segunda-feira, 30 de março de 2026

O banquete da entrega. A fé desfruta o que a razão não explica.

 02 de abril de 2026

Quinta-feira Santa

Salmo 116.12-19; Êxodo 24.3-11; Hebreus 9.11-22; Mateus 26.17-30

Texto: Mateus 26.17-30

Tema: O banquete da entrega. A fé desfruta o que a razão não explica.

 

Na Jerusalém dos dias comuns, a vida seguia em um ritmo quase previsível. Ruas conhecidas, rostos familiares, uma cidade com algo entre 20 e 30 mil habitantes. Mas tudo mudava completamente com a aproximação da Páscoa judaica.

Dias antes da celebração, começava uma verdadeira invasão de peregrinos. Vindos da Galileia, da Judeia, e até de terras distantes do Império Romano, multidões subiam para a cidade santa. O que era uma cidade relativamente pequena se transformava em um mar de gente. As ruas ficavam apertadas, as casas lotadas, e os arredores tomados por acampamentos improvisados. Jerusalém podia facilmente ultrapassar a marca de 100 mil pessoas, talvez muito mais.

E é exatamente nesse cenário que acontece a Quinta-feira Santa.

Enquanto do lado de fora havia barulho, movimento e aglomeração, dentro de um cenáculo tudo era silêncio, intimidade e profundidade. A cidade estava cheia de gente celebrando a antiga libertação do Egito. Mas, em um ambiente reservado, Jesus celebrava algo infinitamente maior.

A superlotação de Jerusalém também ajuda a entender a urgência e a tensão daquela noite. As autoridades estavam em alerta. Qualquer movimento poderia gerar tumulto. Por isso, tudo acontece quase escondido, longe da multidão, longe dos olhares públicos.

Assim, no meio de uma cidade tomada por milhares de pessoas, Deus escolhe agir de forma discreta. Não no centro do barulho, mas na profundidade de uma mesa. Não diante das multidões, mas diante de poucos.

Porque, enquanto Jerusalém transbordava de gente, naquela quinta-feira à noite o céu se concentrava em um único lugar: uma mesa, um pão e um cálice.

          Naquela noite em Jerusalém, aparentemente tudo era apenas uma refeição. Uma mesa preparada. Pão partido. Cálices de vinho circulando entre amigos. Mas, na verdade, o que acontecia ali mudaria para sempre a história. Enquanto a cidade celebrava a antiga libertação do Egito, dentro de um cenáculo silencioso o próprio Deus estava preparando uma libertação ainda maior. Não mais da escravidão do faraó, mas da escravidão do pecado.

Àquela mesa estavam homens imperfeitos, cheios de dúvidas, medos e fraquezas. Um deles trairia. Todos os outros fugiriam. Ainda assim, Jesus se senta com eles.

E é justamente nesse cenário de fragilidade humana que Jesus parte o pão e declara algo absolutamente escandaloso e maravilhoso: “Isto é o meu corpo… isto é o meu sangue”.

Naquela noite, Deus não apenas explicou o amor. Deus se deu em alimento.

A Quinta-feira Santa marca o início da Festa dos Pães sem Fermento. Jesus prepara o ambiente com cuidado e discrição. O evangelista Marcos nos dá a entender que o local foi mantido em segredo para evitar que Judas antecipasse a traição antes da hora marcada.

Ao redor da mesa, Jesus não está mais “com pressa” como os antigos hebreus na saída do Egito (Ex 12.11). Ele se reclina. O descanso à mesa simboliza que a verdadeira libertação estava prestes a acontecer. Naquela noite, a tradição judaica previa quatro cálices de vinho, ervas amargas e o cordeiro pascal. Mas, entre o segundo e o terceiro cálice, Jesus interrompe a tradição milenar para instituir algo novo.

À mesa, o clima de celebração é cortado por uma revelação dolorosa: “Um de vocês me trairá”.

Judas era tão hábil em ocultar suas intenções que os outros discípulos não suspeitaram dele; cada um perguntou: “Sou eu, Senhor?”.

Note que todos chamam Jesus de Senhor, mas Judas é o único que o chama apenas de Rabi (Mestre). Para Judas, Jesus era um professor a ser analisado, não o Senhor a ser adorado.

A traição não torna Jesus uma vítima indefesa. O fato de Ele saber quem o trairia mostra que tudo o que estava por vir era uma deliberação divina. Jesus não foi pego de surpresa; Jesus se entregou voluntariamente.

Ao partir o pão e oferecer o vinho, Jesus profere palavras simples e poderosas: “Isto é o meu corpo... isto é o meu sangue”.

Infelizmente, ao longo da história, a Ceia que deveria ser o símbolo da união tornou-se um campo de batalha doutrinário. Surgiram correntes para tentar explicar o inexplicável:

Transubstanciação: A mudança da substância.

Consubstanciação: A presença real com os elementos.

Símbolo: Uma lembrança memorial.

Presença Espiritual: Uma comunhão mística.

Jesus não pediu para analisar a Ceia; Jesus pediu para comer e beber. O sacramento é um presente de autoridade absoluta de Cristo para sua Igreja. Onde a mente humana esbarra no mistério, Jesus oferece o seu verdadeiro corpo e sangue e com isso o verdadeiro alimento.

