02 de abril de 2026
Quinta-feira
Santa
Salmo
116.12-19; Êxodo 24.3-11; Hebreus 9.11-22; Mateus 26.17-30
Texto: Mateus
26.17-30
Tema: O
banquete da entrega. A fé desfruta o que a razão não explica.
Na
Jerusalém dos dias comuns, a vida seguia em um ritmo quase previsível. Ruas
conhecidas, rostos familiares, uma cidade com algo entre 20 e 30 mil
habitantes. Mas tudo mudava completamente com a aproximação da Páscoa judaica.
Dias
antes da celebração, começava uma verdadeira invasão de peregrinos. Vindos da
Galileia, da Judeia, e até de terras distantes do Império Romano, multidões
subiam para a cidade santa. O que era uma cidade relativamente pequena se
transformava em um mar de gente. As ruas ficavam apertadas, as casas lotadas, e
os arredores tomados por acampamentos improvisados. Jerusalém podia facilmente
ultrapassar a marca de 100 mil pessoas, talvez muito mais.
E
é exatamente nesse cenário que acontece a Quinta-feira Santa.
Enquanto
do lado de fora havia barulho, movimento e aglomeração, dentro de um cenáculo
tudo era silêncio, intimidade e profundidade. A cidade estava cheia de gente
celebrando a antiga libertação do Egito. Mas, em um ambiente reservado, Jesus
celebrava algo infinitamente maior.
A
superlotação de Jerusalém também ajuda a entender a urgência e a tensão daquela
noite. As autoridades estavam em alerta. Qualquer movimento poderia gerar
tumulto. Por isso, tudo acontece quase escondido, longe da multidão, longe dos
olhares públicos.
Assim,
no meio de uma cidade tomada por milhares de pessoas, Deus escolhe agir de
forma discreta. Não no centro do barulho, mas na profundidade de uma mesa. Não
diante das multidões, mas diante de poucos.
Porque,
enquanto Jerusalém transbordava de gente, naquela quinta-feira à noite o céu se
concentrava em um único lugar: uma mesa, um pão e um cálice.
Naquela noite em Jerusalém,
aparentemente tudo era apenas uma refeição. Uma mesa preparada. Pão partido. Cálices
de vinho circulando entre amigos. Mas, na verdade, o que acontecia ali mudaria
para sempre a história. Enquanto a cidade celebrava a antiga libertação do
Egito, dentro de um cenáculo silencioso o próprio Deus estava preparando uma
libertação ainda maior. Não mais da escravidão do faraó, mas da escravidão do
pecado.
Àquela
mesa estavam homens imperfeitos, cheios de dúvidas, medos e fraquezas. Um deles
trairia. Todos os outros fugiriam. Ainda assim, Jesus se senta com eles.
E
é justamente nesse cenário de fragilidade humana que Jesus parte o pão e
declara algo absolutamente escandaloso e maravilhoso: “Isto é o meu corpo… isto é o meu sangue”.
Naquela
noite, Deus não apenas explicou o amor. Deus se deu em alimento.
A
Quinta-feira Santa marca o início da Festa dos Pães sem Fermento. Jesus prepara
o ambiente com cuidado e discrição. O evangelista Marcos nos dá a entender que
o local foi mantido em segredo para evitar que Judas antecipasse a traição
antes da hora marcada.
Ao
redor da mesa, Jesus não está mais “com pressa”
como os antigos hebreus na saída do Egito (Ex 12.11). Ele se reclina. O
descanso à mesa simboliza que a verdadeira libertação estava prestes a
acontecer. Naquela noite, a tradição judaica previa quatro cálices de vinho,
ervas amargas e o cordeiro pascal. Mas, entre o segundo e o terceiro cálice,
Jesus interrompe a tradição milenar para instituir algo novo.
À
mesa, o clima de celebração é cortado por uma revelação dolorosa: “Um de vocês me trairá”.
Judas
era tão hábil em ocultar suas intenções que os outros discípulos não
suspeitaram dele; cada um perguntou: “Sou eu,
Senhor?”.
Note
que todos chamam Jesus de Senhor, mas Judas é o único que o chama apenas de
Rabi (Mestre). Para Judas, Jesus era um professor a ser analisado, não o Senhor
a ser adorado.
A
traição não torna Jesus uma vítima indefesa. O fato de Ele saber quem o trairia
mostra que tudo o que estava por vir era uma deliberação divina. Jesus não foi
pego de surpresa; Jesus se entregou voluntariamente.
Ao
partir o pão e oferecer o vinho, Jesus profere palavras simples e poderosas: “Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue”.
Infelizmente, ao longo da história, a
Ceia que deveria ser o símbolo da união tornou-se um campo de batalha
doutrinário. Surgiram correntes para tentar explicar o
inexplicável:
Transubstanciação: A mudança da substância.
Consubstanciação: A presença real com os
elementos.
Símbolo: Uma lembrança memorial.
Presença Espiritual: Uma comunhão mística.
Jesus
não pediu para analisar a Ceia; Jesus pediu para comer e beber. O sacramento é
um presente de autoridade absoluta de Cristo para sua Igreja. Onde a mente
humana esbarra no mistério, Jesus oferece o seu verdadeiro corpo e sangue e com
isso o verdadeiro alimento.
Certa
vez, perguntaram a Martinho Lutero como ele explicava a presença de Cristo na
Ceia. Ele respondeu de forma surpreendentemente simples: “Eu não preciso explicar. Cristo disse: Isto é o meu
corpo. Então eu tomo, como e agradeço”.
