terça-feira, 21 de julho de 2026

O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

 26 de julho de 2026

Próprio 12 – Nono Domingo após Pentecostes

Salmo 125; Deuteronômio 7.6-9; Romanos 8.28-39; Mateus 13.44-52

Texto: Mateus 13.44-52

Tema: O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

 

Cristo conta três parábolas curtas, porém devastadoras, um tesouro escondido, uma pérola de grande valor, e uma rede cheia de peixes. Essas parábolas são a resposta de Jesus à crescente rejeição do Reino pelos líderes religiosos de Israel.

Uma leitura isolada dessas parábolas perde parte de sua força. Quando são lidas dentro do fluxo do Evangelho de Mateus, percebe-se um desenvolvimento impressionante.

O ponto de virada do Evangelho ocorre em Mateus 12. Os fariseus já haviam criticado Jesus diversas vezes, e em Mateus 12.24 acontece algo decisivo apresentado pela fala dos religiosos, “É Belzebu, o chefe dos demônios, quem dá poder a este homem para expulsar demônios” (Mt 12.24).

Os fariseus atribuem a obra do Espírito Santo ao próprio Satanás e por essa rejeição que não é apenas intelectual, mas espiritual e deliberada, Jesus fala do pecado contra o Espírito Santo (Mt 12.31-32). E, em seguida ocorre uma mudança importante dentro da narrativa do evangelho de Mateus, ele passa a destacar que “Naquele mesmo dia Jesus saiu de casa e assentou-se à beira-mar” (Mt 13.1) e começou a ensinar por parábolas. Por essa razão, diante da pergunta dos discípulos “Por que lhes falas por parábolas?” (Mt 13.10) Jesus responde “Porque vendo não veem e ouvindo não ouvem...” (Mt 13.13).

Os líderes, pessoas que conheciam as Escrituras, o Antigo Testamento, sabiam das promessas, rejeitaram tanto a luz que Deus agora confirma o endurecimento desses líderes.

As parábolas possuem dois efeitos espetaculares. Primeiro: revelam aos discípulos; Segundo: escondem a revelação dos incrédulos.

          O semeador é generoso e semeia constantemente a Palavra. Os justos e os ímpios convivem e o Reino de Deus crescerá (o grão de mostarda e o fermento).

Nessa primeira parte das parábolas, semeador, joio, semente de mostarda, fermento, Jesus destaca a rejeição dos líderes. E nas três últimas parábolas, tesouro escondido, pérola, rede, Jesus responde se a rejeição é sinal de que o Reino de Deus fracassou.

A resposta é que o Reino continuará crescendo.

          Mateus ao elencar essas sete parábolas, enumera uma mudança de foco, onde após falar do crescimento externo do Reino, passa a mostrar o valor do Reino para àqueles que realmente o encontram. E isso é uma resposta direta à rejeição dos líderes. Enquanto os líderes olham para Jesus e não enxergam nada, homens comuns encontram um tesouro.

Que contraste! E essa ironia é proposital. Os especialistas das Escrituras passam ao lado do Messias, mas um homem simples encontra aquilo que vale tudo.

Quem deveria reconhecer o Reino não o reconhece. Quem aparentemente não tinha nada encontra tudo. A rejeição dos líderes não diminui o valor do Reino, mas revela a cegueira deles.

O negociante que procura pérolas, que conhece o mercado e entende sobre valores, ao encontrar uma única pérola e abandonar as demais traz um impactante contraste com os líderes. Os fariseus buscavam justiça, santidade, Lei, tradição, mas, quando encontraram o verdadeiro Reino preferiram permanecer com suas “pérolas menores”. E o negociante faz o que os líderes religiosos recusaram fazer, troca tudo por Cristo. E nesse ponto, Jesus chega a sua conclusão (Mt 13.47-50).

A rede recolhe peixes de toda espécie. Aqui novamente existe uma resposta à rejeição dos líderes. Eles imaginavam que o Reino era exclusivo de Israel e Jesus afirma que a rede alcançará o mundo inteiro.

