terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Deus que transforma o mal em graça (Gn 50.15-21)

 13 de setembro de 2026

Próprio 19 - Décimo Sexto Domingo após Pentecostes

Salmo 103.1-12; Gênesis 50.15-21; Romanos 14.1-12; Mateus 18.21-35

Gênesis 50.15-21

Tema: O Deus que transforma o mal em graça.

 

Nos últimos anos de sua vida, o reformador Martinho Lutero dedicou seu tempo e sua alma a comentar o livro de Gênesis. Ao chegar aos capítulos finais, ele debruçou-se sobre a história de José e de seus irmãos, contemplando nela um dos maiores espelhos da vida cristã.

A história de José não é apenas um relato bíblico sobre dinâmicas familiares do passado; é um raio-X do coração humano perante o santo Deus. É o retrato dramático da luta entre uma consciência culpada que busca a salvação pelas obras e um Deus Todo-Poderoso que responde com o puríssimo Evangelho.

Hoje, olhando para o texto de Gênesis 50, somos convidados a olhar para nossas próprias vidas e descobrir como o Senhor transforma as nossas ruínas no cenário da sua glória.

Após a morte de Jacó, pai da família, uma sombra antiga voltou a pairar sobre os corações dos irmãos de José. Décadas haviam se passado. Eles haviam experimentado a imensa bondade de José, que os acolheu no Egito e providenciou sustento durante a fome. No entanto, diante do caixão do pai, o pavor os dominou novamente: “É bem possível que José nos guarde rancor e nos pague em definitivo todo o mal que lhe fizemos” (Gn 50.15).

Por que esse medo? É assim que a Lei atua na consciência do pecador. A Lei faz com que a pessoa olhe para Deus e para os seus servos e veja apenas um juiz vingativo. Martinho Lutero escreveu com precisão: “a consciência culpada é uma coisa tímida e assustada”. Ela é incapaz de crer na graça pura por si mesma e sempre supõe que o perdão recebido anteriormente não passou de uma “trégua temporária”.

Quantos vivem exatamente assim? Recebem a absolvição no culto, mas na primeira tempestade da semana acha que Deus o está punindo. Muitos acham que a graça é boa demais para ser verdade e vivem esperando o momento em que a “conta” do passado vai chegar.

Para tentar escapar desse medo, os irmãos de José elaboraram uma artimanha: inventaram uma justificativa humana. Mandaram dizer para José: “Teu pai ordenou antes de morrer...” (Gn 50.16). Isso revela a própria natureza humana tentando alcançar a aceitação por meio do mérito de intermediários ou de obras. Muitos tentam apresentar suas “boas intenções” ou a memória de seus pais como escudo contra a ira de Deus.

Diante da angústia dos irmãos, José responde com palavras que atravessam os séculos: “Não temais; acaso estou eu no lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar a vida a um povo numeroso” (Gn 50.19-20).

Aos olhos humanos, a trajetória de José foi uma tragédia do mal absoluto. Foi vendido como escravo por seus próprios irmãos, acusado injustamente de crime, jogado no fundo de uma prisão e dado como morto por seu pai. No entanto, Deus usou essa tragédia para gerar salvação e preservar a vida de muitos.

O teólogo Martin Chemnitz, em um trecho dos seus Loci Theologici, traz uma distinção fundamental: Deus não é o autor do pecado.

Os irmãos de José agiram motivados por uma intenção maligna (khasav), e por essa vontade corrupta eram totalmente culpados diante da Lei. Deus não instigou a má vontade deles. Todavia, em sua infinita sabedoria e poder, Deus governou e curvou o resultado daquela ação má para cumprir o seu propósito salvífico.

Esta é a profunda mensagem da cruz! O maior pecado da história da humanidade, rejeição e assassinato do Filho de Deus no Calvário, foi transformado por Deus no maior ato de salvação do universo. O Diabo e os homens tencionavam o mal, mas na cruz Deus gerou a vida eterna para nós.

Para Martinho Lutero, José é uma figura vívida do próprio Jesus Cristo. José tinha todo o poder político e militar do Egito nas mãos. Ele tinha o direito e a autoridade para julgar e condenar seus agressores. Mas o que ele fez? Ele chorou, absolveu e falou ao coração deles.

Quando os irmãos vieram cheios de pavor, José disse: “Acaso estou eu no lugar de Deus?” Com essa declaração, José recusou-se a atuar como o Juiz da Lei. Ele não impôs penitências aos seus irmãos, não exigiu um “período de provação” para ver se eles realmente haviam mudado, nem os manteve sob chantagem moral. Em vez disso, aplicou o puríssimo Evangelho:

Remoção do medo:Não temais

Anúncio da Graça: Mostrou que Deus já havia coberto e perdoado a dívida.

Promessa concreta:Eu vos sustentarei a vós e a vossos pequeninos”. E a Escritura conclui: “Assim os consolou e lhes falou ao coração” (Gn 50.21).

Essa atitude de José é um modelo perfeito do verdadeiro cuidador da alma. O papel da Igreja e de cada cristão não é esmagar o pecador arrependido sob o peso da culpa nem guardar rancor. Nosso papel é pronunciar a absolvição completa e demonstrá-la com atos de amor sacrificial.

Esse encargo pastoral e cristão foi resumido por C. F. W. Walther com as seguintes palavras: “Quando um pecador está aterrorizado por seus crimes, não lhe dê mais Lei. Faça como José: chore com ele, mostre-lhe a graciosa providência de Deus e fale-lhe ao coração com a doce promessa do Evangelho”.

Meus irmãos, onde a consciência acusadora encontra refúgio contra o terror do juízo divino?

Se você permanece sob o tribunal interno da Lei, atormentado pela lembrança de suas transgressões e pelo justo temor da ira de Deus, contemple a obra daquele que é o verdadeiro e definitivo José: Jesus Cristo. Aquele que entregou sua vida em sacrifício expiatório no Calvário e ressuscitou para a nossa justificação exerce agora toda a sua autoridade soberana não para condenar o pecador contrito, mas para absolvê-lo. A justiça de Deus contra o pecado foi plenamente satisfeita na cruz; portanto, Cristo não exige retribuição nem obras de satisfação de suas mãos.

Esta graça não permanece distante ou teórica: ela é concretamente distribuída e aplicada a você hoje através dos meios de graça, na Palavra pregada e nos sacramentos. Neles, o próprio Cristo atua eficazmente, pronunciando a absolvição objetiva ao pecador amedrontado: “Não temais. Vossos pecados estão perdoados; a maldição da Lei foi convertida em bênção de salvação”.

Não confie nos sentimentos oscilantes de sua consciência, firme-se unicamente na promessa objetiva do Evangelho. Na justiça imputada de Cristo, a dívida está quitada, o favor de Deus é garantido e a paz com o Pai está selada para sempre. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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