07 de junho de 2026
Primeiro
após Pentecostes – Próprio 5
Salmo
119.65-72; Oséias 5.15-6.6; Romanos 4.13-25; Mateus 9.9-13
Texto:
Mateus 9.9-13
Tema: O
médico dos pecadores
Imagine
que, ao entrar aqui hoje, uma tela aparecesse exibindo todos os seus pecados,
pensamentos, fracassos, vergonhas e segredos dos últimos anos. Tudo aquilo que
você tenta esconder das outras pessoas. Tudo aquilo que faz você se sentir
indigno diante de Deus.
Quantos permaneceriam sentados? Quantos correriam para a porta?
A
verdade é que todos nós carregamos perguntas que nem sempre verbalizamos: “Será que Deus realmente pode me aceitar?” “Será que preciso melhorar primeiro para depois me
aproximar de Cristo?”
Vivemos
em um mundo que funciona por mérito. Somos aceitos quando produzimos,
valorizados quando acertamos e elogiados quando correspondemos às expectativas.
Com o tempo, começamos a imaginar que Deus também age assim.
Mas
então encontramos uma das cenas mais surpreendentes do Evangelho. Jesus não
procura os mais admirados da sociedade. Não vai atrás dos especialistas em
religião. Não escolhe alguém com currículo espiritual impecável. Ele para
diante de um homem que todos consideravam um caso perdido. Um cobrador de
impostos. Um pecador público. Um homem chamado Mateus.
E
aquilo que Jesus faz com Mateus revela não apenas quem Mateus era. Revela,
acima de tudo, quem Deus é.
Mateus
era um homem rejeitado. Um cobrador de impostos. Um traidor aos olhos da
sociedade. Um pecador público. Um homem que ninguém esperava ver no Reino de
Deus.
E
é justamente para ele que Jesus olha. Não com desprezo. Não com condenação. Mas
com graça.
“Segue-me”.
E
nessa única palavra, toda a vida de Mateus muda. Isso porque o Evangelho começa
exatamente assim, Cristo vai ao encontro daqueles que sabem, ou deveriam saber,
que precisam desesperadamente de misericórdia.
O texto começa dizendo que “Jesus viu um homem chamado Mateus”.
Os
homens viam um traidor. Jesus via alguém que seria alcançado pela graça.
Esse
“ver” de Cristo não é casual. É
salvífico. Jesus não apenas observa; Ele escolhe. A iniciativa parte
inteiramente dEle.
Mateus
não estava procurando Jesus. Mateus não estava arrependido no templo. Mateus
não fazia promessas espirituais. Ele estava sentado na coletoria. E isso é
profundamente importante. Porque o Evangelho não começa quando o homem sobe até
Deus. O Evangelho começa quando Deus desce até o pecador.
Essa
é a essência da fé cristã e o coração da teologia luterana da justificação,
Deus justifica ímpios. Cristo entra justamente no lugar onde o pecado está.
Jesus olha para Mateus e diz, “Segue-me”. Jesus é curto, absoluto e sem
negociação. Observe algo impressionante. Jesus não exige preparação moral
prévia.
A
Palavra de Cristo vem antes da mudança. E a Palavra cria aquilo que ordena, foi
assim quando Deus disse “Haja luz” e
foi assim quando Jesus disse para Mateus, “Segue-me”.
Pela Palavra a vida nasce onde antes havia morte espiritual.
A
conversão não nasce da força humana. Ela nasce da ação soberana da graça.
“Ele se levantou e o seguiu”.
As
obras não antecedem a salvação. As obras fluem dela. Mateus não segue Jesus
para ser aceito. Mateus segue porque foi alcançado. Essa é a diferença entre
religião e Evangelho.
O texto continua dizendo que muitos
publicanos e pecadores estavam à mesa com Jesus. Isso era explosivo no
judaísmo.
Sentar-se
à mesa significava comunhão, aceitação e reconhecimento.
Jesus
não apenas chama pecadores individualmente. Ele cria uma nova comunidade.
A
Igreja nasce aqui. Afinal, a Igreja não é reunião de perfeitos. Mas comunhão de
perdoados.