Além disso, existe outra verdade importante. Nem todos que entram na rede pertencem realmente ao Reino. Somente no juízo haverá separação e isso impede dois erros. Pensar que todos os membros visíveis do Reino são salvos; pensar que a rejeição dos líderes significa derrota do Reino.

          As três últimas parábolas de Mateus formam um quadro.

Na parábola do tesouro alguém encontra o Reino inesperadamente. Publicanos e pecadores encontraram.

          Na parábola da Pérola temos alguém que procura e finalmente encontra. Descrição dos discípulos.

          Na parábola da Rede Jesus descreve que o Reino alcança todos os povos e só no final Deus separará os verdadeiros dos falsos.

          O evangelista Mateus constrói uma das maiores ironias do Evangelho. Quem conhece a Bíblia muitas vezes não reconhece o Messias. Quem não possui posição religiosa descobre o tesouro. Quem se considera rico espiritualmente, permanece pobre. Temos aqui o cumprimento das palavras anteriores de Jesus, “Graças te dou, ó Pai... porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25).

Sob a perspectiva confessional luterana, essas parábolas não ensinam que o homem “compra” o Reino ou conquista a salvação por seus méritos. O foco está no valor incomparável do Reino revelado em Cristo. A alegria do homem que vende tudo (Mt 13.44) nasce porque primeiro encontrou o tesouro. Assim também, a fé não produz Cristo; Cristo é dado pelo Evangelho e leva o pecador a considerar todas as coisas secundárias diante dele.

As três parábolas curtas não são histórias independentes; elas constituem o clímax de Mateus 13. Depois de mostrar que Israel, representado por muitos de seus líderes, rejeitou o Messias, Jesus assegura aos discípulos que o Reino não fracassou. Seu verdadeiro valor será reconhecido por aqueles a quem o Pai concede olhos para ver, e sua missão se estenderá até os confins da terra, culminando no juízo final. Esse é o triunfo silencioso, porém irresistível, do Reino de Deus.

          Caríssimos, a maior cegueira pode estar dentro da religião.

O contraste principal de Mateus não é entre religiosos e ateus. É entre pessoas que conheciam profundamente a Bíblia e pessoas simples que reconheceram Cristo.

Isso continua acontecendo. É possível que alguém conheça a doutrina sem conhecer Cristo; defenda princípios cristãos sem amar Cristo; frequente cultos sem viver do Evangelho; estude a Bíblia apenas como informação.

A maior tragédia espiritual não é a ignorância, mas a familiaridade sem fé e Jesus continua dizendo, “Vendo, não veem”.

A pergunta deixa de ser se eu conheço a Bíblia? e passa a ser se a Bíblia continua me conduzindo a Cristo?

          Fazemos parte de uma geração que conhece preço, mas perdeu o senso de valor.

A humanidade calcula tudo. Calcula investimentos, tempo, lucro, produtividade, rentabilidade. Todavia, se perdeu a capacidade de reconhecer aquilo que não possui preço.

A parábola do tesouro escondido pergunta o que realmente vale sua vida?

Hoje as pessoas vendem saúde por dinheiro. Depois vendem dinheiro para recuperar a saúde. Vendem família pela carreira. Depois procuram sentido. Vendem a paz pela fama. Depois procuram terapia para reencontrar paz.

Jesus Cristo afirma que existe algo que vale infinitamente mais, o Reino.

          Nossa cultura oferece milhares de “pérolas

A parábola da pérola talvez seja ainda mais atual.

Nunca existiram tantas ofertas dizendo, “É aqui que está a felicidade”. E a lista é interminável. Cada uma promete ser a pérola definitiva. Mas continuam sendo pérolas pequenas.

Jesus Cristo continua sendo a única Pérola que satisfaz completamente. Como dizia Lutero: “Aquilo em que teu coração confia é, na verdade, teu deus”.

