhamos para a Igreja, enxergamos números, orçamento,
limitações, envelhecimento das comunidades. Sempre começamos olhando para
aquilo que falta. Mas Jesus responde de forma surpreendente: “Não precisam retirar-se; dai-lhes vós mesmos de comer”.
No
texto grego, a expressão “vós mesmos”
recebe destaque. Os discípulos imediatamente respondem: “Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes”.
Essa talvez seja uma das frases mais repetidas da nossa vida, mesmo quando não
a pronunciamos. “Eu tenho pouca fé”; “Tenho pouca paciência”; “Tenho pouco tempo”; “Tenho pouca saúde”; “Tenho poucos recursos”; “Tenho poucas forças”. A nossa vida é um
verdadeiro olhar para aquilo que falta. Os discípulos também agiram assim e Jesus
queria ensinar algo muito maior.
Enquanto
o ser humano confia em sua própria capacidade, ainda não aprendeu a depender da
graça. O milagre começa exatamente onde termina a autoconfiança. Então Jesus
pronuncia uma das frases mais bonitas deste Evangelho: “tragam para mim”. Que convite maravilhoso!
Enquanto
os discípulos enxergam insuficiência, Cristo enxerga oportunidade. Cinco pães e
dois peixes nas mãos dos discípulos eram quase nada. Nas mãos de Jesus
tornaram-se alimento para milhares. Essa continua sendo a maneira como Deus
trabalha. O mundo acredita que grandes resultados dependem de grandes recursos.
O Reino de Deus funciona de outra maneira. Uma pequena quantidade de água unida
à Palavra de Deus torna-se Batismo. Um pouco de pão e vinho unidos à Palavra são
o corpo e sangue de Cristo. Uma voz humana anuncia a absolvição, mas é o
próprio Cristo quem perdoa. Um sermão pode parecer simples, mas o Espírito
Santo usa essa Palavra para criar fé, consolar consciências e transformar
vidas. O poder nunca esteve nos elementos. O poder sempre esteve na Palavra de
Cristo. Por isso Jesus manda trazer o pouco que eles tinham. Porque Deus gosta
de mostrar que sua força aparece justamente quando a nossa acaba. Mateus então
descreve uma sequência que lembra profundamente a Santa Ceia. Jesus toma o pão,
ergue os olhos ao céu, agradece e entrega aos discípulos.
Percebam
um detalhe importante. Os discípulos não fabricam o pão. Eles apenas distribuem
aquilo que receberam de Cristo. Assim continua sendo a missão da Igreja. O
pastor não cria perdão. A Igreja não inventa salvação. Nenhum ser humano produz
graça. Tudo vem de Cristo. Nós apenas entregamos aquilo que Ele nos confiou,
sua Palavra, o Batismo, a absolvição e a Santa Ceia. É por esses meios simples
que o Espírito Santo continua alimentando um mundo faminto.
E
então acontece algo extraordinário. Todos comem, todos se satisfazem e ainda
sobram doze cestos. Que imagem maravilhosa do Evangelho! Cristo nunca trabalha no limite,
sua graça sempre transborda.
Há
perdão suficiente para quem caiu novamente.
Há
esperança para quem pensa que já perdeu tudo.
Há
misericórdia para quem acredita que foi longe demais.
Quanto
mais Cristo oferece sua graça, menos ela diminui. Ela jamais se esgota.
Em
quais mãos está aquilo que você possui? Nas mãos de Cristo o
pouco se torna suficiente. O pecador recebe perdão. O cansado encontra
descanso. O faminto recebe o Pão da Vida.
O
mesmo Senhor que alimentou aquela multidão continua alimentando sua Igreja. Ele
continua vindo ao encontro do seu povo na Palavra pregada. Continua lavando
pecadores no Batismo. Continua absolvendo consciências aflitas. Continua
entregando seu verdadeiro corpo e sangue na Santa Ceia. E esse é o maior
milagre de todos. O Filho de Deus entregou a si mesmo para alimentar um mundo
que morria de fome espiritual.
Mateus
14 não é apenas uma história sobre pão. É a história do Salvador que entrou no
deserto deste mundo para salvar pecadores. A multidão representa toda a
humanidade. Os discípulos representam nossa incapacidade. Os cinco pães
representam nossa insuficiência. Mas Cristo revela a abundância da graça de
Deus.
Onde
Jesus chega, sempre há mais graça do que culpa. Mais perdão do que pecado. Mais
vida do que morte. Mais esperança do que desespero. Mais misericórdia do que
miséria humana. Por isso, ouça novamente o convite de Jesus, “tragam para mim”. Coloque diante dele seus
medos, sua culpa, seu cansaço, sua família, seus pecados, suas lágrimas e até
aquilo que você considera pequeno demais. Porque tudo o que é colocado nas mãos
de Cristo jamais volta vazio. Em nome de Jesus. Amém.
Edson Ronaldo Tressmann
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