segunda-feira, 2 de março de 2026

O deserto interior: quando o coração coloca Deus no banco dos réus!

 08 de março de 2026

Terceiro domingo na Quaresma

Salmo 95.1-9; Êxodo 17.1-7; Romanos 5.1-8; João 4.5-26

Texto: Salmo 95.1-9

Tema: O deserto interior: quando o coração coloca Deus no banco dos réus!

 

          No Salmo 95 é o texto litúrgico mais famoso sobre Massá (Ler o Salmo 95).

          Davi, a quem esse Salmo é atribuído, transforma o evento geográfico em Refidim para advertir sobre a postura do coração (Sl 95.8-9).

          O problema em Massá não foi a sede, mas o fechamento da mente. O povo viu os milagres no Egito e no Mar Vermelho, mas se recusaram a crer que Deus estava de fato com eles. Por descrença deixaram de descansar em Deus.

          O Salmo 95 começa com um toque de trombeta para a adoração: “Vinde, cantemos ao Senhor!” (Sl 95.1), mas termina com um trovão de advertência. Spurgeon diria que a adoração que agrada a Deus não é apenas o som dos lábios, mas submissão a sua vontade. Davi nos transporta de volta ao deserto, não para nos ensinar geografia, mas para nos mostrar a anatomia da queda humana.

          O Salmo 95 é um convite que termina em um lamento; uma festa que termina em um funeral. Ele começa com o coro dos remidos exultando em Deus, a Rocha da nossa salvação, mas termina com a voz solene do próprio Deus jurando em sua ira devido a incredulidade. Um incrédulo é como um cadáver diante de Deus.

O salmista Davi, para quem se atribui esse Salmo, nos leva de volta a Massá e Meribá, não para uma lição de história, mas para um exame de cardiologia espiritual. O salmista nos mostra que o maior deserto não estava sob os pés dos israelitas, mas dentro deles.

Não sejam teimosos, como os seus antepassados foram em Meribá, quando estavam em Massá, no deserto” (Sl 95.8).

A incredulidade torna o coração como uma estrada batida pelo pecado, onde nada penetra e nada brota.

O povo não pecou por sentir sede (uma necessidade legítima), mas por transformar a sede em uma arma contra a soberania de Deus. O problema nunca é a circunstância difícil, mas o que fazemos com ela. Massá é o lugar onde o homem coloca Deus no banco dos réus.

Por causa da natureza pecaminosa, somos um solo rebelde. A sede do povo no deserto não foi o grave problema. Sempre há pessoas amadas por Deus passando por dificuldades. O problema do povo foi a exigência em forma de intimação.

Caríssimo irmão e irmã no Senhor: o endurecimento do coração começa quando paramos de ver Deus como um Pai amoroso e passamos a tratá-lo como um servo que deve satisfazer nossos caprichos.

O povo de Deus fechou sua mente para Deus. Voltando a frase de Spurgeon, destaco que tal como o barro que endurece no sol, quando resistimos a verdade da Palavra de Deus, o ser humano vai se tornando impenetrável pela verdade.

Ali eles me puseram à prova e me desafiaram, embora tivessem visto o que eu havia feito por eles” (Sl 95.9).

Spurgeon sempre fazia uma observação em seus sermões dizendo: “o mesmo sol que derrete a cera, endurece o barro”. O povo viu o Mar Vermelho se abrir, mas o milagre de ontem não alimentou a fé de hoje.

Observem o paradoxo da incredulidade. O mesmo povo que teve o Mar Vermelho diante dos seus olhos e uma magnifica libertação, agora estava em Maná, e seus estômagos influenciaram em sua mente alimentando a dúvida sobre o amor e a fidelidade de Deus para com eles.

Lembre-se: milagres não convertem ninguém. Se o coração está decidido a não crer, ele verá a mão de Deus e a chamará de “coincidência”, “sorte”, “destino”.

A incredulidade é voluntária, por isso é condenatória. Ela não é decorrente de um não desejo de Deus em não escolher. Àquele povo viu maravilhosas obras divinas, mas se recusaram a conhecer o “Caminho” (Sl 95.10). Eles queriam as mãos de Deus, ou seja, a provisão, mas recusavam seu coração a Deus, manter a comunhão com Deus.

Esse povo sobre quem o salmista escreve viu a obra de Deus, esse povo conhecia os caminhos de Deus (Sl 95.10).

Ao fazer esse destaque o salmista deseja nos lembrar que conhecer as obras de Deus é saber o que Ele faz. Conhecer os caminhos de Deus é saber quem Ele é.

A incredulidade do povo deve-se justamente ao fato de duvidarem sobre quem Deus é. Quem é Deus? Responder essa questão quando tudo está bem é uma coisa. Agora, responder essa pergunta quando tudo está ruim, é outra coisa.

O povo de Deus, aproveitando-se da sede, se deixaram levar pela conclusão de que Deus os havia levado até o deserto para matá-los. E isso foi um insulto a graça de Deus. Esse povo ousou medir a infinitude do amor de Deus pela finitude da sede.

Fiquei irado e fiz este juramento: ‘Vocês nunca entrarão na Terra Prometida, onde eu lhes teria dado descanso” (Sl 95.11; Hb 3.7-11).

A incredulidade não traz apenas consequências eternas. Na verdade, a incredulidade traz agitação presente. Quem não confia, não descansa. Quem não acredita, semeia dúvidas para outros.

O povo de Deus vagou por quarenta anos num deserto que em poucos dias poderiam ter atravessado. A incredulidade tornou o caminho mais longo. O descanso foi adiado.

O descanso de Deus é o que o apostolo Paulo escreveu aos Filipenses: a paz que excede todo entendimento.

A incredulidade é a prisão com grades de ansiedade. A incredulidade é a algema que nos mantém no deserto da preocupação. E para isso, temos a resposta de Jesus, que ao vencer o tentador disse o que Moisés interpretou sobre esse episódio: nem só de pão viverá o homem.

O castigo é a própria incredulidade. Quem não crê se condena a uma vida de agitação eterna. O “descanso” em Canaã era um símbolo do descanso da alma em Cristo.

          Da parte de Deus existe uma urgência do hoje. O salmista enfatiza: “Escutem hoje o que ele nos diz” (Sl 95.7). O amanhã é o período em que os tolos se perdem. A graça rejeitada hoje torna o coração mais duro para o convite de amanhã.

          O apóstolo Paulo ao escrever aos Coríntios (1Co 10.4) enfatiza que a rocha ferida em Massá, da qual saiu água, era figura de Cristo. Enquanto o povo murmurou contra a rocha, a rocha ferida, Cristo, os iria salvar.

          Caríssimo irmão e irmã no Senhor: não permita que as dificuldades, tragédias, situações adversas, feche a sua mente para a fidelidade e o amor de Deus em Cristo. A adoração a Deus é realizada por àquilo que Ele é.

          A rocha que foi ferida em Massá é a rocha ferida no Calvário. Da rocha em Massá saiu água para saciar a sede de um povo rebelde. Da rocha, Jesus Cristo, sai sangue e água para lavar o pecado do maior dos rebeldes.

          Jesus Cristo é o meu verdadeiro descanso. Amém.

Edson Ronaldo Tressmann

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