04/08/13
11º Domingo após
Pentecostes.
Sl 100; Ec 1.2, 12 – 14;
2. 18 - 26; Cl 3.
1 – 11, 14 - 18; Lc 12. 13 - 22
Tema:
O Trabalho: Maldição ou
Bênção?
Quando
tentamos fazer uma comparação dos Estados Unidos com a América Latina,
afirma-se que uma diferença importante entre estas duas culturas tem sido
filosofias divergentes a respeito do papel do trabalho na vida. Segundo esta
teoria, o latino-americano, influenciado pelas atitudes da nobreza espanhola e
da igreja católica no tempo da conquista do Novo Mundo, pensa que o trabalho é
uma maldição, e que o ideal seria poder viver bem sem ter que trabalhar muito. Em
compensação, o norte-americano foi influenciado pela “ética protestante de
trabalho,” segundo a qual a pessoa, ao trabalhar muito e ser bem sucedida,
demonstra que foi escolhida por Deus. Por isso ele crê que o trabalho é uma
bênção. Como escreveu o pensador americano Ralph Waldo Emerson: “o cume da
sabedoria é entender que o tempo empregado no trabalho nunca é desperdiçado.”
Sem validar essa tese, gostaria de usá-la como uma ferramenta para refletirmos
em nossa leitura de hoje, Eclesiastes 2.18 – 26, sob o tema: Trabalho:
Bênção ou Maldição?
Por
onze vezes Salomão empregou a palavra ´amal, significando “esforço, desventura, fadiga, desastre.” As outras três palavras que
empregou também têm conotações negativas. Uma é traduzida como “enfadonho
trabalho” (Ec 1.13) e outra comunica a ideia de fazer um grande
esforço sem obter nenhum beneficio, “correr atrás do vento” (Ec 1.17; 4.16) e
outros versículos. Em nosso texto não aparece a palavra ´abodah, que vem do
verbo servir.
Os
v. 18 – 23
falam de uma maneira bem pessimista sobre o trabalho. O autor aborrecer todo o
seu trabalho; sente desespero, fadiga, dor e desgosto. Não achamos nenhuma
promessa com relação ao trabalho. Não lemos que o trabalho satisfaz ou que Deus
recompensará as pessoas honestas que trabalham muito. Salomão está respondendo
a uma formulação: “que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que
se afadiga debaixo do sol?” (Ec 1.3)
A
resposta foi devastadora. Não há nenhuma garantia de que tiraremos proveito dos
nossos esforços na vida. Isto parece injusto e ir contra as nossas
expectativas. Porque
será que Salomão apresentou o trabalho mais como maldição do que bênção?
A razão é para que o trabalho nos
lembre do nosso pecado. Afinal, a maldição dada a Adão após a queda foi que o
trabalho se tornaria difícil e pesado, Gn 3.17,19. Não podemos achar que o
trabalho, seja qual for, é fácil e muito produtivo, pois não é. Mesmo em meio a
tantos avanços científicos e tecnológicos, milhares de pessoas estão
desempregadas, e quando tem um trabalho, trabalham demais e com salários
baixíssimos. Não podemos exigir que o trabalho seja uma bênção, afinal somos
pecadores e o cansaço e as exigências do trabalho são consequências do mesmo.
O
trabalho também é uma maldição para os intelectuais, os capacitados e os ricos,
observemos o v. 22: “há homem cujo trabalho é feito com sabedoria, ciência e
destreza; contudo, deixará o seu ganho como porção a quem por ele não se
esforçou; também isto é vaidade e grande mal.”
Graças
a boa administração e às sábias politicas de Salomão, Israel pela única vez em
sua história tinha se tornado a maior potência do Meio Oriente. Apesar disto,
Salomão não sentia paz ou satisfação, porque ele sabia que o seu filho talvez
seria estulto e estragaria todos os avanços políticos e econômicos que ele com
tanto esforço havia conseguido. O problema com Salomão, e às vezes conosco, é
que usamos o nosso trabalho e as nossas habilidades como meios para sermos
melhores do que outros e para termos mais glória, fama e poder. E com certeza o
trabalho se torna uma maldição quando é feito de uma maneira egoísta, e não
pensamos em compartilhar os frutos do nosso trabalho com nosso próximo ou com
Deus.
O
trabalho se tornou uma maldição para Salomão porque começou a confiar em seu
trabalho e não em Deus. Era um homem sábio, tinha um talento incrível como rei,
e passou a acreditar que controlaria seu destino. Essa foi a tentação a qual
sucumbiu nos dias da sua juventude. Mas a velhice demonstrou que era vaidade
confiar no trabalho e nos seus dons e talentos.
