quinta-feira, 30 de julho de 2026

“Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre” (Sl 136.1)

 Reflexão sobre o Salmo 136.1-9

Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre (Sl 136.1)

 

Este versículo resume toda a história da salvação. Não é apenas um convite à gratidão, mas uma confissão de fé baseada naquilo que Deus é e no que Ele faz.

הוֹדוּ (hôdû), “Deem graças

O verbo vem da raiz יָדָה (yādāh) tem um significado muito mais amplo do que simplesmente “agradecer”. Pode significar, confessar; reconhecer publicamente; louvar; admitir a verdade.

Esse é o verbo usado tanto para confessar pecados (Lv 5.5), quanto confessar a grandeza de Deus (Sl 32.5; Sl 106.1). A verdadeira gratidão nasce da confissão.

Primeiro reconheço quem eu sou e depois reconheço quem Deus é. Não existe verdadeira adoração sem verdadeira confissão.

            לַיהוָה (laYHWH), ao SENHOR

Não é um deus qualquer, é o Deus da Aliança. O nome YHWH recorda Êxodo 3, onde Deus disse “EU SOU O QUE SOU”.

Sempre que Israel ouvia esse nome lembrava-se da libertação do Egito; da aliança; da fidelidade divina; das promessas.

O convite à gratidão está fundamentado na identidade de Deus.

כִּי־טוֹב (kî-ôv), porque Ele é bom”. טוֹב (ôv), não significa apenas “bonzinho”. É uma palavra extremamente rica e pode indicar, bondade moral; perfeição; beleza; benefício; aquilo que produz vida. É a mesma palavra usada em Gênesis 1, “E Deus viu que era bom”.

Dessa forma, quando o salmista afirma que “YHWH é bom”, está dizendo que Ele continua sendo o Deus Criador que produz vida, ordem e bênção. Sua bondade não depende das circunstâncias, faz parte da sua natureza.

חֶסֶד (esed). A palavra mais importante do versículo.

A palavra hebraica חֶסֶד (esed) é uma das mais importantes do Antigo Testamento e uma das mais difíceis de traduzir por um único termo. Dependendo da versão da Bíblia, aparece traduzida como misericórdia, benignidade, amor leal, amor fiel, graça, bondade, fidelidade ou amor constante.

O substantivo חֶסֶד (esed) ocorre cerca de 245 vezes no texto hebraico do Antigo Testamento. Há pequenas diferenças de contagem entre edições críticas e programas de pesquisa bíblica, mas 245 ocorrências é o número mais amplamente aceito.

A maior concentração está nos Salmos, onde a palavra ocorre aproximadamente 127 vezes, ou seja, mais da metade de todas as ocorrências.

Ocorre nos Salmos cerca de 127; em Jeremias, cerca de 31; em Provérbios, cerca de 21; em Gênesis, Êxodo e 2 Samuel, cerca de 12. Isso mostra que o tema do esed permeia toda a história da salvação.

Um dos textos mais importantes é Êxodo 34.6-7, quando Deus revela seu próprio caráter a Moisés: “O Senhor, o Senhor Deus, compassivo e misericordioso, tardio em irar-se e grande em esed e fidelidade”. É como se Deus dissesse: Se você quiser saber quem eu sou, saiba isto: sou abundante em esed”. Essa autodeclaração tornou-se uma espécie de “credo” do Antigo Testamento e é retomada diversas vezes pelos profetas e pelos salmistas.

O Salmo 136 é único. A palavra esed aparece 26 vezes, uma em cada versículo. Cada ato de Deus na criação e na história da redenção recebe a mesma resposta da congregação: Porque o seu חֶסֶד dura para sempre”.

É como um refrão litúrgico que ensina que toda a história da salvação possui uma única explicação:

Deus criou o mundo... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus libertou Israel do Egito... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus abriu o Mar Vermelho... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus sustentou seu povo no deserto... Porque o seu esed dura para sempre.

Deus deu a terra prometida... Porque o seu esed dura para sempre.

Tudo é explicado pelo esed de Deus.

Na perspectiva cristã, todo o esed do Antigo Testamento encontra seu cumprimento em Jesus Cristo.

João afirma que “o Verbo se fez carne... cheio de graça e de verdade” (João 1.14). A expressão “graça e verdade” ecoa Êxodo 34.6, onde Deus é descrito como abundante em esed (amor fiel) e 'emet (verdade/fidelidade). Em Cristo, o amor fiel da aliança torna-se plenamente visível.

O esed não é apenas um atributo de Deus; ele é revelado de maneira suprema na cruz. O Calvário é a maior manifestação do amor fiel de Deus, que permanece para sempre e alcança pecadores por pura graça.

Há 245 lembretes do esed no Antigo Testamento. Mas Deus decidiu escrever um último, definitivo e eterno lembrete não com tinta, mas com o sangue de seu próprio Filho na cruz. O Calvário é o esed de Deus tornado visível.

