segunda-feira, 8 de junho de 2026

Mateus 9 termina com compaixão. Mateus 10 começa com missão. Primeiro a misericórdia, depois a missão. (Mt 9.35 - 10.8)

 14 de junho de 2026

Próprio 6 – Terceiro Domingo após Pentecostes

Salmo 100; Êxodo 19.2-8; Romanos 5.6-15; Mt 9.35-10.8

Texto: Mateus 9.35–10.8

Tema: Mateus 9 termina com compaixão. Mateus 10 começa com missão. Primeiro a misericórdia, depois a missão.

 

Há algo intrigante em nosso tempo. Nunca tivemos tantos meios de comunicação e, ao mesmo tempo, tantas pessoas vivendo em profunda solidão espiritual. As multidões continuam existindo. Elas apenas mudaram de endereço. Estão nas ruas, nos escritórios, nas escolas, nos hospitais, nas redes sociais e, muitas vezes, dentro das próprias igrejas.

O que vemos quando olhamos para essas pessoas? Problemas? Estatísticas? Diferenças? Pecados?

Mateus nos conduz a uma cena extraordinária. Jesus para diante das multidões e enxerga algo que ninguém mais via. Onde os religiosos viam pessoas inconvenientes, Ele via ovelhas sem pastor. Onde outros enxergavam pecadores, Ele via feridos. Onde muitos percebiam apenas uma massa anônima, Cristo contemplava almas aflitas, abatidas e espiritualmente despedaçadas.

E foi exatamente nesse momento que nasceu a missão.

A missão da Igreja não surgiu de um planejamento estratégico. Não nasceu de uma necessidade institucional. Não começou com os discípulos. Começou quando o coração de Cristo foi movido de compaixão.

Mateus 9.35–10.8 nos convida a olhar para o mundo através dos olhos do Bom Pastor e a descobrir que toda verdadeira missão é fruto da misericórdia de Deus.

O texto de Mateus 9.35 – 10.8, é uma ponte onde o evangelista encerra o ministério itinerante de Jesus no capítulo 9 e abre o envio apostólico no capítulo 10.

Jesus vê e se compadece. Jesus chama. Jesus envia. A missão da Igreja não nasce de estratégia humana. Não nasce de marketing religioso. Não nasce de ansiedade institucional. A missão nasce do coração ferido de Cristo pelas ovelhas perdidas.

O texto inteiro gira em torno de uma verdade central: a missão nasce da compaixão de Cristo.

          Καὶ περιῆγεν ὁ Ἰησοῦς τὰς πόλεις πάσας καὶ τὰς κώμας... (Mt 9.35); “Jesus percorria todas as cidades e aldeias”.

περιῆγεν (periēgen), verbo imperfeito de περιάγω. O imperfeito descreve uma ação contínua. Não significa que Jesus visitou uma vez. A ideia é que “Jesus estava constantemente percorrendo”.

Mateus descreve um ministério itinerante em que o Bom Pastor está em movimento. E isso destaca a diferença dos líderes religiosos, que aguardavam o povo vir até eles, Cristo vai ao encontro dos necessitados.

          Mateus registrou três particípios presentes, enumerando três verbos, διδάσκων ensinando”; κηρύσσων proclamando”; θεραπεύων curando”.

Essa tríade resume todo o ministério messiânico.

Διδάσκω, ensinando

Refere-se à instrução doutrinária. Jesus forma discípulos. Ele não oferece apenas experiência religiosa. Ele transmite verdade.

          Κηρύσσω, proclamando

Significa proclamar como um arauto real. O arauto não cria a mensagem. Ele anuncia a mensagem do rei. Cristo anuncia: τὸ εὐαγγέλιον τῆς βασιλείας, “o Evangelho do Reino”. Não é conselho. Não é filosofia. É anúncio de um acontecimento. O Reino chegou porque o Rei chegou.

          Θεραπεύω, curar.

Mas também pode significar restaurar. As curas não são mero alívio físico. São sinais escatológicos. Indicam que a nova criação começou.

          Ἰδὼν δὲ τοὺς ὄχλους... (Mt 9.36), “Vendo as multidões...”.

Ἰδὼν, Particípio de ὁράω. Não significa simplesmente enxergar. Refere-se à percepção profunda. Jesus vê além das aparências. Os fariseus viam pecadores. Cristo vê pessoas necessitadas.

          ἐσπλαγχνίσθη, esta palavra é o centro emocional da perícope. Vem de σπλάγχνα, entranhas”.

Na mentalidade semítica, as emoções profundas eram localizadas nas entranhas. Portanto, ἐσπλαγχνίσθη significa que Jesus “foi movido nas profundezas do seu ser”. Não é pena. Não é simpatia. É misericórdia visceral. É o coração de Deus revelado em ação.

Mateus utiliza esse verbo repetidamente para descrever a compaixão messiânica.

ἐσκυλμένοι, aflitos”, Particípio perfeito passivo. Originalmente descrevia pele rasgada, presa dilacerada, vítima saqueada.

Temos com essa palavra uma imagem muito forte. As multidões estão espiritualmente despedaçadas.

          ἐρριμμένοι, abatidos”, Particípio perfeito passivo de ῥίπτω. Literalmente, “lançados ao chão”. Como soldados derrotados. Como vítimas abandonadas. O quadro é devastador.

