04 de outubro de 2026
Próprio
22 – Décimo Nono Domingo após Pentecostes
Salmo
80.7-19; Isaías 5.1-7; Filipenses 3.4b-14; Mateus 21.33-46
Tema: O
cântico do amado. Quando a graça encontra o juízo.
Tudo
começa como uma canção suave de amor. Imagine a cena: o profeta Isaías veste o
manto de um menestrel, toma sua harpa e começa a entoar uma melodia doce nas
praças de Jerusalém. As pessoas se aproximam, sorriem e esperam ouvir uma
poesia romântica sobre um amigo e sua vinha.
A
linguagem atrai e envolve: a história de um homem apaixonado que dedicou a vida
a cultivar um solo fértil para quem ele ama. Porém, à medida que a música
avança, a melodia lírica perde a suavidade. O tom romântico mascara a
preparação de um processo judicial. A voz do profeta e a voz do próprio Deus
fundem-se em um único veredito.
O
que começou como uma balada de amor termina no tribunal divino.
A
tragédia deste cântico não começa na ira de Deus, mas no seu cuidado
superabundante. O profeta descreve a dedicação exaustiva do viticultor, Yahweh,
para com a sua vinha, Israel.
A
localização perfeita, Keren Ben-Shemen, literalmente “um chifre, filho do óleo”. O termo indica um
outeiro elevado, ensolarado e de solo extremamente fértil. Deus não plantou sua
vinha em um deserto pedregoso; deu-lhe o melhor lugar da terra.
O
trabalho árduo, ’Izzēq, o viticultor cavou o solo com a enxada, removeu
cada rocha dura e preparou a terra com esforço braçal profundo para que as
raízes crescessem sem obstáculos.
A
muda mais nobre, Sōrēq, Deus não plantou uma semente qualquer. Ele
escolheu a sōrēq, a videira nobre
de bagos avermelhados, adocicados e de altíssima qualidade.
Ergueu
uma torre de vigia no centro contra invasores e animais, e escavou na rocha
viva o lagar, yeqev, para receber o suco da colheita abundante que
viria.
Deus
fez tudo o que era necessário. A vinha tinha a melhor terra, a melhor lei, a
melhor proteção e a presença divina. Não havia falta de recurso, deficiência de
meios ou escassez de graça.
Quando
chega o tempo da colheita, o viticultor se aproxima esperando uvas doces, ‘anāvīm,
mas a vinha produz b’ushīm.
No
hebraico, b’ushīm deriva do radical bā’ash, que significa
literalmente “feder” ou “estragar”. Não eram apenas uvas silvestres
pequenas; eram frutos degenerados, azedos, tóxicos e com odor repugnante. E
relembrando, tudo isso era da sōrēq, a videira
nobre de bagos avermelhados, adocicados e de altíssima qualidade.
Diante
disso, Deus apela ao povo e faz uma pergunta retórica devastadora: Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não
tenha feito? Por que, esperando eu que desse uvas, deu uvas azedas?
Isaías 5.4.
Esta
pergunta desmascara o coração humano. A incapacidade de Israel em produzir bons
frutos, mesmo sob as melhores condições externas, ilustra a falência do
livre-arbítrio decaído. O homem sem o Espírito Santo pode manter a aparência ou
a ordem moral humana, mas é incapaz de gerar os frutos espirituais que Deus
exige.
Nossa
estagnação e rebeldia não são culpa das circunstâncias ou da falta de graça
divina, são fruto da resistência do nosso próprio coração.
Diante
do fruto podre, o viticultor anuncia a sentença.
Remove a proteção:
Retira a cerca, mesukah e a parede, gader. A vinha é entregue ao
pisoteio de nações pagãs.
O abandono agrícola:
A terra não será mais podada nem cavada; espinhos cobrirão o solo.
A ordem às nuvens:
Deus ordena às nuvens que não derramem chuva sobre ela. Aqui a máscara da
parábola cai por completo, apenas Deus pode comandar as nuvens.
Isaías
encerra a introdução revelando a identidade da vinha através de um trocadilho
poético, a paronomásia, que na língua hebraica é como descrever que Deus
esperava Mishpat, justiça e Equidade; mas encontrou Mispach, derramamento
de sangue e Opressão. Deus esperava Tzedaqah,
retidão, mas ouviu Tze'aqah, o
clamor das vítimas de injustiça.
A
ortodoxia de Israel era pura fachada. Eles mantinham o culto e as cerimônias,
mas no portão da cidade praticavam a opressão. O clamor tze'aqah dos fracos desmentia a religiosidade
do povo.
Se
a história parasse em Isaías 5, estaríamos irremediavelmente perdidos debaixo
da sentença do viticultor. Mas a teologia bíblica revela a resposta de Deus
para o drama da vinha. No Novo Testamento, Jesus alude diretamente a este texto
na Parábola dos lavradores
maus (Mateus 21) e, de forma definitiva, no Evangelho de João: “Eu sou a videira verdadeira [hē ampelos hē
alēthinē], e meu Pai é o agricultor”
(João 15.1).
O
termo alēthinē não significa apenas “verdadeiro em oposição ao falso”, mas “definitivo e supremo em oposição ao imperfeito”.
Israel foi a vinha original que falhou e produziu frutos podres, b’ushīm.
Jesus é o “remanescente de um homem só”,
a videira verdadeira que cumpre perfeitamente a vontade do Pai.
No
Antigo Testamento, pertencer ao povo de Deus significava estar na estrutura
étnica e geográfica de Israel. No Novo Testamento, pertencer ao povo de Deus
significa estar unido pela fé a Jesus Cristo.
Isaías
5 provou que o ser humano não pode produzir frutos de justiça, tzedaqah, por esforço próprio. Por isso Jesus
declara: “Sem mim nada podeis fazer”
(João 15.5). Os frutos que agradam ao Pai só surgem em nossa vida quando
permanecemos ligados a Jesus.
A
igreja moderna tem à disposição o maior volume de recursos teológicos e
tecnológicos da história. Deus não busca apenas a forma cultual, mas a prática
da justiça, do amor e da verdade no dia a dia.
A
pergunta do versículo 4 ecoa hoje. O Pai nos deu o seu Filho, a sua Palavra, o seu
Espírito e os sacramentos. Se a nossa vida produz corrupção, mispach e
opressão no lugar de justiça, mishpat, a responsabilidade é unicamente
da nossa incredulidade.
A
única solução para a nossa incapacidade natural de produzir frutos bons é a
união vital com Cristo. Não se trata de “tentar
mais estritamente”, mas de depender mais profundamente da videira verdadeira
através da oração, da Palavra e da comunhão.
O
cântico da vinha começa revelando a tragédia de um amor rejeitado e termina
apontando para a esperança da graça plenamente realizada em Jesus.
Que
o Senhor examine os nossos corações hoje. Que Ele não encontre em nós o odor
das uvas podres da autossuficiência e da injustiça, mas o fruto doce do
Espírito, gerado naqueles que permanecem unidos à videira verdadeira. Amém.
Edson
Ronaldo Tressmann
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