A
mesa de Cristo sempre escandaliza os orgulhosos. Porque nela há lugar para
quebrados, cansados, culpados e indignos. Os fariseus não conseguem suportar
aquilo. E por isso perguntam: “Por que come o
vosso mestre com publicanos e pecadores?”
Não
é uma pergunta social, é uma pergunta teológica. Para fariseus, a santidade
significava separação do impuro. Os fariseus construíram uma religião baseada
na exclusão e Jesus estabelece o Reino da reconciliação. Os fariseus confiavam
na própria justiça. Jesus oferece justiça divina aos que não possuem nenhuma.
“Os
sãos não precisam de médico, mas sim os doentes”. Aqui Cristo revela
o diagnóstico da humanidade. O pecado é doença mortal da alma e o homem não
possui capacidade de autocura. Jesus Cristo é o médico, o único remédio.
Observe
o paradoxo. Os mais distantes da cura não são os pecadores conscientes. São os
que acreditam estar saudáveis. Jesus não está dizendo que os fariseus realmente
são justos. Há ironia em suas palavras.
Os
“sãos” são aqueles que pensam não
precisar de misericórdia. E talvez esse seja o maior perigo dentro da Igreja.
Há
pecadores quebrantados que choram pelo pecado. E há religiosos que nunca choram
porque acreditam já serem suficientemente bons.
O
pecado reconhecido pode conduzir ao arrependimento. Mas a justiça própria fecha
o coração para o Evangelho. O inferno da alma começa quando alguém acha que
consegue salvar a si mesmo.
Jesus então cita o profeta Oséias,
dizendo: “Misericórdia quero, e não sacrifício”.
O
problema não era o culto em si. O problema era uma religião cheia de rituais,
mas vazia de amor. Era uma Ortodoxia sem misericórdia. Sacrifício sem
compaixão. Doutrina sem graça.
Os
fariseus conheciam textos bíblicos, mas não conheciam o coração de Deus. Porque
o coração de Deus é misericórdia.
Deus
prefere misericórdia porque misericórdia reflete seu próprio caráter. A cruz é
a maior prova disso. Na cruz, Cristo não morreu por justos. Cristo morreu por
pecadores.
“Não vim chamar justos, mas pecadores”.
Esse
versículo resume o Evangelho inteiro. Resume Romanos. Resume Gálatas. Resume a
Reforma. Resume a justificação pela fé.
No final desta história, existem
apenas dois grupos diante de Jesus.
De
um lado estão os fariseus: pessoas que acreditavam ter justiça suficiente para
apresentar diante de Deus. Pessoas que enxergavam os pecados dos outros, mas
eram cegas para a própria necessidade de misericórdia. Do outro lado está
Mateus, um homem sem desculpas, sem méritos e sem máscaras. Um homem que nada
tinha para oferecer além da sua culpa.
E
é justamente Mateus quem se levanta para seguir Cristo.
A
grande pergunta deste texto não é se você é pecador. Isso já está resolvido. A
pergunta é: você reconhece que é?
Porque
somente quem sabe que está doente procura o Médico. Somente quem sabe que está
perdido deseja ser encontrado. Somente quem sabe que é pecador compreende a
grandeza da cruz.
Hoje
Cristo continua passando diante das coletorias da vida. Continua olhando para
homens e mulheres quebrados. Continua chamando os culpados, os cansados, os
fracassados e os indignos. Continua dizendo: “Segue-me”.
Talvez
você tenha vindo hoje pensando que precisa melhorar para que Deus o aceite. O
Evangelho anuncia exatamente o contrário: Cristo o chama para que Ele mesmo o transforme.
Portanto,
não olhe para suas obras. Não olhe para seu passado. Não olhe para suas quedas.
Olhe para Cristo. Porque o mesmo Jesus que chamou Mateus continua recebendo
pecadores. E a melhor notícia do Evangelho é esta: enquanto houver um pecador arrependido, haverá
lugar à mesa do Salvador. Amém
Edson
Ronaldo Tressmann
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