Às
vezes tentamos resolver o mistério com argumentos. Mas a fé faz algo muito mais
simples: confia na Palavra de Cristo, tomai, comei, isto é o meu sangue. Tomai,
bebei, isto é o meu sangue.
O
maior obstáculo para receber a graça da Santa Ceia não é a falta de
inteligência, mas a falta de compreensão sobre o próprio pecado.
Muitos
vivem como se não tivessem pecados, ou como se pudessem “pagar” suas falhas com boas obras e
penitências. Assim, quem
se julga merecedor, sai da mesa vazio.
A
Ceia é o lugar do perdão
imerecido. Jesus enfatiza que seu sangue é derramado “para remissão dos pecados”. É um plano
conduzido pelo Pai para agraciar os caídos.
Santa ceia é alimento para o coração e
não para a mente. A Santa Ceia não foi feita para ser resolvida como uma
equação matemática; ela foi feita para consolar o coração aflito.
Um
pastor contou que certa vez um homem da igreja evitava participar da Santa
Ceia. Sempre permanecia sentado. Depois de algum tempo, o pastor perguntou: “Por que você nunca vem à mesa do Senhor?” O
homem respondeu: “Pastor, eu não me sinto digno”.
O pastor então disse algo muito importante: “Se
a mesa fosse para os dignos, eu também não poderia ir. A mesa é justamente para
quem sabe que precisa de perdão”. Aquele homem começou a chorar. E
naquele dia, pela primeira vez em muitos anos, ele se levantou e recebeu a
Ceia.
O
“re-viver” desta quinta-feira santa
nos convida a silenciar as disputas doutrinárias e apenas aceitar o convite: Tomai e comei. A fé desfruta o que a razão não
entende. Saímos desta celebração com o sabor do pão e do vinho, mas, acima de
tudo, com a certeza de que a dívida foi paga e o perdão nos foi entregue
gratuitamente pelo corpo e sangue de Jesus.
Aquela
mesa continua posta. Não no cenáculo de Jerusalém, mas em cada altar onde
Cristo reúne seu povo. E, curiosamente, os convidados continuam sendo do mesmo
tipo: pecadores, falhos, gente que também se pergunta em silêncio: “Sou eu, Senhor?”
A
Santa Ceia não é a mesa dos perfeitos. É a mesa dos perdoados. Ali não
recebemos uma teoria. Recebemos um presente.
Não
somos convidados a entender tudo. Somos convidados a confiar. Por isso, quando
nos aproximamos do pão e do vinho, não estamos apenas lembrando de algo que
aconteceu há dois mil anos. Estamos recebendo hoje aquilo que foi conquistado
naquela noite e consumado na cruz. Cristo ainda nos diz: “Tomai e comei”, “Tomai
e bebei”. E nesse simples gesto, o céu toca a terra.
Saímos
da mesa talvez sem compreender todos os mistérios, mas com algo muito mais
importante: a certeza de que nossos pecados foram perdoados, nossa dívida foi
paga e nossa vida foi reconciliada com Deus. Porque naquela noite, antes da
cruz, Jesus já nos entregava o maior de todos os presentes: seu próprio corpo,
seu próprio sangue, para o perdão dos nossos pecados.
Antes
de nos aproximarmos da mesa do Senhor, pense em algo simples.
Imagine alguém
afogado em dívidas impossíveis de pagar. Cada dia chega uma nova cobrança. Cada
carta aumenta o desespero. Não há saída. Então, um dia, alguém bate à porta. Entrega
um envelope. Dentro dele há apenas uma frase: “A
dívida foi paga”. Nenhuma parcela restante. Nenhuma condição
escondida. Tudo foi quitado.
É
exatamente isso que Jesus declara na mesa da Ceia.
Quando
recebemos o pão e o vinho, corpo e sangue, estamos recebendo a garantia de que:
nossa dívida diante de Deus foi paga. Não com prata. Não com ouro. Mas com o
corpo e o sangue de Jesus Cristo.
Aqui
está o que mais assusta: naquela mesa, ninguém era digno. Nem Pedro com sua
impulsividade. Nem João com sua fragilidade. Nem os outros que fugiriam horas
depois. E muito menos Judas, que já carregava a traição no coração. Ainda
assim, Jesus partiu o pão. Ainda assim, ofereceu o cálice.
Isso
significa uma coisa difícil de aceitar: se a mesa dependesse de mérito, ela
estaria vazia até hoje. Mas ela não está.
O
mais chocante não é que Jesus tenha dado seu corpo e seu sangue. O mais
chocante é que Ele continua oferecendo… sabendo exatamente quem somos.
Ele
sabe dos seus pensamentos. Ele conhece seus pecados escondidos. Ele vê aquilo
que ninguém mais vê. E mesmo assim, Ele diz: “Tomai
e comei”; “Tomai e bebei”.
A
pergunta não é se você é digno. A pergunta é: você
vai recusar um convite que custou sangue?
Porque
naquela mesa não há meio termo. Ou você recebe… ou você rejeita.
E
rejeitar não é apenas recusar pão e vinho. É virar as costas para o único
pagamento que poderia quitar a sua dívida. Hoje, a mesa está posta e o convite é
feito!
Edson
Ronaldo Tressmann
Desejar fazer um pix voluntário
edson.ronaldotre@gmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por seguir esse blog. Com certeza será uma bênção em sua vida.