          ὡσεὶ πρόβατα μὴ ἔχοντα ποιμένα, como ovelhas sem pastor”. Essa imagem remete imediatamente ao texto de Números 27.17; 1Reis 22.17; Ezequiel 34.

Com isso, o evangelista Mateus apresenta Jesus como o verdadeiro Pastor prometido por Deus.

          Ὁ μὲν θερισμὸς πολύς (Mt 9.37) “A seara é grande

Θερισμός, colheita.

Na literatura judaica frequentemente está associada ao juízo final. Mas aqui enfatiza oportunidade missionária. Há uma multidão pronta para ser recolhida.

          οἱ δὲ ἐργάται ὀλίγοι, os trabalhadores são poucos”.

ἐργάται, trabalhadores especializados. Não espectadores. Não consumidores religiosos. Obreiros.

A preocupação de Jesus não é a falta de pessoas necessitadas. É a falta de quem as alcance.

          Temos como alcançar mais pessoas?

δεήθητε οὖν (Mt 9.38), “Rogai, portanto”.

Δεήθητε, um Imperativo aoristo que expressa urgência.

A oração não é opcional. É mandamento. Antes do envio dos apóstolos existe o chamado à oração. Isso ensina que missão sem oração torna-se ativismo.

          τοῦ κυρίου τοῦ θερισμοῦ, o Senhor da seara”.

Quem controla a missão não é a Igreja. É Deus. A seara pertence ao Senhor. Os trabalhadores pertencem ao Senhor. A colheita pertence ao Senhor.

          Καὶ προσκαλεσάμενος (Mt 10.1), “Tendo chamado para si”.

O ministério começa com chamado. Antes de serem enviados, os discípulos são reunidos em torno de Cristo. Ninguém é enviado legitimamente sem primeiro ser chamado.

          ἔδωκεν αὐτοῖς ἐξουσίαν, deu-lhes autoridade”.

Observe que Jesus não compartilha apenas tarefas. Compartilha autoridade. E durante a ascensão, Jesus disse: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra... (Mt 28.18).

          ἐξουσία, uma das palavras cristológicas mais importantes de Mateus e significa direito legítimo, autoridade soberana, poder delegado. A autoridade apostólica deriva de Cristo. Não deles. A Igreja possui autoridade apenas enquanto fala em nome de Cristo.

          Mateus 10.2-4 temos uma lista apostólica. Observe que Mateus não apresenta heróis. Apresenta pecadores. Πέτρος, impulsivo. Θωμᾶς, vacilante. Ματθαῖος, ex-publicano. Σίμων ὁ Καναναῖος, Zelote. Ἰούδας Ἰσκαριώτης, o traidor.

Com isso, o evangelista Mateus mostra algo extraordinário. A eficácia da missão não depende da perfeição dos mensageiros. Depende da autoridade daquele que os envia.

          εἰς ὁδὸν ἐθνῶν μὴ ἀπέλθητε (Mt 10.5-6) “Não tomeis o caminho dos gentios”.

Essa limitação é temporária, afinal, Mateus termina o Evangelho com a ordem expressa de Jesus: “Ide e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28.19).

Primeiro Israel. Depois o mundo. A prioridade histórica acompanha a ordem das promessas do Antigo Testamento.

          Κηρύσσετε (Mt 10.7), “Proclamai” um presente imperativo que transmite a ideia de que “continuem proclamando”.

O centro da missão não é curar. Não é administrar. Não é organizar. É proclamar.

          Ἤγγικεν ἡ βασιλεία, O Reino aproximou-se

Ἤγγικεν, perfeito de ἐγγίζω. O perfeito indica que algo chegou e permanece presente. O Reino não está apenas vindo. Ele já chegou na pessoa de Cristo.

          Δωρεὰν ἐλάβετε, δωρεὰν δότε (Mt 10.8) “De graça recebestes; de graça dai”.

Δωρεάν, gratuitamente, sem mérito, sem pagamento, sem barganha. Aqui encontramos o coração da teologia da graça. Tudo o que os discípulos possuem foi recebido. Tudo o que distribuem deve ser distribuído gratuitamente. A missão não é comércio religioso. É transbordamento da graça recebida.

          Mateus 9.35–10.8 revela cinco grandes verdades:

1.    Cristo é o verdadeiro Pastor que vê a miséria espiritual da humanidade.

2.    A compaixão divina é a origem da missão.

3.    A Palavra é o centro do ministério, representada por ensinar e proclamar.

4.    A autoridade da Igreja é derivada de Cristo, nunca autônoma.

5.    A graça recebida gratuitamente deve ser anunciada gratuitamente.

A estrutura da perícope é profundamente cristológica, tudo começa em Cristo, passa por Cristo e termina em Cristo. A multidão não é salva porque existem apóstolos; existem apóstolos porque Cristo teve compaixão da multidão. A lógica do Reino é que primeiro a misericórdia, depois a missão; primeiro o Pastor, depois os trabalhadores; primeiro a graça, depois o serviço.

Mateus 9 termina com compaixão. Mateus 10 começa com missão. Essa é a ordem correta. Primeiro Cristo ama. Depois Cristo envia. Primeiro Cristo salva. Depois Cristo usa.

A Igreja só terá verdadeira missão enquanto permanecer perto do coração compassivo de Cristo. E esse Cristo continua ensinando sua Palavra, pregando seu Reino, curando pecadores, reunindo ovelhas, enviando trabalhadores. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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