          A sociedade da distração dificulta encontrar o Tesouro.

O tesouro estava escondido e isso não porque Deus queira esconder-se. Mas porque o pecado nos ocupa com milhares de coisas. Vivemos distraídos por muito conteúdo.

O Reino continua presente na simplicidade da Palavra, da água do Batismo e da Santa Ceia. Mas muitos passam ao lado porque procuram Deus apenas no extraordinário.

          O Reino continua crescendo apesar das crises da Igreja.

Talvez esta seja uma das aplicações mais importantes.

Vivemos um tempo de secularização; igrejas fechando; escândalos; líderes caindo; jovens abandonando a fé; perseguição em muitos países.

A impressão pode ser se que “O Evangelho está perdendo”.

Foi exatamente essa pergunta dos discípulos. Se os próprios líderes rejeitaram Jesus, será que o Reino fracassou?

          O Reino continua crescendo, mesmo que silenciosamente. Assim como a semente; o fermento; o tesouro encontrado; a rede lançada.

O crescimento do Reino nunca dependeu do prestígio da Igreja, mas da ação do Espírito Santo por meio da Palavra.

          O Reino alcança quem ninguém imaginava.

Os fariseus acreditavam possuir exclusividade e hoje repetimos esse erro, mas Deus continua surpreendendo. O Evangelho alcança a todos, a rede continua sendo lançada.

          Nem todo peixe dentro da rede pertence realmente ao Reino.

Essa recordação é extremamente necessária, afinal, vivemos dois extremos. Primeiro: A igreja salva automaticamente”; Segundo: Não preciso da igreja”.

Jesus rejeita ambos os extremos. A rede reúne todos. Mas somente Deus conhece verdadeiramente os seus e isso produz, humildade, arrependimento e perseverança.

          O maior fracasso é passar a vida inteira ao lado do Tesouro e não o reconhecer.

Os líderes passaram três anos ouvindo Jesus, vendo milagres. Eles conheciam as profecias e mesmo assim perderam Cristo.

O mesmo ocorre hoje, pois é possível que muitas pessoas passem décadas dentro da igreja sem jamais descansar em Cristo.

          O Reino continua sendo escândalo para a lógica moderna.

Nossa cultura pergunta sobre o que ganho? Jesus pergunta o que realmente possui valor?

Nossa cultura fala em investimento. Jesus fala em entrega.

Nossa cultura fala em desempenho. Jesus fala em graça.

Nossa cultura diz para que se construa sua identidade. Jesus nos dá uma nova identidade.

          O juízo final continua sendo parte do Evangelho.

A parábola da rede lembra algo pouco anunciado hoje. Existe separação, juízo e eternidade. Essa verdade produz duas atitudes, urgência missionária e perseverança dos santos.

          O centro dessas parábolas não é o homem que vende tudo, é o valor do tesouro. O homem vende porque encontrou, ele não encontra porque vendeu.

Essa ordem é decisiva. Primeiro: Deus revela Cristo. Depois: a fé recebe Cristo. Somente então a vida inteira é reorganizada.

As obras não compram o Reino, elas apenas demonstram que o Reino já conquistou o coração. Como afirmou o apóstolo Paulo: “Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo” (Fp 3.7).

          Jesus deixa seus ouvintes diante de uma única decisão: o que vale mais para você?

Se Cristo é apenas mais uma pérola entre tantas, o coração continuará dividido, mas se Cristo é o tesouro escondido e a pérola de grande valor, então tudo o mais encontra seu lugar correto.

O Reino pode ser rejeitado, ridicularizado e ignorado pelos especialistas, mas ainda assim, ele continua avançando silenciosamente, alcançando pecadores pela Palavra, transformando vidas pela graça e caminhando irresistivelmente para o dia em que o Senhor lançará a rede pela última vez e revelará plenamente o triunfo do seu Reino. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

 

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O Reino que muitos desprezam continua conquistando o mundo.

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