חֶסֶד (esed) é o amor que Deus promete e jamais abandona. Não é um sentimento. É compromisso. É fidelidade. É graça.

Sempre que aparece esed, Deus está agindo em favor de um povo que não merece.

            לְעוֹלָם (le‘ôlām), para sempre”. Literalmente: “até a eternidade”.

Não significa apenas “muito tempo”, significa sem fim, sem interrupção, sem mudança. A misericórdia de Deus nunca expira. Ela não possui prazo de validade.

Deem graças” é uma ordem que é seguida de duas razões, porque Ele é bom; porque o seu חסד (esed) dura para sempre.

A gratidão cristã nunca nasce dos sentimentos. Nasce da revelação de Deus.

            O imperativo, “Deem graças”, expõe nosso pecado. Por quê?

Lutero dizia que o Primeiro Mandamento resume todos os demais. Quem não vive em constante gratidão está confiando em outro deus. A ingratidão revela incredulidade. Na carta aos Romanos, no capítulo 1.21 diz: “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”.

O primeiro pecado mencionado por Paulo na carta aos Romanos não é homicídio, nem adultério, é a falta de gratidão. Isso pelo fato de que toda ingratidão nasce de um coração que esqueceu a graça.

Pensamos e vivemos dizendo: “Tenho direito”; “Mereço”; “Conquistei” e o Salmo 136 desmonta essa ilusão. Afinal, tudo vem do Senhor, pois Ele é bom. Mesmo quando nós não somos, sua bondade não depende da nossa fidelidade, depende apenas de quem Deus é.

            Seu חסד dura para sempre”. Aqui encontramos Cristo, onde na cruz mostra o significado máximo do esed.

Jesus assume nossa culpa, cumpre a aliança, paga nossa dívida, ressuscita e continua amando pecadores. A cruz prova que o amor de Deus não termina quando o nosso pecado começa.

            Vivemos numa cultura de reclamação. Quanto mais temos, mais sentimos que falta.

É importante distinguir gratidão de circunstâncias. O mundo agradece quando tudo vai bem. O cristão agradece porque Deus permanece o mesmo quando tudo parece ir mal. A bondade divina e o seu esed não oscilam com a economia, a saúde ou as emoções; eles permanecem firmes porque pertencem ao caráter imutável de Deus.

            Não damos graças como deveríamos. Somos ingratos porque, por natureza, confiamos mais em nós mesmos do que no Senhor.

            Apesar da nossa ingratidão, Deus permanece טוֹב (ôv) — perfeitamente bom; e seu חֶסֶד (esed) permanece para sempre. Esse amor fiel alcança seu ápice em Jesus Cristo, que garante definitivamente a reconciliação entre Deus e os pecadores.

A gratidão do cristão não é o preço da graça, mas a resposta de quem foi alcançado por ela. Em Cristo, confessamos com alegria: Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre”.

Tema: O milagre que você esqueceu de ver

Existe uma fotografia que se repete diariamente em milhões de casas.

Uma criança ganha um brinquedo novo. Durante alguns minutos ela sorri. Corre, abraça, brinca. Mas bastam poucos dias e o brinquedo perde o encanto. Logo ela pede outro, depois outro, outro. Na verdade, essa não é apenas a história das crianças. É a história da humanidade.

Vivemos na geração da satisfação imediata. Compramos um celular novo, meses depois ele parece velho. Compramos um carro, logo desejamos outro. Recebemos um aumento, rapidamente o salário deixa de ser suficiente.

Junto com as inúmeras possibilidades, tecnologia, medicina, conforto, há também ansiedade, frustração e reclamação.

As redes sociais nos convencem de que sempre existe alguém vivendo melhor do que nós. A propaganda diz diariamente: Você merece mais.

Sem perceber, começamos a viver olhando apenas para aquilo que ainda não temos. A gratidão desaparece. A reclamação domina.

Interessante perceber que Israel vivia exatamente isso. Bastaram poucos dias fora do Egito para esquecerem os milagres. Atravessaram o Mar Vermelho, receberam o maná, água da rocha, viram Deus agir, mesmo assim reclamavam.

Talvez o maior milagre desta semana tenha sido você acordar, seu coração bater, você respirar enquanto dorme. A terra continua girando. O sol nasceu outra vez e, talvez você nem tenha percebido, afinal, nos acostumamos com os milagres diários.

Deem graças ao Senhor...

Não porque tudo está perfeito, mas porque Deus continua sendo quem sempre foi.

            O texto começa com uma palavra extraordinária, וֹדוּ (Hôdû), do verbo יָדָה (Yadah). O curioso é que essa mesma palavra significa confessar, louvar, agradecer. Por quê? Porque, na Bíblia, ninguém agradece verdadeiramente antes de confessar.