Muitas
vezes queremos nos justificar diante de Deus através de nossas obras. E assim o
trabalho pode se tornar uma terrível maldição quando começamos a viver nossa
vida achando que o valor que temos diante de Deus e das pessoas está em nosso
trabalho. Começamos a glorificar alguns e desprezar outros. Se você pudesse
escolher entre ser um agricultor e um professor? Se você pudesse escolher entre
ser dona de casa ou bancária? O que você escolheria? O trabalho é maldição porque queremos
ser elogiados pelas pessoas por aquilo que fazemos, e para receber os elogios
precisamos fazer coisas grandiosas aos olhos do mundo.
Trabalho: Bênção ou Maldição?
2 – Pode ser uma bênção se for feito confiando em Jesus
Cristo
Nosso
texto não é apenas pessimismo, mas também esperança, vv. 24 – 26.
O
trabalho pode deixar de ser uma maldição e passar a ser uma bênção. Isto,
quando salientamos menos nosso trabalho e o nosso esforço e focalizamos que da
mão de Deus vêm as coisas boas que fazemos e assim nosso trabalho se torna
proveitoso para nosso próximo e agradável a nós. Assim como lemos: “Deus dá
sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada” (Ec 2.26).
Como diz o autor a carta aos Hebreus: “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6).

Quando lemos em Eclesiastes que “Deus dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que lhe agrada” (Ec 2.26) entendemos que através da fé em Jesus Cristo recebemos as bênçãos do nosso trabalho.
Quando
confiamos em nosso trabalho, o trabalho se torna uma maldição; quando confiamos
apenas no trabalho de Jesus Cristo na cruz, o nosso trabalho se torna uma
bênção.
A
fé em Jesus muda nosso olhar ao trabalho. Vemos em Cristo, como ele se
identificou conosco e com os sofrimentos que padecemos no trabalho, por causa
do trabalho.
No
inicio dessa mensagem disse que Salomão usou a palavra ´amal. Essa mesma
palavra foi usada pelo profeta Isaias para descrever a obra da salvação
realizada por Jesus Cristo: “Depois de tanto sofrimento, ele será feliz; por causa da
sua dedicação, ele ficará completamente satisfeito. O meu servo não tem pecado,
mas ele sofrerá o castigo que muitos merecem, e assim os pecados deles serão
perdoados” (Is 53.11).
O
trabalho de Jesus para conseguir a nossa salvação foi penoso. E ele entende
quem tem um trabalho penoso. Mas, há uma enorme diferença entre o trabalho de
Jesus e dos homens! O trabalho de Jesus é permanente, os nossos são rapidamente
desfeitos. O trabalho de Jesus beneficia a muitos, os trabalhos humanos na
maioria das vezes não beneficiam ninguém.
A
fé em Jesus enche nosso trabalho de contentamento. O versículo 21 chama o
dinheiro que ganhamos do nosso trabalho de “porção.” No salmo 119.57, o salmista diz que “o Senhor é a
minha porção.” O Senhor, não o trabalho ou o dinheiro, é o elemento
principal da “porção”
que recebemos na vida. Com o Senhor, “não há nada melhor ... do que comer, beber e fazer que a (nossa) alma goze o bem
do seu trabalho” (Ec 2.21).
Mesmo
que tenhamos apena o básico do dia-a-dia, mas reconhecendo isso como bênçãos de
Deus, é muito mais agradável que ter um banquete todos os dias. Esse é o
diferencial ao qual Lutero aponta na explicação da quarta petição do Pai-Nosso:
“O pão nosso de
cada dia nos dá hoje,” ou seja, que reconheçamos e recebamos com
gratidão tudo o que nos dá para nosso sustento.
Quando
olhamos para o trabalho com os olhos da fé, ele se torna uma bênção dada por
Deus. A fé em Jesus neutraliza a maldição do trabalho porque nos dá uma
perspectiva mais ampla da nossa vida, “pois, quando comemos ou bebemos, ou fazemos qualquer
outra coisa, pela fé, fazemos para a glória de Deus.”
E
essa felicidade, alegria e bênção do trabalho vem da certeza de que não
viveremos apenas o aqui e agora, mas a eternidade com Jesus. Trabalhamos
seguindo o conselho de Paulo: “Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da
terra; porque morreste, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em
Deus” (Cl 3. 2 – 3). E isso não leva a preocupação de fracassar em
meu trabalho.

Edson Ronaldo Tressmann
44 – 9856 8020