terça-feira, 8 de setembro de 2026

A memória da graça contra a aritmética do vingador

 13 de setembro de 2026

Próprio 19 - Décimo Sexto Domingo após Pentecostes

Salmo 103.1-12; Gênesis 50.15-21; Romanos 14.1-12; Mateus 18.21-35

Tema: A memória da graça contra a aritmética do vingador

  

As quatro leituras convergem para um dos temas mais profundos das Escrituras: o perdão de Deus recebido pela graça transforma o relacionamento do cristão com o próximo. No Salmo 103 vemos que Deus perdoa abundantemente; Moisés em Gênesis 50 mostra que José se torna instrumento desse perdão; Paulo na epistola aos Romanos, no capítulo 14, mostra que a igreja aprende a abandonar o julgamento mútuo; Em Mateus 18, Jesus mostra que quem vive do perdão de Deus torna-se também um perdoador. Quem vive diariamente do perdão infinito de Deus não pode viver aprisionando o próximo às suas dívidas.

O Salmo 103 é um dos maiores hinos da graça do Antigo Testamento. Davi começa falando consigo mesmo, “Bendize, ó minha alma...”.

A adoração começa antes da boca, começa no coração. Por isso, ao dizer, “não te esqueças”.

O verbo hebraico shakach “esquecer” possui sentido de negligenciar. Não significa apenas perder a memória, significa viver como se Deus nunca tivesse feito nada, por isso, o salmista faz um exercício espiritual dizendo lembrar diariamente da graça. Por essa razão, o salmista enumera cinco grandes benefícios da graça (perdão, cura, redenção, misericórdia e renovação).

Perdão: “É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades”. O verbo hebraico salach é usado quase exclusivamente para Deus destacando que o verdadeiro perdão pertence somente ao Senhor.

          Cura: “Cura todas as enfermidades”. Nem toda enfermidade física desaparece nesta vida. Mas todo pecado encontra cura definitiva diante de Deus.

          Redenção: “Redime tua vida da cova”. “Cova” shachat pode significar sepultura ou destruição. Deus não apenas evita um problema, ele salva da morte eterna.

          Misericórdia: “Coroa-te de graça e misericórdia”. A palavra hebraica hesed aparece novamente. É o amor da aliança. Amor que permanece quando não há mérito.

          Renovação: “Sacia de bens...”. A graça não apenas perdoa. Ela restaura continuamente.

O centro do Salmo 103 são as palavras “O Senhor é misericordioso...”. Essas palavras são praticamente uma citação de Êxodo 34 da qual Davi entende que todo perdão começa no caráter de Deus.

          O perdão é infinito: “Quanto dista o Oriente do Ocidente...”

Que imagem magnífica! O Oriente jamais encontra o Ocidente. O pecado perdoado jamais retorna como acusação diante de Deus. Não significa que Deus sofre amnésia, significa que Deus decidiu não tratar mais o pecador conforme sua culpa.

Ao ler o relato de Gênesis 50.15-21 a luz do Novo Testamento, vemos que José é como uma figura de Cristo.

Após a morte de Jacó, os irmãos entram em pânico e pensam que José iria se vingar. Eles ainda não compreenderam plenamente o perdão.

Observemos que muitas pessoas, mesmo perdoadas, continuam carregando culpa durante muitos anos, isso pelo fato da culpa possuir memória longa.

No texto de Gênesis 50 é narrado que “José chorou”. Por quê? Porque percebe que seus irmãos ainda acreditavam que seu amor era condicionado. Eles pensavam que enquanto Jacó estava vivo eles foram poupados e, com a morte do pai, o perdão havia acabado e José revela justamente o contrário perguntando aos irmãos: “Estou eu no lugar de Deus?”

Caríssimo, o equívoco da vingança é que esse desejo pretende ocupar o lugar do Juiz que não é da pessoa. Diante dos irmãos, dos quais José tinha todos os motivos para vingar-se, José recusa ocupar o trono de Deus e declara que somente Deus é quem julga.

          José reconhece: “Vós intentastes o mal contra mim”. O verbo hebraico chashav significa planejar. Era verdade que os irmãos planejaram mal, todavia, o que Deus fez? Deus planejou salvação mesmo diante daquela maldade. De maneira alguma podemos concluir que Deus aprovou o pecado. Na verdade, essas palavras enfatizam que a providência divina é maior que a maldade humana (Romanos 8.28).

          José é um tipo de Cristo, tendo sido vendido, humilhado e exaltado. Salvou justamente àqueles que o rejeitaram; perdoou os culpados, assim Cristo.

          Na carta aos Romanos 14.1-12, o apóstolo Paulo aplica esse princípio dentro da igreja onde o problema não era a heresia, era o julgamento.

Alguns cristãos, mesmo livres em Cristo, ainda observavam certas restrições alimentares enquanto outros não mais observavam. Uns valorizavam determinados dias e outros, não. O problema não era essas diferenças. O problema foi transformar opiniões em critérios de salvação.

          Assim, o “fraco” na fé possuía consciência limitada e o “forte” na fé compreendia melhor a liberdade cristã. Paulo escreveu que ambos pertenciam ao Senhor, e por essa razão os questionou: Quem és tu para julgar?

O verbo empregado possui sentido judicial, através do qual o apóstolo Paulo proíbe ocupar o tribunal que pertence exclusivamente a Cristo.

O centro dessa perícope (Rm 14.1-12) são as palavras: vivemos para o Senhor. E por elas, Paulo enfatiza que a identidade cristã não é construída sobre preferências pessoais, é construída sobre pertencimento, por isso, vivemos; morremos; somos do Senhor. Quem pertence totalmente a Cristo não precisa controlar espiritualmente o irmão.

