12 de abril de 2026
Segundo
Domingo de Páscoa
Salmo
148; At 5.29-42; 1Pedro 1.3-9; João 20.19-31
Texto:
João
20.19-31
Tema: O
Cristo ressuscitado e o ministério do perdão!
Muitas
pessoas vivem a vida espiritual como que em um apartamento com as portas
trancadas e as luzes apagadas. Muitos vivem no medo contemporâneo:
o medo de que nossos erros
do passado vazem;
a culpa por termos falhado
com quem amamos;
e a ansiedade paralisante
sobre o amanhã;
No
relato de João, os discípulos estão exatamente assim. Eles não estavam apenas
escondidos dos judeus; estavam escondidos de si mesmos, carregando o peso de
terem abandonado o Mestre na hora do sofrimento.
Imagine
uma pessoa que, após cometer um erro grave no trabalho ou no casamento, se
isola e não atende o telefone, esperando apenas o julgamento. É nesse cenário
de portas trancadas pela culpa que o Cristo Ressuscitado aparece e diz: “Paz seja convosco”.
Jesus
Cristo, ressuscitado, aparece e diz: “Paz seja
convosco”.
Essa
paz significa perdão dos pecados; significa que Jesus estava ali, vitorioso,
mas não disposto a repreender e sim, trazer consolo aos pecadores assustados.
“Paz seja convosco” não é uma mera saudação ou “oi” casual, é a própria mensagem do Evangelho.
Era
necessário que Jesus proclamasse seu evangelho, pois os discípulos estavam
cheios de medo e culpa por terem abandonado Cristo na hora do seu sofrimento.
Dessa firma a primeira palavra do Cristo ressuscitado é perdão e reconciliação.
Jesus
não veio para acusar, mas restaurar pecadores. A paz de Cristo é o resultado da
justificação pela fé. Assim, quando ao final do culto nos saudamos com a paz de
Cristo, estamos afirmando nossa justificação em Cristo.
Por
essa razão, as palavras de Jesus Cristo: “Assim
como o Pai me enviou, eu também vos envio” é a manifestação do
Cristo ressuscitado que institui e confirma o ministério da Igreja para que as
pessoas deixem de ser acusadas pelos seus pecados e recebam a justificação
perante Deus através de Cristo. Igreja não é detentora de moralidade. A Igreja
detém o evangelho.
Esse
envio fundamenta o ministério da Palavra. Deus instituiu o ministério para que
o Evangelho e os sacramentos sejam administrados, por meio dos quais o Espírito
Santo cria fé.
Assim,
o texto mostra que Cristo
envia ministros, para proclamar o Evangelho e aplicar o perdão de pecados.
Jesus sopra sobre os discípulos e diz:
“Recebei o Espírito Santo. Se de alguns
perdoardes os pecados, são-lhes perdoados”.
Esse versículo é base direta da
doutrina do Ofício das Chaves. Qual é o seu ofício? Ou seja, o que você faz?
O
ofício das chaves é àquilo que a igreja faz pela autoridade dada por Cristo à Igreja para perdoar pecados aos
arrependidos e reter
pecados aos impenitentes.
Lucas
em Atos 5 nos apresenta a Igreja exercendo essa autoridade delegada. Quando
Pedro e os apóstolos dizem perante o Sinédrio que “importa
obedecer a Deus antes que aos homens” (At 5.29), eles estão
protegendo o ministério que Cristo instituiu no cenáculo. O texto de Atos
reforça que a autoridade da Igreja para pregar o perdão, mencionado
explicitamente em Atos 5.31: “para dar a Israel
o arrependimento e a remissão de pecados” vêm diretamente do Cristo
exaltado, e nenhuma autoridade terrena pode silenciar esse “Ofício”.
O
sopro do Espírito Santo sobre a igreja não significa que agora ela é poderosa
em línguas estranhas e outros eventos. A igreja cheia do Espírito Santo exerce
seu ministério da absolvição. Afinal, quando o pastor anuncia o perdão em nome
de Cristo, é o próprio Cristo quem perdoa. A absolvição é uma promessa real de
Deus aplicada ao pecador.
Caríssimo
irmão e irmã no Senhor: a absolvição é verdadeira voz do Evangelho, não é uma
mera declaração humana.
“A quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados”.
A absolvição proclamada na igreja é a voz de Deus.
Naquele dia Tomé não estava presente.
Parece não significar nada uma faltar um culto, mas, para Tomé, o prejuízo foi
ter que suportar a dor da culpa e incredulidade por mais uma semana. Tomé não
acredita no testemunho dos outros discípulos e exige: ver, tocar, experimentar.
Temos aqui uma verdadeira revelação da
fraqueza da natureza humana. Quando vezes, nos desesperamos quando a fé é
fraca.
A grande notícia é que Jesus Cristo
não abandona os fracos na fé, ou quando a incredulidade bate a porta. Uma
semana depois, Jesus se aproxima novamente e convida Tomé: “Põe aqui o teu dedo”. Esse foi o abraço de
Jesus em Tomé. E diante desse abraço, Tomé faz uma das mais nobres confissões
apresentadas no Novo Testamento: “Senhor meu e
Deus meu”.
A
dúvida de Tomé revela a tensão entre ver e crer. Tomé representa a fraqueza
comum de todos os cristãos; afinal, até os apóstolos lutaram com dúvidas. E
quão confortador é para nós lermos que Jesus Cristo não rejeitou Tomé, pelo
contrário, concedeu sinais para fortalecer a sua fé. Jesus Cristo é paciente
com a fé fraca, inclusive a sua.
Esse
Tomé, alcançado pelo evangelho do perdão, confessa: “Senhor meu e Deus meu!” está fazendo uma das mais claras
confissões da divindade de Cristo no Novo Testamento.