Esse mesmo verbo aparece em Levítico para a confissão dos pecados e aparece inúmeras vezes nos Salmos para o louvor e isso não é coincidência. Enquanto justificamos nossos pecados, nunca conheceremos a alegria da graça. Por isso nossos cultos começam com confissão e isso não porque Deus precise ouvir, mas porque nós precisamos reconhecer quem Deus é diante dos nossos pecados. A verdadeira gratidão nasce quando reconhecemos que eu não mereço.

            Deem graças” é um imperativo, e todo imperativo revela aquilo que não fazemos. Você vive agradecido? Você acorda louvando? Você termina o dia reconhecendo a graça? Ou reclama mais do que agradece?

Romanos 1 nos traz um maravilhoso ensinamento, pois o primeiro pecado mencionado por Paulo na decadência humana não é assassinato, nem adultério, nem sequer o roubo. O primeiro pecado é este: “Não lhe deram graças”.

O diagnóstico é que a ingratidão é idolatria. Toda reclamação constante revela que outro deus ocupa nosso coração. A murmuração é música para o diabo.

Conta-se que dois homens estavam presos na mesma cela. Ambos olhavam por uma pequena janela. Enquanto um via apenas a lama, o outro contemplava as estrelas. A diferença estava no coração.

            Atente-se ao fato de que é o nome de Deus que muda tudo, לַיהוָה ao Senhor”. Não é qualquer deus, é YHWH, é o Deus da Aliança, do Êxodo. Esse nome carregava séculos de memória.

Quando um israelita ouvia YHWH, lembrava imediatamente das dez pragas, da páscoa, do cordeiro, do sangue, do mar vermelho, do Sinai, da nuvem, do fogo, do maná, das promessas. Cada letra desse nome respirava fidelidade.

Hoje acontece o mesmo. Quando ouvimos o nome de Jesus... lembramos da cruz, do túmulo vazio, do Batismo, da Santa Ceia, do perdão, da ressurreição. Assim, não agradecemos a uma ideia, agradecemos uma pessoa.

            Deus é bom mesmo quando a vida não é, por isso, כי טוב porque Ele é bom.

Louvamos a Deus não porque hoje foi um bom dia, ou porque o salário aumentou; nem porque ninguém ficou doente. Agradecemos porque Deus é bom.

O fundamento da fé nunca são as circunstâncias. É o caráter de Deus.

טוב é a palavra usada sete vezes em Gênesis 1. Toda criação nasce dessa bondade. Mesmo depois da queda em pecado, depois da cruz, Deus continua sendo exatamente o mesmo.

            Lutero dizia que Deus muitas vezes esconde seu rosto atrás de máscaras (enfermidade, uma perda, uma cruz) e mesmo por trás dessas máscaras continua sendo um Pai Amoroso.

            O coração do evangelho numa única palavra, חסד, hesed. Nenhuma tradução consegue esgotá-la completamente. Diz-se que é misericórdia, graça, lealdade, amor da aliança, bondade perseverante, fidelidade, compromisso. Hesed é o amor que permanece quando nós falhamos, quando nós quebramos alianças. Como escreveu Chemnitz, “a fidelidade de Deus repousa em sua própria natureza e não na mutabilidade do homem”.

            O maior sermão sobre o חסד aconteceu numa sexta-feira, no Calvário. Ali Deus respondeu definitivamente, “o meu amor dura para sempre”.

Quando Pedro negou, o amor permaneceu. Quando Judas traiu, o amor permaneceu. Quando os soldados zombaram, o amor permaneceu. Quando os cravos perfuraram as mãos, o amor permaneceu. Quando o céu escureceu, o amor permaneceu e esse amor dura para sempre, pois Jesus disse, “Está consumado”.

            לְעוֹלָםpara sempre”, literalmente, até a eternidade. Tudo neste mundo acaba. Flores murcham. Juventude passa. Empresas fecham. Impérios desaparecem. Tecnologias envelhecem. Corpos adoecem. Mas existe uma coisa que nunca termina: o amor de Deus. Nosso descanso não está em nossa fidelidade, está na fidelidade eterna de Cristo.

            Na cultura da comparação a gratidão é destruída.

            Na cultura do desempenho o descanso é destruído.

            Na cultura dos direitos a percepção da graça é destruída.

            Na cultura da velocidade, a contemplação é impedida e sem contemplação não existe gratidão. Por isso o Salmo mande parar e olhar, confessar e agradecer.

Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre (Sl 136.1), resume toda a história da salvação. Não é apenas um convite à gratidão, mas uma confissão de fé baseada naquilo que Deus é e no que Ele faz. Amém

Edson Ronaldo Tressmann

Se quiser, faça um pix voluntário e solidário para

edson.ronaldotre@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por seguir esse blog. Com certeza será uma bênção em sua vida.

“Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre” (Sl 136.1)

  Reflexão sobre o Salmo 136.1-9 “ Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom; o seu amor dura para sempre ” (Sl 136.1)   Este versículo...