O tribunal é de Cristo e saber que todos compareceremos diante dele elimina duas atitudes: a arrogância e o desprezo.

          Quando Jesus fala sobre o perdão, Pedro pergunta: “Até sete vezes?”

Os rabinos ensinavam sobre a necessidade do perdão ser dado apenas três vezes e por isso, Pedro acredita estar sendo extremamente generoso ao perguntar sobre sete vezes e Jesus responde sobre setenta vezes sete.

Não é uma questão matemática, é um estilo de vida. O discípulo nunca contabiliza perdões a ponto de dizer essa é a última vez.

          Caríssimos, o texto destaca que existem dois devedores. Primeiro: o que deve dez mil talentos; depois: o outro que deve cem denários.

Um talento corresponde aproximadamente a vinte anos de trabalho, assim, dez mil talentos equivale a cerca de duzentos mil anos de salário. Outro detalhe, “dez mil” (myrioi) era o maior número usado na língua grega e com isso Jesus destaca que era uma dívida impagável. Essa dívida representa nossa dívida diante de Deus.

          O outro devedor devia cem denários, ou seja, cem dias de trabalho. Observem a diferença no tamanho das dívidas. E essa diferença visa destacar o tamanho do perdão que recebemos de Deus.

          O servo perdoado se tornou impiedoso. E a tragédia não é apenas sua crueldade, a tragédia foi viver como se nunca tivesse sido perdoado de uma dívida tão astronômica. Quem perde a consciência da graça torna-se inevitavelmente severo.

          Jesus conclui: “Se não perdoardes de coração...”.

No pensamento bíblico, coração não significa emoção. É o centro da vontade.

Perdoar de coração significa renunciar deliberadamente ao direito da vingança. Perdoar de coração não significa negar a dor e nem esquecer automaticamente. Perdoar de coração não significa restaurar imediatamente a relação. Perdoar de coração significa entregar o julgamento definitivamente nas mãos de Deus.

          No Salmo recebemos o anúncio de um Deus que lança nossos pecados para longe. A história de José mostra uma vida de perdão, onde não se busca a vingança. O apóstolo Paulo mostra que o perdão molda a vida comunitária. Jesus revela que o perdão recebido se torna necessariamente perdão oferecido. Tudo aponta para a cruz.

Na cruz acontece aquilo que o Salmo apenas anunciava. Na cruz, Deus remove definitivamente nossos pecados. Na cruz, Cristo se torna o verdadeiro José, que salva exatamente aqueles que o feriam. Na cruz nasce a igreja descrita pelo apóstolo Paulo. Na cruz aprendemos a viver como um servo perdoado.

          1.Vivemos na cultura do cancelamento; Cristo chama para a cultura da reconciliação.

A sociedade atual preserva arquivos permanentes de erros. Redes sociais, notícias e memórias digitais tornam fácil condenar alguém indefinidamente. O Evangelho segue na direção oposta. Deus não minimiza o pecado, mas, em Cristo, oferece perdão real e uma nova identidade. Isso desafia a igreja a ser um lugar onde o arrependimento encontra acolhimento, e não uma sentença perpétua.

2.O ressentimento aprisiona quem o alimenta.

Os irmãos de José permaneceram presos ao medo por anos, mesmo depois de terem sido perdoados. Da mesma forma, muitos vivem dominados por culpas antigas ou por mágoas nunca entregues a Deus. O perdão cristão não altera o passado, mas impede que ele continue governando o presente.

3.A liberdade cristã exige humildade.

Em Romanos 14, Paulo lembra que diferenças em questões secundárias não devem romper a comunhão. Em uma época marcada por polarização, inclusive dentro das igrejas, é necessário distinguir entre doutrinas essenciais e opiniões ou práticas legítimas. O cristão é chamado a defender a verdade sem transformar preferências pessoais em condição para a salvação.

4.Perdoar não é negar a justiça, mas confiar o julgamento a Deus.

A parábola de Mateus 18 não elimina a responsabilidade civil, a disciplina eclesiástica ou a necessidade de proteger vítimas. Perdoar não significa ignorar o mal ou permitir abusos contínuos. Significa renunciar à vingança pessoal e confiar que a justiça pertence ao Senhor, que julga com perfeita retidão.

5.O Evangelho cria uma comunidade de pessoas perdoadas.

A igreja não é formada por pessoas moralmente superiores, mas por pecadores reconciliados com Deus. Quando essa verdade é esquecida, surgem legalismo, dureza e julgamentos. Quando é lembrada, florescem misericórdia, paciência e disposição para restaurar o irmão arrependido.

O perdão de Deus é a fonte e o modelo de toda a vida cristã. O Deus do Salmo 103 remove nossos pecados “tão longe quanto o Oriente está do Ocidente”. Em José vemos esse perdão tomando forma na história. Em Romanos, ele sustenta a comunhão da igreja. Em Mateus, Jesus declara que quem recebeu uma dívida infinita cancelada não pode viver cobrando, sem misericórdia, as pequenas dívidas do próximo.

O perdão cristão não nasce do esforço humano, mas da cruz de Cristo. Somente quem vive diariamente da absolvição concedida por Deus pode aprender a dizer, com palavras e ações: “Assim como fui perdoado, também perdoo”. Esse é o testemunho do Reino em um mundo marcado pela vingança, pela polarização e pelo ressentimento.

 

Edson Ronaldo Tressmann

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