Essas
palavras são as quais nós nos apoiamos para defender a cristologia contra erros
cristológicos. Assim afirmamos que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Volto a repetir o motivo pelo qual confessamos nossa fé com as palavras do
Credo. Ou seja, quando muitas igrejas não fazem uso do Credo, deve-se ao fato
delas não terem essa verdadeira cristologia.
Após
a dúvida e tendo Jesus aparecido a Tomé, é da sua boca que ouvimos o testemunho
da união pessoal das duas naturezas em Cristo. As palavras de Tomé destroem
qualquer tentativa de querer negar Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro
homem.
É claro que a fé não depende de
experiência visível. A fé depende da Palavra de Deus. O pecador é justificado
pela fé, uma fé que nasce e é alimentada quando se ouve o Evangelho. Somos,
conforme a Palavra de Jesus, muito mais felizes e abençoados que Tomé, pois,
mesmo sem ter visto Jesus fisicamente, cremos. Encontramos Cristo na Palavra e
nos Sacramentos.
Jesus disse para Tomé: “Bem-aventurados os que não viram e creram”. A
fé não se baseia em visões, milagres e experiências místicas. Dessa forma,
permaneça na Palavra mesmo quando os sentidos dizem o contrário.
O apóstolo Pedro escreve “A quem, não havendo visto, amais; no qual, não o vendo
agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso” (1Pe
1.8). O resultado prático da bem-aventurança é uma viva esperança que sustenta
mesmo em meio a provações. O alvo da fé é a salvação da alma, algo que
independe do toque físico que Tomé exigiu.
No final do texto, João explica por
que escreveu seu evangelho: “Estas coisas foram
escritas para que creiais que Jesus é o Cristo”. A Escritura Sagrada
nos foi dada para produzir fé e essa fé traz vida em Cristo. A função do
Evangelho não é apenas informar fatos históricos, mas criar fé salvadora. Em
outras palavras, a Escritura Sagrada é suficiente como testemunho de Cristo. O
nome que carregamos em nossa igreja: Igreja Evangélica reforça que a Palavra de
Deus é a única norma de doutrina, pregação e prática.
O
evangelho não é apenas história; o evangelho foi escrito para produzir fé e
trazer vida e salvação. A fé nasce da Palavra de Deus: sem a Palavra de Deus
nem o mundo existiria.
A pericope, João 20.19-31, ensina
cinco coisas essenciais: (Repita comigo):
1.
A instituição
do ministério da Palavra;
2.
O estabelecimento
do ofício das chaves e da absolvição;
3.
A confissão
da divindade de Cristo;
4.
A fé
baseada na Palavra, não na visão ou milagre;
5.
O propósito
evangelístico da Escritura, conduzir a salvação;
O
Jesus Cristo que veio para nos resgatar na cruz, continua presente na Igreja através do Evangelho, da absolvição
e dos sacramentos.
A
fé dos cristãos de todas as épocas cumpre a bem-aventurança de Jesus: crer sem ver, confiando na Palavra
apostólica registrada nas Escrituras. Assim, recebemos dessas palavras
do apostolo João o consolo do Cristo ressuscitado, o poder do perdão dos
pecados e a natureza da fé cristã.
Jesus continua nos abraçando com suas
palavras, em especial as palavras: “Bem-aventurados
os que não viram e creram”. Feliz é você que, mesmo sem experiência
pessoal com Cristo. Mesmo sem um milagre extraordinário, crê em Jesus.
A fé verdadeira é confiar não no que
os olhos veem, mas na promessa de Deus.
As Escrituras Sagradas continuam entre
nós para mostrar que Jesus é o Cristo; para produzir a fé e dar vida eterna.
Ao sairmos daqui hoje, levemos conosco
a certeza de que a nossa fé não é sustentada por aquilo que tocamos, mas por aquele
que nos toca através de sua Palavra. Tomé precisou ver para crer, mas Jesus
olhou através dos séculos, viu cada um de vocês e nos chamou de “bem-aventurados”.
Por quê? Porque nós cremos sem ver.
Nossa
segurança não reside em milagres visíveis ou em arrebatamentos emocionais, mas
na autoridade do Ofício das Chaves: quando o perdão é anunciado, o próprio Deus
está abrindo as portas do céu para você. A Igreja não é um clube de perfeição
moral, mas o lugar onde pecadores cansados encontram o abraço de Cristo na
Absolvição. Que a confissão de Tomé “Senhor meu
e Deus meu!” seja o fôlego da sua vida nesta semana.
Nossa segurança não reside no nosso
desempenho moral, mas na autoridade da cruz.
Ao olharmos para a trajetória de medo
dos discípulos e para a dúvida de Tomé, percebemos que a nossa própria história
está refletida ali. Jesus, em sua infinita paciência, não nos descarta por
nossa fé fraca; Ele nos abraça através do Evangelho e dos Sacramentos. A
mensagem central deste texto é clara: a Igreja é o lugar da reconciliação, onde a voz do pastor
ao anunciar a absolvição é a própria voz de Deus abrindo as portas do céu para
o arrependido.
Portanto,
não saia daqui hoje buscando sinais visíveis ou experiências místicas para
sustentar sua caminhada. Saia com a certeza de que você é o “bem-aventurado” de quem Jesus falou. Nossa
segurança não repousa no que sentimos, mas na promessa de que Cristo é
verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, o nosso “Senhor
e Deus”. Que a Palavra de Deus, que foi escrita para que creiamos e
tenhamos vida, seja a única norma da sua fé e o consolo para sua alma. Vá em
paz, perdoado e fortalecido pelo Cristo que venceu a morte e hoje caminha ao
seu lado. Amém.
Edson
Ronaldo Tressmann