Certa vez, perguntaram a Martinho Lutero como ele explicava a presença de Cristo na Ceia. Ele respondeu de forma surpreendentemente simples: “Eu não preciso explicar. Cristo disse: Isto é o meu corpo. Então eu tomo, como e agradeço”.

Às vezes tentamos resolver o mistério com argumentos. Mas a fé faz algo muito mais simples: confia na Palavra de Cristo, tomai, comei, isto é o meu sangue. Tomai, bebei, isto é o meu sangue.

O maior obstáculo para receber a graça da Santa Ceia não é a falta de inteligência, mas a falta de compreensão sobre o próprio pecado.

Muitos vivem como se não tivessem pecados, ou como se pudessem “pagar” suas falhas com boas obras e penitências. Assim, quem se julga merecedor, sai da mesa vazio.

A Ceia é o lugar do perdão imerecido. Jesus enfatiza que seu sangue é derramado “para remissão dos pecados”. É um plano conduzido pelo Pai para agraciar os caídos.

          Santa ceia é alimento para o coração e não para a mente. A Santa Ceia não foi feita para ser resolvida como uma equação matemática; ela foi feita para consolar o coração aflito.

Um pastor contou que certa vez um homem da igreja evitava participar da Santa Ceia. Sempre permanecia sentado. Depois de algum tempo, o pastor perguntou: “Por que você nunca vem à mesa do Senhor?” O homem respondeu: “Pastor, eu não me sinto digno”. O pastor então disse algo muito importante: “Se a mesa fosse para os dignos, eu também não poderia ir. A mesa é justamente para quem sabe que precisa de perdão”. Aquele homem começou a chorar. E naquele dia, pela primeira vez em muitos anos, ele se levantou e recebeu a Ceia.

O “re-viver” desta quinta-feira santa nos convida a silenciar as disputas doutrinárias e apenas aceitar o convite: Tomai e comei. A fé desfruta o que a razão não entende. Saímos desta celebração com o sabor do pão e do vinho, mas, acima de tudo, com a certeza de que a dívida foi paga e o perdão nos foi entregue gratuitamente pelo corpo e sangue de Jesus.

Aquela mesa continua posta. Não no cenáculo de Jerusalém, mas em cada altar onde Cristo reúne seu povo. E, curiosamente, os convidados continuam sendo do mesmo tipo: pecadores, falhos, gente que também se pergunta em silêncio: “Sou eu, Senhor?

A Santa Ceia não é a mesa dos perfeitos. É a mesa dos perdoados. Ali não recebemos uma teoria. Recebemos um presente.

Não somos convidados a entender tudo. Somos convidados a confiar. Por isso, quando nos aproximamos do pão e do vinho, não estamos apenas lembrando de algo que aconteceu há dois mil anos. Estamos recebendo hoje aquilo que foi conquistado naquela noite e consumado na cruz. Cristo ainda nos diz: “Tomai e comei”, “Tomai e bebei”. E nesse simples gesto, o céu toca a terra.

Saímos da mesa talvez sem compreender todos os mistérios, mas com algo muito mais importante: a certeza de que nossos pecados foram perdoados, nossa dívida foi paga e nossa vida foi reconciliada com Deus. Porque naquela noite, antes da cruz, Jesus já nos entregava o maior de todos os presentes: seu próprio corpo, seu próprio sangue, para o perdão dos nossos pecados.

Antes de nos aproximarmos da mesa do Senhor, pense em algo simples.

          Imagine alguém afogado em dívidas impossíveis de pagar. Cada dia chega uma nova cobrança. Cada carta aumenta o desespero. Não há saída. Então, um dia, alguém bate à porta. Entrega um envelope. Dentro dele há apenas uma frase: “A dívida foi paga”. Nenhuma parcela restante. Nenhuma condição escondida. Tudo foi quitado.

É exatamente isso que Jesus declara na mesa da Ceia.

Quando recebemos o pão e o vinho, corpo e sangue, estamos recebendo a garantia de que: nossa dívida diante de Deus foi paga. Não com prata. Não com ouro. Mas com o corpo e o sangue de Jesus Cristo.

Aqui está o que mais assusta: naquela mesa, ninguém era digno. Nem Pedro com sua impulsividade. Nem João com sua fragilidade. Nem os outros que fugiriam horas depois. E muito menos Judas, que já carregava a traição no coração. Ainda assim, Jesus partiu o pão. Ainda assim, ofereceu o cálice.

Isso significa uma coisa difícil de aceitar: se a mesa dependesse de mérito, ela estaria vazia até hoje. Mas ela não está.

O mais chocante não é que Jesus tenha dado seu corpo e seu sangue. O mais chocante é que Ele continua oferecendo… sabendo exatamente quem somos.

Ele sabe dos seus pensamentos. Ele conhece seus pecados escondidos. Ele vê aquilo que ninguém mais vê. E mesmo assim, Ele diz: “Tomai e comei”; “Tomai e bebei”.

A pergunta não é se você é digno. A pergunta é: você vai recusar um convite que custou sangue?

Porque naquela mesa não há meio termo. Ou você recebe… ou você rejeita.

E rejeitar não é apenas recusar pão e vinho. É virar as costas para o único pagamento que poderia quitar a sua dívida. Hoje, a mesa está posta e o convite é feito!

 

Edson Ronaldo Tressmann

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